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Números,
ética e felicidade
Adotamos
uma ética que corre na
contra-mão da vida e fundamenta um
sistema que, a pretexto de realçar o indivíduo, o sufoca
e o esmaga
por
Jomar Morais |
A
ciência e a tecnologia contemporâneas nos proporcionaram meios
antes inimagináveis para a observação do universo. Microscópios
eletrônicos e aparelhos de raios X e ressonância revelam-nos o
mais íntimo desenho da matéria. Telescópios espaciais nos
trazem o brilho de galáxias situadas a bilhões de anos-luz da
Terra. Ainda assim, cinquenta milhões de anos depois de nos
perguntarmos pela primeira vez quem somos nós e qual o sentido da
vida, continuamos relutantes ante o espelho da consciência, cada
vez mais temerosos de enxergarmos e avaliarmos o nosso mundo íntimo
e as motivações profundas de nossos atos. Temos medo da autocrítica
e, por isso , contentamo-nos em apontar culpados, enquanto nos
protegemos sob a capa de uma auto-imagem enganosa. Isso acontece
com homens e corporações, com indivíduos e todo tipo de
sociedade.
Eu,
por exemplo, sou jornalista. Jornalistas são famosos por sua
vaidade profissional e por uma certa arrogância na pretensão de
tudo saber. Antigamente diziam que só perdemos para os médicos,
que pensam que são Deus. Hoje, dizem, o placar do jogo foi invertido,
pois os médicos continuam acreditando que são Deus, mas nós
jornalistas já temos certeza! Não conheço os "pecados"
dos contabilistas, mas confesso que me diverti ao ler na Internet uma
piada de contadores narrada por um... contador. E o humor é,
talvez, a maneira mais suave de driblar os nossos medos para seguirmos
rumo à autocrítica.
Uma piada... e
a lei de causa e efeito
Dizia
o texto que três homens se submeteram a uma entrevista de
seleção para um emprego. A todos foi feita a mesma pergunta:
quanto são 2+2? O primeiro candidato, um matemático, respondeu
com total convicção: 4! O segundo, um contador recém-formado,
disse para o entrevistador: bom, depende. Pode ser 10% mais, 10%
menos... Então, chegou a vez do terceiro candidato, um contador
experiente. Ao ouvir
a pergunta, o homem levantou da cadeira, foi até a porta,
trancou-a, fechou a cortina e, então, voltando-se para o
entrevistador, sussurrou: o que é mesmo que o senhor quer
ajustar?
Talvez
a piada seja mordaz com os contadores. Que ninguém se sinta, porém,
agredido com a irreverência do humorista. No fundo, a brincadeira
diz respeito não a uma categoria profissional, mas à própria sociedade de
nossos dias, acostumada as aparentes espertezas que expressamos em
meio à nossa perplexidade existencial. Submetidos às pulsões egóicas,
que estabelecem o primado da sensação e do capricho, subvertemos
o sentido da vida tentando manipular a precisão da matemática do
destino. Tornamo-nos ágeis na soma de posses, muitas vezes
subtraídas de nosso próximo. Exibimos competência na
multiplicação de nossos desejos e de nosso patrimônio material.
No entanto, continuamos errando na divisão daquilo que a Providência
Divina – como provam a lei da vida e da morte – confia
temporariamente a cada um de nós, como agente co-criador do
universo.
Manipular
os números dessa cena cotidiana tem a consistência e a duração
de uma mágica de circo. Passados alguns momentos, a realidade dos
fatos se impõe e faz-se preciso encerrar o show e voltar a
conviver com o que se encontra por trás das aparências. Ao longo
da história e, principalmente, nas últimas décadas brincamos
com a matemática da lei natural, alimentando a ilusão de que
podemos viver à margem do conjunto - e eis que a realidade mais
uma vez se impõe, revelando os furos de nossos relatórios
maquiados.
Acumulamos
fortunas que, quase sempre, servem a poucos - e, então, temos que
vigiá-las, metendo-nos em casas-fortalezas que nos tiram o espaço
e a liberdade da vida simples. Subtraímos direitos básicos dos
outros com a insanidade de nossas espertezas mesquinhas – e, então,
temos que contabilizar inimigos a toda hora e em toda parte,
renunciando ao nosso próprio direito de amar e ser amado.
Multiplicamos nosso descaso para com as regras mais básicas da
natureza e da nossa relação com a mãe-Terra – e, então,
temos que amargar o pesadelo
dos dias futuros sinalizados pela escassez e pela poluição dos
recursos naturais.
Sim,
um ajuste precisa ser feito. E um ajuste já está sendo feito sob
a matemática fina da lei de causa e efeito, de ação e reação.
Podemos ou não suavizá-lo e acelerá-lo, submetendo-nos, por
livre arbítrio, ao trabalho com
os números conscienciais, aqueles que nos revelam a nossa
real condição, sem maquiagens, sinalizando saídas pela via da
ética.
Por que as instituições
fracassam
Nos
últimos tempos parece ter-se enraizado em nós o hábito de
responsabilizar instituições pelas mazelas que atormentam o
castelo de areia de nossa civilização materialista. Então, como
lobos urrando para a Lua cheia, clamamos por reformas
institucionais, mudanças nas leis, mais recursos financeiros,
maior poder de estado, demonstrações de força explícita... Mas
o que são as instituições sem os homens que as compõem?
Simples rótulos ou paredes de edifícios inertes. Não há uma
polícia arbitrária e corrompida, há policiais arbitrários e
corruptos. Não existe uma política corrupta, existem políticos
corrompidos e corruptores. Não existe empresa fraudadora, existem
empresários desonestos e seus assessores cúmplices. Enfim, não
existe instituição
como um ente fora da humanidade a que poderíamos recorrer sem
repensarmos a nós próprios. As instituições são os homens, os
indivíduos, que atuam conforme suas crenças e valores. E esses
indivíduos somos nós próprios ou pessoas de nosso ninho,
todos gerados na cultura que nos foi legada por nossos pais –
que retransmitimos aos nossos filhos -, hoje potencializada pelos
recursos midiáticos da comunicação de massa e pela escola
formal.
A
questão social é, portanto, uma questão de valores do
individuo, algo que está diretamente relacionado ao estágio de
autoconhecimento e a atribuição de um sentido à vida. Sim,
como qualquer um de nós, os homens que dirigem as instituições
em crise de uma sociedade em crise são pessoas que ouviram a
recomendação paterna de “meu filho, primeiro os seus”,
“seja esperto”, “vença de qualquer jeito”, “cuidado com
aquele homem mal vestido”, “afaste-se daquele menino diferente
de nós”... São
eles as crianças que aprenderam a temer a morte antes de amar a
vida e a se atirarem à mera sofreguidão da posse e dos sentidos
antes que tudo se acabe sob sete palmos de terra. São as crianças que se
desviaram de um significado existencial além das funções
vegetativas do corpo e do ego. O que podemos esperar de meninos
assim, alimentados com a seiva do separativismo e da exclusão,
senão aquilo que, crescidos, eles agora fazem no comando do
aparelho social? E o que podemos esperar daqueles que marginalizamos
nos guetos da miséria e da indiferença, senão indiferença e
revolta?
Não
haverá mudança social sem mudança do homem, mudança de sua visão
do mundo e da vida. Não haverá
paz no mundo sem paz íntima. Não haverá fraternidade
efetiva sem pessoas capazes de gerar amor, a partir da percepção
de que todos integramos uma mesma teia.
Egoísmo,
felicidade e a questão social
Na
raiz de todos os nossos vícios e mazelas está o egoísmo. Não
é preciso ser douto para concluirmos que aí está o diagnóstico
mais conciso, direto e certeiro de nossa experiência de
brutalidade e de dor em todos os níveis e contextos. E o salário
do egoísmo é sempre a solidão, ainda que cercada de seguranças,
vassalos ou interesseiros - o enorme vazio existencial da ausência
de sentido que, no fundo, é a própria manifestação do espírito
em nós. A libertação desse estágio de auto-hipnose exige a
coragem de nos observamos, a coragem enfim do autoconhecimento e
da autocrítica. Este é o primeiro passo para a desconstrução
da rígida estrutura egóica incompatível com os valores de uma
nova ética.
Só
a ilusão sensorial justifica a mudança de enfoque que nos levou,
como corpo social, a trocar uma ética focada no bem comum, através
da busca integrada da felicidade, da verdade e da virtude – como
previa a eudaimonia de Aristóteles – pelo enfoque hedonista,
baseado unicamente na busca do prazer físico e mental e no evitar
a dor a qualquer preço. Uma ética
que corre na contra-mão da vida e da harmonia e fundamenta um
sistema e um aparato que, a pretexto de realçar o indivíduo, o
sufoca e o esmaga. Afinal, está na natureza a nossa inevitável
dependência do outro para fruirmos a vida. E todo movimento
isolacionista, de não-interação
e não-colaboração, impede-nos de alcançar a plenitude e a
felicidade que buscamos por orientação natural.
Fui
informado de que o diploma que vocês receberão em poucos dias os
habilitarão a também lecionar. O professor é uma das referências
mais fortes na formação de homens e mulheres, na formação de
cidadãos. E a ética, a argamassa do caráter e da paz, que não
se restringe a uma disciplina ou a um currículo, é ferramenta
fundamental no esforço dos mestres e sábios. Ela permeia e se
manifesta aos outros em nossa própria vida, em nosso modo de
lidar conosco mesmo, com os semelhantes e com as situações. Mais
do que qualquer outro profissional, um professor certamente é
convidado pela vida a refletir sobre a essência e o sentido,
questões aparentemente etéreas, cuja ausência ou presença são
assinalados por efeitos implacáveis sobre o espírito, a mente, o
corpo e o mundo.
Fazendo
coro com todos os sábios e santos e todos os homens de
bem, expresso aqui os meus votos para que a trajetória
profissional de vocês seja marcada pelo sentido transcendente que
atribuírem às suas próprias vidas e pela manifestação, em
suas ações profissionais, do mandamento ético maior, expressado
por Jesus: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como
a si mesmo”.
Quer
falar com o autor?
Email: jomar.morais@supercabo.com.br
[Leia
também: A ética incontestável, artigo
do professor José Hermógenes]
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