
Sol, praia, dunas, água de côco... e ascensão na carreira
Você mora em São Paulo - talvez no Rio ou em Belo Horizonte - adora sua cidade e, ao que tudo indica, passa por uma das melhores fases de sua vida. A família está bem, a empresa reconhece seu trabalho e você acaba de concluir o tão sonhado MBA que deve apressar sua ascensão profissional. Conquistar aquele cargo que o colocará entre os melhores do mundo executivo na região mais rica do país agora é apenas uma questão de tempo, de pouco tempo, talvez. Mas o destino lhe reservou uma surpresa. Sim, a companhia vai apostar mais alto em sua competência e nomeá-lo para um dos postos mais importantes em sua hierarquia - só que na unidade de produção da empresa no Nordeste.
E então, vai encarar o desafio?
Numa situação como essa, não é fácil decidir. Mudar simultaneamente de cidade, de cultura e de mercado é sempre uma opção de risco que pode levar o executivo ao triunfo ou, em caso de insucesso, no mínimo à perda de um tempo precioso na carreira, com a punição do recomeço nem sempre no patamar no qual se encontrava antes da mudança. Além disso, o que pensa sua família sobre essa reviravolta? A mulher e os filhos estão dispostos a largar a segurança das velhas rotinas, do convívio com os parentes e amigos para reconstruir a vida em novo habitat?
Se o exemplo acima acaba de virar uma possibilidade real em sua vida, leve em consideração de que você pode estar diante de uma oportunidade de ouro. Nos últimos anos, trocar o escritório ou a fábrica paulistana, carioca ou mineira por um cargo qualificado na filial nordestina deixou de ser uma missão sacrificial e temporária, daquelas que o profissional cumpre com um olho no relógio e o outro na promoção prometida para depois da tarefa ingrata. Acredite: já são muitos os executivos e técnicos que afirmam ter alcançado no Nordeste a plenitude profissional e a melhoria do padrão de vida em níveis iguais ou superiores aos das expectativas que mantinham em suas cidades de origem. Para estes, retornar é um verbo esquecido. Fixaram residência pra valer na região, estão entrosados com a cultura local e, com o apoio da família, começam a consolidar um patrimônio considerável, algo impensável para quem está em trânsito.
EXAME colheu em Natal, o segundo pólo de investimentos recentes da indústria - o primeiro é Fortaleza - duas histórias que revelam detalhes da adaptação e do sucesso de executivos enviados do sudeste para o cenário nordestino. Trata-se de profissionais de duas grandes empresas de São Paulo e Minas Gerais - estados peculiares quanto ao estilo de vida - que há alguns anos administram empreendimentos de vulto no setor têxtil e se dizem recompensados com a mudança de domicílio. E o que eles dizem pode aliviar a ansiedade de quem perdeu o sono por causa da transferência iminente.
"Encontrei no Nordeste a minha realização profissional", garante o engenheiro têxtil Laércio Rossi Vasconcellos Junior, 45 anos, que há quatro dirige a unidade da Vicunha no Distrito Industrial de Natal. Paulista, em 1983 ele deixou para trás as comodidades da metrópole e um lugar na equipe de planejamento da fábrica da Vicunha na rua Ivaí para tornar-se diretor industrial da unidade de Fortaleza, então em fase de implantação. Passados 15 anos, diz que valeu a pena, apesar de algumas dificuldades. "À época fiz mais de 10 viagens ao exterior, inclusive para um estágio na Suíça", conta. "Em São Paulo talvez esses ganhos não viessem tão facilmente". Vasconcellos viveu uma década no Ceará. Promovido, passou a comandar em Natal uma indústria que ocupa 1.200 pessoas e produz mensalmente 2,2 milhões de metros de brim colorido.
Na concorrente Coteminas, o engenheiro João Batista Gomes Lima, 43 anos, em cujo currículo figuram a especialização em Engenharia Têxtil pela Universidade Estadual da Carolina do Norte e o curso de Master in Business Administration na Northwest University, de Chicago, ainda não conseguiu esquecer o golpe que foi sair de Minas Gerais, em 1995. "Você sabe, mineiro é muito ligado à família", diz ele. Ao contrário do veterano Vasconcellos, que parece ter superado todas as etapas da adaptação ao Nordeste - até a mulher, Neice, não pensa mais em retornar a São Paulo - Lima tem que administrar uma situação doméstica delicada. A mulher Rosalba e os três filhos adolescentes ainda mantêm vínculos sólidos com Montes Claros, onde residiam, e Belo Horizonte, onde passavam fins de semana, e, por causa disso, são comuns em casa as queixas e os acessos de saudade. Ele, no entanto, tem certeza de que agarrou a oportunidade certa. "Eu preferia ficar em Minas, mas o desafio estava aqui", afirma Lima. "A Coteminas não tinha nenhuma experiência no ramo de malharia e confecção e me foi dada a oportunidade de ser o primeiro executivo do grupo nessa área."
Em Natal, a Coteminas fabrica do fio à camiseta para exportação, que sai ao preço de R$ 1,15 dólar a unidade. Para alcançar essa façanha mobiliza 3.500 empregados e máquinas de última geração em instalações que se estendem por 140 mil metros quadrados, e garantem a produção mensal de 14 milhões de metros de tecidos e 6 milhões de camisetas. Todo este complexo, que fatura 18 milhões de dólares por mês, é comandado por João Batista Lima, ao longo de um expediente que começa às 7h e quase sempre vai além das 18h. "Aqui trabalho duro, como se fosse o dono da empresa", diz o diretor da unidade, que se reporta diretamente ao vice-presidente executivo do grupo, Josué Christiano Gomes da Silva, filho do proprietário José Alencar Gomes da Silva, baseado em São Paulo.
STATUS E PODER - Pela sua expressão econômica na região e até pelo espaço físico ocupado pelas indústrias que dirigem, os executivos transferidos para o Nordeste acabam tendo na comunidade status e poder só comparáveis aos dos donos de suas empresas. Claro, isso traz prestígio e satisfação, mas também problemas que só um bom jogo de cintura é capaz de resolver. Os políticos locais, por exemplo, costumam enviar- lhes bilhetinhos solicitando empregos para eleitores, e esperam ser atendidos. Afinal quase todas as empresas "estrangeiras" no Nordeste migraram para lá atraídas por benefícios fiscais que dependem da boa vontade dos governos (leia-se: dos políticos). Neste caso, se a vaga existe e o pretendente possui um mínimo de habilitação, geralmente aproveita-se nome recomendado.
Outras dificuldades têm que ser contornadas fora da empresa e servem de advertência a está arrumando as malas para migrar:
* Mesmo que sua empresa lhe ofereça cobertura total de saúde, prepare-se para pegar o primeiro avião se o problema exigir tecnologia médica mais apurada. Os serviços de saúde no Nordeste deixam muito a desejar. No ano passado, Rosalba, a mulher de João Batista Lima, viu-se obrigada a viajar às pressas a Belo Horizonte para fazer uma videolaparoscopia.
* Se o seu filho estuda em um colégio top de linha, que oferece educação integral e lhe toma em torno de R$ 1 mil por mês, é bom desacostumar-se. O padrão de ensino nordestino é mais modesto, embora existam escolas de bom nível, bem equipadas e regidas pelas últimas técnicas pedagógicas. Em compensação, as mensalidades nos melhores colégios variam entre R$ 150,00 e R$ 500,00.
* Se não estiver disposto a comprar casa ou apartamento, pagando até 30% menos do que em São Paulo, prepare-se para gastar uma boa grana com aluguel. Um apartamento de 200 metros quadrados custa em torno de R$ 2.300,00 por mês.
* As mulheres dos executivos emigrados costumam reclamar da ausência, nos supermercados, de legumes e frutas de boa qualidade e também dos preços altos e da falta de variedade nos shoppings.
Apesar dessas limitações, Vasconcellos e Lima acham que se pode viver no Nordeste no mesmo nível de conforto e de acesso a bens que se desfruta em São Paulo ou no Rio. A diferença é apenas de escala. Não se deve alimentar a esperança de encontrar num shopping natalense a variedade de marcas e modelos disponíveis em um similar paulista, mas todos os ítens de consumo da vida moderna estão lá, ao seu alcance. Quando soma isso às boas condições ambientais, à inexistência de problemas graves no trânsito e ao baixo índice de violência urbana, Laércio Vasconcellos entusiasma-se: "A qualidade de vida no Nordeste é superior à do Sudeste".
CINEMA SOFRIVEL - Vasconcellos ainda hoje se encanta com o fato de em apenas 20 minutos percorrer, em seu Subaro, a distância que separa o apartamento de 200 metros quadrados, três suites, onde vive com a mulher e duas filhas, de seu escritório. No final do dia sobra tempo para o lazer que, no caso do diretor da Vicunha, é gasto em restaurantes de bom nível, em cinemas de padrão sofrível e em shows de grandes astros da MPB, atualmente uma rotina nas principais capitais nordestinas. Lima, o mineiro, é mais recatado e prefere dividir as horas de folga entre partidas de tênis no América, principal clube da cidade, e a piscina de sua nova casa de 500 metros quadrados de área construída. O padrão da moradia, a propósito, é uma das vantagens para quem chega à região com um salário pelo menos razoável. A facilidade de adquirir uma casa de praia, então, chegar a surpreender. Pelo preço de um apartamento de dois quartos em São Paulo, é possível comprar uma casa de 1.500 metros quadrados em alguma das melhores praias de Natal.
E o salário? Lima e Vasconcellos recusam-se a dizer quanto ganham, mas é certo que,na mudança, adicionaram vantagens consideráveis aos seus contracheques. O mesmo aconteceu com os seis profissionais de São Paulo e Minas Gerais que seguiram com eles. Vasconcellos diz que, namaioria das vezes, as companhias acenam apenas com vantagens temporárias como pagamento de aluguel e a concessão de passagens áreas para que o funcionário e seus familiares visitem sua cidade de origem duas vezes ao ano.
A grande ameaça a quem opta pelo Nordeste é o risco - bastante alto - de não conseguir manter a atualização profissional no rítmo exigido pelos novos tempos. No caso de João Batista Lima, essa dificuldade é contornada com sua agenda de viagens a São Paulo para despachar com o chefe, no escritório central da Coteminas. Sempre que possível, ele as aproveita para participar de seminários e cursos para executivos. Lima também cumpre um roteiro anual de visitas a feiras e exposições no exterior. Na Vicunha, porém, essas oportunidades já não são tão amiúdes. Vasconcellos, que se reporta ao superintendente da Vicunha Nordeste, em Fortaleza, diz que a empresa prefere trazer especialistas e técnicos de seus fornecedores europeus para ministrarem seminários dentro da própria fábrica. Mas ele próprio nem se lembra a última vez em que isso aconteceu. O perigo da acomodação é reforçado pela escassez de boas livrarias na região, o que dificulta o acesso ao melhor da bibliografia especializada.
OFERTA CRESCENTE - O Nordeste, contudo, continuará a atrair executivos e técnicos. É o que indica a opção de importantes setores industriais pela região, onde esperam reconquistar, graças a incentivos fiscais e ao barateamento da mão-de-obra, a competitividade que já não conseguem sustentar produzindo no sudeste. As grandes indústrias têxteis, por exemplo, estão transferindo quase toda a sua planta para os Estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. A indústria calçadista e de embalagens também está reabrindo na região as fábricas fechadas no centro-sul.
Não existem estatísticas confiáveis sobre o tamanho do parque industrial nordestino. Segundo a Fundação Getúlio Vargas, atualmente apenas 12% das 500 maiores sociedades anônimas do país produzemna região. As oportunidades de emprego para executivos variam com o perfil administrativo de cada empresa. A Coteminas mantém 16 gerências em Natal; a Vicunha apenas três. A procura pelo Nordeste também é impulsionada pelo desemprego em São Paulo, o que, aliás, permite às empresas transferir profissionais sem as gordas vantagens salariais e benefícios do passado.
A oferta de empregos qualificados na região deve aumentar nos
próximos anos, empurrada por setores locais em expansão, como a
agro-indústria e o turismo, e a chegada dos megagrupos privados
que compraram recentemente estatais das áreas de energia,
telefonia e fornecimento de gás. É sinal de que muita gente, no
mercado do sudeste, ainda vai passar pela difícil decisão.
Mudar ou não mudar? Eis a questão. A próxima resposta pode ser
a sua.