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Estamos assistindo a um difícil cenário de guerras. Casos como o
do PCC (Primeiro Comando da Capital), no Brasil, ou de Israel e Líbano,
no Oriente Médio, geram angústia na população mundial e a
sensação de que estamos nos aproximando de algum tipo de colapso
nas relações entre as pessoas. Mas de onde vem tanta violência?
Se
o cenário parece assustador, ele não deve (ou não deveria), no
entanto, causar-nos surpresa. Guerras não se materializam no ar.
Elas são mais como frutas estragadas, que um dia foram somente
potenciais de uma semente, até crescerem e se tornarem frutos. Se
não fomos capazes de observar todo o desabrochar da guerra, da
semente ao fruto “maldito”, é sinal de que necessitamos tomar
mais consciência de como materializamos nossa realidade.
Observando
com mais cuidado, e fazendo uma investigação honesta de nós e
de nosso ambiente próximo (família, amigos e trabalho),
perceberemos que a grande guerra nada mais é que um reflexo de
nossas pequenas guerras. A destrutividade, a energia básica desse
e de outros tipos de violência, existe em todos nós e é sempre
a mesma – ela apenas se expressa de formas diferentes. Ela
existe como pensamentos de vingança em relação a um parente,
como fofoca no trabalho ou como destruição física de seres
humanos.
Assim,
se a maioria de nós não pode agir diretamente na conciliação
dos conflitos nacionais e mundiais, podemos, sim, tomar consciência
e ter uma atitude pró-ativa em relação às sementes e flores
destrutivas que cultivamos. Nas empresas, por exemplo, esse tipo
de energia está expresso na sede de poder e sucesso, na mentira,
no comentário maldoso e na falta de compaixão e união com
clientes, parceiros e fornecedores. Está, também, na busca
incessante de parecer ser o melhor, em vez de simplesmente fazer o
melhor. Para “parecer”, precisamos fazer um enorme esforço
(que implica em, muitas vezes, sermos violentos conosco e com os
outros) para empurrar goela abaixo o que queremos que os outros
pensem de nós. Acredite: isso é guerra.
A
guerra é fruto de uma crença. Nós acreditamos que o outro é o
responsável por nossos problemas e que o conflito serve para nos
impor em relação aos outros, garantindo, assim, nossos
interesses, sejam eles materiais ou ideológicos. Assim, se
destruirmos o “outro”, resolveremos a questão. Entretanto, a
realidade nos mostra que, baseada na lei da ação e reação,
guerra traz mais guerra. Numa guerra, embora tentemos nos enganar,
não há vencedores, apenas vencidos. Vencidos pela falta de amor,
sobretudo em relação a nós mesmos e aos outros.
Fazemos
guerra porque queremos preservar um bem material ou uma crença a
tal ponto que o outro se torna menos importante. Afinal, quando
estamos buscando o melhor para o outro, não há como haver
guerra. Tudo bem que esse é um mecanismo humano, e não
necessariamente condenável. Quando crianças passamos por isso o
tempo todo, quando fazíamos birra para obtermos coisas que, se
nos fossem concedidas, talvez prejudicassem outras pessoas ou
mesmo a nós. Mas uma criança, em geral, não tem muito mais que
lágrimas e berros para exigir o que quer. Nós, entretanto,
crescemos e possuímos armas, mísseis e bombas. Já não podemos
nos comportar de uma maneira inconseqüente, infantil (no sentido
negativo da palavra).
A
guerra tem o poder de aglutinar as pessoas no que elas têm de
pior. Além disso, ela gera uma crescente de violência. Primeiro
brigamos internamente, com nós mesmos, não aceitando as nossas
imperfeições. Depois, dentro de casa, com os pais, companheiros
e/ou filhos. Aí, com os vizinhos, com os do outro time, cor,
classe social, cidade, estado, país, ou qualquer outra forma de
agrupamento de pessoas. Dessa forma, quanto mais cegos e insensíveis,
mais guerreamos.
Assim,
sinto que esse é um período muito propício para acordamos e
tomarmos consciência de quais são nossos padrões atuais de
pensamentos, sentimentos, palavras e atitudes. De como estamos
materializando a guerra, desde o plano sutil ao mais grosseiro, já
que toda guerra começa em nossos pensamentos. Isso não significa
que não possamos ter pensamentos e sentimentos destrutivos.
Condenar e punir nossos pensamentos já seria um tipo de guerra.
Mas quer dizer que precisamos estar mais atentos, sermos mais
honestos. Pois, como somos seres humanos (ou seja, seres amantes)
a simples tomada de consciência já nos faz cair em si – ainda
que gradualmente. Ela permite que possamos escolher melhor nossas
palavras e atitudes.
Em
vez de resolver a questão pelo suposto pensamento lógico/racional,
no sentido de buscar qual guerra – ou qual lado da guerra – é
justo ou injusto, sinto que precisamos acessar valores mais nobres
e agir aqui e agora. Conscientes da nossa responsabilidade e do
poder que temos, podemos escolher não fofocar nesse momento, não
ferir, não humilhar. Não se vingar. Mesmo se a ferida e a reação
nos pareçam justas. Pois a vingança é a semente da próxima
guerra e esse fruto deverá cair, direta ou indiretamente, em cima
de nós.
O
mesmo se aplica se queremos acabar com a guerra dentro das
empresas. Nesse caso, precisamos observar o que falamos do nosso
colega, quem culpamos quando um projeto não dá certo, que tipo
de atitude temos frente a uma posição contrária à nossa opinião.
Evitar a próxima guerra, onde quer que ela possa ocorrer,
significa escolher outros padrões de pensamentos, palavras e
comportamentos, para, com consciência e valores humanos,
materializarmos um mundo de paz.
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