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Trecho de palestra aos formandos do curso de Contabilidade da UFRN em março de 2007

 

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Números, ética e felicidade

Adotamos uma ética que corre na contra-mão da vida e fundamenta um
sistema que, a pretexto de realçar o indivíduo, o sufoca e o esmaga

por  Jomar Morais

A ciência e a tecnologia contemporâneas nos proporcionaram meios antes inimagináveis para a observação do universo. Microscópios eletrônicos e aparelhos de raios X e ressonância revelam-nos o mais íntimo desenho da matéria. Telescópios espaciais nos trazem o brilho de galáxias situadas a bilhões de anos-luz da Terra. Ainda assim, cinquenta milhões de anos depois de nos perguntarmos pela primeira vez quem somos nós e qual o sentido da vida, continuamos relutantes ante o espelho da consciência, cada vez mais temerosos de enxergarmos e avaliarmos o nosso mundo íntimo e as motivações profundas de nossos atos. Temos medo da autocrítica e, por isso , contentamo-nos em apontar culpados, enquanto nos protegemos sob a capa de uma auto-imagem enganosa. Isso acontece com homens e corporações, com indivíduos e todo tipo de sociedade.

Eu, por exemplo, sou jornalista. Jornalistas são famosos por sua vaidade profissional e por uma certa arrogância na pretensão de tudo saber. Antigamente diziam que só perdemos para os médicos, que pensam que são Deus. Hoje, dizem, o placar do jogo foi invertido, pois os médicos continuam acreditando que são Deus, mas nós jornalistas já temos certeza! Não conheço os "pecados" dos contabilistas, mas confesso que me diverti ao ler na Internet uma piada de contadores narrada por um... contador. E o humor é, talvez, a maneira mais suave de driblar os nossos medos para seguirmos rumo à autocrítica. 

Uma piada... e a lei de causa e efeito

Dizia o texto que três homens se submeteram a uma entrevista de seleção para um emprego. A todos foi feita a mesma pergunta: quanto são 2+2? O primeiro candidato, um matemático, respondeu com total convicção: 4! O segundo, um contador recém-formado, disse para o entrevistador: bom, depende. Pode ser 10% mais, 10% menos... Então, chegou a vez do terceiro candidato, um contador experiente. Ao  ouvir a pergunta, o homem levantou da cadeira, foi até a porta, trancou-a, fechou a cortina e, então, voltando-se para o entrevistador, sussurrou: o que é mesmo que o senhor quer ajustar? 

Talvez a piada seja mordaz com os contadores. Que ninguém se sinta, porém, agredido com a irreverência do humorista. No fundo, a brincadeira diz respeito não a uma categoria profissional, mas à própria sociedade de nossos dias, acostumada as aparentes espertezas que expressamos em meio à nossa perplexidade existencial. Submetidos às pulsões egóicas, que estabelecem o primado da sensação e do capricho, subvertemos o sentido da vida tentando manipular a precisão da matemática do destino. Tornamo-nos ágeis na soma de posses, muitas vezes subtraídas de nosso próximo. Exibimos competência na multiplicação de nossos desejos e de nosso patrimônio material. No entanto, continuamos errando na divisão daquilo que a Providência Divina – como provam a lei da vida e da morte – confia temporariamente a cada um de nós, como agente co-criador do universo.

Manipular os números dessa cena cotidiana tem a consistência e a duração de uma mágica de circo. Passados alguns momentos, a realidade dos fatos se impõe e faz-se preciso encerrar o show e voltar a conviver com o que se encontra por trás das aparências. Ao longo da história e, principalmente, nas últimas décadas brincamos com a matemática da lei natural, alimentando a ilusão de que podemos viver à margem do conjunto - e eis que a realidade mais uma vez se impõe, revelando os furos de nossos relatórios maquiados.

Acumulamos fortunas que, quase sempre, servem a poucos - e, então, temos que vigiá-las, metendo-nos em casas-fortalezas que nos tiram o espaço e a liberdade da vida simples. Subtraímos direitos básicos dos outros com a insanidade de nossas espertezas mesquinhas – e, então, temos que contabilizar inimigos a toda hora e em toda parte, renunciando ao nosso próprio direito de amar e ser amado. Multiplicamos nosso descaso para com as regras mais básicas da natureza e da nossa relação com a mãe-Terra – e, então, temos que amargar o  pesadelo dos dias futuros sinalizados pela escassez e pela poluição dos recursos naturais.

Sim, um ajuste precisa ser feito. E um ajuste já está sendo feito sob a matemática fina da lei de causa e efeito, de ação e reação. Podemos ou não suavizá-lo e acelerá-lo, submetendo-nos, por livre arbítrio, ao trabalho com  os números conscienciais, aqueles que nos revelam a nossa real condição, sem maquiagens, sinalizando saídas pela via da ética.

Por que as instituições fracassam

Nos últimos tempos parece ter-se enraizado em nós o hábito de responsabilizar instituições pelas mazelas que atormentam o castelo de areia de nossa civilização materialista. Então, como lobos urrando para a Lua cheia, clamamos por reformas institucionais, mudanças nas leis, mais recursos financeiros, maior poder de estado, demonstrações de força explícita... Mas o que são as instituições sem os homens que as compõem? Simples rótulos ou paredes de edifícios inertes. Não há uma polícia arbitrária e corrompida, há policiais arbitrários e corruptos. Não existe uma política corrupta, existem políticos corrompidos e corruptores. Não existe empresa fraudadora, existem empresários desonestos e seus assessores cúmplices. Enfim, não existe  instituição como um ente fora da humanidade a que poderíamos recorrer sem repensarmos a nós próprios. As instituições são os homens, os indivíduos, que atuam conforme suas crenças e valores. E esses indivíduos somos nós próprios ou pessoas de nosso ninho, todos gerados na cultura que nos foi legada por nossos pais – que retransmitimos aos nossos filhos -, hoje potencializada pelos recursos midiáticos da comunicação de massa e pela escola formal. 

A questão social é, portanto, uma questão de valores do individuo, algo que está diretamente relacionado ao estágio de autoconhecimento e a atribuição de um sentido à vida. Sim, como qualquer um de nós, os homens que dirigem as instituições em crise de uma sociedade em crise são pessoas que ouviram a recomendação paterna de “meu filho, primeiro os seus”, “seja esperto”, “vença de qualquer jeito”, “cuidado com aquele homem mal vestido”, “afaste-se daquele menino diferente de nós”...  São eles as crianças que aprenderam a temer a morte antes de amar a vida e a se atirarem à mera sofreguidão da posse e dos sentidos antes que tudo  se acabe sob sete palmos de terra. São as crianças que se desviaram de um significado existencial além das funções vegetativas do corpo e do ego. O que podemos esperar de meninos assim, alimentados com a seiva do separativismo e da exclusão, senão aquilo que, crescidos, eles agora fazem no comando do aparelho social? E o que podemos esperar daqueles que marginalizamos nos guetos da miséria e da indiferença, senão indiferença e revolta?

Não haverá mudança social sem mudança do homem, mudança de sua visão do mundo e da vida. Não haverá  paz no mundo sem paz íntima. Não haverá fraternidade efetiva sem pessoas capazes de gerar amor, a partir da percepção de que todos integramos uma mesma teia. 

Egoísmo, felicidade e a questão social

Na raiz de todos os nossos vícios e mazelas está o egoísmo. Não é preciso ser douto para concluirmos que aí está o diagnóstico mais conciso, direto e certeiro de nossa experiência de brutalidade e de dor em todos os níveis e contextos. E o salário do egoísmo é sempre a solidão, ainda que cercada de seguranças, vassalos ou interesseiros - o enorme vazio existencial da ausência de sentido que, no fundo, é a própria manifestação do espírito em nós. A libertação desse estágio de auto-hipnose exige a coragem de nos observamos, a coragem enfim do autoconhecimento e da autocrítica. Este é o primeiro passo para a desconstrução da rígida estrutura egóica incompatível com os valores de uma nova ética.

Só a ilusão sensorial justifica a mudança de enfoque que nos levou, como corpo social, a trocar uma ética focada no bem comum, através da busca integrada da felicidade, da verdade e da virtude – como previa a eudaimonia de Aristóteles – pelo enfoque hedonista, baseado unicamente na busca do prazer físico e mental e no evitar a dor a qualquer preço. Uma ética que corre na contra-mão da vida e da harmonia e fundamenta um sistema e um aparato que, a pretexto de realçar o indivíduo, o sufoca e o esmaga. Afinal, está na natureza a nossa inevitável dependência do outro para fruirmos a vida. E todo movimento isolacionista,  de não-interação e não-colaboração, impede-nos de alcançar a plenitude e a felicidade que buscamos por orientação natural.

Fui informado de que o diploma que vocês receberão em poucos dias os habilitarão a também lecionar. O professor é uma das referências mais fortes na formação de homens e mulheres, na formação de cidadãos. E a ética, a argamassa do caráter e da paz, que não se restringe a uma disciplina ou a um currículo, é ferramenta fundamental no esforço dos mestres e sábios. Ela permeia e se manifesta aos outros em nossa própria vida, em nosso modo de lidar conosco mesmo, com os semelhantes e com as situações. Mais do que qualquer outro profissional, um professor certamente é convidado pela vida a refletir sobre a essência e o sentido, questões aparentemente etéreas, cuja ausência ou presença são assinalados por efeitos implacáveis sobre o espírito, a mente, o corpo e o mundo.

Fazendo coro com todos os sábios e santos e todos os homens de bem, expresso aqui os meus votos para que a trajetória profissional de vocês seja marcada pelo sentido transcendente que atribuírem às suas próprias vidas e pela manifestação, em suas ações profissionais, do mandamento ético maior, expressado por Jesus: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.

Quer falar com o autor?
Email:
jomar.morais@supercabo.com.br

[Leia também: A ética incontestável, artigo do professor José Hermógenes]

 

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