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Ano V // Nº 277

Texto publicado na edição de 22 de setembro de 1999 da revista Exame

LÍDERES EM AÇÃO

Por JOMAR MORAIS (*)

O MOMENTO DE LIDERAR, de Michael Useem - Negócio Editora, 320 págs. - R$ 35,00

Poucos temas fascinam tanto o mundo corporativo, hoje em dia, quanto o do exercício da liderança. Mas, afinal, o que é liderança? É curioso que depois de milhões de páginas escritas e de centenas de receitas sobre "como chegar lá", espalhadas por gurus da nova administração, não se tenha alcançado ainda uma definição precisa do assunto. As interpretações são tantas quanto o número de autores e consultores. Se é assim, qual então a melhor maneira de identificar e entender o que faz de um líder alguém especial em seu grupo ou empresa e, a partir desse retrato, desenvolver em si mesmo ou entre membros de uma equipe a competência de energizar e conduzir pessoas? Parece não haver método mais eficiente do que observar os próprios líderes em ação, extraindo de seus passos e de suas respostas a desafios os princípios orientadores para situações decisivas.

Foi essa a trilha seguida pelo professor de Administração Michael Useem, diretor do Centro para Liderança e Transformação da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, ao escrever O Momento de Liderar, livro publicado no Brasil pela Negócio Editora. A obra reúne nove histórias de líderes atuando em momentos críticos, nos quais foram solicitados a utilizar, no limite, seus melhores atributos de liderança.

Os relatos focam as vidas de personagens que se destacaram em diferentes atividades, como o coronel Joshua Lawrence Chamberlain, voluntário que no comando do 20º Regimento das tropas da União, na Guerra Civil americana, conteve soldados amotinados sem usar a força e os levou a uma vitória que parecia impossível contra as tropas do general Lee. Ou Clifton Wharton, o executivo negro que reverteu a decadência do então maior fundo de pensão dos Estados Unidos, o TIAA-CREF. Também Eugene Kranz, o diretor de vôo da Nasa que comandou o dramático resgate da Apollo 13. E Nancy Barry, a mulher que trocou as mordomias de um alto cargo no Banco Mundial pelo desafio de transformar o Banco Mundial das Mulheres numa instituição global e o microfinanciamento numa alavanca de desenvolvimento.

É um livro de casos, sim, mas com algumas diferenças que o tornam leitura utilíssima para candidatos a líder, estudiosos de liderança e mesmo veteranos na arte de motivar pessoas. Um dos trunfos de Useem é que ele consegue narrar experiências fantásticas sem esquecer a dimensão humana dos protagonistas. Em cada história tem-se a impressão clara de que se está diante de homens que foram muito além de seus limites - mas homens, não extraterrestres. A propósito, Useem não se ocupa apenas com e vencedores. Três de seus relatos - entre eles um sobre a queda de John Gutfreund da presidência da Salomon Inc -, contêm talvez os ensinamentos mais preciosos da obra, garimpados na experiência negativa daqueles que, convocados à liderança em momentos cruciais para pessoas e corporações, acabaram tropeçando em posturas, estilos e procedimentos que lhes custaram a carreira.

Há um detalhe que reforça o caráter didático da obra. As narrativas são entremeadas por alguns "mandamentos" da liderança, instruções práticas que saltam da visão estratégica e da ação dos líderes focalizados. "Se você estiver solicitando de um grupo apoio crítico, transforme em plataforma seus objetivos finais a serem compartilhados", ensina Useem. "Convença os membros do grupo de que a causa é justa, o chamado, nobre, o envolvimento, coletivo, o desafio, crítico". No final, os princípios orientadores foram condensados em um pequeno manual - "Guia de um líder" -, que facilita a consulta. O detalhe destoante é a preocupação excessiva do autor em relatar minúcias - algumas não relevantes para o entendimento das histórias -, tornando assim a leitura de alguns trechos cansativa. Nada, porém, que possa comprometer o resultado final.

Peter Drucker, fugindo à enrolação às vezes embalada em linguagem acadêmica, afirmou certa vez que líderes são aquelas pessoas cujos seguidores "fazem a coisa certa". Michael Useem, que anteriormente escreveu Investor Capitalism e Executive Defense, ainda não traduzidos para o português, prefere também ver a liderança de uma forma objetiva. "Liderança é o ato de criar uma diferença", define. "E ela atinge o seu ponto ótimo quando a visão for estratégica, o tom persuasivo e os resultados, tangíveis". As histórias de O Momento de Liderar apontam nessa direção.

(*) Jomar Morais é jornalista


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