
Ano
V // Nº 284
Texto
publicado na edição de 09 de fevereiro de 2000
da revista Exame
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Cartão
Arretado
HiperCard
financia o consumo de baixa renda no Nordeste
Por
JOMAR MORAIS, de Recife
HiperCard? Se você reside
abaixo da Bahia ou para lá do Maranhão,
certamente nunca ouviu falar. O HiperCard é um
fenômeno nordestino: um cartão de crédito
regional que, em dezembro, alcançou a marca de
1,3 milhão de usuários e 34 000
estabelecimentos filiados em oito dos nove
estados do Nordeste. Compare: o Credicard tem
atualmente 1 milhão de usuários na região e
todos os cartões Visa, operados por mais de 15
grandes bancos, contam apenas com 117 000
estabelecimentos credenciados no Nordeste.Note-se
que o HiperCard, ao contrário do Credicard e do
Visa, restringe sua atuação às 29 cidades onde
existem lojas do Bompreço, a rede de
supermercados que há 30 anos criou, por acaso,
este que viria a ser um de seus mais importantes
centros de receita..
Então,
o HiperCard é um cartão de loja? "Somos um
cartão de loja bem aceito no mercado", diz
Jaime de Queiroz Lima Filho, diretor financeiro
do grupo Bompreço. "Não pensamos em vôo
solo nem queremos trombar com os cartões
nacionais".
O
HiperCard faturou 1,9 bilhão de reais no ano
passado. Quase 1 bilhão veio de vendas feitas
por estabelecimentos filiados. Para se ter uma
idéia do que isso significa, basta lembrar que
no mesmo período as 100 lojas do Bompreço,
juntas,faturaram em torno de 2,5 bilhões de
reais.
O HiperCard tem hoje um
perfil tão ágil e agressivo quanto os dos
grandes cartões de crédito. Mais de 80% da rede
de lojas conveniadas estão servidas por
máquinas de liberação automática, parte do
serviço de atendimento ao cliente já é feito
via Internet e um Callcenter com 200 atendentes
orienta portadores de cartões e lojistas 24
horas por dia. A taxa cobrada das lojas é uma
das mais atraentes - cerca de 3,5% do valor da
venda -, e as antecipações de pagamento são
feitas com juros pouco acima da taxa CDI
(Certificados de Depósitos Interbancários,
usados em transações entre bancos). Não há
experiência igual no Brasil. Guardadas as
proporções, o HiperCard repete no país a
trajetória do Discover, o cartão de loja da
Sears que, nos Estados Unidos, devido à sua
enorme aceitação se transformou em um cartão
de crédito comum.
A
idéia do HiperCard nasceu modesta. Em 1970, o
empresário João Carlos Paes Mendonça, dono do
Bompreço, criou uma carteirinha de papel com a
única finalidade de facilitar o acatamento de
cheques de clientes preferenciais em suas lojas.
Logo os clientes passaram a usar a carteira para
trocar cheques nos caixas do supermercado, numa
época em que ainda não existiam os caixas
eletrônicos dos bancos. Um negócio inédito
começou a tomar corpo. Vieram em seguida o
crediário e o cartão de plástico. Como as
vendas cresciam a jato, não tardou para que
lojistas pedissem para vender pelo HiperCard em
seus estabelecimentos. Desde então, a fila de
pequenos comerciantes interessados em se filiar
ao cartão jamais se desfez.
Um dos segredos do HiperCard
é exigir a menor renda mínima entre os cartões
- apenas 300 reais - e não cobrar a taxa de
adesão nem anuidade. Para o usuário, é um
apelo quase irresistível numa região onde a
remuneração média, nas capitais, oscila em
torno de quatro salários mínimos. "Metade
de nosso faturamento vem das vendas feitas com o
HiperCard", diz Jurandir Pires Galdino, dono
da Casas Jurandir Pires, um bazar no centro de
Recife. Em novembro, suas duas lojas venderam,
pelo cartão, 1,4 milhão de reais em produtos
populares (Nos últimos anos, hotéis,
restaurantes caros, joalherias e empresas
aéreas, como a Transbrasil, passaram a aceitar o
cartão).
Outro
ponto a favor do cartão regional é a
musculatura financeira conquistada pelo
Bompreço, após a associação com o grupo
holandês Royal Ahold, em 1997. Pouco antes, o
Bompreço enfrentara dificuldades de caixa e o
HiperCard chegou a atrasar o pagamento aos
lojistas em até 48 horas. Hoje, as queixas se
resumem à limitação do crédito rotativo a
cinco parcelas - uma desvantagem ante o
parcelamento em até 12 vezes oferecido pelos
grandes cartões.
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