Até meados de maio
passado, o governo da Bahia comemorava
antecipadamente um trunfo que nenhum outro
estado podia exibir. Até o final deste ano,
indicavam as estatísticas, os gastos do
Tesouro baiano com o funcionalismo seriam
reduzidos a 47% de sua receita líquida,
patamar muito abaixo do limite legal de 60%
para comprometimento das receitas dos estados
com a folha de pessoal. Não será mais
assim. Um desastroso erro de cálculo
cometido quando o governo baiano decidiu
adotar o piso de 180 reais para o
funcionalismo, à época em que o senador
Antônio Carlos Magalhães defendia no
Congresso o mesmo valor para o salário
mínimo, acabou queimando todos o avanço em
direção à meta inédita. Em vez de um
aumento de 1% na folha de 2 bilhões de reais
por ano, como se imaginava, o novo piso terá
um impacto sete vezes maior. Só com um
esforço extraordinário para aumentar a
arrecadação de ICMS, já anunciado, a Bahia
conseguirá manter os gastos com servidores
nos mesmos 53% registrados no ano passado.
Apesar desse
erro monumental, que custou o cargo do então
secretário de administração Sérgio
Augusto Moysés, é da Bahia que surge um dos
sinais mais promissores de que o Brasil
começa a encontrar saídas para o seu maior
problema econômico: o déficit da
Previdência Social. Até que o jogo da
política estragasse os primeiros resultados
de um trabalho sério, os gastos baianos com
pessoal vinham caindo, entre outros fatores,
por que uma fórmula engenhosa - o Fundo de
Custeio da Previdência Social, o Funprev
tem conseguido reduzir gradualmente o
peso dos 64 000 aposentados e pensionistas do
serviço público nas despesas do Tesouro
estadual. Se não ocorrerem outros
equívocos, o Funprev poderá livrar o
governo da Bahia do ônus de tapar com
dinheiro do contribuinte o buraco da
Previdência a partir de 2019. Até lá, a
cada ano o Fundo deve liberar dos
compromissos com pessoal 300 milhões de
reais, que estarão disponíveis para
investimentos em outras áreas.
O Funprev foi
criado há dois anos para contornar um
passivo atuarial de 2,5 bilhões de reais,
herdado do extinto Instituto de Aposentadoria
e Pensão dos Servidores Públicos, Iapseb.
Ao que tudo indica, está dando certo. O
sucesso da experiência, em sua fase inicial,
transformou-o em modelo para governos que
buscam soluções para problemas semelhantes,
inclusive os do Rio de Janeiro e São Paulo.
"O mérito do Funprev é ter iniciado,
na prática, uma nova sistemática que
balizou outros estados a buscarem seus
caminhos", diz a nova secretária de
Administração da Bahia, Ana Benvinda. E os
estados, como se sabe, são responsáveis
pela fatia mais expressiva do gigantesco
rombo de 45 bilhões de reais na Previdência
brasileira. A longo prazo, todos têm em
comum o objetivo de conduzir a Previdência
do atual estágio paternalista, gerador de
déficits, a um modelo de capitalização
semelhante ao dos fundos fechados de
previdência complementar, patrocinados por
empresas privadas e estatais.
É consensual
que não dá mais para continuar pagando
aposentadorias e pensões que não têm a
menor relação com as contribuições
acumuladas pelos beneficiários, ainda que se
espere da Previdência estatal uma certa
função redistributiva. Além disso, o
desequilíbrio atuarial torna-se uma ameaça
ainda maior diante do envelhecimento da
população, que tende a aumentar o número
de beneficiários a um ritmo mais rápido que
o dos financiadores do sistema em
tese, os trabalhadores em atividade.
"Sem a
criação do Funprev, já em 2011 teríamos
uma situação muito difícil de ser
resolvida", afirma Ana Benvinda. Note:
quem diz isso é a representante de um estado
que, de certa forma, é exemplar no trato da
questão dos gastos com pessoal. Há algum
tempo a Bahia vem enxugando sua folha com
programas de demissão voluntária (PDV) e
já se encontrava enquadrada nas exigências
da chamada Lei Camata, aquela que obriga os
estados a gastarem no máximo 60% de sua
receita com salários e aposentadorias,
quando decidiu criar o fundo. Imagine-se,
então, o tamanho do desastre futuro em
estados como Alagoas, onde cerca de 90% da
receita estadual são utilizados para pagar o
funcionalismo.
A Bahia
conseguiu sair na frente com a idéia e
implantação do Funprev graças, também, a
uma outra particularidade: foi o estado cujo
governo, desde o início, mostrou-se disposto
a fazer aporte de dinheiro, e não apenas de
imóveis, para formar o patrimônio de seu
fundo de previdência, assegurando-lhe
reservas confiáveis. O capital atual do
Funprev, cerca de 1 bilhão de reais, foi
iniciado com o aporte de 400 milhões em
dinheiro vivo feito pelo governo baiano, que
para isso usou parte dos 1,7 bilhão de reais
obtidos com a venda da Companhia de
Eletricidade da Bahia, a Coelba.
Recentemente, o governo transferiu ao fundo
mais 450 milhões de reais, obtidos junto à
Caixa Econômica Federal como antecipação
de recursos da futura privatização da
Embasa, a estatal de água e esgoto.
Na maioria dos
estados, a criação de fundos semelhantes
tem esbarrado na falta de recursos ou de
vontade política dos governantes. Rio de
Janeiro e Paraná estão estruturando os seus
fundos apoiados na antecipação, pelo
governo federal, dos royalties pela
exploração de petróleo um tipo de
acordo que poderá ser estendido aos estados
de Sergipe, Amazonas, Rio Grande do Norte e
Espírito Santo. Em São Paulo, o
desinteresse da Assembléia Legislativa em
votar a reforma da Previdência estadual
paralisou o processo de constituição do
fundo paulista.
A fórmula
baiana prevê o ajuste gradual da conta da
Previdência com alíquotas progressivas para
os participantes do Funprev e seu
patrocinador, o governo do estado. Até
dezembro, vige a alíquota única de 6,5%. A
partir de 2001, haverá o aumento de 1,5
ponto percentual por ano até o limite de 12%
para os servidores e 21% para o estado. Os
estudos atuariais indicam que esses 33%
serão suficientes para gerar o equilíbrio
necessário à manutenção do universo
funcional existente, sem a entrada de novos
contratados ou a concessão de novos
benefícios. Só isso já será um feito. Mas
daí até à meta ideal de o Funprev
funcionar como um fundo de previdência
clássico ainda haverá um longo caminho.
A questão é
que não dá para imaginar um fundo de
previdência autônomo e saudável quando os
benefícios que ele paga excedem as
contribuições acumuladas pelos segurados.
É simplesmente impossível, mas o que fazer
quando a Constituição e as leis que regem a
previdência dos servidores públicos
garantem a cada aposentado o direito de
ganhar o correspondente ao último salário e
não proporcionalmente à poupança feita
durante o tempo de contribuição? Antes de
ser demitido, o ex-secretário Moysés
costumava dizer que, sem uma reforma mais
profunda da legislação previdenciária, por
volta de 2025 o equilíbrio do Funprev será
rompido e, mais uma vez, o governo baiano
será chamado a pagar o pato. Na verdade,
essa ameaça ficou ainda mais próxima depois
da adoção do piso de 180 reais, endossado
por Moysés.
A
capitalização do Funprev e a boa
rentabilidade das aplicações acima
de 15% ao ano permitiram que algumas
metas até fossem superadas nos primeiros
dois anos, como é o caso da transferência
total dos aposentados e pensionistas atuais
para o fundo, antes planejada por etapas até
2018. O sucesso dos PDV baianos tem ajudado a
reduzir o número de funcionários e,
consequentemente, de futuros aposentados. E
um sistema de gratificação mantém na ativa
funcionários que já possuem direito à
aposentadoria.
Ao final do
período de transição dos fundos públicos
estaduais, o Brasil poderá chegar, talvez,
ao modelo de previdência adotado pelo Chile,
país pioneiro nesse tipo de mudança na
América Latina, e o México. Em ambos, os
contribuintes do antigo sistema de
previdência estatal, funcionários públicos
ou da iniciativa privada, foram transferidos
para fundos de previdência privados. Ao
estado cabe agora o papel de suplementar o
pagamento de uma aposentadoria mínima aos
mais pobres.