Ano
IX
Nº 329
Texto
publicado
na revista Super, edição de maio de 2003
Outras
reportagens
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Dor,
essa incompreendida
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Ninguém
gosta de sentir dor e é natural que tentemos evitá-la.
Mas a velha vilã tem o seu lado positivo: ela é um
alarme que nos adverte sobre ameaças à nossa
integridade. Suprimí-la indiscriminadamente com
analgésicos, dizem alguns estudiosos, pode fazer mais
mal do que bem
Por Jomar Morais |
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Para
melhor entender esta reportagem, considere inicialmente uma
cena hipotética, mas bastante factível no clima atual de
insegurança em que vivem as grandes cidades brasileiras.
Uma
onda de assaltos alastra-se por seu bairro e, a fim de
proteger-se da ameaça, você decide instalar em casa um
alarme de última geração, capaz de disparar ao menor sinal
de anormalidade. Os dias seguintes transcorrem sem imprevistos,
e você até esquece a presença da engenhoca. Mas eis que,
numa madrugada, o alarme começa a soar estridente, tirando-o,
enfim, da cama num sobressalto. E agora, o que você fará?
Atacará o aparelhinho impertinente, desligando-o para voltar
a dormir, ou checará minuciosamente os compartimentos de sua
casa a fim de certificar-se de que alguém tentou invadí-la?
A
resposta óbvia a essa situação é o primeiro passo para se
compreender por que alguns estudiosos estão preocupados o
hábito do homem moderno de suprimir a dor indiscriminadamente,
sem procurar saber sobre a sua causa - o tema desta matéria.
Na ânsia de livrar-se a qualquer custo da sensação dolorosa,
mediante o uso abusivo de analgésicos, relaxantes musculares,
antiinflamatórios e outros medicamentos, as pessoas podem
estar se privando de seu sinalizador mais perfeito. Um alarme
preciso que a natureza instalou no organismo para soar a cada
ameaça de dano ou desequilíbrio.
"A
dor é biologicamente necessária", diz o neurocirurgião
americano Frank T. Vertosick, autor do livro Why we hurt (Por
que sentimos dor), ainda inédito no Brasil. "Ela nos
protege, advertindo-nos quando ultrapassamos nossos limites e
corremos risco de prejuízos." Temida e detestada, a dor
quase sempre é encarada negativamente. Sua imagem é a de uma
megera implacável contra a qual o homem tem mobilizado ao
longo dos séculos a ciência, a filosofia e a religião. No
entanto, mesmo sem desejá-la - e por mais que isso choque o
senso comum -, é possível enxergar na terrível sensação
uma função vital para o organismo, segundo médicos e
terapeutas. "A dor é um alerta de que algo está errado.
E se está errado, precisa ser corrigido", afirma o
médico Alexandros Botsaris, consultor da Natura Inovação e
Tecnologia e acupunturista no Rio de Janeiro. Em outras
palavras, a dor pode ser vista como uma espécie de pedido de
socorro do corpo, um grito de "ei, cara, pare de abusar".
Ou talvez um sinal de que o corpo, ameaçado, está reagindo,
tratando de se curar.
Isto
não quer dizer que se deve encarar o infortúnio causado pela
dor com indiferença. "Não podemos deixar pessoas
sofrendo se há uma forma de aliviar o sofrimento",
lembra Alexandros. Mas a intervenção no quadro doloroso
deveria levar em conta, de acordo com o médico, fatores como
a relação custo-benefício de um tratamento sintomático -
aquele que visa apenas estancar a sensação de dor, quase
sempre com a uso de drogas químicas - e até a
autopercepção do nível de sofrimento, que varia com os
indivíduos.
Há
quem diga que a própria manifestação da vida não seria
possível sem a dor. Em suas múltiplas facetas, ela seria um
dos pilares da auto-preservação dos seres vivos, compondo
com o prazer os extremos de um movimento pendular que afasta o
homem de tudo o que tende a destruí-lo e o aproxima de tudo o
que lhe proporciona bem-estar ou crescimento. O equilíbrio
seria rompido quando, no esforço para banir qualquer dor, por
mínima que seja, bombardeamos os mecanismos da sensibilidade
com drogas de efeito cada vez mais forte e duradouro. E essa
atitude, segundo os críticos do uso massivo de analgésicos,
pode trazer mais prejuízos do que a convivência com a dor
por algum tempo, enquanto ela é atacada na raiz. É que as
drogas são eficazes na supressão da dor, mas deixam intacta
a sua causa, que continuará a produzir novas complicações e
outras dores passado o efeito sedativo.
"Dor
é o que o paciente diz sentir", afirma o
anestesiologista Onofre Alves Neto, PhD em medicina e diretor
científico da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor.
"É uma experiência única, com uma importante dimensão
psicológica, detalhe que impede seja medida de maneira
objetiva." (Os médicos tentam mensurá-la usando escalas
baseadas nos depoimentos dos pacientes) Seu tratamento
convencional, segundo Onofre, segue um modelo em escada
recomendado pela Organização Mundial de Saúde. Começa com
analgésicos simples, como os antiinflamatórios não
hormonais (caso do ácido acetilsalicílico, a popular
aspirina) e vai subindo em complexidade e poder de fogo sobre
tecidos e células do sistema nervoso à medida que a
sensação desagradável resiste. Se a aspirina não resolve,
passa-se então para os chamados opióides, substâncias
sintéticas ou não de ação semelhante ao ópio. Nesta fase
entram em cena os remédios à base de codeína e tramadol,
considerados opióides fracos, e, se necessário, os opióides
potentes, cujo agente emblemático é a morfina. Em certos
casos de dores crônicas são usados até antidepressivos e
anticonvulsivantes, drogas destinadas originalmente ao
tratamento da depressão e da epilepsia. Quando nada disso dá
certo, o médico pode recomendar uma abordagem ainda mais
radical: as cirurgias em que as vias que transmitem a
informação da dor ao cérebro são cortadas.
Ampliada
a cada dia pela tecnologia farmacêutica, esse conjunto de
recursos praticamente é suficiente para sufocar os tipos mais
comuns de dor e aliviar aqueles relacionados a quadros graves,
como o câncer e a fibromialgia, doença que provoca dor em
todo o corpo. Mas há indícios de que o uso indiscriminado de
tais drogas, mesmo as mais simples, está produzindo uma conta
social pesada. "O abuso de analgésicos é um fato",
diz Alexandros. "As pessoas sentem alguma dor, tomam
alguma coisa e vão trabalhar, sem se darem conta dos
prejuízos dessa atitude". Uma das conseqüências do
descontrole, segundo o médico, é a cefaléia crônica
diária, um tipo de dor de cabeça capaz de infernizar a vida
de qualquer mortal. Com o uso contínuo de químicos, o
cérebro passa a não mais produzir endorfina, um analgésico
natural, transformando a dor de cabeça numa manifestação
recorrente e mais intensa.
Não
é preciso muito para alguém ganhar uma cefaléia crônica.
Basta tomar um comprimido analgésico mais de duas vezes por
semana durante um período de três meses. Calcula-se que 60%
dos consumidores fazem assim, o que explicaria o tamanho do
problema da dor de cabeça no Brasil. Pesquisa realizada no
ano passado pela professora de enfermagem Cibele Andrucioli
Pimenta, da Universidade de São Paulo, constatou que esse
sintoma está no topo da lista de dores crônicas, um
incômodo que atinge 27% da população brasileira. Na época,
o presidente da Sociedade Brasileira de Cefaléia, Pedro
Moreira, considerou a situação preocupante, mas a verdade é
que os números do problema aqui não se comparam ao que vem
ocorrendo nos Estados Unidos. Desde 1998, pelo menos 4
milhões de americanos viciaram-se em sedativos e estimulantes,
boa parte depois que as farmácias passaram a vender versões
sintéticas de opiáceos. Não se trata de gente que se
automedicou e criou uma complicação para si, mas de
pacientes receitados em hospitais e clínicas que se tornaram
dependentes químicos involuntariamente. O abuso de
analgésicos, que em passado recente levou o cantor Michael
Jackson a internar-se numa clínica de desintoxicação, está
fazendo vítimas em série entre artistas de Hollywood, como
é o caso do ator Matthew Perry, do seriado Friends, e da
atriz Melanie Griffith, mulher do galã Antonio Banderas, que
admitiram a dependência a opiáceos sintéticos.
Entre
os fármacos responsabilizados por essa nova epidemia estão o
Darvon e o Vicodin, remédios que combinam narcóticos
respectivamente com a aspirina e o acetominofen, para turbinar
sua ação, e em pouco tempo podem provocar efeitos colaterais
complexos e crises de abstinência que incluem dores
musculares, câimbras e elevação da pressão arterial. O
Darvon e o Vicodin ainda não estão à venda no Brasil, mas
um de seus ingredientes, o acetominofen, é bem conhecido por
aqui por ser o princípio ativo do analgésico Tylenol. Estudo
recente da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, mostrou
que mulheres que usaram o Tylenol de um a quatro dias por mês
tiveram um aumento de 22% no risco se tornarem hipertensas.
Médicos
e terapeutas concordam numa coisa: é preciso agir com cautela
diante de toda manifestação de dor. "Nunca deveríamos
eliminar a dor exclusivamente, sem atuar na sua causa, exceto
nas raras ocasiões em que essa causa é intratável",
afirma Alexandros. Isso exige do médico a plena consciência
do papel da dor aguda, aquela que, segundo Onofre, jamais
deveria ser suprimida antes de um diagnóstico apurado do
fator desencadeante. O especialista, no entanto, não vê
motivo para que a dor crônica, fonte de sofrimento permanente
- com ou sem identificação da causa - não seja atacada com
o arsenal bioquímico disponível para alívio do paciente.
"A dor aguda tem a função de alertar a pessoa a
procurar cuidados específicos, mas a dor crônica, depois de
feito o diagnóstico, é um sofrimento desnecessário",
afirma.
Neste
ponto começa o conflito entre médicos convencionais, de
formação biomédica, e correntes terapêuticas alternativas,
como a dos higienistas, que enfatizam o combate aos
desequilíbrios orgânicos que estariam por trás das doenças
e da dor. Para os higienistas, ambas têm uma raiz comum: os
hábitos nocivos adotados pelo homem, principalmente os
relacionados à alimentação não natural, e as situações
estressantes. A supressão artificial da dor, sem a
eliminação de sua causa, diz a doutrina higienista, será
sucedida por uma reação fisiológica do organismo ainda mais
forte, cuja conseqüência é o doente ingerir mais remédios,
precipitando-se num quadro de dor reativa e de dependência
química.
Na
verdade, na maioria das vezes a identificação da causa da
dor é fácil, óbvia até, e a sua preservação só se
explica ou devido a negligência do médico ou do paciente.
Num jovem, lembra Onofre, a dor abdominal que se inicia ao
redor do umbigo e se propaga para o lado direito pode ser um
sinal de apendicite. Muitas dores de cabeça, tonturas,
dificuldades respiratórias e problemas gástricos têm origem
no desvio do eixo da coluna vertebral, provocado por má
postura. O sedentarismo e o estresse, que contribuem para um
corpo flácido e envenenado pela sobrecarga de hormônios como
o cortisol, gerado nos momentos de irritação, estão por
trás de dores na cabeça, nas costas e nas articulações.
Não é à-toa que a lombalgia aparece em segundo lugar na
lista de dores crônicas da pesquisa de Cibele. O mesmo estudo
mostrou ainda que, ao contrário do que se imagina, não são
os idosos, mas o jovens, o segmento da população que mais
sofre com a dor crônica (51% dos adultos com mais de 60 anos
contra 63% de jovens), outra sinalização da influência dos
hábitos na experiência dolorosa. É que os moços se expõem
com mais freqüência a movimentos repetitivos, a situações
limites e também ao sedentarismo e à má postura diante da
TV e do computador.
A
dor, enfim, segundo alguns estudiosos, exibe também uma
dimensão emocional, - o elemento principal do sofrimento -
que, não raro, funciona como um círculo de causa e efeito. A
capacidade cognitiva dos humanos antecipa a dor, diz Frank
Vertosick. Ele lembra o episódio de Jesus no horto do
Getsemani, pouco antes de ser preso. A expectativa da morte na
cruz fez o Cristo suar sangue. No homem comum, o medo de
conviver com a dor pode ser um fator decisivo na percepção
da sensação dolorosa - um fenômeno explicado, há quatro
anos, por uma pesquisa da Universidade Oxford, na Inglatera.
Segundo o estudo, algumas áreas do cérebro são afetadas
pela expectativa de dor e costumam gerar um efeito de
antecipação e aumento da sensação. É o caso, por exemplo,
daquelas pessoas que só ao escutar o barulho do motor do
dentista já começam a sentir dor no dente a ser alcançado
pela broca. Na época, testes realizados com voluntários
submetidos a ressonância magnética indicaram que tais áreas
estão localizadas na região frontal do cérebro e no córtex
insular, próximo à área cerebral onde a dor é efetivamente
sentida.
A
variável cultural é outro item considerável. Veja-se o caso
da dor do parto. Ela pode ser mais intensa que a provocada
pelo câncer e assemelha-se a da amputação de uma perna ou
de um braço sem anestesia. No entanto, argumenta Vertosick,
milhões de mulheres preferem o parto natural e outros
milhares pagam para evitar a anestesia no momento em que
darão à luz um filho. Tais mulheres simplesmente, segundo o
especialista, sabem como devem se conduzir para eliminar a dor:
deixar a criança nascer. Da mesma forma, meninos aos quais
foram explicados o sentido de ir ao dentista sentem menos ou
nenhum incômodo quando estão na cadeira temida por tantos
adultos. Deduz-se daí que, educada ou estimulada, a mente
pode controlar e até suprimir a dor sem as desvantagens dos
fármacos que atuam em processos químicos do sistema nervoso.
A
demonstração mais ostensiva desse poder mental ocorreria na
utilização da hipnose em pacientes com dores insuportáveis.
A sensação diminui bastante. Outros recursos, alinhados com
o objetivo de estimular a capacidade de autocura do organismo,
têm sido recomendados até por médicos alopatas e aplicados
em hospitais da medicina convencional. O Memorial Sloan-Kettering
Cancer Center, um centro de referência no tratamento do
câncer em Nova York, foi um dos primeiros hospitais a incluir
a meditação como terapia complementar para alívio da dor. A
prática está disseminada por centenas de hospitais
americanos e já foi adotada em alguns hospitais brasileiros.
Em outubro passado, em Maryland (EUA), um simpósio de
profissionais especializados em dor crônica concluiu que o
problema é complexo demais para ser atacado apenas no aspecto
sintomático e deu sinal verde para as terapias holísticas,
especialmente a acupuntura. A idéia é que, mesmo quando a
terapia não passa de placebo (algo inócuo do ponto de vista
farmacológico), ela pode contribuir para alterar a
percepção psíquica da dor, ajudando na melhoria do estado
do paciente.
"A
dor é uma companhia indesejada, mas inevitável em nossas
vidas. É uma mestra que pode nos ensinar o que preferiríamos
aprender de outro modo", afirma Vertosick. Uma visão
polêmica, sem dúvida, em um mundo habituado e equipado para
exorcizar toda manifestação dolorosa. Nesta perspectiva,
restaria o consolo de que, dependendo da atitude individual, o
aprendizado amargo pode ser rápido. "A dor é um
processo de exoneração do que nos prejudica", diz a
terapeuta Norma Tresbach, homeopata com formação em medicina
tradiconal chinesa. "Mas não estamos aqui para sofrê-la,
mas para viver prazerosamente". Segundo Norma, o simples
de fato de ouvir a dor e chegar à consciência de sua causa
às vezes é o suficiente para eliminá-la sem remédio algum,
nem mesmo as bolinhas açucaradas da homeopatia. É quando
você, advertido pelo alarme, expulsaria o ladrão e
reforçaria a fechadura da casa.
PARA
SABER MAIS
Na
Livraria:
Why
We Hurt: The Natural History of Pain, Frank T. Vertosick,
Harcourt, Nova York, EUA, 2000
A
Dor, João Augusto Figueiró, Folha, São Paulo, 2001
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