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Texto publicado na
edição especial ÍNDIA, da revista Viagem e Turismo
Julho/2006
e
Dezembro/2006
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O
roteiro de
JM na Índia
Delhi
Haridwar
Rishikeshi
Agra
Varanasi
Gaya
Bodhgaya
Calcutá
Bangalore
Whitefields
Puttaparthi
Panaji
Old Goa
Anjuna/Vagator
Mapusa
Puna
Aurangabad
Ellora
Mumbai
Elephanta
Delhi |
Leia também:
Sob
a árvore
de Buda - JM em Bodhigaya
Outras
Reportagens |
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Shiva |
Ganesha |
Gayatri |
Buda |
Sarasvati |
Krishna |
A
deusa de mil faces
Como
suas deidades, que mudam de rosto e humor, a Índia
- a nova superpotência
da Ásia - surpreende o visitante com belezas e contrastes em
uma viagem no tempo
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Anotações sobre o roteiro do jornalista e mais imagens
da Índia no Blog
do JM

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Por
JOMAR MORAIS
(texto, fotos e vídeos) |

O serviço completo e outras reportagens na revista Viagem
e Turismo - Índia

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É
difícil amar a Índia, disse Jean-Claude Carrière, um
dos grandes roteiristas do cinema contemporâneo, autor
de um livro em que expõe sua paixão por esse país
distante e enigmático. Quarenta dias depois de
percorrer mais de 10 mil quilômetros em território
indiano, visitar cidades e vilas, conhecer uma parte de
seus templos milenares e de sua modernidade caótica,
pousar em ashrams de diferentes gurus e interagir
com o seu povo em situações que, não raro, desafiam a
lógica, peço licença para acrescentar outro detalhe
à constatação do cineasta francês. É também difícil,
muito difícil, não se deixar seduzir pela Índia. E
mais difícil ainda esquecê-la.
Amando-a ou
detestando-a – e as duas reações podem ocorrer
simultaneamente -, voltamos de lá com um selo indelével
aplicado à mente e ao coração, uma marca formatada
por choques e êxtases que, de algum modo, nos faz
refletir sobre o que jamais pensamos antes.
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JM
no Taj Mahal,
em
Agra;
à dir. riquixás
de tração humana,
em Calcutá |

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| Monges
da Cagiupay Sangha, em Bodhgaya (acima) e o caos
no trânsito de Delhi. Vídeos: veja Os
monges e Delhi |
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Mais
que misteriosa e mística, a Índia é diversificada e
contraditória. E essa predisposição para lidar com os
opostos e a acolher tudo, tudo transmutando em seu
caldeirão de regras escritas e ocultas, é a primeira
causa de espanto para quem chega trazendo na bagagem uma
visão idealizada do país.
Não é confortável ver o clichê de um lugar
tranqüilo, asséptico e espiritual, onde as pessoas
entoariam mantras o dia inteiro, dissolver-se na poeira,
na fumaça e na sujeira das ruas, na algaravia constante
das multidões – onipresente num país com mais de 1
bilhão de habitantes –, na miséria exposta de milhões
de pessoas, na esperteza de certos mistificadores e,
sobretudo, no trânsito infernal das cidades, onde
pedestres, carros, riquixás (triciclos movidos a motor
ou a pedal) e vacas têm que improvisar acordos na ausência
de semáforos.
Para alguns, é a frustração de um
projeto de vida. “Já vi pessoas que vieram para ficar
três meses retornarem na primeira semana”, disse-me o
canadense Gilles Bacon, um professor de yoga de Montreal
que, pela terceira vez, está passando 1 ano na Índia.
“Algumas choram, decepcionadas”.
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Como
os conquistadores arrogantes de outrora e os
preconceituosos de todas as épocas, os que se agarram
aos contornos imaginários de uma Índia etérea e pura
acabam impossibilitados de perceber uma outra sutileza
desse complexo subcontinente. Na Índia, o presente não
descarta o passado e muitas eras compartilham o mesmo
espaço, numa aquarela de hábitos, idéias, crenças,
filosofias e também ciência que se relacionam até
quando se encontram em aparente rota de colisão.
Quem
consegue superar esse choque inicial, logo percebe que a
Índia, apesar de seus contrastes, não é um país
mergulhado no atraso, em descompasso com o mundo
globalizado. Ela detém a segunda concentração de PhDs
do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos, fornece
especialistas em informática para vários países, dispõe
de um excelente sistema de comunicações, envia satélites
ao espaço e até virou potência nuclear.
Favorecida
por um estado laico e democrático, sua economia cresce
ao ritmo de 7% ao ano e pode tornar-se a terceira do
planeta até 2040, segundo algumas previsões. É, no
entanto, zelosa de seu patrimônio cultural e espiritual
de mais de 5 000 anos e a ele se refere constantemente
para viver o presente, ainda que não existam garantias
de que continuará a fazê-lo para moldar o futuro.
Conhecê-la é desfrutar de uma oportunidade rara
de realizar uma viagem física no tempo, navegando na
diversidade e complexidade do único império ancestral
a sobreviver quase intacto nos nossos dias, com seu
arcabouço filosófico a cada dia mais solicitado no
ocidente .
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| Rishikesh:
o Ganjes e o puja dos hindus.
Abaixo, uma
caverna de Ellora. Veja os vídeos:
Himalaia e Puja. |

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Acima
e ao lado, cenas de Varanasi, a cidade
sagrada onde as eras se fundem. Vídeo: Os
ghats de Varanasi |
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| Indianas
junto ao Forte Daulatabad, na hora do almoço, e
JM no Templo Grishneshwar, ambos próximos a
Ellora |
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Em
Varanasi, a mais sagrada das sete cidades sagradas do
hinduísmo, deparei com um retrato perfeito dessa
acumulação dos séculos. Numa viela enlameada, uma
vaca, ciosa de seu status divino, aguarda a passagem de
devotos de Shiva, a caminho do Templo Dourado,
esgueirando-se sob a placa de uma lan house bem
equipada, onde jovens se conectam ao resto do mundo pela
internet. Pés descalços e testas marcadas pelo vibhuti
vermelho, a cinza sagrada com a qual os hindus assinalam
o ajna – o olho astral, entre os supercílios -,
muitos na multidão portam telefones celulares
sofisticados, produzidos a alguns quilômetros dali e exportados
para vários países. Quando uma brecha se abre entre os
fiéis, a vaca cruza a viela, entra por uma pequena
porta e, finalmente, acomoda-se num curral doméstico de
menos de 20 metros quadrados para espanto de visitantes,
como eu. Que país conseguiria manter assim, tão próximos
e interagindo, uma era de rituais totêmicos e os tempos
cibernéticos? A Índia consegue e, às vezes, isso é
difícil de entender se não olharmos para a mitologia
sobre a qual ela existe e se move.
À
margem de rios e na solidão das florestas, os indianos
conceberam no passado um universo que - ao contrário
daquele modelo estreito e linear, centrado na Terra,
adotado por muitos séculos no ocidente - tinha dimensões
incomensuráveis e ciclos temporais que se repetem e se
entrelaçam. Nessa representação, é possível a
convivência dos opostos e compreensível a existência
de um panteão de divindades que beira os 36 000 deuses
e semideuses, cada um expressando tão somente aspectos,
diferentes e polarizados, de uma única substância.
Desde a concepção védica, baseada em arquétipos e
cultos tribais, o universo indiano é complexo e repleto
de atalhos que realçam a impossibilidade de um sentido
único, evidenciam a ilusão das formas e nos convidam a
fruir o prazer dos encontros inevitáveis. A Índia vive
esse modelo. Para entendê-la, é preciso que esqueçamos,
ainda que por um breve tempo, o pensamento lógico de
nossas elaborações e comparações, permitindo-nos o
deleite em suas cores e crenças sem a preocupação de
explicar coisa alguma.
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Em
Bodhgaya, a cidade onde Sidarta Gautama tornou-se o
Buda, ao ver budistas e hinduístas praticando rituais
distintos sob o mesmo templo, perguntei a meu jovem
guia, Habi, qual a sua religião. Habi respondeu,
sorrindo: “Na Índia, todos somos hinduístas. Tudo é
hinduísmo”. Não poderia ser mais preciso. O que
chamamos hinduísmo – e essa é uma palavra criada
pelos ingleses no século XIX – não constitui uma
doutrina homogênea, mas uma amálgama de crenças
ancestrais, seitas e filosofias que têm por base a idéia
de um universo multifacetado, essencialmente inexplicável
e só compreensível pela experiência.
Talvez esteja aí
o espírito zen que tantos buscam e nem sempre encontram
nas peregrinações junto ao Ganjes e nos retiros com
gurus: uma abertura fundamental para a vida, a disposição
de fluir com ela e, ao contrário do que imagina o senso
comum, também para interagir e mudar com as circunstâncias.
Na
mitologia hindu, registrada parcialmente no gigantesco
poema épico Mahabharata e no Ramayana,
nem os deuses estão presos às suas identidades e
atribuições. Shiva já foi Rudra na pré-história védica.
Gayatri, um raio do sol, metamorfoseou-se numa deusa de
cinco cabeças. Indra perdeu parte de seu poder. Textos
sagrados se sucederam e se completaram ao longo de milênios.
Abaixo desse Olimpo, a Índia humana e concreta também
se move, mais rapidamente do que podemos perceber à
distância, na direção de um futuro só em parte
decifrável. As vitrines do Connaught Place, a área do
comércio chique de Delhi, não escondem, com a sua
profusão de modelitos ocidentais e roupas sumárias,
que os indianos estão sendo assediados por novos
desejos. A escassez de santuários hinduístas nas ruas
de Bangalore, a capital da informática e da
biotecnologia na Índia, talvez seja um sinal de que
Krishna e Ganesha já disputam espaços com os deuses da
tecnologia. A explosão em Mumbai - a locomotiva econômica
e cultural do país -, de bares que vendem bebidas alcoólicas
e de boates
liberais onde até um tímido movimento gay mostra a
cara apontam para o início de uma revolução de
costumes numa Índia tradicionalmente conservadora e
pacata.
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O elefante se mexe
Um
hinduísta diria que Ganesha, o deus com tromba de
elefante, resolveu retirar, de uma tacada, os maiores
obstáculos à marcha da Índia. O país virou estrela
da economia mundial neste início de século e já há
quem aposte, como a consultoria americana Goldman Sachs,
de que até o ano 2040 será a terceira força econômica
do planeta, só atrás dos Estados Unidos e da China.
Para quem conhece a paisagem social indiana, é difícil
acreditar que isso é real. A fórmula dessa transformação,
no entanto, tem a ver com o perfil democrático da
sociedade, a estabilidade das leis e a liberdade em que
operam os agentes econômicos e não com qualquer
expediente mágico.
A
Índia cresce ao ritmo de 6%
ao ano - em 2005 alcançou 7,5% – e ostenta uma
emergente classe média de 200 milhões de pessoas, já
mergulhada nas delícias do consumo. Nesse momento, a
ampliação e modernização
da infraestrutura de transporte – super-rodovias e
metrôs – fazem do país um canteiro de obras. Há uma
febre de empreendimentos privados, depois que o estado
abandonou a tendência socialista de outrora e passou a
cogitar até da privatização de serviços públicos,
como aeroportos e a rede de saúde. Tornou-se rotina o
assédio de governantes e empresários dos países
desenvolvidos, em busca de alianças estratégicas e
bons negócios.
Ainda
assim, o crescimento indiano é pouco visível
devido à dimensão colossal de antigos
problemas. O país tem mais de 300 milhões de
pessoas vivendo com menos de 1 dólar por dia, possui o
segundo maior contingente de infectados pelo vírus da
Aids e lida com cinturões de pobreza mesmo junto a áreas
de excelência, como o “Vale do Silício” da região
de Bangalore. A médio prazo, porém, não há dúvida
de que a Índia será uma carta influente no jogo da
economia global.
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| Teatro
Katakali (acima) e alfaiate popular, em Delhi.
Vídeo: dança típica
com a companhia Dance of India |
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O
espírito da Índia ancestral e ascética sobreviverá a
esses tempos de Mc Donalds e Pizzas Hut, de rock e música
tecno, debates na imprensa sobre liberação sexual e
consumo explícito nas ruas e na televisão?
Talvez a
resposta certa para essa questão seja a que ouvi do
executivo Shaile Singh, no trem que me levou a
Rishikesh. “Há séculos os ocidentais despejam aqui
suas novidades. Nós as absorvemos e as
transformamos”, disse o jovem, devoto de Hanuman, o mítico
macaco servidor de Rama, invocado pelos hindus nas situações
em que se faz necessária uma saída criativa. Talvez a
razão esteja com a serenidade de Deepak Lakshman, um
engenheiro de cabelos grisalhos que encontrei a caminho
de Puri, no extremo leste. “Chegou a hora do equilíbrio”,
afirmou. “É preciso aproveitar o melhor dos sistemas
de vida do oriente e do ocidente”. Talvez, enfim,
estejam certos os que acreditam que a cosmogonia e o
conjunto de tradições que resistiram a séculos de
invasões e domínio estrangeiro sucumbirão em breve ao
furacão da cultura ocidental globalizada.
Na dúvida, o
melhor é arrumar as malas e ir já conhecer o que a Índia
tem a mostrar como senhora do tempo, uma deusa de mil
faces. |
Quer
falar com o autor? >>> jomar.morais@supercabo.com.br
| No
Blog
do JM:
fotos
e registros intimistas sobre a experiência mochileira
de Jomar Morais na Índia, suas paradas nos ashrams de
Sai Baba e Osho, no ashram Okarananda Sadan, em
Rishikeshi, e no Templo Mahabodhi em Bodhgaya. Mais: as
descobertas e as surpresas, as amizades e a
participação no dia-a-dia indiano em todas as cidades
de seu roteiro. |
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