Ano VIII / Nº 321
Texto
publicado
na revista Super edição de aniversário, setembro de
2002
Leia mais:
Felicidade
nos genes?
Outras
reportagens
|
Você
é feliz 
e não sabia
A ciência afirma que o homem é mais feliz do que
imagina e a filosofia aponta trilhas mais curtas para
alcançar
a felicidade. Mas, afinal, o que ela é?
Por Jomar Morais
Antiga
lenda taoísta conta que, numa aldeia do norte da China, vivia
um ancião cuja única posse era um cavalo. Certo dia, o
animal desviou-se do pasto e sumiu no território de uma tribo
adversária. Os vizinhos, condoídos, foram ao encontro do
aldeão para consolá-lo mas, surpresos, ouviram o velho dizer:
"Talvez isso seja uma benção". Após alguns meses,
o cavalo retornou, acompanhado de uma égua, e a vizinhança
apressou-se em parabenizar o ancião. Outra vez, ele causou
espanto. "Talvez isso vire um infortúnio", afirmou.
O casal de animais reproduziu e, em pouco tempo, o aldeão
tornou-se próspero proprietário de um haras. Mas numa tarde
seu filho, que adorava cavalgar, caiu do cavalo e quebrou uma
perna, motivando de novo o lamento dos amigos. "Talvez
isso seja uma benção", repetiu o pai. Meses depois,
tribos inimigas atacaram a aldeia e todos os homens saudáveis
foram convocados à guerra. A maioria morreu. O ancião e seu
filho inválido, no entanto, escaparam da carnificina.
Guarde
na memória esta história. É dela que iremos extrair vários
ensinamentos ao longo desta reportagem. Por enquanto,
basta-nos perceber que, realçando o caráter fugaz dos
momentos da vida, a lenda do aldeão nos põe diante daquilo
que é, talvez, a nossa aspiração mais profunda e a mais
universal, a mais cultivada e perseguida – aquilo que
chamamos felicidade.
Felicidade?
Com a palavra Blaise Pascal, físico, matemático e filósofo
francês, autor de algumas das mais famosas reflexões sobre o
tema. "A felicidade é o motivo de todas as ações de
todos os homens, inclusive dos que vão se enforcar",
escreveu Pascal no século XVII. Afinal, quem duvida de que
até no gesto tresloucado do suicida está presente a
expectativa de algo melhor, a esperança do contentamento ou
da paz que faltam ao atormentado? Querer ser feliz é uma lei
natural da alma humana. Ou, como diz outro filósofo francês,
atual, Pascal Bruckner, é uma réplica moral da lei da
gravidade.
A
felicidade é o fio condutor da vida e o apelo que nos
espreita em cada esquina da existência. Assedia-nos na novela
da TV, que promove a catarse das frustrações e alimenta o
sonho do bem-estar imutável. Convence-nos na propaganda
criativa, que incita a buscá-la no produto à venda. Promete
dar-se em abundância nas religiões. Tira-nos do próprio
eixo quando emerge do olhar lânguido ou compassivo da pessoa
amada... Duro mesmo é definí-la e descobrir a trilha que nos
leve mais rapidamente ao seu encontro. Ao longo de séculos,
discursos incontáveis e rios de tinta foram usados para
anunciar teorias e promessas nessa direção. Ainda assim,
apesar de tudo o que sabemos hoje, a felicidade mantém a aura
de deusa misteriosa que só a especulação consegue traduzir
por inteiro.
Aos
6 bilhões de homens e mulheres que tentam alcançá-la, nos
quatro cantos do planeta, a ciência acena com uma boa
notícia: estudos realizados em vários países, nos últimos
15 anos, sugerem que não estamos tão distantes do estado de
ventura quanto, às vezes, imaginamos. O humor da maioria das
pessoas, revela pesquisa do Instituto Nacional do
Envelhecimento, dos Estados Unidos, costuma manter-se num
ponto médio – o chamado "ponto fixo de felicidade"
-, que oscila muito pouco ao longo da vida e que nem sempre
significa um marco neutro entre a depressão e a euforia. O
"ponto fixo" da maior parte dos humanos, aliás,
situa-se levemente acima do ponto neutro, razão por que se
deduz que a maioria da população é moderadamente feliz.
Dados
como esses atiçam cientistas na busca de uma explicação
biológica para a felicidade
e no esforço para que, talvez, um dia se chegue a algo
semelhante à soma, a pílula que na sociedade imaginada pelo
inglês Aldous Huxley, no livro Admirável Mundo de Novo,
mantinha as pessoas em estado de contentamento. A questão é
que o próprio conceito de ponto fixo de felicidade - apoiado,
basicamente, em medições do prazer – não encerra as
controvérsias sobre o assunto e, mais importante, não
esclarece que experiências do cotidiano garantem efetivamente
a ventura das pessoas.
O
que é felicidade? "A felicidade é a versão prolongada
do prazer", arrisca o psicólogo David Meyers, do Hope
College de Michigan, Estados Unidos. Pode ser, mas convém
lembrar: no século V, Santo Agostinho reuniu não menos de
289 respostas diferentes à indagação e, atualmente, uma
simples busca em qualquer livraria on-line é suficiente para
nos mostrar a dimensão da polêmica numa lista descomunal de
livros e diferentes abordagens sobre o tema. E o que fazer
para fisgá-la, seja a felicidade o prazer abundante, como diz
Meyers, ou algo mais complexo?
Para
a maioria da população, invariavelmente, ganhar mais
dinheiro é a resposta. É sempre a grana - e não o amor, a
amizade e mesmo o status - que aparece no topo das pesquisas
sobre o que pessoas consideram o principal ingrediente para
torná-las felizes. De fato, os estudos comprovam que o
dinheiro pode contribuir para a melhoria dos níveis de
satisfação, mas só por pouco tempo. A euforia de quem foi
subitamente agraciado com uma bolada, como os ganhadores da
loteria, costuma não costuma durar mais que um ou dois anos,
às vezes menos. Quem
é rico de berço ou tem fortuna há muito tempo, já não vê
no dinheiro os poderes mágicos que a intuição popular lhe
atribui.
Isso
vale até para países. Em três décadas de sondagens, o
Centro de Pesquisas de Opinião dos Estados Unidos constatou
que o índice de felicidade dos americanos permaneceu
praticamente estável, apesar de a renda média ter duplicado
entre 1957 e 1990, passando de 7 500 para 15 000 dólares, já
computada a inflação.
Segundo
centenas de estudos, contribuem também para o deleite pessoal
o prestígio e a fama, o círculo de amigos, o bom humor que
atrai companhias (as pessoas costumam evitar os depressivos)
e, claro, o casamento, a família e as emoções do sexo. Mas
nenhum desses itens garante por si mesmo o bem-estar e todos
estão sujeitos a mutação.
Está
na hora, então, de voltarmos à nossa lenda taoísta. Como os
cavalos que entram e saem da vida do aldeão, dinheiro,
prestígio, sexo e tudo mais que julgamos ser a nossa
felicidade é transitório. As circunstâncias mudam e com
elas, na maioria da vezes, os nossos humores. Além de
misteriosa, portanto, a felicidade é talvez a coisa mais
fugidia deste mundo.
"A
melhor maneira de definir felicidade é vê-la não como um
estado (prazer ou bem-estar, por exemplo), mas como um modo de
vida, o que implica o exercício de determinadas capacidades,
a realização de nossas potencialidades", diz o doutor
em filosofia Cláudio Reis, da Universidade de Brasília.
"O problema é saber o que exatamente compõe esse modo
de vida, algo impossível de ser reduzido a uma fórmula."
Tem sido assim desde a antigüidade. O grego Platão (428-347
a. C.), por exemplo, referia-se a uma certa "felicidade
verdadeira", superior ao simples ato de sentir-se feliz
em decorrência de prazeres triviais e à qual se teria acesso
pela adoção de critérios objetivos para uma vida reta, base
da harmonia espiritual. Na mesma Grécia, Diógenes e Zenão
de Eléia achavam que o caminho para ser feliz é a vida natural, fora
das cidades – aparentemente livre das injunções sociais e
de vícios como a luxúria, o orgulho e a maldade -, enquanto
os filósofos estóicos viam na disciplina intelectual e na
aceitação do inevitável a única maneira de o homem viver
bem.
Uma
das mais importantes contribuições da filosofia helênica
nesse sentido surgiu com Epicuro (340-270 a. C.), o inspirador
do hedonismo (doutrina que considera o prazer como princípio
e fim da vida moral), não raro mal interpretado pelos que lhe
desconhecem o pensamento. Numa mensagem ao discípulo Meneceu,
posteriormente rotulada de Carta sobre a felicidade,
ele discorreu sobre o exercício da filosofia como porta de
acesso a uma vida venturosa e abordou três questões
essenciais relacionadas à busca da felicidade: o medo da
morte, o desejo e o prazer.
Para
Epicuro, que encarava o fim da vida tão somente como a "privação
de todas sensações", a consciência de que a morte nada
significa é indispensável para que se alcance "a
fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo
infinito". Mas esse é um passo que deveria ser secundado
pelo "conhecimento seguro dos desejos" -
direcionando toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo
e para a serenidade do espírito - e, sobretudo, pela
compreensão do prazer como "nosso bem primeiro e inato",
mas nem por isso irrefreável. "Todo prazer constitui um
bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos
são escolhidos", escreveu o filósofo. "Do mesmo
modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem ser evitadas".
O
raciocínio epicurista é pragmático e leva em conta a
relação custo-benefício: o prazer deve ser evitado quando
dele resultarem efeitos desagradáveis, e o sofrimento
acolhido se, após a dor, advier um prazer maior. Contudo, ao
contrário do que supunham seus críticos, para Epicuro o
prazer não é o "gozo dos intemperantes", uma
experiência meramente sensorial, mas a "ausência de
sofrimentos físicos e de perturbações da alma." A
Meneceu, ele recomendou uma vida de hábitos simples que, a
seu ver, permitem o homem aproveitar melhor a abastança e a
enfrentar sem temor as vicissitudes da sorte.
"No
fundo, os epicuristas, como os estóicos, advertem-nos de que
deveríamos pôr a nossa felicidade naquilo que depende de
nós, sem esquecer da enorme vulnerabilidade da vida humana",
lembra Cláudio. E não há aí uma visão fatalista (para
Epicuro, o "futuro não é nem totalmente nosso, nem
totalmente não-nosso"), mas apenas o reconhecimento da
inevitabilidade da alternância.
Outra
vez estamos de volta à lenda do aldeão. Ela nos ensina a
olhar para a sorte e o infortúnio como opostos em um mesmo
ciclo de interação e transformação. Elementos que não
existem sozinhos no teatro da existência, sendo natural,
portanto, que se revezem na linha do destino, como previsto
nas frases do ancião da história. A sabedoria de viver
consistiria em saber lidar com o próprio movimento da vida,
usando-o a nosso favor com o manejo de recursos interiores.
No
livro Unlocking the mysteries of mood (Desvendando os
mistérios do humor), o divulgador
científico Stephen Braun registra que, ao contrário da
crença corrente, décadas de pesquisa mostraram que a
felicidade tem pouco a ver com riqueza ou outros fatores
externos. Em vez disso, pessoas felizes demonstram menos
dependência de bens materiais ou de situações, como se uma
qualidade intrínseca impedisse as circunstâncias exteriores
de esgotar sua fonte de contentamento íntimo. Até nos
momentos mais adversos, como a morte de um familiar ou o fim
de um relacionamento amoroso, elas retornam ao ponto de
equilíbrio mais rapidamente que os outros, embora a
capacidade de o homem adaptar-se a situações e recobrar a
sensação de bem-estar seja um dado universal. Pessoas assim,
ressalta Braun, aceitam a inevitabilidade dos maus momentos (e
sua carga de ansiedade, tristeza e medo), sem complicá-los
com a negação das emoções ou tentativas de fugas. Seu
segredo não é apoiarem-se na ventura ininterrupta ou numa
felicidade instalada no futuro ou no passado, mas
experimentarem todas as situações com um mínimo de dor e
sofrimento desnecessários - o que novamente nos remete ao
aldeão da lenda e sua atitude serena ante o inusitado.
"Estamos
separados da felicidade pela própria esperança que a busca",
diz o filósofo francês André Comte-Sponville. Por que nos
habituamos a esperá-la, acostumados à noção platônica de
que só desejamos o que nos falta, acabamos por negar a nós
próprios a chance de um contentamento real com as coisas
presentes, segundo Comte-Sponville. É como se adotássemos,
como uma maldição, a frase triste do filósofo alemão
Arthur Schopenhauer, no século XIX: "A vida oscila como
um pêndulo, da direita para a esquerda, do sofrimento ao
tédio".
Schopenhauer
cunhou sua frase inspirado no ensinamento de Buda acerca do
desejo e da natureza impermanente de todas as coisas,
expressando assim sua conclusão de que a vontade é uma
força cega que jamais será inteiramente satisfeita. A
felicidade, para ele, só poderia ser alcançada pela
renúncia e a compaixão, num estado de despojamento na
totalidade semelhante ao nirvana budista. Comte-Sponville, ao
contrário, acha que a saída pode ser mais fácil e menos
radical se, simplesmente, desvincularmos a felicidade da
esperança e o desejo do que ainda está por vir. "A
sabedoria é viver de verdade, em vez de esperar viver",
afirma. "É aí que encontramos as lições de Epicuro,
dos estóicos, de Spinoza ou de Buda." Sua receita para
isso é que amemos o que temos, pois só quando desejamos o
que temos – e não o que nos falta - sentimos prazer. Na
felicidade esperada, há sofrimento no início e, depois,
tédio, tão logo o desejo é satisfeito.
Impulso
inato nos humanos, querer ser feliz ganhou status de direito
social a partir do movimento iluminista, no século XVIII,
cuja filosofia influenciou a Revolução Francesa e a
independência dos Estados Unidos. Na Constituição americana,
inclusive, a busca da felicidade é garantida como um "direito
inalienável" dos cidadãos. Mas tamanho fascínio pela
ventura pode estar se transformando numa ameaça ao homem como
resultado de sua banalização, segundo Pascal Bruckner. A
sociedade moderna fez da felicidade um ideal coletivo e
obrigatório, numa atitude que beira a crueldade. "Hoje
em dia sofre-se também por não querer sofrer, do mesmo modo
que se pode adoecer de tanto procurar a saúde perfeita",
diz Bruckner. "Quem não é feliz se sente excluído e
fracassado".
Em
uma sociedade voltada para o hedonismo (no sentido vulgar,
não no filosófico) tudo se torna irritação e suplício,
conforme Bruckner. A obsessão pela euforia desperdiça a
chance das pequenas alegrias da vida, aquelas que estão ao
nosso alcance entre os momentos de pico, e oculta outros
valores que também dão sentido à existência, como o amor,
a justiça e a liberdade. Tomado como única realidade, o
prazer tende a confundir-se com a ordem das coisas, deixando
de ser prazer - razão por que, segundo o filósofo, é
necessário reconhecer o caráter intermitente da vida e
"preservar a todo custo as densidades desiguais da
existência".
Autor
do livro A euforia perpétua, em que questiona o dever
de felicidade na sociedade ocidental, Bruckner exorta as
pessoas a não se sentirem culpadas ou doentes por não serem
felizes. Ninguém é feliz ou infeliz o tempo todo e a ventura
real não está apoiada sobre um objeto preestabelecido, mas
se altera com a idade e o momento de cada um. "Mais
importante do que a felicidade, é a alegria de simplesmente
estar vivo, de estar aqui na terra para esta aventura efêmera",
diz Bruckner.
E
não será isso um motivo bastante para viver?
PARA
SABER MAIS
Na
livraria:
A
euforia perpétua,
Pascal Bruckner, Difel, Rio de Janeiro, 2002
A
felicidade, desesperadamente,
André Comte-Sponville, Martins Fontes, São Paulo, 2001
Carta
sobre a felicidade,
Epicuro, Unesp, São Paulo,1997
Unlocking
the mysteries of mood,
Stephen Braun, John Wiley & Sons, Nova York, EUA, 2000
The
discovery of happiness,
Stuart McCready, Sourcebooks, Naperville, EUA, 2001
|