Trabalho remoto na nova economia
por JOMAR MORAIS (*)
Novas tecnologias costumam mudar o modo como
o homem trabalha e, às vezes, o fazem de forma tão profunda que
acabam por alterar radicalmente o processo econômico e as
relações sociais. Foi assim, por exemplo, na revolução
industrial, há 200 anos. Os donos das primeiras indústrias da
Europa bem que tentaram transplantar para o novo ambiente
tecnológico, marcado pelas máquinas de fabricação em massa, o
velho hábito rural de contratar equipes familiares, mas o
resultado foi um desastre. Diante das tecnologias industriais
avançadas, a antiga organização do trabalho não funcionava
com eficiência. Os membros mais idosos das famílias não
conseguiam adaptar-se ao ritmo. As crianças só produziam alguma
coisa se estivessem acorrentadas. Foi então que surgiram o
contrato individual e o emprego formal, num ambiente econômico
tumultuado por previsões catastróficas e uma batalha política
entre a burguesia emergente e a elite agrária que durou quase 80
anos.
A história se repete
neste final de milênio. Com a ascensão das organizações em
rede, o modo como o trabalho é feito passa por nova e radical
mudança, que deve redesenhar dessa vez o sistema de operação
das empresas, suas relações com os profissionais e o próprio
estilo de vida de quem trabalha.
Fala-se muito em desemprego e o problema, de
fato, é preocupante por suas pesadas conseqüências sociais. É
preciso, contudo, levar em conta o fator estrutural que está por
trás da redução do número de vagas, a fim de que medidas
emergenciais e paliativas não releguem a segundo plano o foco da
questão: as mudanças tecnológicas que definem rumos na nova
economia. Numa sociedade automatizada e interconectada, a atual
organização do trabalho tende a ficar cada vez mais obsoleta.
Reinventá-la, como já vem acontecendo nos últimos 10 anos, é
um dos grandes desafios das empresas e, certamente, o maior deles
para os profissionais habituados ao modelo herdado da revolução
industrial.
As trilhas para o
futuro estão sendo abertas. Uma delas chama-se trabalho remoto,
o telecommuting que os americanos, vanguardistas em
tecnologias, começam a transformar num modo corriqueiro de
trabalhar. Experiências bem sucedidas estão em curso, por
exemplo, em empresas como a AT&T e a Merrill Lynch. O Gartner
Group prevê que os profissionais envolvidos com telecommuting
serão 30 milhões nos Estados Unidos até o final deste ano. No
mundo, até 2 003 cerca de 137 milhões de pessoas estarão
envolvidas com algum tipo de trabalho remoto. O que isso
significa? Uma explosão de novas oportunidades em ocupações
como a prestação de serviços de atendimento ao cliente,
informação, consultoria e uma gama de atividades nas quais é
exigido o trabalho intelectual não mecânico - um gênero que
ficará cada vez mais a cargo das máquinas.
O trabalho remoto
não é precisamente uma novidade. Que o digam vendedores,
consultores, jornalistas... gente habituada a operar longe de
suas empresas quando ainda não existia computador pessoal, pager
e celular. Mas isso era a exceção. Novidade agora é a
expansão do Telecommuting praticamente a quase todos os tipos de
atividades, graças às novas tecnologias de informação,
sobretudo a Internet, com ganhos em várias direções. Pesquisa
feita pela Valley Metro, nos Estados Unidos, mostrou que o
trabalho à distância beneficia as empresas com redução de
custos - devido à diminuição da planta física e das despesas
de manutenção -, flexibilidade estratégica, diminuição da
tensão, queda do absenteísmo, menor rotatividade, melhoria das
técnicas administrativas e aumento da produtividade do
funcionário em até 30%. Para o profissional, trabalhar em casa
diminui o estresse, melhora as relações familiares, flexibiliza
os horários de produção e aumenta a satisfação com o
trabalho. O moral permanece elevado e qualidade de vida dá um
salto considerável.
Telecommuting,
no entanto, parece ser apenas um passo rumo a estágio ainda mais
radical no modo de trabalhar: uma organização baseada em
free-lancers interconectados eletronicamente, que formariam
equipes temporárias para a venda de produtos e serviços. Com o
término do trabalho, os membros dessas equipes se dissipariam,
voltando a atuar como agentes independentes até que um novo
projeto os reunisse. São os chamados e-lancers, categoria em
ascensão que mereceu recente estudo de Robert J. Laubacher e
Thomas Malone, pesquisadores do Massachusetts Institute of
Technology (MIT). No mundo dos e-lancers, segundo os
pesquisadores, caberia às grandes empresas tão somente o papel
de estabelecer regras, padrões e culturas para as organizações
em rede, que operariam parcialmente dentro e parcialmente fora
delas.
É possível que nem tudo venha a acontecer como se espera, mas é inevitável que, no mundo do trabalho, em breve nada será como antes. Pode-se clamar e agir por mais empregos à velha moda. É justo face ao preço social cobrado pela nova economia em sua fase inicial. Entender o novo cenário e qualificar-se para atuar dentro dele, porém, é a única maneira de sobreviver às mudanças - e não ser devorado por elas.
(Artigo
publicado no caderno regional "Gazeta do Nordeste", do
jornal Gazeta Mercantil,
de 30 de julho de 1999)
Desafios do jornalismo on-line
Nicolau Frederico
Uma palestra sobre os desafios e as
perspectivas do jornalismo on line, pelo jornalista potiguar, editor
especial da Editora Abril (revista Exame e revista Superinteressante) e
professor da UnP, Jomar Morais, deu prosseguimento nesta sexta-feira a
programação do 6º Congresso dos Jornalistas do RN, que realiza-se no auditório
do Sebrae, reunindo jornalistas, professores e estudantes de jornalismo da UFRN
e da UnP. O jornalista Jomar Morais levantou a polêmica pergunta sobre a extinção
do jornal impresso após a existência da rede mundial Internet. Na sua opinião
o jornal de papel vai acabar, mas a questão está em precisar o quando isso
ocorrerá. Segundo Jomar, o jornal impresso terá uma fase intermediária antes
disso ocorrer, quando ele tornar-se-á um veículo complementar da mídia
digital ou virtual. E explica sua opinião, afirmando que essa é uma sucessão
lógica da história da humanidade quanto às inovações tecnológicas. Assim o
foram os casos da idade da pedra, do papiro, do couro de animais, do papel
impresso até chegar à era virtual. E justifica a sua opinião lembrando que o
escritor Steve Outing destaca a característica de mídia de convergência da
Internet para não só o veículo jornal, mas também para a TV e o rádio. Mas
ele acalma os profissionais da imprensa, salientando que Bill Gates prevê que
este fato deverá ocorrer daqui a 50 anos, pois antes haverá a necessidade de
se consolidar a banda larga nas telecomunicações, a melhoria da qualidade da
resolução e portabilidade das telas dos monitores dos microcomputadores.
Segundo choque
Jomar, que foi o primeiro jornalista brasileiro a utilizar o jornalismo on line
na década passada, chamou a atenção para o segundo choque da Internet, pois o
primeiro ocorre desde sua implantação no Brasil em1990. Isso já está
ocorrendo em outros países e iniciando-se em nosso país, com a Internet sem
fio - a Internet Wap - que vai criar as condições necessárias para a
portabilidade, a instantaneidade plena e a democratização do acesso,
especialmente em países emergentes ou em subdesenvolvidos. Para ilustrar a
importância dessa nova fase da rede mundial, Jomar acrescenta que existem hoje
no mundo 1 bilhões de telefones celulares, segundo Susan Moeller, da
Universidade de Stanford, nos Estados Unidos da América.
No rastro dessa nova tecnologia avançada, já estão vindo o comércio virtual
(e-commerce), o controle remoto do dia-a-dia e o telework (o trabalho virtual),
tornando impossível para o jornalismo a sua não adesão a essas inovações.
No mundo
Mostrando o quadro atual do jornalismo on line no mundo, o jornalista potiguar
destacou que 30 por cento dos norteamericanos lêem notícias on line e os
grandes jornais atingem alt nível de audiência de leitura virtual: o US Today
(1,5 milhões), o New York Times (1,47 milhôes) e o Washington Post (1,2 milhões),
enquanto sites como a CNN.com recebem mais usuários que alguns desses grandes
jornais. No Canadá, 50 por cento da população já utilizam o jornalismo on
line. No Brasil, o maior portal é o Universo On line (UOL). Segundo o seu
diretor, jornalista Caio Túlio, ele tem na área de notícias por volta de 18 a
20 por cento da audiência diária, sendo que os temas que mais despertam os
internautas são esporte, lazer e cultura. O peso do entretenimento e a interação
(chats: conversas e bate-papos on line) é alto, atingindo a 30 por cento.
Caminhos para o futuro
Para o editor especial da Editora Abril e residente em Natal, os
caminhos do jornalismo on line vão depender da forma e do conteúdo da informação
veiculada, pois ainda é uma obra em construção a chamada juventude da
Internet, segundo ele "aquela que já não sente mais a necessidade do
cheiro do papel de jornal". Hoje, para Jomar, o ponto forte do jornalismo
on line é a notícia compacta e as informações pontuais em tempo real. Por
enquanto, a informação mais aprofundada encontra-se apenas nas áreas de
economia e tecnologia, nos chamados sites verticais. No futuro, com a introdução
da banda larga e a convergência para o jornal, a TV e o rádio, se prevê as
primeiras experiências no jornalismo analítico com uma linguagem mais
sofisticada.
Jomar Morais afirma que os desafios do jornalismo on line passam por uma formação
profissional que tenha imtimidade com a tecnologia, que leve o profissional a
pensar e que seja ético. Alerta também para o perigo do efeito da leviandade
em uma mídia global e interativa e prevê a abertura de mais um mercado para o
profissional da imprensa, salientando que trata-se de um mercado onde as grandes
empresas estão jogando pesado, contratando jornalistas a peso de ouro e
exigindo alta qualificação e experiência profissional. Jomar conclui
afirmando que o jornalismo on line necessita de bons jornalistas, tecnologia de
ponta e alto investimento.
( Texto publicado no site www.sindjorn.org.br )
Um emprego para Einstein
por JOMAR MORAIS
No
mar de incertezas em que navegamos, no embalo da globalização, o que menos se
pode esperar é coerência e consistência em diagnósticos e receitas. Com o
processo de mudanças atropelando todos os cálculos e previsões, quem saberia
dizer com segurança aonde vamos chegar? Em sã consciência, ninguém. Mas os
gurus iconoclastas da administração não páram de ditar regras que,
incorporadas a peso de ouro à rotina das empresas, nem sempre primam pela
sensatez e, na maioria dos casos, duram menos que um veraneio.
Gurus cobram caro -- alguns recebem 75 mil dólares por conferência! - para
identificar o óbvio e, às vezes, sugerir à-toa. Tomemos um exemplo aleatório,
mas não isolado: Tom Peters, o americano festejado por sua capacidade de
esquematizar situações e apontar tendências do mundo dos negócios. Em 1982,
quando os programas de qualidade transformaram-se em consenso mundial, ele propôs
às empresas um movimento pela "excelência". Em 1987, com o
acirramento da competição, julgou que "excelência não é tudo". Em
1998 já não teme em afirmar que o importante é concentrar energias em novas
idéias, deixando de lado o aperfeiçoamento de processos e produtos. O que vale
agora é criar novos objetos de desejo para o cliente e, se preciso, provocar
uma revolução na empresa a cada seis meses, ensina Peters.
"Regras são para tolos", afirma o consultor, ditando sua nova
regra. É preciso esquecer as velhas técnicas e diretrizes, algumas das quais tão
recentes. Por exemplo: a redução de custos de qualquer jeito, o receio de
fracassos, o medo de diversificar a equipe... Contrate "loucos", pois
as grandes invenções da humanidade são criações de "loucos",
sugere Peters com a segurança de quem não vai arriscar um só centavo de sua
gorda conta bancária.
Os "loucos" de Peters, a propósito, me trazem à razão primeira
deste artigo: a discriminação que se abateu sobre as pessoas introvertidas e
low-profile desde que a gurulândia da administração firmou como paradigma da
eficiência profissional a extroversão, a rápida interação em equipe e a
capacidade de comunicação. Quem daria, hoje em dia, um emprego a Albert
Einstein? O gênio que nos legou a Teoria da Relatividade era introvertido e
arredio e não se encaixava nos padrões de marketing, agora hegemônicos no
mundo empresarial. Como sempre existirão talentosos introvetidos e arredios, no
entanto, importa saber até quando as corporações suportarão conviver com o
absurdo de não tirar proveito de sua força criadora.
Head-hunters paulistas, catadores de bons executivos, já estão
sendo mobilizados por empresas que há alguns anos ejetaram seus funcionários
mais velhos e experientes para trazê-los de volta ao ninho. Descobriram que
eles também fazem a diferença. Amanhã, certamente, o culto à loquacidade
cederá lugar ao bom senso e um novo mito ruirá: o temperamento de Einstein já
não será visto como um motivo de exclusão.
(Artigo publicado no "Diário de Natal", de 16 de abril de 1998)
O futuro do jornalismo está na Internet
Paulo Nogueira, jornalista e diretor de Redação da revista Exame, esteve em Natal no dia 20 de agosto, a convite do Departamento de Jornalismo da Universidade Potiguar, ocasião em que falou para estudantes e jornalistas profissionais sobre tendências do jornalismo na nova economia. Durante duas horas, no auditório do Hotel Vila do Mar, Paulo Nogueira falou sobre jornalismo online, impacto das novas tecnologias no jornalismo impresso, ética e produção jornalística.
A
entrevista abaixo, publicada no Diário de Natal do dia 22 de agosto, sintetiza
o pensamento do diretor da Exame sobre o jornalismo do futuro:
"As melhores oportunidades e os melhores salários,
daqui para frente vão estar no mercado on line"
"No futuro, a Internet vai ser o veículo, não um dos veículos". Com
esta frase, o diretor de redação da revista Exame e da Você S.A,
Paulo Nogueira, resumiu "As Tendências do Jornalismo Moderno na Economia",
tema da palestra que proferiu sexta-feira à noite, no salão de eventos do
Hotel Vila do Mar. Aos 43 anos de idade, 20 de profissão, Paulo é responsável
ainda pelas publicações Vip Exame e Info, integrantes do Grupo
Exame da Editora Abril. Para ele, este novo meio de comunicação, ao contrário
do que muitos pensam, não vai restringir o trabalho do jornalista, mas abrir
novas perspectivas de mercado. "O profissional que quiser ter sucesso deve
procurar familiarizar-se com a tecnologia. Além de questionar-se sempre se faz
diferença no local onde trabalha", observou.
DN - O jornalismo tem passado por muitas mudanças nos últimos anos,
quais as perspectivas para o futuro?
Paulo Nogueira - A grande renovação no jornalismo neste final de milênio é a
Internet. A revolução que este veículo representa não se compara ao que
aconteceu com o advento da televisão, por exemplo. Ela está mudando o papel da
imprensa, a forma de ver as coisas e a perspectiva de carreira. As melhores
oportunidades, os melhores salários, daqui para frente, vão estar no
jornalismo online. A imprensa de papel está com os dias contados. Eu não sei
em quanto tempo vai acabar, mas é certo que vai.
Esta mudança não pode restringir o mercado para os jornalistas?
Alguém vai ter que dar conteúdo, vai ter que editar o que é veiculado na
Internet. Recentemente, a empresa americana que comprou a Booknet, um site de
vendas de livros, contratou um grupo de 30 jornalistas com salários muito bons.
Isso tende a se intensificar. Embora seja um veículo de ponta em termos de
tecnologia, o principal continuará sendo o conteúdo, a elaboração de
reportagens, de artigos. Isso caberá ao profissional de imprensa.
Como a hegemonia deste novo meio vai afetar a maneira de escrever, o
tamanho e a profundidade dos textos? Passar muito tempo diante de uma tela de
computador é cansativo para muitos. Ainda vai ter lugar para as grandes
reportagens?
Alguma coisa vai mudar. Você terá que ser mais dinâmico, mais sintético, dar
a mensagem mais rapidamente. Isso vai modificar os modelos da escrita. Quanto às
grandes reportagens e a investigação, elas vão continuar existindo, mas de
outra maneira, com outra roupagem. O que vai definir o que vai ser veiculado na
Internet vai depender da demanda por parte da população. Em qualquer meio,
sempre vai ser assim.
O que o jornalista precisa para ser um bom profissional nesta nova
realidade?
Em qualquer situação e em qualquer profissão é preciso fazer sempre o
questionamento: Eu faço diferença? Mas de forma sincera e corajosa. A pessoa
que faz diferença em uma editora é aquela que está sempre procurando aprender,
tem uma grande curiosidade intelectual, demonstra entusiasmo pelo exercício
profissional e tem boas idéias. Além disso, é fundamental, daqui para frente,
procurar ter uma certa intimidade com a tecnologia, com a informática.