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Ano VI // Nº 295

Texto publicado no anuário Melhores e Maiores - 2000, que circulou com a edição de 28 de junho de 2000 da revista Exame.

Uma receita aprimorada

A Fábrica Fortaleza é a melhor empresa do setor de alimentos

Por JOMAR MORAIS, de Eusébio (CE) - Foto LUIS MORAIS

Situada no extremo sul do Ceará, em pleno sertão nordestino, a pequena Jatí, 10 000 habitantes, é um lugar marcado pela seca e pela pobreza, onde quase não há consumo. Pode-se dizer que a cidadezinha é um ponto inexistente no mapa das empresas - exceto para a Fábrica Fortaleza, a melhor empresa do setor de alimentos nesta edição de MELHORES E MAIORES. Duas vezes por semana, um caminhão baú com a logomarca da indústria percorre as poucas ruas de Jatí no cumprimento de um ritual. À porta das bodegas, os minibazares tradicionais no interior do Nordeste, o veículo pára, descarrega biscoitos e macarrão e recolhe dinheiro vivo.

É uma cena emblemática do sucesso e do estilo dessa fábrica de massas, principal unidade do grupo cearense M. Dias Branco. Instalada na região metropolitana de Fortaleza, a empresa tem seus pontos fortes na liquidez e no aumento acelerado das vendas, que em 1999 chegou a 35% sobre o ano anterior. Dois detalhes que têm tudo a ver com o périplo dos caminhões pelos lugarejos distantes, vendendo à vista e fazendo entrega imediata, para clientes esquecidos pelas marcas nacionais. Líder no Nordeste, a Fábrica Fortaleza detém 30% do mercado regional, segundo números da consultoria Nielsen, e estima-se que supere os 50% nos grotões alcançados por seus vendedores no sertão e no Norte do país.

Não chega a ser surpresa a Fábrica Fortaleza ter alcançado o pódio. Ela já seguia uma trajetória de ascensão nos anos anteriores. Em 1998 foi a sexta colocada e no ano passado ocupou o segundo lugar entre as melhores. O que impressiona é o desempenho que exibe ao alcançar o primeiro posto. Dona de um patrimônio líquido de 304 milhões de dólares, a Fortaleza tinha em caixa, em dezembro passado, 167 milhões de dólares e dívidas de longo prazo de apenas 47 milhões. Tal situação lhe valeu, pela terceira vez consecutiva, o primeiro lugar em liquidez corrente em seu setor. Outro ponto pisitivo é sua disposição para investir: no ano passado foram 36 milhões de dólares para importar equipamentos de última geração. Com eles, tornou-se uma fábrica de biscoitos automatizada, das mais modernas do mundo.

Essa robustez tem explicação. "Fabricamos produtos para classes de A a Z e nunca discriminamos clientes", diz Francisco Ivens de Sá Dias Branco, presidente da Fortaleza. "O que nos preocupa é assegurar a qualidade do que produzimos e manter o equilíbrio de nossos custos." Nos últimos 12 meses, a empresa fez 15 lançamentos, entre waffers, biscoitos recheados com sabores regionais e salgadinhos sem fritura, até então desconhecidos no Brasil. São produtos com as marcas Richester e Tot´s. Disputam com marcas da Nestlé, da Parmalat e de outros concorrentes de peso a preferência do consumidor de classe média nas capitais.

Num ano em que tantas empresas cortaram postos de trabalho, a Fortaleza criou mais 643 empregos para ampliar a força de vendas. "Isso não representa gordura nos custos administrativos", diz Branco. São os próprios vendedores que dirigem os 1 000 caminhões e camionetes da empresa, tendo ao lado apenas um auxiliar para descarregar mercadorias. Assim, a Fortaleza conseguiu crescer na contramão dos sistemas logísticos adotados pelos concorrentes, baseados em centros de distribuição regionais, às vezes terceirizados. "Preferimos ter controle total sobre nossas vendas e ouvir diretamente nossos clientes", diz Branco.

A Fortaleza também surpreende pela parcimônia com que utiliza a mídia para promover seus produtos. Raras vezes, nos últimos anos, fez campanhas na TV ou na imprensa. Preferiu investir em marketing social e de relacionamento, em especial no chamado Projeto Escola, que em apenas um ano levou 26 mil crianças a visitar a empresa e o Centro Cultural de linhas modernas, erguido junto à fábrica. Ali, elas ficam sabendo que a estrutura colossal que hoje produz 216 milhões de quilos de biscoitos e massas por ano começou na década de 40 com uma simples padaria comprada pelo imigrante português Manoel Dias Branco, pai de Francisco Ivens.

Discreto, o velho Dias Branco sempre reinvestiu o lucro na empresa e, assim, conseguiu montar um conglomerado que faturou no ano passado 300 milhões de dólares em 1999. Os negócios incluem moinho de trigo, agropecuária, construtora, hotéis e a fábrica de massas. No mês passado, o grupo inaugurou outro moinho em Natal, no Rio Grande do Norte, ao custo de 36 milhões de dólares. Para 2001 está prevista uma fábrica de margarina em Fortaleza, já em construção.

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