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INESQUECÍVEL 
ENCONTRO COM O  SILÊNCIO

A reportagem do jornalista MOURA NETO sobre a 7ª edição do evento, 
promovido pelo Sapiens de 18 a 20 de novembro de 2011. / Fotos de Júlio Bezerra

[Publicada no Novo Jornal de 27/11/2011]

 

A PROPOSTA ERA um tanto incomum para quem está inserido no universo da comunicação virtual e mantém arraigados hábitos de consumo: passar um i nal de semana praticando meditação em grupo, sem dialogar com os demais participantes, nem mesmo através de gestos, mímicas ou qualquer tipo de expressão facial. 
Óbvio que também era vedada a comunicação dos reclusos com o mundo exterior. O objetivo do evento, segundo estava descrito no convite, é levar os participantes ao autoconhecimento e à liberação de amarras interiores por meio da vivência do silêncio em comunidade.

Vinte e quatro pessoas, entre adultos jovens, de meia idade e um tantinho além, aceitaram o desafio de dedicar cerca de 36 horas ininterruptas ao recolhimento interior, introspecção e comunhão consigo mesmo, consumindo apenas alimentação vegetariana desintoxicante em um ambiente natural, simples e despojado. Era a 7ª edição do Encontro com o Silêncio, promovido anualmente pelo Sapiens, entidade com sede em Natal (rua Sete de Setembro, 1828, Candelária) que realiza 
debates e estudos de natureza espiritual e filosófica, além de ensinar técnicas de meditação, relaxamento e afins, tendo como mentor e dirigente o jornalista Jomar 
Morais, colaborador do NOVO JORNAL. 

O rigor do retiro realizado no inal da semana passada no Centro de Promoção Humana Charles de Foucauld, instalado numa aprazível granja em Macaíba e administrado por freiras ligadas à Congregação Dom Bosco, ainda passava por cinco compromissos morais que cada participante deveria assumir diante dos organizadores: absterse de matar qualquer ser, abster-se de furtar, abster-se de toda atividade sexual, abster-se de mentir, abster-se de todo tipo de intoxicante durante o evento. Também não era permitido levar livros nem alimentos na bagagem. 

Oito de novembro. Este era o prazo final de inscrição. Alguns dias antes, em conversa por telefone com Jomar Morais, confirmei minha participação. Ele perguntou se eu tinha prática em meditação. Respondi que não, mas por outro lado ressaltei minha intimidade com o silêncio. De fato, sou adepto de poucas palavras e via nesse evento a oportunidade de também não ouvir conversa i ada de ninguém. Na lida do dia-a-dia nem sempre podemos evitar a presença daqueles que aproveitam o fato de estarmos calados para bombardear nossos ouvidos com banalidades. Um final de semana inteiro sem precisar falar nem ouvir nada, parecia, sim, algo instigante. O encontro, 
porém, era centrado não apenas na prática do silêncio e da contemplação, mas também da meditação. E desta última eu não tinha conhecimento de técnica alguma. 

JM relevou esse detalhe: “Você vai gostar”, comentou ele ao telefone, com certa convicção, acrescentando que depois desta experiência, se eu quisesse, ele passaria o endereço de centros que realizam cursos mais prolongados, no caso, dez dias de isolamento e silêncio para praticar uma das mais antigas técnicas de meditação da Índia, a vipassana, palavra que significa “ver as coisas como elas realmente são”.
“O que vamos fazer aqui é só um aperitivo”, disse JM noutra ocasião, comparando o encontro que organiza com o outro a que se referiu, realizado tradicionalmente na Serra do Mar, RJ, onde ele, por sinal, esteve e narrou sua experiência em reportagem. Recentemente esse curso passou a ser realizado também no município de Araras, PB. 

PREPARAÇÃO

Entre a inscrição e o início do Encontro com o Silêncio havia um hiato de quase quinze dias, período em que fui me preparando mentalmente para o desai o. Minha expectativa residia, como já disse, na oportunidade de fazer uma faxina na mente, limpando-a do lixo que nela vai se acumulando pela quantidade de informações inúteis que recebemos a toda hora, a todo instante. Também esperava me desconectar de inquietações íntimas e problemas às vezes irrelevantes mas que parecem insolúveis, cuja solução surge invariavelmente com o tempo. Mas é preciso paciência para esperar pelo tempo, não é? 

E paciência era um requisito básico, imaginei, a ser exigido aos que se propõem a passar horas de boca fechada e imóvel. Com natural ansiedade aguardei pelo ensejo de experimentar uma situação que proporcionasse novo aprendizado de vida. O iníciodo encontro estava previsto para as 20h do dia 18, sexta-feira, com o acolhimento dos participantes eavisos gerais. Às 21h seria decretado o voto do silêncio, que só seria 
quebrado às 10h do dia 20, domingo, com a partilha das experiências vivenciadas pelos membrosdo grupo.

NA HORA MARCADA 

O trânsito do início da noite de sexta-feira já dava sinais de estrangulamento quando cheguei ao Sapiens, no alto da Candelária, perto da praça Souza Silva. Fui informado 
que JM estava naquele momento em sua casa, próximo dali, tomando banho e preparando a bagagem. Chegara havia pouco de Macaíba, depois de levar suprimentos para o período em que ficaríamos lá. Os companheiros de coni namento também começaram a chegar. Em dupla ou em pequenos grupos. Pude perceber que boa parte deles já se conhecia; deviam fazer parte do Sapiens, Centro de Estudos Filosóficos e Autoconhecimento que destina seu espaço “ao esclarecimento de questões que inquietam e estimulam o homem em seu processo de auto-realização”. Mantive-me reservado num canto, à espera da partida. Uma senhora simpática, sorridente e baixinha aproximou-se. Perguntou meu nome e onde eu morava; disse que se chamava Conceição Queiroz e que também iria participar do encontro pela primeira 
vez; estava confiante e animada. 

Um dos organizadores do Encontro com o Silêncio, o médico paulista Luiz Fernando Ruegger Ribeiro, homeopata, acupunturista, terapeuta holístico e coordenador do Centro de Cura de Atitudes em Natal, onde reside desde 2003, também chegou. Cumprimentou a todos com expressão suave no rosto e logo foi cercado por amigos e pessoas interessadas em seu trabalho profissional. 

Em seguida também surgiu JM. Tomou as últimas providências, ainda recebendo dinheiro das inscrições (R$ 45,00 por pessoa), fazendo a chamada dos presentes, avisando que outros inscritos foram direto para o local do retiro e organizando o comboio para nos deslocarmos até ao Centro de Promoção Humana Charles de Foucauld, que descobri depois ter sido declarado de utilidade pública federal por decreto assinado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em 26 de fevereiro de 1998.


PARTICIPANTES ACORDAM ÀS 4H30

Ao analisar a programação do evento ficava especulando sobre a natureza de cada meditação, cuja duração variava em média entre 30 e 60 minutos, com intervalo de 15 minutos entre uma e outra. Constavam ali meditação em grupo, caminhada meditativa, silêncio e/ou meditação individual, meditação mântrica em grupo, meditação vipassana - que seriam realizadas intercaladamente pela manhã, à tarde e à noite. 

O horário de recolhimento aos dormitórios estava fixado em 21h50, assim como o de despertar, às 4h30. O café da manhã seria servido entre 6h30 e 7h15; o almoço entre 11h e 12h; chá/leite, com fruta e pão integral entre 17h e 17h30; e por i m um chá às 21h40. Havia um intervalo dedicado ao descanso, entre 12h e 14h e outro para apresentação de palestra gravada ou vídeo, entre 18h45 e 21h, com transmissão de ensinamentos de i lósofos e/ou mestres espirituais.

Aos participantes era recomendado levar, além de objetos de uso pessoal, almofadas ou colchonetes para meditação, lençol de cama e de cobrir, travesseiro, fronha, toalha de banho/rosto e repelente. Repelente? Nesse quesito rel eti sobre a temerária possibilidade de ser incomodado por insetos, dormir mal e ainda acordar com o dia clareando para iniciar uma fatigante rotina de rel exão. Aliás, como seríamos acordados se também não era permitido ninguém tocar em ninguém? Foi com dúvidas e questionamentos sem respostas que compareci ao Sapiens na hora marcada para o traslado ao local do evento, às 18h de sexta-feira. 

ANTES DO TOQUE DE SILÊNCIO

À noite, a primeira impressão do lugar não foi a mesma da que tive logo na manhã seguinte, quando me identii quei com a tranquilidade da natureza bucólica ocupada por mangueiras e coqueiros, galinhas e passarinhos. O espaço é amplo, com infraestrutura: auditório, refeitório, dormitórios, educandário de ensino fundamental e médio, parque infantil e capela, além da residência das freiras que fica na entrada da granja. 

Logo que nos instalamos no dormitório masculino, onde havia oito beliches e banheiros (dois com vasos e dois com chuveiros), tive contato com um rapaz alto, cabelo comprido, que falava português com sotaque europeu. Fiquei sabendo tratar-se de Bernd Riedl, engenheiro alemão que participava pela segunda vez do encontro. Disse que começou a praticar meditação e ioga há seis anos para superar uma crise existencial. Está morando em Natal e ensina o que sabe sobre essas técnicas a quem deseja aprender. “E você? O que veio fazer aqui?”, perguntou-me com a mesma naturalidade com que falou da sua vida. “Vim em busca de novas descobertas”, respondi, observando despontar um sorriso no seu rosto. Tive a impressão que ele sabia exatamente o significado daquilo que eu acabara de dizer. 

A primeira reunião na noite de sexta-feira foi realizada no auditório Elisário Dantas de Medeiros, um lugar espaçoso, com capacidade para umas 200 pessoas. Ali, em breves palavras, JM e LFRR explicaram aos novatos as características do evento, tiraram dúvidas e deram avisos importantes. Por exemplo: divulgaram números de telefone que poderiam ser repassados aos familiares naquele exato instante (antes 
de os celulares serem recolhidos) para casos de emergência. E só nesses casos.

JM avisou aos meditadores ou candidatos a tal que em nenhuma edição do encontro jamais alguém desistiu antes do encerramento. Em uma ocasião, porém, uma moça sentiu fortes dores de cabeça, sendo assistida ali mesmo por LFRR. A dita participante concluiu a tarefa e ainda retornou ao evento no ano seguinte. A informação confortou. Não haveria de ser eu o primeiro a desistir daquilo, haveria? Dito tudo (ou quase) do que era pra ser dito, JM alertou: a partir do momento em que tocasse a sineta que estava sobre a mesa, ninguém mais poderia falar ou manter qualquer outro tipo de comunicação até domingo. O coração bateu forte. Ouvimos o toque da sineta. Pensei: e agora?

MACAQUINHOS PULANDO

O dia apenas raiava quando fomos despertados pelas badaladas da sineta que JM conduzia nas mãos para anunciar o início ou reinício das atividades ou ainda a hora das refeições. Levantei disposto para o primeiro combate com a mente, já que a meditação da noite anterior, realizada logo após o toque do silêncio, foi apenas um “aperitivo” diante do banquete que estaria para acontecer. Tive uma noite boa de sono e fui um dos primeiros a chegar ao auditório para a primeira meditação em grupo daquele sábado, às 5h.

Recordava-me das instruções repassadas na reunião inicial: ao ato de meditar nossa mente reage prontamente, tentando nos distrair e nos tirar do rumo; para enfrentar esse tipo de ocorrência, devemos examinar a respiração, o caminho que o ar percorre na direção dos pulmões e depois em sentido contrário, executando lentamente o processo de inspiração e expiração; devemos observar que, entre outros fenômenos sutis, o ar entra frio e sai quente pelas narinas; também foi dito que não precisamos lutar contra os pensamentos; que os deixássemos surgir à vontade, de qualquer natureza, mas que 
também não os detêssemos, que à medida que fossem aparecendo também fossem seguindo adiante, como macaquinhos pulando de galho em galho. 

Enfim, não devemos nem repelir sensações de desconforto ( físico e emocional) nem nos apegar às sensações de bem-estar ( físico e emocional); que igualmente deixássemos passar uma coisa e outra, como os ditos macaquinhos pulando de galho em galho. A palavra mágica para exercitar o desapego aos pensamentos e impressões subjetivas formuladas pela mente, nestas ocasiões, era uma da escola budista cuja pronúncia me pareceu ser mais ou menos esta: “anitcha”, mas que se escreve “anicca”. Significa impermanência. Traduzindo para o nosso português, quer dizer “vai passar”. 

Quando todo o grupo estava reunido no ambiente destinado ao 
exercício de mergulhar no próprio abismo interior - onze homens e treze mulheres, na contabilidade que fiz - impossível não notar que alguns dos participantes, a metade talvez, eram meditadores experientes. A postura que assumiam denunciava isso. A outra metade certamente seria de iniciados; aqueles que ainda não tinham muita prática, mas já sabiam alguma coisa. Restava eu, o único recruta zero da turma. 

Todos, ou quase todos, tinham levado esteiras, almofadas, mantas e até bancos apropriados ao aprendizado de acalmar a mente e o corpo com a força do pensamento. No chão, em posição de lótus ou de joelhos dobrados sobre as pernas. No entanto, alguns preferiam sentar nas cadeiras de plástico. Era o meu caso. Na escola espiritual do Santo Daime, no Acre, aonde um dia também cheguei sozinho em busca de novas descobertas, os adeptos se reúnem nos dias 15 e 30 para um trabalho de concentração. Tomam o chá (cujas propriedades favorecem a abertura dos canais da percepção) e sentam silenciosamente nos seus lugares para examinar a consciência. 

Portanto, eu tinha esse treinamento. Sentado na cadeira. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra coisa. E eu sabia disso. Devo admitir que ao longo daquele dia, e na manhã do seguinte, recorri várias vezes à palavra mágica (vai passar, vai passar...), buscando principalmente evitar movimentos que me tirassem da posição de imobilidade a que me lançava. Às vezes, de fato, funcionava. 

O incômodo sumia sem que fosse necessário se mexer. Outras vezes, porém, era difícil não ceder à tentação de coçar alguma parte do corpo. Comichões nos pés, pernas, braços, mãos, rosto. Armadilhas da mente ou ação dos insetos? Não sabia. Uma vez, durante a meditação coletiva no início da manhã, percebi que um mosquito buzinava na altura do meu ouvido esquerdo. Barulhinho irritante, azucrinação inoportuna. Mas como poderia afastá-lo sem atrapalhar os meditadores vizinhos e chamar a atenção para mim? “Anitcha, anitcha”, repeti no pensamento. A muriçoca não escutou o apelo. Foi preciso resolver a parada da forma tradicional, levando a mão esquerda a abanar o espaço ao meu lado. Levemente. 
Insistir. 

Persistir. Perseverar. Teimar. Resistir. Conduzir a mente para o ato da meditação passa por tudo isso. Foi mais ou menos nesse caminho que consegui colher frutos. Depois de acompanhar exaustivamente a movimentação incessante dos macaquinhos, chega um momento em que a mente entra num estado de relaxamento quesimplesmente não damos mais conta dos pensamentos que ocorrem a partir dali. Se é que ocorrem pensamentos quando alcançamos este estágio. Somos tomados, sei lá durante quanto tempo, por intensa quietude mental e calma profunda. Será a isso que os budistas chamam de Nirvana?

FALTOU ENERGIA, E AGORA?

Palavras. Com elas, principalmente com elas, podemos enfrentar os momentos de crise na vida. E no silêncio, como resolver um problema sério? Faltou energia no auditório em que o grupo praticava meditação. Calor insuportável. Para alguns participantes, aquela situação representava o fim do encontro. JM chegou com um bilhete escrito pelas freiras. Diziam ter entrado em contato com a Cosern, mas a equipe ficou de fazer os reparos na rede elétrica só no dia seguinte. Sendo assim, elas autorizavam nossa transferência para a capela. Lá havia energia. 

A mudança foi executava sem barulho. O novo lugar era acolhedor, bem menor que o auditório. Ali, o médico terapeuta Luiz Fernando Ruegger Ribeiro coordenou a atividade denominada “mudras de luz e ativação de áreas cerebrais”. Usando o gravador para repassar as orientações, os exercícios prescritos são baseados nos estudos do psicólogo paulista Leonardo Mascaro, autor do livro A arquitetura do eu – Psicoterapia, meditação e exercícios para o cérebro. O objetivo é regular as atividades elétricas do cérebro a partir da normalização das frequências e amplitudes das ondas de transmissão geradas no córtex cerebral.

PARTILHA DE EXPERIÊNCIAS

Sem dúvida, um dos momentos mais intensos do encontro foram os minutos i nais de meditação. Por volta de 9h30 do domingo, na capela, onde chegamos ao amanhecer do dia, às 5h, comecei a ser invadido por uma forte onda de emoção interior. Sabia que dali a pouco seria quebrado o voto de silêncio, estaríamos liberados para nos expressar como habitualmente fazemos, retomando à vida normal com os vícios e apegos dos quais estivemos ligeiramente afastados nas últimas 36 horas. 

A meditação realizada naquele momento era acompanhada de 
mantras orientais, talvez com louvores a entidades sagradas como Krishna e Shiva, envolvendo o ambiente num clima de harmonia e proteção espiritual. Não pude conter a emoção. Brotou uma lágrima no lado esquerdo do olho esquerdo e depois outra no lado direito do olho direito. Desejei, sinceramente, que aquele sentimento também pudesse alcançar as pessoas que padecem na aflição e no tormento. 

De repente, Jomar Morais se ajoelhou e uniu as duas mãos na 
altura do peito, como se estivesse orando. Ficou assim por alguns minutos, até romper o silêncio: “Namastê”, disse, numa espécie de saudação seguida de palavras de agradecimentos. A primeira reação de todos foi a de continuar em estado de recolhimento. Até que se iniciou a fase de abraços e cumprimentos, sorrisos e troca de coni dências. Em poucos minutos formou-se um círculo sob as árvores, onde os participantes puderam falar abertamente sobre as experiências que vivenciaram durante aqueles dias em que buscaram aquietar sua natureza interior. 

Relatos interessantes, como o da barata que invandiu o dormitório feminino e de lá foi gentilmente retirada por uma das mulheres. Ninguém gritou, nem deixou-se tomar pelo pânico, o que certamente aconteceria numa situação de normalidade. 
Ao entrar no carro para voltar pra casa, por volta das 15h, ainda 
não sabia mensurar os benefícios que aqueles dias de quietude e serenidade iriam me trazer nos dias seguintes. Numa conversa rápida com o médico Luiz Fernando Ruegger Ribeiro, ele explicou que a meditação diminui o estado de ansiedade ao liberar mais endorfina, substância natural produzida pelo cérebro que regula a emoção, gerando bem-estar e diminuindo o estresse. 

Sentia-me relaxado e em paz. Feliz. Lembrei do trânsito caótico e da poluição sonora que iria encontrar àquela hora na praia de Santa Rita, onde moro. Lembrei do convite para realizar o curso de medita-ção vipassana. Dez dias? Um. Dois. 
Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito. Nove. Dez. Será?

Notas de observação

* A programação do 7º Encontro com o Silêncio fi cava fi xada nas portas dos dormitórios e da sala de meditação. 
Assim, todos podiam saber os horários das atividades. Além disso, a sineta anunciava a hora de começar e de encerrar uma atividade. 

* Durante a caminhada meditativa os participantes eram orientados a andar em grupo, com passos lentos, 
para sentir o contato dos pés com o chão. O coordenador desta atividade era o professor da UFRN José Ramos 
Coelho, mestre em Filosofia e doutor em Psicologia Clínica.

* José Ramos era um dos meditadores mais experientes do encontro. Tem o tipo físico de um yogue, um faquir. Parece transpirar espiritualidade por todos os poros. Usava uma camiseta com a figura de Yogananda, mestre espiritual indiano que viveu no Ocidente na primeira metade do século passado. 

* A alimentação servida no encontro combinava cereais, frutas, verduras, legumes e frutas. No desjejum, por exemplo, havia café e/ou chá, pão integral, queijo branco, banana e maçã. 
No almoço foi servido arroz integral, feijoada natural, carne de soja, verduras e frutas. À tarde, apenas chá e pão integral. 
Antes de dormir, chá. Uma alimentação frugal, é verdade, mas que saciava. Meditar não dá fome.

* No refeitório havia duas mesas longas, com bancos dos dois lados que iam de uma ponta a outra. Durante as refeições, escutava-se apenas o tilintar de talheres e pratos. Alimentar-se em silêncio nos leva a prestar atenção no ato de mastigar. Em certo momento, quando mastigava uma maçã, achei 
que o vizinho escutava o som que estava sendo produzido dentro da minha boca.

* Na parede do refeitório havia um quadro a óleo. Na pintura, o rosto intrigante de um religioso. Quem seria? Só podia ser Charles Eugène de Foucauld, o militar francês que se 
converteu e foi beatifi cado pelo papa Bento XVI em 2005. 

* Na noite de sábado foi exibido um vídeo com a palestra de Eckhart Tolle, mestre espiritual alemão, autor de O poder do Agora e O Despertar de uma nova consciência. O sujeito tem 
uma forma engraçada de dizer puras verdades que parecem tolices, mas que nos levam a fazer outra leitura sobre o que antes não aparentava tanta evidência.

COMENTÁRIO

O relato que compõe esta reportagem foi inteiramente 
produzido com base nas lembranças e observações 
armazenadas na memória do repórter. Não foi possível fazer 
anotações durante o encontro. Nas conversas com os demais 
participantes, ao final do evento, registrei alguns nomes, dados e declarações que foram úteis na elaboração do texto. 

Ao decidir participar do 7º Encontro com o Silêncio não 
tinha o propósito deliberado de fazer a cobertura do evento para o jornal. Mas sabia que isso poderia acontecer. E aconteceu, graças, inclusive, às fotos cedidas generosamente por Júlio César Bezerra, administrador 
e corretor de imóveis que participou do encontro - e não 
pela primeira vez - com seu filho Juliano, jovem formado em Direito que ora faz mestrado em Educação. 

Entre os participantes também estavam Edson Melo, assessor da Prefeitura de São Gonçalo, e sua esposa Sandra 
Garcia, ex-diretora do Ipern. E também Anamir Lima, mãe de 
uma antiga namorada. Não houve tempo para conversar com todos, mas a eles gostaria de manifestar um desejo sincero: de que o fruto do nosso silêncio possa gerar paz no mundo que nos cerca.

Final do Encontro: fim do silêncio e relatos
de experiências pelos participantes 

Meditação no grande salão antes de um
problema na rede elétrica...

...levar o grupo a se transferir para a
capela, sem romper o silêncio

A cada manhã, a caminhada meditativa
sob o mangueiral do sítio

Hora da meditação individual: cada um
com a sua contemplação criativa

Alimentação vegetariana e parcimônia
na hora das refeições

Quando a mente está tranquila, a gula
deixa de provocar obsedidade 

Este grupo foi o último a deixar o Centro
de Treinamento Charles de Foucauld

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