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Cheguei
a Toronto, a maior cidade do Canadá, numa
madrugada de outono e me surpreendi com a paisagem
enquanto o avião realizava os procedimentos para o
pouso. Como uma cidade, famosa por sua arquitetura
futurista em edifícios envidraçados, podia ser tão
escura quando vista do alto num fim de noite? A comparação
com Nova York e Paris foi imediata e, assim, um certo
gostinho de frustração apareceu logo no início de meu
périplo mochileiro pelo Canadá e os Estados Unidos, em
outubro passado. (A matéria sobre os EUA foi publicada
na edição passada e ainda pode ser acessada neste PJ)
Horas depois, ao tomar o metrô para o Entertainment
District, o bairro onde eu ficaria hospedado, acabei
entendendo o paradoxo estético.
“Lights
out Toronto!”, dizia um cartaz afixado no trem,
conclamando a população a participar da campanha para
salvar da morte milhares de aves migratórias que cruzam
a região naquele período do ano. Patrocinada por uma
ONG de proteção às espécies silvestres e apoiada
pela prefeitura de Toronto, a campanha sugere que se
apaguem, à noite,
todas as luzes desnecessárias em edifícios e
residências, já que a luminosidade artificial
desorienta os pássaros e os levam a trombarem com as
estruturas dos prédios. Pelo visto, Toronto inteira
decidiu aderir.
O
Canadá é isso aí. Uma amostra da civilização do
futuro - um lugar onde pessoas e instituições
conseguiram estabelecer uma saudável convivência entre
tecnologia, economia aberta e valores humanos. Em
quantos países do mundo um apelo em favor da vida
animal alcançaria tão maciça adesão? Certamente
pouquíssimos ou, talvez, nenhum outro. Submetido a
temperaturas gélidas durante quase metade do ano – no
inverno há regiões do país em que os termômetros
assinalam até 40 graus negativos -, o Canadá
sedimentou uma sociedade
de conforto e bem-estar em que o respeito aos
direitos dos cidadãos e a cortesia das pessoas parece
permear quase todos os setores e quase tudo o que se faz
por lá.
Cenário
cosmopolita, construído com a participação de milhões
de imigrantes de todos os continentes, o país parece
distante das lutas separatistas que, na década de 70,
acirraram os ânimos de canadenses colonizados por britânicos
e por franceses. Reconciliado com sua origem
multicultural, é um raro mosaico de raças e
culturas.
O
cartão postal dessa diversidade étnica é Toronto,
cidade de mais
de 3 milhões de habitantes
que desde o batismo parecia predestinada a ser um
pólo cosmopolita. Toronto na língua dos ancestrais indígenas
quer dizer “lugar onde todos se encontram”.
É o coração do Canadá de formação britânica
e a melhor porta de entrada no país, repleta de espigões
de design ousado aos pés da CN Tower, a torre mais alta
do mundo, com 553 metros de altura equivalentes a
120 andares, emblemática da Babel que se exibe nas ruas
em diálogos e letreiros em inglês, francês, grego,
italiano, espanhol, chinês, coreano, hindi, português...
ah, deixa pra lá, não dá pra nomear tantos
idiomas.
É
uma cidade jovial mesmo nos dias cinzas do outono, com suas
pousadas para backpackers (mochileiros) sempre coloridas
e as galerias do Path, o shopping subterrâneo de 27 quilômetros
de extensão e três andares submersos, com o seu desfile
de novidades e muita gente descolada. E, claro, é também
um lugar de encantos naturais revelados em dezenas de parques,
povoados de esquilos, e, sobretudo, na imponência do lago Ontário e suas inúmeras
ilhas.
Toronto
é um centro financeiro e um centro gastronômico
que reflete em sua culinária diversificada as tradições de 60 bairros comunitários de imigrantes.
É também um núcleo universitário e de ensino de línguas,
freqüentado por
milhares de estudantes de todo o mundo, o que explica as
suas muitas pousadas e o brilho de seu Entertainment District,
lugar de bons cinemas, teatros, bares, restaurantes e
livrarias nas proximidades da CN Tower.
Se
não bastasse, a cidade está a apenas umas poucas de horas
de ônibus de outras duas jóias urbanas do leste canadense,
incrustadas na área de colonização francesa: Montreal
e Quebec, a cidade mais antiga das Américas. A apenas 70 quilômetros de Toronto, estão as
famosas cataratas do Niágara que, mesmo acanhadas
diante da exuberância das do Iguaçu, no Brasil, são um
espetáculo imperdível para quem visita o Canadá antes
que elas congelem no inverno.
Montreal
fica numa ilha do rio Saint Lawrence, rodeada
por pequenos municípios. No total, são 3,5 milhões de
habitantes, entre os quais são os jovens que se destacam
colorindo universidades e ruas da parte nova da cidade,
de vida cultural intensa. Montreal é a cidade dos
festivais. A língua local é o francês, mas o inglês
também é bem-vindo e de conhecimento geral. Na área do
Plateau de Montréal, pode-se ouvir até o português. É
lá que se concentra a colônia portuguesa, imensa no Canadá,
com suas tradicionais padarias, supermercados e restaurantes,
coladinhos aos empreendimentos de italianos, gregos, chineses
e indianos. Os restaurantes são uma marca da cidade: o
hábito francês de comer fora lota mais de 5 mil estabelecimentos
na hora do almoço.
O
campus da Universidade de Quebec em Montreal, junto à
principal rodoviária (Station Centrale de l´Autobus)
é um divisor de águas na diversão noturna. De um lado
está o Quartier Latin, uma concentração de
restaurantes, bares e cinemas. Do outro a rua Ste.
Catherine também com
muitos cinemas e teatros, mas recheada de casas
de strips, bares e hotéis para o público GLS, muitos
roqueiros e , aqui e ali, um cheirinho de maconha.
A
partir desse ponto pode-se alcançar a parte antiga
da cidade, a Vieux Montréal, numa caminhada de 20
minutos, cruzando o Chinatown. Mas há várias estações
de metrô nesse percurso que levam
a áreas de importância turística e ao McGill,
a principal entrada do shopping subterrâneo, que em
Montreal tem 29 quilômetros de extensão.
Seria
imperdoável chegar até Montreal e não ir a Quebec, a
cidadezinha pacata que transpira história em sua área
mais antiga. Ainda protegida por muralhas, canhões e a
Citadelle, uma enorme fortaleza em forma de estrela
erguida pelos antigos colonizadores franceses (e concluída
pelo britânicos) para se defenderem dos pelotões
americanos, Quebec é o melhor retrato da América
francesa. Não é um lugar para quem busca agito
noturno, mas a tranqüilidade de um cenário histórico,
repleto de arte e conforto. Pode ser um programa de um
dia, concentrado na Vieux Québec, uma área
que se alcança a pé, a partir da rodoviária,
desde que visitante esteja disposto a caminhar 15
minutos, serpenteando uma pequena ladeira.
As
ruas estreitas de paralelepípedos e casinhas
do século XVIII com muitas janelas da Vieux
Québec transformam-se, principalmente nos finais de semana, em
pontos de artesãos que exibem sua arte em
pinturas, couro e metal. A caminhada pode
estender-se ao largo do Château Frontenac, um castelo
centenário que abriga um hotel requintado de 618
quartos, juntinho à muralha fortificada e com um belo cenário
de pôr-do-sol no rio Saint Lawrence,
continuando até a Citadelle, 300 metros à
direita. A fortaleza é o melhor ponto de observação
da cidade e do rio.
Em
cidades como Quebec, com baixo índice de imigrantes, um
brasileiro pode ter a sensação de que à frieza do
clima se soma a do excesso de formalidade dos
nativos, uma certa falta de calor humano à francesa.
Num dia chuvoso, como o que enfrentei ao chegar a
Quebec, esse traço parece mais acentuado. Mas isso não
compromete a viagem nem as boas lembranças que ficam do
Canadá, um país que tem muito a nos ensinar sobre civilidade, qualidade de vida e
convivência.
ANOTE
AÍ:
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Quem entra no Canadá pelo Pearson International Airport, a 24
quilômetros do centro de Toronto, só paga táxi se
quiser. No pátio do aeroporto há um ponto da linha
expressa 192 (Airport Rocket), com ônibus partindo
a cada 20 minutos para a estação Kipling do metrô. As três linhas do metropolitano interligam os principais bairros e
pontos turísticos da cidade. O tíquete do ônibus,
ao preço de 2,25 dólares canadenses, dá acesso ao
metrô. Em outubro passado um dólar canadense
equivalia a 1,96 reais. O tíquete unitário do metrô
custa 2,50 dólares.
*
Se você quer ir às
cataratas do Niágara, melhor contatar uma pousada estudantil. A excursão de um dia –
incluindo paradas em vinhedos e pequenas cidades –
pode sair em torno de 40 dólares, pouco mais da
metade preço cobrado pelas agências
turísticas tradicionais. A Canadiana Backpackers,
na 42 Widmer St, é uma boa opção de busca.
*
O Canadá tem alíquotas de impostos
mais altos que os Estados Unidos. Assim, apesar do câmbio
mais favorável aos brasileiros, nem sempre é vantagem fazer
compras – principalmente de eletrônicos – em
cidades canadenses, se seu roteiro inclui Nova York
ou outra grande cidade
dos Estados Unidos. Estrangeiros podem
pleitear no aeroporto a devolução das taxas
aplicadas a compras feitas no Canadá, mas o
processo burocrático não ajuda.
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TORONTO |
beleza
multiétnica
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Relax em Niágara
Encantei-me com o arco-íris cortando a tromba de chuviscos de uns 80 metros que emerge da cachoeira principal do rio Niágara, a 70 quilômetros de Toronto.
Os turistas aventuram-se no barco que se aproxima da queda d´água.
À noite, o espetáculo continua quando se acendem holofotes multicores em pontos estratégicos do rio. Tive a sorte de ficar lá na primeira noite da Lua cheia, um adicional de beleza que surge das águas do Niágara. |

JM e a
tromba do Niágara

Aventura de
turista
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Fátima e a CN
Tower
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Maravilha do mundo
A CN Tower,
torre mais alta do planeta, é uma das sete maravilhas do mundo.
O acesso custa 21 dólares. Até chegar ao elevador
que
conduz ao mirante, o visitante passa por um túnel
com fotos e telões que antecipam as
vistas que se tem do alto - a cidade de Toronto, o imenso lago Ontário e suas ilhas.
Clique e veja o vídeo
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Museu Real
Um passeio pelo Queen´s Park é um dos bons programas ao ar livre em Toronto. É lá que
está o Royal Ontario Museum, com suas peças de arte e arqueologia. Tem metrô na
porta e desconto de 50% às sextas-feiras. |

Fachada do
Royal Museum
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Canadiana
Backpackers

Sandra, Nilesh
e Fátima
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Eterna juventude
Toronto tem uma enorme população
estudantil originária de vários países. Vale a pena ficar hospedado em um dos muitos hostels (pousadas) dedicados a esse clientela.
São baratos, têm chá gratuito, internet tradicional e wi-fi e programação de lazer.
Eu a e A Fátima ficamos na Canadiana Backpackers, organizada,
limpa e alegre, com diária no AP duplo a 60 dólares. Uma das gerentes é a portuguesa Sandra, que prefere não se comunicar em português, sem deixar de ser prestativa. Acabei sendo ajudado bastante pelo simpático atendente Nilesh, um indiano
muito gentil. |
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Encantos à antiga
Passear pela Vieux Montréal, a área antiga da cidade, com suas praças,
palácios e casarões do século XVII, é programa obrigatório. É lá que estão o majestoso edifício do Hôtel de Ville (Prefeitura), a basílica de Notre Dame, a praça Jacques Cartier (com estátua do almirante Nelson à maneira da Trafalgar Square de Londres) e o velho porto, cortado por um calcadão de 12 quilômetros, ótimo para
caminhadas. Vale apreciar o por-do-sol no rio
Saint Lawrence no mirante do porto. |

Prefeitura de
Montreal

Fátima, JM e
o pôr-do-sol
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Lee: profeta
da gentileza

Portal de China Town
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Atrações de rua
Mesmo nos dias cinzentos e frios do outono, Montreal manifesta alegria juvenil, principalmente nas proximidades do Quartier Latin. Tipos excêntricos, como o "profeta" Lee, são encontrados nos quarteirões da Universidade de Quebec em Montreal
(Uqam) pregando cultura alternativa. Lee faz discursos em favor da gentileza entre os homens. Cantou uma canção para mim e, por causa disso, acabei entrevistado pelo canal de TV Global, que na ocasião fazia matéria sobre o "profeta".
Outra área interessante é o Chinatown, o
bairro chinês e coreano. |
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QUEBEC |
marcas
da história |
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Arte setecentista
A rodoviária de Quebec é uma das mais modernas do Canadá, mas está ligada a um palácio do século XVII, onde
funciona pequena galaria comercial. Um espetáculo de arquitetura
do passado e do presente. |

Arte na
rodoviária
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JM e a muralha
de Quebec

Murais ornamentam
ruas
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Muralhas históricas
Toda a Vieux Québec, a
parte histórica da cidade, é cercada pela enorme muralha
de pedras graníticas que no passado protegia a área dos ataques dos americanos. O trecho principal, junto ao rio Saint Lawrence, ainda conserva uma formação de canhões do século XVIII, a cerca de 300 metros da Citadelle, a grande fortaleza. Outra atração de Quebec são os murais pintados nas paredes de empresas em vielas da área antiga. |
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O grande forte
O túnel de
entrada da Citadelle, a grande fortaleza em forma de estrela iniciada pelos franceses e concluída pelos britânicos, dá acesso a um quartel do exército canadense e
a um museu militar. No verão (julho a
setembro), os visitantes podem assistir
a ritualística cerimônia da troca de guarda,
com a presença do bode mascote da tropa. |

Entrada da
Citadelle
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Ao
comer em um restaurante não esqueça que a gorjeta
mínima é 15% sobre o valor da conta, a menos que
você queira conhecer o outro lado da cortesia
canadense. Se não quer pagar gorjeta, procure uma
rede de fast food como a Tim Hortom – com uma boa
variedade sanduíches, sopas e pratos rápidos –
ou um self-service de algum coreano nas praças de
alimentação do Eaton Centre, em Toronto, ou do
McGill, em Montreal.
*
Outubro e novembro, os
meses em que estive no Canadá, são bons períodos
para visitar o país. A temperatura já é baixa,
chega a 3 graus à noite nas cidades do leste (a área
que visitei), mas nada comparável aos 25 graus
negativos de janeiro. Pude apreciar a linda paisagem
de início de outono: um painel multicor de folhas
verdes, amarelas, vermelhas e marrons. Vale a pena
recolher no chão as folhas secas de maple, que são
um símbolo canadense, exibido na bandeira nacional.
Elas estão em toda parte, dando um visual diferente
a parques e jardins com o seu recorte especial e
coloração vermelha.
*
Há ônibus
partindo diariamente de Toronto, Montreal e
Quebec para Boston e Nova York. Vale a pena esticar o roteiro até os Estados Unidos. O precinho é
bom e os procedimentos no posto terrestre da Imigração
americana em Burlington é bem menos complicado do que
nos aeroportos. A passagem Montreal-Boston pela
Greyhound custava 84 dólares em outubro de 2005.
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Na viagem
Toronto-Montreal (8 horas) dê preferência aos ônibus
da companhia New Orleans. São mais novos e mais
confortáveis que os da Greyhound e estão equipados
com ponto para
ligar notebook e mesinha para lanche. A passagem
pode custar até 93 dólares, senão for comprada com
antecedência.
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Em Montreal, se não tem
reserva em hotel, não esquente. A rua Saint Hubert,
ao lado da rodoviária e junto ao Quartier Latin,
tem dezenas de pequenos hotéis, simples, mas confiáveis.
Fora da alta estação, sempre têm quartos disponíveis.
Fiquei hospedado, com a minha mulher Fátima, no Elysée,
do simpático cambojano Van Nahm. Tranqüilo, novo e
confortável. Apartamentos amplos e com tecnologia a
apenas 60 dólares, depois de alguns minutos de
pechincha.
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Para se
dar bem numa viagem mochileira e com pouco dinheiro
pelo Canadá e os Estados Unidos, recomendo o guia
especial do Lonely Planet: Usa
& Canada on a shoestring.
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