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Ano VI // Nº 294

Texto publicado na edição de 28 de junho de 2000 da revista Exame.

Previdência à baiana

A fórmula do Funprev vira modelo para outros estados

Por JOMAR MORAIS, de Salvador

Até meados de maio passado, o governo da Bahia comemorava antecipadamente um trunfo que nenhum outro estado podia exibir. Até o final deste ano, indicavam as estatísticas, os gastos do Tesouro baiano com o funcionalismo seriam reduzidos a 47% de sua receita líquida, patamar muito abaixo do limite legal de 60% para comprometimento das receitas dos estados com a folha de pessoal. Não será mais assim. Um desastroso erro de cálculo cometido quando o governo baiano decidiu adotar o piso de 180 reais para o funcionalismo, à época em que o senador Antônio Carlos Magalhães defendia no Congresso o mesmo valor para o salário mínimo, acabou queimando todos o avanço em direção à meta inédita. Em vez de um aumento de 1% na folha de 2 bilhões de reais por ano, como se imaginava, o novo piso terá um impacto sete vezes maior. Só com um esforço extraordinário para aumentar a arrecadação de ICMS, já anunciado, a Bahia conseguirá manter os gastos com servidores nos mesmos 53% registrados no ano passado.

Apesar desse erro monumental, que custou o cargo do então secretário de administração Sérgio Augusto Moysés, é da Bahia que surge um dos sinais mais promissores de que o Brasil começa a encontrar saídas para o seu maior problema econômico: o déficit da Previdência Social. Até que o jogo da política estragasse os primeiros resultados de um trabalho sério, os gastos baianos com pessoal vinham caindo, entre outros fatores, por que uma fórmula engenhosa - o Fundo de Custeio da Previdência Social, o Funprev – tem conseguido reduzir gradualmente o peso dos 64 000 aposentados e pensionistas do serviço público nas despesas do Tesouro estadual. Se não ocorrerem outros equívocos, o Funprev poderá livrar o governo da Bahia do ônus de tapar com dinheiro do contribuinte o buraco da Previdência a partir de 2019. Até lá, a cada ano o Fundo deve liberar dos compromissos com pessoal 300 milhões de reais, que estarão disponíveis para investimentos em outras áreas.

O Funprev foi criado há dois anos para contornar um passivo atuarial de 2,5 bilhões de reais, herdado do extinto Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Servidores Públicos, Iapseb. Ao que tudo indica, está dando certo. O sucesso da experiência, em sua fase inicial, transformou-o em modelo para governos que buscam soluções para problemas semelhantes, inclusive os do Rio de Janeiro e São Paulo. "O mérito do Funprev é ter iniciado, na prática, uma nova sistemática que balizou outros estados a buscarem seus caminhos", diz a nova secretária de Administração da Bahia, Ana Benvinda. E os estados, como se sabe, são responsáveis pela fatia mais expressiva do gigantesco rombo de 45 bilhões de reais na Previdência brasileira. A longo prazo, todos têm em comum o objetivo de conduzir a Previdência do atual estágio paternalista, gerador de déficits, a um modelo de capitalização semelhante ao dos fundos fechados de previdência complementar, patrocinados por empresas privadas e estatais.

É consensual que não dá mais para continuar pagando aposentadorias e pensões que não têm a menor relação com as contribuições acumuladas pelos beneficiários, ainda que se espere da Previdência estatal uma certa função redistributiva. Além disso, o desequilíbrio atuarial torna-se uma ameaça ainda maior diante do envelhecimento da população, que tende a aumentar o número de beneficiários a um ritmo mais rápido que o dos financiadores do sistema – em tese, os trabalhadores em atividade.

"Sem a criação do Funprev, já em 2011 teríamos uma situação muito difícil de ser resolvida", afirma Ana Benvinda. Note: quem diz isso é a representante de um estado que, de certa forma, é exemplar no trato da questão dos gastos com pessoal. Há algum tempo a Bahia vem enxugando sua folha com programas de demissão voluntária (PDV) e já se encontrava enquadrada nas exigências da chamada Lei Camata, aquela que obriga os estados a gastarem no máximo 60% de sua receita com salários e aposentadorias, quando decidiu criar o fundo. Imagine-se, então, o tamanho do desastre futuro em estados como Alagoas, onde cerca de 90% da receita estadual são utilizados para pagar o funcionalismo.

A Bahia conseguiu sair na frente com a idéia e implantação do Funprev graças, também, a uma outra particularidade: foi o estado cujo governo, desde o início, mostrou-se disposto a fazer aporte de dinheiro, e não apenas de imóveis, para formar o patrimônio de seu fundo de previdência, assegurando-lhe reservas confiáveis. O capital atual do Funprev, cerca de 1 bilhão de reais, foi iniciado com o aporte de 400 milhões em dinheiro vivo feito pelo governo baiano, que para isso usou parte dos 1,7 bilhão de reais obtidos com a venda da Companhia de Eletricidade da Bahia, a Coelba. Recentemente, o governo transferiu ao fundo mais 450 milhões de reais, obtidos junto à Caixa Econômica Federal como antecipação de recursos da futura privatização da Embasa, a estatal de água e esgoto.

Na maioria dos estados, a criação de fundos semelhantes tem esbarrado na falta de recursos ou de vontade política dos governantes. Rio de Janeiro e Paraná estão estruturando os seus fundos apoiados na antecipação, pelo governo federal, dos royalties pela exploração de petróleo – um tipo de acordo que poderá ser estendido aos estados de Sergipe, Amazonas, Rio Grande do Norte e Espírito Santo. Em São Paulo, o desinteresse da Assembléia Legislativa em votar a reforma da Previdência estadual paralisou o processo de constituição do fundo paulista.

A fórmula baiana prevê o ajuste gradual da conta da Previdência com alíquotas progressivas para os participantes do Funprev e seu patrocinador, o governo do estado. Até dezembro, vige a alíquota única de 6,5%. A partir de 2001, haverá o aumento de 1,5 ponto percentual por ano até o limite de 12% para os servidores e 21% para o estado. Os estudos atuariais indicam que esses 33% serão suficientes para gerar o equilíbrio necessário à manutenção do universo funcional existente, sem a entrada de novos contratados ou a concessão de novos benefícios. Só isso já será um feito. Mas daí até à meta ideal de o Funprev funcionar como um fundo de previdência clássico ainda haverá um longo caminho.

A questão é que não dá para imaginar um fundo de previdência autônomo e saudável quando os benefícios que ele paga excedem as contribuições acumuladas pelos segurados. É simplesmente impossível, mas o que fazer quando a Constituição e as leis que regem a previdência dos servidores públicos garantem a cada aposentado o direito de ganhar o correspondente ao último salário e não proporcionalmente à poupança feita durante o tempo de contribuição? Antes de ser demitido, o ex-secretário Moysés costumava dizer que, sem uma reforma mais profunda da legislação previdenciária, por volta de 2025 o equilíbrio do Funprev será rompido e, mais uma vez, o governo baiano será chamado a pagar o pato. Na verdade, essa ameaça ficou ainda mais próxima depois da adoção do piso de 180 reais, endossado por Moysés.

A capitalização do Funprev e a boa rentabilidade das aplicações – acima de 15% ao ano – permitiram que algumas metas até fossem superadas nos primeiros dois anos, como é o caso da transferência total dos aposentados e pensionistas atuais para o fundo, antes planejada por etapas até 2018. O sucesso dos PDV baianos tem ajudado a reduzir o número de funcionários e, consequentemente, de futuros aposentados. E um sistema de gratificação mantém na ativa funcionários que já possuem direito à aposentadoria.

Ao final do período de transição dos fundos públicos estaduais, o Brasil poderá chegar, talvez, ao modelo de previdência adotado pelo Chile, país pioneiro nesse tipo de mudança na América Latina, e o México. Em ambos, os contribuintes do antigo sistema de previdência estatal, funcionários públicos ou da iniciativa privada, foram transferidos para fundos de previdência privados. Ao estado cabe agora o papel de suplementar o pagamento de uma aposentadoria mínima aos mais pobres.

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