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Ano V // Nº 274

Texto publicado na edição 25 de agosto de 1999 da revista Exame

A Califórnia é aqui

Por JOMAR MORAIS, de Petrolina

Em apenas duas décadas, a fruticultura gerou um negócio que já movimenta quase meio bilhão de dólares no Vale do São Francisco

As mãos ásperas e as rugas precoces na pele escurecida pelo sol não deixam dúvidas sobre a figura esguia que contempla o coqueiral. Ali está um homem que durante décadas trabalhou duro, lavrando a terra sob calor intenso e difíceis condições de vida. Sua voz é mansa e os gestos comedidos, mas não há sinal de cansaço. Ao contrário. Como um menino encantado diante do brinquedo, seus olhos brilham intensamente enquanto ele fala de sua saga nos últimos 25 anos. Antônio Alencar Sampaio, 63 anos, não é apenas um sertanejo forte. É pioneiro de uma história de sucesso que promete mudar a agricultura do Nordeste e cujos ganhos começam agora a ser contabilizados numa escala de milhões de dólares.

Em 1974, Antônio era apenas mais um desempregado em Salgueiro, interior de Pernambuco, quando ouviu a notícia de que em Petrolina, cidade pernambucana à margem do rio São Francisco, na divisa com a Bahia, o governo estava distribuindo lotes de seis hectares ao longo dos primeiros canais de irrigação no semi-árido. "Cheguei aqui sem nenhum centavo no bolso", relembra. E chegou atrasado. Não havia mais lotes e, sem renda, Antônio virou mascate nas vilas de colonos, revendendo mercadorias compradas com o minguado salário de professora da mulher, Margarida. Só mais tarde conseguiria realizar o sonho da terra própria ao comprar, fiado, por 2 000 cruzeiros, o sítio de um amigo, mas a estréia na agricultura não foi nada tranqüila.

Teimoso e intuitivo, Antônio decidiu plantar coco-anão numa terra que, pelas normas oficiais, só poderia receber feijão, mandioca, tomate. Meteu-se, assim, numa briga feia com agrônomos e burocratas da Codevasf, a Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco, que se arrastou por cinco anos e, por pouco, não o deixou sem acesso à água dos canais. O tempo se encarregaria de mostrar que o agricultor estava certo. No ano passado, depois de duplicar a área da propriedade e implantar ali um moderno sistema de irrigação por microaspersão, Antônio comemorou um faturamento de 80 000 reais com a produção de 240 000 cocos - um senhor resultado para quem chegou como ele a uma região antes tida como inóspita e improdutiva. Na sua casa, ainda modesta mas bem mais ampla que o quarto-e-sala dos primeiros tempos, há uma Pampa na garagem e os filhos do casal, Paulo e Renata, residem agora em Recife, onde cursam universidade. "Chegou a hora de vender lá fora", diz Antônio, um homem que adora olhar para frente.

Agora um outro caso. Há 15 anos, cultivar frutas em Petrolina já não era mais heresia. A própria Codevasf incentivava o plantio e a região estava prestes a se transformar num imenso pomar. Foi nessa época que, em Recife, o empreiteiro Aristeu Chaves teve um estalo. Se os negócios não andavam tão bem para ele na construção civil, por que não diversificar o investimento? Por que não a fruticultura? Atraído pelo preço generoso da terra na região - ainda hoje um hectare custa de 300 a 1 000 reais, dependendo da proximidade ao rio São Francisco -, Aristeu adquiriu uma área de 670 hectares e deu partida a uma experiência então inédita: o cultivo de manga sem caroço para exportação, com o emprego de técnicas avançadas de irrigação e programação genética. Foi um sucesso. Sua fazenda, a Fruitfort, a maior empresa rural de Petrolina, deve exportar neste ano 13 000 toneladas da fruta para os Estados Unidos, Europa e Oriente Médio e faturar cerca de 10 milhões de dólares. A Fruitfort tem 300 empregados permanentes e outros 200 temporários, número que deverá dobrar depois que Aristeu concluir seu novo projeto: ele está implantando em Sento Sé, no lado baiano do vale do São Francisco, uma segunda unidade rural, com 800 hectares, destinada ao cultivo de uva sem semente.

As histórias de Antônio Sampaio e Aristeu Chaves são emblemáticas de uma revolução silenciosa, para a qual eles abriram caminho com a sua cota de ousadia e risco: a revolução da fruticultura irrigada no sertão do São Francisco. Antônio é um símbolo da fase de desbravamento, levada adiante com sacrifícios por colonos muitas vezes despreparados, mas tomados de impulso inovador. Mais de 80% desses pioneiros fracassaram depois por algum motivo e passaram suas terras a terceiros. Sobraram os que, como Antônio, tiveram intuição para prever o futuro e talento para administrar dificuldades. Aristeu marca o começo de um novo tempo, era de uma fruticultura empresarial e planejada, voltada para vôos mais altos no mercado global.

Duas décadas depois, a produção de frutas garante o emprego de 400 000 pessoas em Petrolina e arredores e movimenta 430 milhões de dólares por ano, quase 70% do PIB regional. E a tendência é que até o ano 2 005 essa cifra venha a dobrar, sob o impacto da chegada à região de gigantes do mercado brasileiro e empresas multinacionais. Carrefour, Bom Preço, Magnesita, Grupo Sílvio Santos, Grupo Queiroz Galvão... todos eles estão lá, com suas fazendas automatizadas, investindo pesado em tecnologia e de olhos fixos no futuro. A meta é abocanhar parcela cada vez maior dos 29 bilhões de dólares que circulam no comércio mundial de frutas frescas, dos quais o Brasil tem fisgado apenas 300 milhões de dólares.

"Aqui há clima, solo, água e mão-de-obra abundante para se produzir frutas com a qualidade que o mercado espera", diz Arnaldo Eijsink, diretor de agropecuária do Carrefour, empresa que tem duas fazendas de uva na região e no momento implanta sua terceira unidade. "Nenhuma área do mundo apresenta tantas vantagens comparativas", reforça o prefeito de Petrolina, Guilherme Coelho. Em Petrolina, por exemplo, pode-se obter até 2,5 safras de uva por ano, o dobro do que se consegue na Califórnia. Basta podar o parreiral 120 dias antes para se ter produção em qualquer época do ano. Mais: o preço da mão-de-obra - em torno de 7 reais o dia - é 10 a 20 vezes mais baixo que nas fazendas americanas e européias.

Na verdade, a área irrigada compreende 300 000 hectares e se espalha por quase 100 pequenos municípios - circuito também conhecido como Pólo Petrolina-Juazeiro, numa alusão à cidade baiana que, na margem oposta do São Francisco, contempla e rivaliza com a parceira pernambucana. Até a chegada das grandes empresas rurais, a fruticultura no pólo era uma atividade familiar, com produções modestas comercializadas em galpões de ceasas. O cenário hoje é de automação e produção em larga escala. Na fazenda Frutivita, do empresário Eduardo Maciel, irmão do vice-presidente da República, Marco Maciel, com participação acionária do grupo Sílvio Santos, quase tudo foi automatizado. Mais de 20 quilômetros de tubulações e drenos subterrâneos garantem a irrigação por microaspersão em 160 hectares plantados com uva e manga. A empresa opera equipamentos de fertirrigação importados de Israel e é uma das duas únicas fazendas da região - a outra é a Frutimag, da Magnesita - a possuir sua própria estação agrometeorológica. Graças a essa particularidade é possível fazer o controle rigoroso do índice de evaporação na propriedade e providenciar a reposição precisa da água perdida pelas videiras e mangueiras - o jeito científico de gerenciar a consistência, o aspecto e o sabor das frutas.

O Carrefour, que investiu 20 milhões de dólares em sistemas de microaspersão e gotejamento nas fazendas Vale das Uvas e Labrunier, preocupa-se agora com um outro detalhe na ordem do dia do mercado global: a produção de frutas ecologicamente correta. A fazenda Orgânica do Vale, que entrará em operação em outubro, será a primeira da região a produzir uvas sem semente (seedless) exclusivamente com adubos naturais. "Em três anos não haverá mais espaço para quem produz com agrotóxicos", diz Hélio Ribeiro, gerente da Orgânica. "Os consumidores do primeiro mundo exigem manejo orgânico total".

Petrolina acaba de ganhar três novos motivos para manter em alta a expectativa de bons negócios:

1· A pista do aeroporto local foi ampliada de 2 100 para 3 000 metros. Com isso, grandes aviões cargueiros podem decolar com carga máxima e tanque cheio, encurtando os vôos rumo à Europa para apenas 9 horas.
1· O Sicvale, primeiro sistema de leilões online da região, entrou em operação neste mês e nos próximos três anos deve multiplicar por 10 o volume de vendas de produtos agrícolas.

3· Começa agora a grande safra de manga, o carro-chefe da agricultura, o que assegura uma injeção de 150 milhões de dólares na economia regional nos próximos meses.

São ótimas notícias para o vale do São Francisco. Com a nova pista de pouso, os fruticultores habilitam-se a colocar na mesa de europeus e americanos frutas fresquíssimas e saudáveis, embolsando o sobrepreço que o mercado aceita pagar por frutas by air. As exportações tradicionais, feitas por navio, precisam de pelo menos 13 dias para chegarem à Europa. Com o SicVale, um marketing board operando em tempo integral vai garantir a venda de frutas e legumes com taxas de intermediação cinco vezes menores que as atuais, em torno de 15% no mercado interno.

O despertar da fruticultura azeitou a economia e provocou um salto na qualidade de vida em Petrolina. Há uma década a cidade cresce a taxas superiores a 10% ao ano e essa opulência não pára de atrair forasteiros. Antigo ponto de encontro de tropeiros, Petrolina levou quase um século para chegar a 60 000 habitantes, em 1970 - e menos de três décadas para triplicar a população. Dois terços de seus moradores vieram de outros estados, mas o perfil de quem chega para ficar está mudando.
"A fruticultura qualifica e remunera melhor o trabalhador e, com isso, fomenta o surgimento de uma classe média rural", diz Fernando Brendaglia de Almeida, superintendente da Valexport, consórcio de 53 empresas rurais e cooperativas que atua para abrir espaços no mercado internacional. É verdade. Um gerente de fazenda na região chega a ganhar até 5 000 reais. No campo, não há quem receba menos de 200 reais por mês exercendo a função mais simples, a capinagem. Para se ter uma idéia do que isso representa, basta lembrar que na Zona da Mata pernambucana um cortador de cana sobrevive com menos de um salário mínimo. Mesmo os pequenos empreendedores rurais se esforçam para adotar novas tecnologias e remunerar melhor os trabalhadores. "Quase toda nossa clientela aqui está no campo", diz Domingos Sávio Guimarães, gerente do Sebrae. "É gente que procura atualizar-se para não ficar de fora da festa da fruticultura profissionalizada".

É também a classe média de outras cidades, e não apenas os sem-terra, que há algum tempo desembarca em Petrolina, disposta a disputar nichos de mercados ainda virgens de concorrência. Nessa leva estão, sobretudo, agrônomos, profissionais liberais, técnicos de várias áreas e comerciantes. O próprio Fernando Almeida é um exemplar do que se costuma chamar na região de neoretirante - o técnico ou profissional liberal do Sudeste que pegou carona na modernização da fruticultura. Há seis anos, Almeida morava com a família num apartamento de três dormitórios em São Paulo e sonhava trocar a rotina de funcionário da Gerência de Exportação da Cooperativa Agrícola de Cotia por uma oportunidade de trabalho que aliasse crescimento profissional a melhor qualidade de vida. Diante do convite da Valexport não hesitou. "O futuro está aqui", diz Almeida, satisfeito com a possibilidade de administrar o tempo sem dificuldade numa cidade que ainda não conhece congestionamentos de trânsito.

Quem se preparou para o estágio empresarial da fruticultura, já saboreia bons frutos profissionais. O administrador Pedro Tasso Filho é um desses felizardos. Há 20 anos, o jovem Pedro vendeu um velho fusca e, com o dinheiro levantado, foi estudar e trabalhar em Israel. A experiência de dois anos num kibutz iria mudar seu destino. Hoje, como administrador da Frutivita, ele enfrenta o desafio de fazer cumprir, em todas as etapas da produção, o check list da trading inglesa Macleod McCombe, uma das mais exigentes do mundo quanto a critérios de qualidade das frutas que negocia. Com a grande empresa rural vieram também os incentivos e benefícios, os prêmios por produção e as promoções internas, itens então desconhecidos dos trabalhadores do campo. O técnico agrícola Hélio Ribeiro, que atualmente comanda as fazendas do Carrefour, começou na Vale das Frutas como simples office-boy.

O progresso fez surgir ainda um novo tipo de empreendedor urbano. Veja-se o caso da Juagro, revendedora de insumos e implementos agrícolas de Juazeiro. A empresa foi criada em 1995 por Isaac Cavalcante de Carvalho, 27 anos, com apoio do pai Celso, um colono que prosperou fazendo parcerias com pequenos produtores. Celso morreu em seguida, mas a Juagro cresceu e deve faturar neste ano 13 milhões de reais. O segredo: a gestão profissional imprimida pelo jovem Isaac. Na Juagro todos os vendedores são técnicos agrícolas ou agrônomos, habilitados, portanto, a prestar suporte técnico ao cliente. Metade dos 54 funcionários da empresa tem curso superior. Isaac é também um símbolo do estilo de vida sóbrio de quem prospera numa região acostumada ao trabalho sob condições adversas. Dono de 300 hectares utilizados para fruticultura, ele ainda mora em casa alugada. "A hora é de investir, não de esbanjar", afirma.

Até aqui a manga tem sido a locomotiva que puxa a exportação regional, algo em torno de 40 milhões de dólares anuais. Mas já se sabe que as Tommy, Atkins e Kent, as espécies mais vendidas lá fora, devem ceder lugar a uma nova vedete. "Estamos nos redirecionando para a uva sem semente", anuncia Aristeu Chaves. "É com ela que virão ganhos maiores no mercado externo". A opção passou a ser inevitável, desde que a Embrapa, em pesquisa financiada pela iniciativa privada, conseguiu desenvolver a primeira uva seedless brasileira. Os produtores imaginam que poderão atender o mercado europeu na entressafra no hemisfério norte e tirar todas as vantagens da ausência de concorrência direta com uva de outra procedência no período. Se conseguirem atingir a meta, os fruticultores devem abocanhar algo próximo à bolada que o Chile e a Grécia faturam de janeiro a abril, com a exportação de 250 milhões de caixas de uva para a Europa: cerca de 2 bilhões de dólares.

O pouso de supercargueiros em Petrolina abre a possibilidade de novas experiências, ainda mais lucrativas, como é o caso da floricultura. A Fruitfort já está cultivando helicônias e estrelíssias destinadas ao mercado alemão - e prevê dias de abundância. Com um hectare de manga, a fazenda fatura 25 000 reais. A mesma área, ocupada com flores, pode gerar 350 000 reais. São sinais de que, jogando o jogo da eficiência no mercado global, Petrolina e todo o vale do São Francisco em breve serão irrigados com negócios milionários.


Vale fértil

Área irrigada (em hectares): - 300 000

Número de municípios: 100

Empregos gerados: 400 000

Frutas produzidas: manga, uva, banana, goiaba, coco e acerola

Produção anual (em toneladas): 700 000

Valor da produção da região (US$): 430 milhões

Valor da produção brasileira: 8 bilhões

Principais investidores: Carrefour, Bompreço, Magnesita, Grupos Sílvio Santos e Queiroz Galvão


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