
Ano
V // Nº 283
Texto
publicado na edição de 12 de janeiro de 2000 da
revista Exame
|
Alma
de MASCATE
Discretos,
centralizadores, detalhistas. Com esses
ingredientes, os Otoch criaram um império
comercial no Nordeste
Por
JOMAR MORAIS, de Fortaleza
/ Foto de LUIS MORAIS
No apartamento simples de um
hotel três estrelas, no centro de São Paulo,
dois homens de corpos atarracados e movimentos
rápidos conferem dezenas de papéis. Foi um dia
árduo para ambos. Percorreram indústrias
têxteis e estiveram ocupados durante horas, não
necessariamente escolhendo tecidos, mas
insistindo por descontos nos preços. Ao lado
deles, um assessor financeiro não pára de fazer
cálculos.
-
Deib, você tem certeza que fizemos um bom
negócio? - diz o mais velho do grupo.
-
Sim, José, um ótimo negócio - responde Deib.
-
Então, é hora de comemorarmos - arremata o
outro.
Uma
mala é aberta e, do meio das roupas, é tirado 1
litro de uísque que os hóspedes levaram de
casa. Três copos são abastecidos, mas a
comemoração dura só tempo em que a dose única
é consumida. Quando a garrafa retorna ao
esconderijo, José volta à carga:
-
Adelito - diz ele para o assessor - some agora as
despesas com passagens e a diária do hotel.
Precisamos transferir essa conta para os
fornecedores.Logo uma nova rodada de pechincha
será feita por telefone, com argumentos de todo
tipo. Só depois que o rebate é conseguido junto
às tecelagens, o uísque volta a sair de sua
toca para a última dose, entre risos.
- Agora, já podemos voltar para casa- diz José.
A história acima aconteceu pela enésima vez no
final dos anos 80 e é lembrada, com seriedade,
pelo economista José Adelito Regueira, da
Universidade de Fortaleza, para explicar como um
pequeno armazém de tecidos do Ceará
transformou-se num dos grupos empresariais mais
bem sucedidos do Norte e Nordeste. É Grupo
Abrahão Otoch (pronuncia-se otóchi), dono de
sete empreendimentos em diferentes setores, cujo
carro-chefe é a cadeia de lojas de departamentos
Esplanada/Otoch.
No
mês passado, a rede inaugurou su a 43ª filial, no prédio onde até
há pouco funcionava a falida Mesbla, em João
Pessoa. Dias antes, ao custo de 10
milhões de reais, fincara sua bandeira em
Brasília, ao ocupar o espaço que foi do Mappin
no Pátio Brasil, o maior shopping da cidade. O
plano é dobrar o número de lojas até 2005,
avançando sobre os mercados de outras regiões.
No Nordeste, Esplanada é um nome quase tão
forte quanto Riachuelo, a cadeia de lojas do
grupo Guararapes, maior concorrente da rede. No
Norte e no Centro-Oeste, o nome muda para Otoch,
por causa de litígios não solucionados com
empresas homônimas. Não importa. Qualquer que
seja o rótulo, uma das características do grupo
é que ele tem dado demonstração de ótimo
fôlego financeiro, bancando toda a sua expansão
com recursos próprios. Inclusive o cartão de
crédito da rede, atualmente com 700 000
associados.
A
cena narrada por Adelito ajuda a entender como o
Otoch cresceu e se mantém saudável numa época
em que gigantes como a Mesbla e o Mappin ruíram.
O segredo está em traços culturais presentes no
DNA dos donos, que permeiam toda a organização:
economia de centavos, habilidade para negociar
com fornecedores, disciplina férrea, adoração
pelo trabalho e pelo lucro. "Eu não
trabalho para viver. Vivo para trabalhar",
diz José Otoch, 72 anos, que compartilha com o
irmão Deib Otoch a presidência do grupo. Nos
últimos 12 anos, ele teve apenas 37 dias de
férias. Tem sido assim desde o tempo em que o
libanês Abrahão Otoch, o patriarca da família,
que chegou ao Brasil em 1895, atuava como mascate
no Ceará do início do século, vendendo tecidos
e bananas.
Abrahão sofreu um trauma
psicológico ao se ver no meio de um tiroteio,
durante o levante comunista de 1935 em Natal.
Até morrer, jamais voltou ao comércio. Há 50
anos, no entanto, a pedido da mulher, Nagela,
montou em Fortaleza o armazém de tecidos
Esplanada e entregou-o aos seus três filhos.
José, na época com 21 anos, era dentista, mas
largou a carreira para se dedicar à empresa.
Deib, com 14 anos, concluiria depois o curso de
Contabilidade e formaria com irmão mais velho a
dupla inseparável que transformou uma loja de
pontas de estoque num império regional.
Ao
longo de quase cinco décadas, os dois - e
somente os dois - conduziram os negócios pela
cartilha do velho Abrahão. Instalaram e
compraram quantas lojas puderam, sempre
adquirindo junto o imóvel porque para um Otoch
pagar aluguel é simplesmente um desperdício.
Também diversificaram as atividades com um
atacadão de tecidos em São Paulo, Rio e Belo
Horizonte - o Megatex -, uma fábrica de
confecções, uma construtora e até um hotel
cinco estrelas em Fortaleza, este em parceria com
o atual governador do Ceará, Tasso Jereissati.
Acertaram pessoalmente todas as transações e
acompanharam tudo de perto com seus caderninhos
de anotação, os mesmos que seguiam com eles por
estradas poeirentas, anos atrás, em viagens para
inspecionar cada centímetro das filiais da
Esplanada.
Nos
anos 80 - a era de ouro da inflação e da
especulação - os Otoch, ágeis e perspicazes no
terreno das aplicações financeiras,
multiplicaram ganhos e conquistaram musculatura
para sonhar ainda mais alto. A questão é que os
tempos mudaram e para continuar em cena o grupo
e, especialmente a rede de lojas, teria de se
reinventar.
A luz
vermelha acendeu há três anos e foi a nova
geração dos Otoch quem primeiro percebeu o
perigo. "O faturamento das lojas vinha em
queda livre", diz Ronaldo Otoch, filho de
Deib e atual diretor comercial da rede Esplanada.
"Era preciso urgentemente repensar o
negócio". Na época, havia 50 lojas de rua,
algumas com apenas 80 metros quadrados, e o
faturamento apoiava-se basicamente na venda de
tecidos para consumidoras das classes C e D que
costumavam confeccionar as próprias roupas. Como
esse hábito começou a desaparecer com o acesso
das mulheres ao mercado de trabalho e o
barateamento da roupa feita, sobrou para a
Esplanada o desafio da mudança.
Pela
primeira vez os Otoch admitiram trabalhar com
consultores externos - foi contratada a Marcos
Gouvêa, de São Paulo, como consultoria master -
e pela primeira vez decidiram romper com a
tradição. A Esplanada se transformaria numa
rede de lojas de departamentos, com ênfase em
confecções e perfumes, passaria a cortejar
também o consumidor da classe B e daria adeus a
vários símbolos do passado, a começar pelas
lojinhas acanhadas em locais de comércio
popular.
Era
uma revolução - e para levá-la adiante os
jovens Ronaldo, Deib Jr. e Jacqueline, filha de
José, foram postos na linha de frente . A
Ronaldo, 30 anos, formado em administração e
marketing, coube a missão mais arriscada. Foi
ele quem defenestrou todo o quadro de executivos
da rede, substituindo-os por profissionais
importados de São Paulo e do Rio de Janeiro,
entre eles executivos da Mesbla, C&A e
consultoria Trevisan. Mais: comandou o corte de 3
200 dos 5 800 funcionários da rede, além do
fechamento de 10 lojas campeãs de vendas e
também de prejuízos, em razão de seus altos
custos operacionais. "Acabei com a gestão
paternalista e familiar e implantei uma política
de resultados", diz o jovem diretor. Com a
transição para loja de departamentos, por
exemplo, todos os vendedores comissionados
viraram atendentes de auto-serviço e a comissão
fixa de 4% sobre as vendas foi trocada por
prêmios semestrais baseados na produtividade.
Do
lay-out das lojas, agora com tamanho mínimo de 2
000 metros quadrados, à gestão de pessoas,
muita coisa mudou externa e internamente na
Esplanada. E é Ronaldo, um grandalhão que se
veste com elegância e faz benchmarking anual em
lojas de departamentos americanas, como a Big K e
J.C. Peney, quem se encarrega das minúcias. Nas
novas lojas, desenhadas pelo designer gaúcho
Marcelo Braga, o mesmo que concebeu o lay-out de
O Boticário, um espaço de lazer com instrutoras
foi criado dentro da seção infantil, a fim de
que as mães possam ser liberadas para as compras
enquanto os filhos se divertem. Oito marcas
próprias de confecção garantem o diferencial
de estilos e preços. Estudantes de economia,
administração, informática e psicologia estão
sendo recrutados nas universidades para um
programa de trainees que visa a consolidar a nova
cultura da empresa e qualificar todo o quadro de
funcionários.
Ronaldo
é uma figura onipresente na rede. Opina e, não
raro, implica com tudo. Costuma realizar visitas
surpresas às lojas e sua obsessão por
resultados, com cobranças contínuas, às vezes
constrange funcionários. Há quem o considere
centralizador e autoritário, logo ele que chamou
para si também a responsabilidade de comandar a
área de recursos humanos da empresa. Não se
conclua daí, contudo, que José e Deib saíram
de cena e que a cartilha do velho Abrahão foi
inteiramente rasgada. Nada disso. Dos bastidores,
os dois ainda comandam todos os movimentos de
seus prepostos na face visível do grupo - até
entrevistas (como a que Ronaldo concedeu a EXAME,
interrompida por bilhetinhos de Deib sobre o que
devia ou não ser dito). Eles também continuam a
segurar com mão de ferro a chave do cofre.
Cada
filho, por exemplo, sabe em detalhes o que se
passa na área que administra, mas só os pais
conhecem os números do conjunto. Isso explica o
estilo para lá de low profile, centralizado e
pouco transparente, que só em parte foi quebrado
na Esplanada.
Os Otoch sempre foram
arredios, têm poucos amigos no Ceará e
administram seus negócios em absoluto segredo, o
que não significa atuação duvidosa no mercado.
Em Fortaleza, as empresas do grupo têm fama de
atender bem à clientela e de cumprir
compromissos. A pontualidade nos pagamentos é
ponto de honra para José e Deib, sob o argumento
de que só assim podem manter o poder de fogo na
hora de negociar preços com fornecedores. Quanto
fatura o Grupo Otoch? Ah! bom, isso eles não
sabem... Só após muita insistência,
aquiesceram em revelar que apenas a rede
Esplanada faturou no ano passado 200 milhões de
reais e projeta vender mais 25% neste ano.
José,
Deib e Ronaldo também concordaram em se deixarem
fotografar, passando por cima de normas de
segurança que, além da integridade pessoal dos
diretores, se destinam a assegurar a continuidade
dos negócios em qualquer situação. No clã dos
Otoch, pais e filhos jamais viajam em um mesmo
avião. Evitam aparecer juntos em locais
públicos e contam com a proteção de 18 guardas
armados de escopeta na sede do grupo, na
periferia de Fortaleza. Ronaldo, católico
carismático, mantém um crucifixo sobre a mesa e
quatro imagens de santos em seu escritório.
Mandou erguer ao lado uma capela para os
funcionários e costuma distribuir medalhas
abençoadas pelo papa. "Minha força está
em Deus", afirma. É nessa mistura de
fortaleza e templo que a nova e a velha
gerações dos Otoch se encontram para tocar os
negócios em salas de móveis simples, sem luxo.
De vez em quando, uma dose de uísque é servida
para comemorar um dia de muitos ganhos.
|