1ª PÁGINA COLUNISTAS JM na SUPER JM na EXAME JM na VIAGEM

ISTO É NATAL

ROTEIRO

EMP./TALENTOS

REDE AMIGOS

FALE COM A GENTE

 

Ano VII / Nº 313

Texto publicado na revista Super de janeiro de 2002

Leia mais:

Como se faz um remédio

Farmácia Natural


 

MEDICINA

O poder das bolinhas

Os tratamentos com glóbulos de açúcar e soluções ultradiluídas, prescritos pela homeopatia, provocam desconfiança em muita gente. Mas atenção: pesquisas avançadas sugerem que os remédios homeopáticos funcionam
Por Jomar Morais    

Há quatro anos, o químico Shui Yin Lo entrou pela primeira vez no laboratório de jatopropulsão do Instituto de Tecnologia da Califórnia, o Caltech, na cidade americana de Pasadena, com um crachá de pesquisador visitante na camisa e uma idéia ambiciosa na cabeça. Sua intenção: desenvolver um aditivo que pudesse revolucionar o desempenho dos motores de automóveis, tornando-os mais potentes e econômicos. À frente de uma equipe de físicos e químicos, Lo trabalhou duro por alguns meses, mas no final chegou a um resultado apenas razoável. Patrocinado pela American Technologies Group, empresa da Califórnia que depois o contrataria como seu diretor de pesquisa e desenvolvimento, ele concebeu a fórmula do "The Force", um aditivo que, por não ser assim tão diferente de seus concorrentes, acabou não alcançando o sucesso esperado. Se não conseguiu vincular seu nome a nenhum invento extraordinário no mundo dos transportes, no entanto, o cientista saiu do Caltech como autor de uma descoberta que pode apressar o desfecho de uma das mais acirradas polêmicas da área médica: a controvérsia sobre a eficácia da homeopatia, sistema terapêutico criado no século XVIII pelo médico alemão Samuel Hahnemann.

Na contra-mão da medicina convencional - a chamada alopatia -, que combate enfermidades com remédios que provocam no organismo o oposto dos sintomas da doença -, a homeopatia surpreende ao prescrever tratamentos com substâncias que podem causar no homem sadio exatamente os sintomas do mal a ser debelado. Na prática isso significa que, diante de alguém com dor de cabeça, um homeopata jamais receitará aspirina, um analgésico, como o faria um médico alopata. Ao contrário, poderá indicar ao paciente, por exemplo, uma solução à base de gelsêmio, planta venenosa que ataca os centros nervosos, provocando dor e disfunções mentais. Outra diferença gritante da homeopatia em relação à prática médica habitual está no próprio preparo dos remédios. Suas fórmulas são tão diluídas (veja gráfico na página XXXX) que muita gente duvida que exerçam alguma ação no organismo. Dificilmente uma dessas substâncias produziria dano a quem se expusesse a uma overdose ou tomasse o remédio errado, o que não ocorreria, obviamente, com alguém que ingerisse por engano um comprimido contra hipertensão. Enfim, para um homeopata, a doença, qualquer que seja a sua característica, é vista sempre como a manifestação de um desequilíbrio energético e não resultado da ação deletéria de bactérias e vírus, conforme ensina a medicina convencional. O remédio diluído seria, assim, o agente que ajuda a promover o reequilíbrio de um sistema de forças, estimulando as defesas naturais do organismo (veja quadro na página XXXX).

Estranho? Pode ser. Mas a cada dia cresce, em escala global, o número de pessoas que resolvem adotar os procedimentos homeopáticos e se dizem satisfeitas com os resultados obtidos no combate a diferentes tipos de doenças. Só nos Estados Unidos, onde a tecnologia de ponta e a pesquisa intensiva sustentam a medicina alopática mais avançada do mundo, o total de homeopatas em atividade saltou de 300 para 5 000 nas últimas duas décadas, enquanto as vendas de remédios específicos subiam 30%. No mesmo período, a Europa assistiu à multiplicação de clínicas e hospitais especializados e o Brasil, país onde atuam mais de 10 000 homeopatas, viu a homeopatia ser reconhecida como especialidade médica, com direito a representação no Conselho Federal de Medicina. Tamanho aumento da procura e os sinais de aprovação dos usuários, porém, não livraram os homeopatas de um velho incômodo: a oposição do establishment médico e da maioria dos pesquisadores, para os quais até agora ninguém conseguiu provar, à luz da ciência, que a homeopatia de fato funciona.

"Os remédios dinamizados (ultradiluídos), propostos por Hahnemann não passam de água pura ou bolinhas de açúcar. Homeopatia é fraude", diz Stephen Barret, membro do Conselho Nacional para Informações Confiáveis na Área da Saúde, de Allentown, Estados Unidos. O argumento de Barret é o de que exames químicos nunca identificaram nas fórmulas homeopáticas uma única molécula de essência medicinal. A recuperação de pacientes medicados com tais substâncias, segundo os críticos, só pode ser atribuída ou a erros de avaliação ou ao chamado efeito placebo - a cura por efeito psicológico. Os homeopatas sempre tiveram aí o seu calcanhar-de-aquiles. A impossibilidade de comprovar em laboratório conceitos como força vital e transporte de informação energética, usados freqüentemente para explicar a ação dos medicamentos dinamizados, constitui o maior obstáculo ao diálogo entre a homeopatia e a medicina alopática moderna, baseada em evidências. Mas é justamente esse impasse que pode ter ficado mais perto do fim após o achado de Shui Yin Lo.

Lo queria somente descobrir o aditivo perfeito, mas ao estudar o comportamento molecular da água em soluções que ultrapassam o número de Avogadro - a lei da química segundo a qual depois da 12ª diluição não existem mais moléculas da substância dissolvida presentes no líquido diluente – percebeu que se encontrava em uma outra trilha. Através das lentes de seu microscópio eletrônico, o químico descobriu que as moléculas de água, normalmente dispostas de modo aleatório em estado normal, após a ultradiluição passaram a formar cachos (clusters) de 6 a 100 unidades, todos alinhados de forma original e exibindo características específicas, como campo elétrico singular e adesão firme a superfícies. Ainda mais impressionante é o fato de que tais cachos se replicavam a cada nova diluição, mesmo que na água não mais existissem resquícios da substância adicionada no início.

Não se trata de uma experiência isolada. Em novembro passado, a revista americana New Scientist noticiou que o químico alemão Kurt Geckeler e seu colega Shashadhar Samal esbarraram em efeito semelhante ao estudarem o comportamento de diluições de fulerenos – substâncias formadas por átomos de carbono – no laboratório do Instituto de Ciência e Tecnologia de Kwangju, na Coréia do Sul. Eles constataram que, a cada nova diluição, algumas das moléculas dissolvidas contrariavam o saber convencional, formando conglomerados, em vez de se afastarem mais e mais umas das outras. O mesmo fenômeno foi observado em diluições de moléculas orgânicas, como a ciclodextrina, e inorgâncias, como a de cloreto de sódio, abrindo caminho para uma nova onda de especulações sobre a farmacopéia homeopática.

A partir da experiência anterior de Lo, um outro estudo, realizado pelo imunologista Benjamin Bonavida, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, chegou a constatar até que, em tubos de ensaio, a água com clusters podia estimular células do sistema imunológico até 100 vezes mais do que uma fração idêntica de água pura, o que sugere uma atividade biológica ainda por ser explicada. "As pesquisas mostram que as soluções homeopáticas não são água comum, mas um líquido alterado em sua estrutura que realmente pode modificar tecidos, órgãos e todo o corpo", afirma William Gray, homeopata de San Francisco, na Califórnia, e autor do livro Homeopathy: Science or Myth? (Homeopatia: Ciência ou Mito), não traduzido para o português. "Dizer que essa experiência comprova a eficácia dos remédios homeopáticos é uma tolice", rebate Barret. "Se uma simples molécula de alguma substância pode imprimir à água propriedades medicinais, então teremos de admitir que ao tomarmos um copo d´água estaremos ingerindo um remédio poderoso e de efeito imprevisível", ironiza o médico. Os homeopatas argumentam que as fórmulas dinamizadas utilizam água destilada e são submetidas a vigorosos movimentos que facilitam a transferência da informação molecular. Mas o próprio Bonavida prefere admitir que o fato de a água com clusters apresentar atividade imunobiológica não significa necessariamente a comprovação dos preceitos homeopáticos.

Desde o início, a teoria homeopática tem afirmado que nas soluções ultradiluídas, a água guarda a "imagem" do soluto (a substância dissolvida) tornando-se um veículo de transmissão de suas propriedades ainda que não mais existam ali moléculas da substância original. A experimentação clínica também já havia dado a Hahnemann, no século XVIII, a certeza de que quanto mais diluída a fórmula, maior a sua potência medicinal, algo que só agora pode estar ganhando uma explicação aceitável do ponto de vista da ciência acadêmica, com a descoberta dos clusters auto-replicantes. "No fundo, a homeopatia não trabalha com substâncias, mas com informação", diz Fernando Bignarde, coordenador do núcleo de pesquisa homeopática do Departamento de Geriatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Experimentos como os realizados no Caltech e no instituto de Kwangju ecoam estudos anteriores, que acabaram contestados ou não puderam ser repetidos por outros cientistas por motivos explicáveis ou não. Há 13 anos, por exemplo, o biólogo Jacques Beneviste, pesquisador do renomado instituto francês Inserm, também chamou a atenção da comunidade médica ao publicar na revista Nature seus estudos com uma solução ultradiluída de soro contra imunoglobulina que sugeriam a existência de uma certa "memória da água". Na época, Beneviste disse ter comprovado um efeito imunobiológico da solução sobre células brancas do sangue, em comparação com grupos de controle – uma descoberta que, por inferência, confirmaria a ação dos fármacos homeopáticos no organismo. A experiência não foi confirmada por outros pesquisadores e acabou descartada no circuito acadêmico, mas as conclusões de Benevides, de algum modo, estão sendo retomadas .

Outro ponto polêmico da homeopatia que vem sendo alvo de explicações atualizadas é a cura pela chamada lei do semelhante. O princípio da similitude não é uma invenção de Hahnemannn, mas do filósofo grego Hipócrates (460-377 a.C.), considerado o pai da medicina. Sua utilização na homeopatia, no entanto, sempre ocorreu de modo empírico, já que até há pouco nenhuma teoria conseguia mostrar de forma plausível como o uso de remédios que causam sintomas semelhantes aos da doença podem curar o doente.

A hipótese preferida dos homeopatas é a de que a cura decorre da reação secundária do organismo à substância farmacológica – o chamado efeito rebote, que acontece, inclusive, quando se administra remédios alopáticos. O exemplo mais comum desse fenômeno é a exarcebação dos sintomas de algumas doenças sempre que o paciente suspende a medicação que vinha tomando ou passa a tomá-la de modo irregular. Isso acontece com as drogas utilizadas para controlar a hipertensão arterial, os tranqüilizantes e antidepressivos, os broncodilatadores e até com antiácidos empregados contra gastrites e úlceras. Num esforço para manter a homeostase – o equilíbrio do meio interno –, nessas ocasiões o organismo reage promovendo sintomas opostos àqueles esperados com a aplicação do remédio.

"O efeito rebote é a reação da energia vital, que pode ser estimulada pelo medicamento homeopático sem os incômodos dos remédios alopáticos", diz Célia Barollo, diretora da Associação Paulista de Homeopatia. O assunto é discutido no livro Semelhante Cura Semelhante, do homeopata Marcus Zuliam Teixeira, mas a hipótese de que o efeito rebote explica a cura pelo princípio da similitude suscita divergências mesmo entre os homeopatas. "As doses infinitesimais jamais provocam reação secundária", afirma Romeu Carillo Junior, diretor da Associação Brasileira de Reciclagem e Assistência em Homeopatia (Abrah) e responsável pelo curso de pós-graduação em Homeopatia do Hospital do Servidor Municipal de São Paulo. "Esta, aliás, é a grande vantagem da experimentação com doses dinamizadas, uma vez que os sintomas obtidos são provocados apenas pelo efeito primário do medicamento". Se fosse o contrário, exemplifica Romeu, um paciente com insônia medicado com coffea cruda (café), o remédio homeopático para esse tipo de distúrbio, passaria a ter sonolência – a reação secundária do organismo – e não o restabelecimento do sono fisiológico, sem excesso. A tradição homeopática ensina que as fórmulas diluídas devem apenas promover o reequilíbrio da "energia vital", despertando a reação natural do organismo. Segundo Romeu, sua presença é captada por receptores biológicos em níveis celular e extracelular, previamente sensibilizados pela própria doença.

A verdade é que, apesar do aumento de estudos clínicos nessa área, a homeopatia ainda carece de um suporte razoável de pesquisas realizadas sob critérios aceitáveis pela ciência oficial. A principal cobrança dos críticos é quanto à escassez de ensaios do tipo duplo-cego, nos quais o resultado obtido com pacientes tratados com o remédio é comparado ao de um grupo de controle em que os doentes tomaram, sem saber, apenas uma substância inócua, o placebo. O neurocientista Renato Sabbatini, da Unicamp, afirma que entre mais de 4,5 milhões de estudos médicos e biológicos arquivados na Medline, base de dados produzida pela Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, ele encontrou apenas 61 pesquisas sobre homeopatia que seguem o padrão científico. Destas, apenas quatro atestavam uma ação dos remédios homeopáticos superior à dos placebos em casos de diarréias infantis, inflamação de ouvidos, coceira e irritação da pele provocadas por picadas de mosquito. (Um estudo da Universidade de Glasgow, na Escócia, mostrou que pacientes com rinite alérgica também responderam ao tratamento com homeopatia).

Os homeopatas se defendem acusando as instituições de pesquisa e os grandes laboratórios farmacêuticos de se recusarem a patrocinar estudos relacionados à homeopatia. Há obstáculos também nas universidades, onde se conta nos dedos as faculdades de medicina que têm a homeopatia em sua grade curricular. Por último, há quem conteste o critério de estudo duplo-cego. "Isso hoje é discutível", diz Romeu. "Artigos recentes da revista Science revelaram que grupos tratados apenas com placebos apresentam diferença de resultados bastante significativa, o que torna o método passível de crítica".

À margem do debate acadêmico, os usuários que engrossam as estatísticas homeopáticas, aqui e lá fora, aderem aos seus tratamentos motivados por atrativos que têm a ver, sobretudo, com a qualidade de vida. Ao contrário da medicina convencional, a homeopatia não é uma terapêutica invasiva, dispensando cirurgias, exames incômodos e drogas que provocam efeitos colaterais quase sempre perigosos. Sua abordagem é sistêmica e tem como foco o paciente e não a doença em si – detalhe que faz toda a diferença na relação médico-paciente. Ela é muito mais próxima e afetuosa do que na medicina alopática, cujos diagnósticos dependem hoje mais da tecnologia que da acuidade do médico. Uma consulta homeopática pode envolver perguntas sobre hábitos do dia-a-dia, incluindo até questões prosaicas como sonhos ou a sensação experimentada pelo paciente no pôr-do-sol. A importância dada aos sintomas mentais é tanta que a conversa com o homeopata, muitas vezes, assemelha-se a uma sessão com o psicológo. Ah!, há outro detalhe: a homeopatia é barata. O preço de um frasco com glóbulos homeopáticos (as bolinhas de açúcar, lembra?) varia de 7 a 10 reais. Já uma caixa de antibiótico... bem, você sabe.

Quando surgiu, há mais de 200 anos, a homeopatia significava um enorme progresso em relação à medicina da época, notável por suas técnicas torturantes, como as sangrias, prática que consistia em drenar o doente para extrair até dois terços de seu "sangue impuro". Só por milagre alguém conseguia escapar. Em meio a esse teatro de horrores, a aceitação da homeopatia foi rápida e ampla, ao ponto de no início do século passado um em cada seis médicos nos Estados Unidos ser homeopata. A situação mudou com a descoberta dos antibióticos e as vacinações em massa, que consolidaram a crença de que a tecnologia moderna era capaz de vencer sozinha a doença. Apesar dos desencontros doutrinários entre as duas vertentes da medicina ocidental, é provável que se esteja caminhando agora rumo ao equilíbrio. "Conforme o caso, os tratamentos alopático e homeopático não são incompatíveis", afirma Célia. "Se o paciente necessita de uma terapia de reposição, como a insulina e o hormônio tireoideano, o caminho é a prescrição alopática". A recíproca também tem sido verdadeira, segundo o cardiologista homeopata Rafael Karelisky, de São Paulo. "Todos os dias recebo em meu consultório pacientes encaminhados por colegas da medicina convencional", diz. Se essa tendência persistir, talvez o médico do futuro nem ao menos venha a ser rotulado de alopata ou homeopata pelo simples fato de enquadrar-se no perfil proposto por Antonio Cesar Deveza Silva, um homeopata paulistano: ele será um profissional que domina todas as formas de medicina e sabe usar, com precisão, a mais adequada a cada caso.

PARA SABER MAIS

Na Livraria:

Homeopatia, medicina interna e terapêutica

Romeu Carillo Junior, Ed. Santos, Santos, 2000

Medicina Quântica

Victor Mattos, Corpo e Mente, Curitiba, 2001

Homeopathy: science or myth?

Bill Gray, North Atlantic Books, Berkeley, Califórnia 2000

Na Internet:

www-2.cs.cmu.edu/~dst/ATG/lo-iestru.html

www.nib.unicamp.br/recursos/homeopatia

Que achou da reportagem acima? Tem algo a dizer ao autor? 
Envie agora sua mensagem (cite o título da matéria) para o jornalista Jomar Morais:

jmorais@abril.com.br


1ª PÁGINA COLUNISTAS JM na SUPER JM na EXAME JM na VIAGEM

ISTO É NATAL

ROTEIRO

EMP./TALENTOS

REDE AMIGOS

FALE COM A GENTE