
Ano
V // Nº 276
Texto
publicado na edição de setembro de 1999 da
revista Você s.a.
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PRAIAS DE AVENTURA
Por JOMAR MORAIS, de Natal
Já
pensou você num jipe importado, de praia em
praia, curtindo
a vida entre Natal e Fortaleza?
Existem muitos lugares no
mundo onde alguém pode apreciar o pôr do sol de frente para o mar - um espetáculo belíssimo de
cores e de poesia. Por exemplo: em San Francisco,
na Califórnia, diante da imensidão do oceano
Pacífico. Ou nas praias do Sri Lanka, na Ásia,
às margens do oceano Índico. Infelizmente, esse
é um momento de encanto que brasileiros só
podem desfrutar lá fora, devido ao capricho da
natureza que fez do Brasil um país banhado pelo
mar apenas ao norte e a leste. Certo? Errado.
Estamos
na baía de Pedra Grande, no litoral do Rio
Grande do Norte, e ali está ele, o Sol, descendo
suavemente no horizonte sobre o mar azul, às
17h36. Bastaria essa cena rara, proporcionada
pelo recorte do litoral já na face norte do
país e pela inclinação do eixo da Terra numa
área a poucos graus da linha do Equador, para
justificar o esforço de chegar até aqui. Mas
acredite: o pôr-do-sol no oceano Atlântico é
apenas um dos momentos inesquecíveis de uma
viagem de aventura: o percurso Natal-Fortaleza
pela beira-mar, atravessando 85 praias e
coqueirais, lagoas e dunas, falésias e salinas,
a bordo de um jipão Defender, da Land Rover.
São
800 quilômetros de paisagens coloridas, vencidos
em quatro dias e três noites surpreendemente
nada cansativos. O Land Rover - ou
"aventureiro da terra", um carro que
há meio século tem fama de fazer seu próprio
caminho em qualquer lugar do planeta - é
adaptado para oferecer razoável conforto. Tem
bancos acolchoados e espaçosos, ar condicionado
e rádio com canal especial de S.O.S. (precisar
não precisa, mas...). Dependendo do modelo em
uso, cabem até seis passageiros no carro mais o
motorista, que improvisa no papel de guia
turístico. Depois de inúmeras paradas para
fotos, banhos e refeições, os pernoites
acontecem em duas pousadas aconchegantes e num
hotel confortável, ladeado por 10 piscinas de
águas termais. Se o viajante conseguir montar o
próprio grupo - ou se tiver a sorte de encontrar
parceiros descomplicados -, então seguramente a
experiência será das mais agradáveis.
A idéia da aventura off-road entre Natal e
Fortaleza surgiu no ano passado, por sugestão de
agências de São Paulo. Provocado, o
administrador de empresas Lindberg Natal Tinôco,
27 anos - ele próprio um aventureiro que desde
1993 faz o passeio como hobby -, resolveu tocar o
projeto. Desde janeiro último os dois Land Rover
de sua empresa circulam pela orla duas vezes por
semana, na maioria das vezes transportando
paulistanos que chegam ao nordeste em busca de
roteiros diferentes. O preço de 800 reais por
pessoa não é dos mais em conta, mas inclui
todas as despesas, exceto bebidas alcoólicas. Em
agosto, VOCÊ S.A. testou o roteiro e encontrou
bons motivos para aprová-lo. A seguir, nosso
diário de bordo.
1º dia - Carro de boi e o
marco português
Por volta das 8 horas, o Land Rover chega à
rampa de Santos Reis, em Natal, o ponto zero da
aventura. No mesmo lugar onde hidroaviões do
correio aéreo desembarcavam correspondências e
encomendas trazidas da Europa, na década de 30,
inicia-se a travessia de balsa do rio Potengi,
deixando para trás a capital do Rio Grande do
Norte. Logo o carro estará sobre as dunas
brancas que abraçam a lagoa de Jacumã, em busca
da primeira emoção do percurso: a curiosa
experiência do "aerobunda".
Explica-se: como a prática de esqui nos morros -
ou "esquibunda", como se diz na região
- vem sendo combatida por causar danos ao
ambiente natural, os potiguares espalharam cabos
aéreos sobre a lagoa, por com cadeirinhas
deslizam até se precipitarem nas águas escuras
do lago. Quem se dispõe a pagar os 2 reais da
princadeira tem direito à emoção da queda
livre e à subida de volta. Para quem gosta de
ver a paisagem lá de cima, há ultraleves que
cobram apenas 15 reais o sobrevôo. Mas não pode
dar tempo.
A aventura à beira-mar é sincronizada com o
movimento das marés. É preciso aproveitar a
maré baixa, por isso é preciso aproveitar
quando ela desce, liberando os trechos de areia.
Feita a travessia do rio Ceará-Mirim, em
primitiva balsa de madeira movida a varas, eis a
costa recortada, os coqueirais que se sucedem
junto a baías enfeitadas de barcos, alguns ao
mar, outros ancorados na areia. Pitangui,
Graçandu, Muriú, Barra de Maxaranguape,
Caraúbas... cidadezinhas povoadas de pescadores
que sobrevivem de arrastões ou da pesca em alto
mar.
No alto de uma duna, uma obra insólita da
natureza: o vento forte soprando durante anos
sobre duas árvores, acabou unindo os seus
troncos, dando origem ao que passou a ser chamado
de Árvore do Amor. Estamos chegando em
Maracajaú, que tem outro um espetáculo: a 7
quilômetros da praia, um banco de corais de 13
quilômetros quadrados - os parrachos de
Maracajaú - transformou o mar numa imensa
piscina de águas mornas e cristalinas, cuja
profundidade varia de 50 centímetros a 3 metros.
Quatro lanchas levam turistas para mergulhar e
pescar na área, ao preço de 25 reais. Porém, a
permanência mínima de duas horas no local
impede que a turma do Land Rover chegue até lá,
sob pena de ser retida depois pela maré alta.
Mas há outras coisas bonitas para descobrir.
O cabo de São Roque é uma delas. Chegando lá,
é só olhar em linha reta para o mar: você não
vê, mas do outro lado do oceano está a cidade
de Dakar, no Senegal. Em Touros, a próxima praia
habitada, carros de boi circulando à beira-mar
justificam o nome da cidade. Logo depois, na
Ponta do Calcanhar, um farol de 62 metros de
altura, equivalente a um edifício de 21 andares,
garante seu lugar entre os maiores do mundo. A
parada para almoço acontece num dos paraísos do
litoral brasileiro: a bonita praia de São Miguel
do Gostoso, a 145 quilômetros de Natal, com suas
águas azuis, areia branca e, claro, muitos
coqueiros.
Apenas alguns quilômetros adiante, é hora de um
encontro com a história, na praia do Marco,
chamada assim por causa da pedra com a cruz de
malta fincada no local em 1501 para assinalar a
posse da colônia portuguesa. O assunto ainda
hoje desperta polêmica entre os historiadores:
com base nos registros da expedição, da qual
fazia parte o navegador Américo Vespucio, alguns
defendem a tese de que foi ali, e não em Porto
Seguro, que o Brasil começou.
A primeira jornada de nossa expedição
encerra-se minutos depois, na chegada à
agradável Pousada do Arraial do Marco, onde não
faltam gentilezas, boa comida e histórias
bem-humoradas. Há também uma piscina no local,
mas quem se importa com isso? A melhor opção é
ainda caminhar na orla. A noite se aproxima e
perder o tal do pôr-do-sol no Atlântico, que é
bem visível na baía seguinte, a apenas três
quilômetros, seria mesmo uma insensatez.
2º dia - Salinas e águas
termais
O início da manhã é ótimo para banhos e
caminhadas - ou para um pouco mais de sono
embalado pelo ronco do mar. Mas, às 9 horas, o
Land Rover velho de guerra volta a rodar sobre o
tapete de areia branca. Logo surge a praia de Exu
Queimado, com seus 15 quilômetros de coqueiros e
casas simples. Depois, Caiçara, a cidadezinha
que há alguns anos vem sendo engolida pelo mar e
mantém a tradição dos tabuleiros para secagem
do peixe-voador, um dos alimentos básicos na
região. Já sem as vísceras e conservados pelo
sal marinho, os peixes ficam expostos ao sol dias
a fio, até a completa desidratação. Depois, é
só comer com tapioca.
Caiçara é também um alerta de que até mesmo
um Defender da Land Rover às vezes tem de se
render aos obstáculos da natureza. Um imenso
braço-de-mar e a foz do rio Açu, obriga-nos a
viajar em estrada por cerca de 2 horas. Depois,
de novo junto ao mar, aparece Porto dos Mangues,
onde a paisagem é bem diferente. As dunas agora
têm coloração rosada e antecedem um longo
trecho de falésias que se estende até a Ponta
do Mel. As praias, virgens, são frequentadas por
cabras e carneiros, que perambulam à procura de
sargaços. É na cidade de Areia Branca que
acontece a parada para o almoço e, em seguida, o
último programa do dia: a visita a uma das
várias salinas da região. O Rio Grande do Norte
produz 90% do sal consumido no país e suas
salinas, hoje parcialmente mecanizadas, continuam
a ser um atrativo, com alvíssimas montanhas de
sal bruto refletindo o sol da tarde.
O pernoite desta vez é em Mossoró, a segunda
maior cidade potiguar, distante 40 quilômetros
do litoral. Mas, por incrível que pareça, este
é um dos momentos de maior relax da aventura: o
grupo é alojado no complexo hoteleiro-aquático
Thermas, famoso por suas 10 piscinas de águas
termais, cuja temperatura varia de 28 a 54 graus.
Na área de 200 mil metros quadrados, onde
também funciona um spa, há quadras e campos de
futebol, toboáguas, saunas, salões de
ginástica e áreas para pesca e passeios a
cavalo. Uma curiosidade é o poço de petróleo
no terreno do hotel, o primeiro perfurado pela
Petrobrás no Rio Grande do Norte, há quase 30
anos, e ainda em operação.
3º dia - Cores e esculturas
Tibau é a última cidade e a última praia do
Rio Grande do Norte, conhecida por suas areias
coloridas, que os artesãos usam para rechear
garrafas desenhando paisagens e nomes. Apenas uma
cerca separa Tibau da praia seguinte, Icapuí,
que é a primeira do Ceará. Daqui emdiante, a
paisagem junto ao mar é de currais para a pesca
de xaréus e peixes-espadas. Do lado do
continente surgem dunas douradas alternando com
falésias vermelhas. Escasseiam os barquinhos,
contados às centenas nas praias potiguares, e
aumenta a presença das jangadas, um velho
símbolo da vidacearense.
Na praia de Retirinho, um outro show da natureza:
as esculturas que o mar esculpiu nas falésias.
Se bem qu eo homem tenha contribuido para
embelezar a paisagem, adaptando algumas
edificações às silhuetas do terreno. É o caso
da pousada Refúgio Dourado, na praia de
Majorlândia, que foi incrustada numa falésia.
Na entrada, um portal com esculturas gigantescas,
feitas na rocha pelo artista popular Toinho
Carneiro, evoca cenas bíblicas, como o presépio
e a arca de Noé, e a Terra do tempo dos
dinossauros.
O almoço é em Canoa Quebrada, a praia cearense
revelada ao mundo na década de 70 por jovens
forasteiros. E é por aqui que o grupo vai ficar
até a manhã seguinte, curtindo o jeito ainda
preguiçoso do lugar, que de antiga aldeia virou
uma cidade cheia de pousadas e restaurantes. A
baía de águas azuis continua linda e no alto da
duna do pôr-do-sol é possível desfrutar um
pouco da paz quase absoluta dos velhos tempos.
4º dia - Garças e bicas
d´água
Na saída de Canoa Quebrada, é preciso encarar
de novo a estrada, a fim de contornar a foz do
rio Jaguaribe, passando por dentro da cidade de
Aracati. A última etapa da viagem é marcada
pelas bicas de água doce que se derramam das
falésias douradas, em praias quase sempre
desertas. A mais conhecida dessas bicas é a Toca
da Mãe d´Água, na Praia das Fontes. No
percurso prepare-se para ver lagoas e fazer uma
inesquecível travessia em balsa primitiva no rio
Choró, num cenário de garças brancas voando
sobre o coqueiral. Em Jacutinga, a paisagem ganha
ainda mais vida com as jangadas de velas
multicoloridas - algumas com publicidade - e as
curiosas casas redondas, cobertas com palha seca
de coqueiros. É sinal de que a cidade grande
está próxima.
Depois do almoço na praia do Caponga, roda-se
apenas alguns minutos até a ponta de Iguape, de
onde se pode ver ao longe os primeiros edifícios
da orla de Fortaleza. A partir daqui, as praias
vão ficando cada vez mais povoadas e se
multiplicam as mansões de veraneio. Depois da
Prainha, chega-se a Porto das Dunas, onde está o
Beach Park, o famoso parque aquático. É nosso
último momento à beira-mar, já que o Land
Rover não pode trafegar na orla urbana.
Após quatro dias de emoções, o vice-presidente
da Companhia Melhoramentos de São Paulo, Alfredo
Weiszflog, que fez o passeio ao lado mulher
Rosana, se diz inteiramente recompensado. Há
alguns anos, ele sonha escrever um livro sobre o
Brasil que poucos conhecem. Weiszflog não sabia,
mas estava faltando fazer esta viagem de Land
Rover. "Agora, sim, tenho certeza de que
preciso escrever este livro", conclui. Bem,
se a aventura deu certo com ele, pode dar com
você.
COMO EMBARCAR NESSA AVENTURA
As reservas para o passeio podem ser feitas na
Aventura Expedições e Turismo - (84) 213-1384 e
(84) 982-1895). Preço por pessoa: 800 reais,
incluindo hospedagem e alimentação, exceto em
Fortaleza. Dependendo do período, é possível
negociar algum desconto.
Em São Paulo, a agência Visual Turismo - (11)
214-2000 - vende pacotes que incluem duas noites
em Natal e duas em Fortaleza.
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