Há
quatro anos, o químico Shui Yin Lo entrou pela primeira vez
no laboratório de jatopropulsão do Instituto de Tecnologia
da Califórnia, o Caltech, na cidade americana de Pasadena,
com um crachá de pesquisador visitante na camisa e uma
idéia ambiciosa na cabeça. Sua intenção: desenvolver um
aditivo que pudesse revolucionar o desempenho dos motores de
automóveis, tornando-os mais potentes e econômicos. À
frente de uma equipe de físicos e químicos, Lo trabalhou
duro por alguns meses, mas no final chegou a um resultado
apenas razoável. Patrocinado pela American Technologies
Group, empresa da Califórnia que depois o contrataria como
seu diretor de pesquisa e desenvolvimento, ele concebeu a
fórmula do "The Force", um aditivo que, por não
ser assim tão diferente de seus concorrentes, acabou não
alcançando o sucesso esperado. Se não conseguiu vincular
seu nome a nenhum invento extraordinário no mundo dos
transportes, no entanto, o cientista saiu do Caltech como
autor de uma descoberta que pode apressar o desfecho de uma
das mais acirradas polêmicas da área médica: a
controvérsia sobre a eficácia da homeopatia, sistema
terapêutico criado no século XVIII pelo médico alemão
Samuel Hahnemann.
Na contra-mão
da medicina convencional - a chamada alopatia -, que combate
enfermidades com remédios que provocam no organismo o
oposto dos sintomas da doença -, a homeopatia surpreende ao
prescrever tratamentos com substâncias que podem causar no
homem sadio exatamente os sintomas do mal a ser debelado. Na
prática isso significa que, diante de alguém com dor de
cabeça, um homeopata jamais receitará aspirina, um
analgésico, como o faria um médico alopata. Ao contrário,
poderá indicar ao paciente, por exemplo, uma solução à
base de gelsêmio, planta venenosa que ataca os centros
nervosos, provocando dor e disfunções mentais. Outra
diferença gritante da homeopatia em relação à prática
médica habitual está no próprio preparo dos remédios.
Suas fórmulas são tão diluídas (veja gráfico na página
XXXX) que muita gente duvida que exerçam alguma
ação no organismo. Dificilmente uma dessas substâncias
produziria dano a quem se expusesse a uma overdose ou
tomasse o remédio errado, o que não ocorreria, obviamente,
com alguém que ingerisse por engano um comprimido contra
hipertensão. Enfim, para um homeopata, a doença, qualquer
que seja a sua característica, é vista sempre como a
manifestação de um desequilíbrio energético e não
resultado da ação deletéria de bactérias e vírus,
conforme ensina a medicina convencional. O remédio diluído
seria, assim, o agente que ajuda a promover o reequilíbrio
de um sistema de forças, estimulando as defesas naturais do
organismo (veja quadro na página XXXX).
Estranho?
Pode ser. Mas a cada dia cresce, em escala global, o número
de pessoas que resolvem adotar os procedimentos
homeopáticos e se dizem satisfeitas com os resultados
obtidos no combate a diferentes tipos de doenças. Só nos
Estados Unidos, onde a tecnologia de ponta e a pesquisa
intensiva sustentam a medicina alopática mais avançada do
mundo, o total de homeopatas em atividade saltou de 300 para
5 000 nas últimas duas décadas, enquanto as vendas de
remédios específicos subiam 30%. No mesmo período, a
Europa assistiu à multiplicação de clínicas e hospitais
especializados e o Brasil, país onde atuam mais de 10 000
homeopatas, viu a homeopatia ser reconhecida como
especialidade médica, com direito a representação no
Conselho Federal de Medicina. Tamanho aumento da procura e
os sinais de aprovação dos usuários, porém, não
livraram os homeopatas de um velho incômodo: a oposição
do establishment médico e da maioria dos
pesquisadores, para os quais até agora ninguém conseguiu
provar, à luz da ciência, que a homeopatia de fato
funciona.
"Os
remédios dinamizados (ultradiluídos), propostos por
Hahnemann não passam de água pura ou bolinhas de açúcar.
Homeopatia é fraude", diz Stephen Barret, membro do
Conselho Nacional para Informações Confiáveis na Área da
Saúde, de Allentown, Estados Unidos. O argumento de Barret
é o de que exames químicos nunca identificaram nas
fórmulas homeopáticas uma única molécula de essência
medicinal. A recuperação de pacientes medicados com tais
substâncias, segundo os críticos, só pode ser atribuída
ou a erros de avaliação ou ao chamado efeito placebo - a
cura por efeito psicológico. Os homeopatas sempre tiveram
aí o seu calcanhar-de-aquiles. A impossibilidade de
comprovar em laboratório conceitos como força vital e
transporte de informação energética, usados
freqüentemente para explicar a ação dos medicamentos
dinamizados, constitui o maior obstáculo ao diálogo entre
a homeopatia e a medicina alopática moderna, baseada em
evidências. Mas é justamente esse impasse que pode ter
ficado mais perto do fim após o achado de Shui Yin Lo.
Lo queria
somente descobrir o aditivo perfeito, mas ao estudar o
comportamento molecular da água em soluções que
ultrapassam o número de Avogadro - a lei da química
segundo a qual depois da 12ª diluição não existem mais
moléculas da substância dissolvida presentes no líquido
diluente – percebeu que se encontrava em uma outra trilha.
Através das lentes de seu microscópio eletrônico, o
químico descobriu que as moléculas de água, normalmente
dispostas de modo aleatório em estado normal, após a
ultradiluição passaram a formar cachos (clusters) de 6 a
100 unidades, todos alinhados de forma original e exibindo
características específicas, como campo elétrico singular
e adesão firme a superfícies. Ainda mais impressionante é
o fato de que tais cachos se replicavam a cada nova
diluição, mesmo que na água não mais existissem
resquícios da substância adicionada no início.
Não se trata
de uma experiência isolada. Em novembro passado, a revista
americana New Scientist noticiou que o químico
alemão Kurt Geckeler e seu colega Shashadhar Samal
esbarraram em efeito semelhante ao estudarem o comportamento
de diluições de fulerenos – substâncias formadas por
átomos de carbono – no laboratório do Instituto de
Ciência e Tecnologia de Kwangju, na Coréia do Sul. Eles
constataram que, a cada nova diluição, algumas das
moléculas dissolvidas contrariavam o saber convencional,
formando conglomerados, em vez de se afastarem mais e mais
umas das outras. O mesmo fenômeno foi observado em
diluições de moléculas orgânicas, como a ciclodextrina,
e inorgâncias, como a de cloreto de sódio, abrindo caminho
para uma nova onda de especulações sobre a farmacopéia
homeopática.
A partir da
experiência anterior de Lo, um outro estudo, realizado pelo
imunologista Benjamin Bonavida, da Universidade da
Califórnia em Los Angeles, chegou a constatar até que, em
tubos de ensaio, a água com clusters podia estimular
células do sistema imunológico até 100 vezes mais do que
uma fração idêntica de água pura, o que sugere uma
atividade biológica ainda por ser explicada. "As
pesquisas mostram que as soluções homeopáticas não são
água comum, mas um líquido alterado em sua estrutura que
realmente pode modificar tecidos, órgãos e todo o corpo",
afirma William Gray, homeopata de San Francisco, na
Califórnia, e autor do livro Homeopathy: Science or
Myth? (Homeopatia: Ciência ou Mito), não traduzido
para o português. "Dizer que essa experiência
comprova a eficácia dos remédios homeopáticos é uma
tolice", rebate Barret. "Se uma simples molécula
de alguma substância pode imprimir à água propriedades
medicinais, então teremos de admitir que ao tomarmos um
copo d´água estaremos ingerindo um remédio poderoso e de
efeito imprevisível", ironiza o médico. Os homeopatas
argumentam que as fórmulas dinamizadas utilizam água
destilada e são submetidas a vigorosos movimentos que
facilitam a transferência da informação molecular. Mas o
próprio Bonavida prefere admitir que o fato de a água com
clusters apresentar atividade imunobiológica não significa
necessariamente a comprovação dos preceitos homeopáticos.
Desde o
início, a teoria homeopática tem afirmado que nas
soluções ultradiluídas, a água guarda a "imagem"
do soluto (a substância dissolvida) tornando-se um veículo
de transmissão de suas propriedades ainda que não mais
existam ali moléculas da substância original. A
experimentação clínica também já havia dado a Hahnemann,
no século XVIII, a certeza de que quanto mais diluída a
fórmula, maior a sua potência medicinal, algo que só
agora pode estar ganhando uma explicação aceitável do
ponto de vista da ciência acadêmica, com a descoberta dos
clusters auto-replicantes. "No fundo, a homeopatia não
trabalha com substâncias, mas com informação", diz
Fernando Bignarde, coordenador do núcleo de pesquisa
homeopática do Departamento de Geriatria da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp).
Experimentos
como os realizados no Caltech e no instituto de Kwangju
ecoam estudos anteriores, que acabaram contestados ou não
puderam ser repetidos por outros cientistas por motivos
explicáveis ou não. Há 13 anos, por exemplo, o biólogo
Jacques Beneviste, pesquisador do renomado instituto
francês Inserm, também chamou a atenção da comunidade
médica ao publicar na revista Nature seus estudos
com uma solução ultradiluída de soro contra
imunoglobulina que sugeriam a existência de uma certa
"memória da água". Na época, Beneviste disse
ter comprovado um efeito imunobiológico da solução sobre
células brancas do sangue, em comparação com grupos de
controle – uma descoberta que, por inferência,
confirmaria a ação dos fármacos homeopáticos no
organismo. A experiência não foi confirmada por outros
pesquisadores e acabou descartada no circuito acadêmico,
mas as conclusões de Benevides, de algum modo, estão sendo
retomadas .
Outro ponto
polêmico da homeopatia que vem sendo alvo de explicações
atualizadas é a cura pela chamada lei do semelhante. O
princípio da similitude não é uma invenção de
Hahnemannn, mas do filósofo grego Hipócrates (460-377 a.C.),
considerado o pai da medicina. Sua utilização na
homeopatia, no entanto, sempre ocorreu de modo empírico,
já que até há pouco nenhuma teoria conseguia mostrar de
forma plausível como o uso de remédios que causam sintomas
semelhantes aos da doença podem curar o doente.
A hipótese
preferida dos homeopatas é a de que a cura decorre da
reação secundária do organismo à substância
farmacológica – o chamado efeito rebote, que acontece,
inclusive, quando se administra remédios alopáticos. O
exemplo mais comum desse fenômeno é a exarcebação dos
sintomas de algumas doenças sempre que o paciente suspende
a medicação que vinha tomando ou passa a tomá-la de modo
irregular. Isso acontece com as drogas utilizadas para
controlar a hipertensão arterial, os tranqüilizantes e
antidepressivos, os broncodilatadores e até com antiácidos
empregados contra gastrites e úlceras. Num esforço para
manter a homeostase – o equilíbrio do meio interno –,
nessas ocasiões o organismo reage promovendo sintomas
opostos àqueles esperados com a aplicação do remédio.
"O
efeito rebote é a reação da energia vital, que pode ser
estimulada pelo medicamento homeopático sem os incômodos
dos remédios alopáticos", diz Célia Barollo,
diretora da Associação Paulista de Homeopatia. O assunto
é discutido no livro Semelhante Cura Semelhante, do
homeopata Marcus Zuliam Teixeira, mas a hipótese de que o
efeito rebote explica a cura pelo princípio da similitude
suscita divergências mesmo entre os homeopatas. "As
doses infinitesimais jamais provocam reação secundária",
afirma Romeu Carillo Junior, diretor da Associação
Brasileira de Reciclagem e Assistência em Homeopatia (Abrah)
e responsável pelo curso de pós-graduação em Homeopatia
do Hospital do Servidor Municipal de São Paulo. "Esta,
aliás, é a grande vantagem da experimentação com doses
dinamizadas, uma vez que os sintomas obtidos são provocados
apenas pelo efeito primário do medicamento". Se fosse
o contrário, exemplifica Romeu, um paciente com insônia
medicado com coffea cruda (café), o remédio homeopático
para esse tipo de distúrbio, passaria a ter sonolência –
a reação secundária do organismo – e não o
restabelecimento do sono fisiológico, sem excesso. A
tradição homeopática ensina que as fórmulas diluídas
devem apenas promover o reequilíbrio da "energia
vital", despertando a reação natural do organismo.
Segundo Romeu, sua presença é captada por receptores
biológicos em níveis celular e extracelular, previamente
sensibilizados pela própria doença.
A verdade é
que, apesar do aumento de estudos clínicos nessa área, a
homeopatia ainda carece de um suporte razoável de pesquisas
realizadas sob critérios aceitáveis pela ciência oficial.
A principal cobrança dos críticos é quanto à escassez de
ensaios do tipo duplo-cego, nos quais o resultado obtido com
pacientes tratados com o remédio é comparado ao de um
grupo de controle em que os doentes tomaram, sem saber,
apenas uma substância inócua, o placebo. O neurocientista
Renato Sabbatini, da Unicamp, afirma que entre mais de 4,5
milhões de estudos médicos e biológicos arquivados na
Medline, base de dados produzida pela Biblioteca Nacional de
Medicina dos Estados Unidos, ele encontrou apenas 61
pesquisas sobre homeopatia que seguem o padrão científico.
Destas, apenas quatro atestavam uma ação dos remédios
homeopáticos superior à dos placebos em casos de
diarréias infantis, inflamação de ouvidos, coceira e
irritação da pele provocadas por picadas de mosquito. (Um
estudo da Universidade de Glasgow, na Escócia, mostrou que
pacientes com rinite alérgica também responderam ao
tratamento com homeopatia).
Os homeopatas
se defendem acusando as instituições de pesquisa e os
grandes laboratórios farmacêuticos de se recusarem a
patrocinar estudos relacionados à homeopatia. Há
obstáculos também nas universidades, onde se conta nos
dedos as faculdades de medicina que têm a homeopatia em sua
grade curricular. Por último, há quem conteste o critério
de estudo duplo-cego. "Isso hoje é discutível",
diz Romeu. "Artigos recentes da revista Science
revelaram que grupos tratados apenas com placebos apresentam
diferença de resultados bastante significativa, o que torna
o método passível de crítica".
À margem do
debate acadêmico, os usuários que engrossam as
estatísticas homeopáticas, aqui e lá fora, aderem aos
seus tratamentos motivados por atrativos que têm a ver,
sobretudo, com a qualidade de vida. Ao contrário da
medicina convencional, a homeopatia não é uma terapêutica
invasiva, dispensando cirurgias, exames incômodos e drogas
que provocam efeitos colaterais quase sempre perigosos. Sua
abordagem é sistêmica e tem como foco o paciente e não a
doença em si – detalhe que faz toda a diferença na
relação médico-paciente. Ela é muito mais próxima e
afetuosa do que na medicina alopática, cujos diagnósticos
dependem hoje mais da tecnologia que da acuidade do médico.
Uma consulta homeopática pode envolver perguntas sobre
hábitos do dia-a-dia, incluindo até questões prosaicas
como sonhos ou a sensação experimentada pelo paciente no
pôr-do-sol. A importância dada aos sintomas mentais é
tanta que a conversa com o homeopata, muitas vezes,
assemelha-se a uma sessão com o psicológo. Ah!, há outro
detalhe: a homeopatia é barata. O preço de um frasco com
glóbulos homeopáticos (as bolinhas de açúcar, lembra?)
varia de 7 a 10 reais. Já uma caixa de antibiótico... bem,
você sabe.
Quando surgiu,
há mais de 200 anos, a homeopatia significava um enorme
progresso em relação à medicina da época, notável por
suas técnicas torturantes, como as sangrias, prática que
consistia em drenar o doente para extrair até dois terços
de seu "sangue impuro". Só por milagre alguém
conseguia escapar. Em meio a esse teatro de horrores, a
aceitação da homeopatia foi rápida e ampla, ao ponto de
no início do século passado um em cada seis médicos nos
Estados Unidos ser homeopata. A situação mudou com a
descoberta dos antibióticos e as vacinações em massa, que
consolidaram a crença de que a tecnologia moderna era capaz
de vencer sozinha a doença. Apesar dos desencontros
doutrinários entre as duas vertentes da medicina ocidental,
é provável que se esteja caminhando agora rumo ao
equilíbrio. "Conforme o caso, os tratamentos
alopático e homeopático não são incompatíveis",
afirma Célia. "Se o paciente necessita de uma terapia
de reposição, como a insulina e o hormônio tireoideano, o
caminho é a prescrição alopática". A recíproca
também tem sido verdadeira, segundo o cardiologista
homeopata Rafael Karelisky, de São Paulo. "Todos os
dias recebo em meu consultório pacientes encaminhados por
colegas da medicina convencional", diz. Se essa
tendência persistir, talvez o médico do futuro nem ao
menos venha a ser rotulado de alopata ou homeopata pelo
simples fato de enquadrar-se no perfil proposto por Antonio
Cesar Deveza Silva, um homeopata paulistano: ele será um
profissional que domina todas as formas de medicina e sabe
usar, com precisão, a mais adequada a cada caso.
PARA
SABER MAIS
Na
Livraria:
Homeopatia,
medicina interna e terapêutica
Romeu Carillo
Junior, Ed. Santos, Santos, 2000
Medicina
Quântica
Victor Mattos,
Corpo e Mente, Curitiba, 2001
Homeopathy:
science or myth?
Bill Gray, North Atlantic
Books, Berkeley, Califórnia 2000
Na
Internet:
www-2.cs.cmu.edu/~dst/ATG/lo-iestru.html
www.nib.unicamp.br/recursos/homeopatia