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Ano VI // Nº 296

Texto publicado na edição de Outubro de 2000 da revista SUPER

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de Redação

Armadilha digital

Entrevista exclusiva com Kimberly Young

 

Armadilha digital - 3

Eu tenho a cura!

Especialista americana promete libertar
dependentes da Internet com terapia virtual

Webaholics de todo o mundo, Kimberly Young está na rede. Doutora em Psicologia, KImberly é especialista em identificar náufragos no oceano de bits e promete traze-los de volta à terra firme em, no máximo, 18 sessões de terapia. A operação resgate não poderia ser mais cômoda, pelo menos para quem não consegue desligar o modem: tudo é feito através da própria Internet. O interessado só precisa acessar o site www.netaddiction.com e estar disposto a desembolsar 25 ou 89 dólares por consulta, conforme a opção por email ou conversa on-line de 50 minutos.

Kimberly descobriu a face escura do mundo virtual numa madrugada de 1994. O telefone tocou e, na outra ponta da linha, sua irmã Marsha desabafou. Estava decidida a divorciar-se porque o marido, um internauta que já naquela época teclava até à madrugada, a havia trocado pelo computador. Três anos mais tarde, após pesquisar 500 usuários pesados da Internet, Kimberly publicou Caught in the Net (algo como Enroscado na Rede), livro que acabou virando uma espécie de bíblia para estudiosos do problema e, principalmente, suas vítimas. A obra, já traduzida para o alemão, o italiano e o dinamarquês, contém afirmações peremptórias e, às vezes, polêmicas.

Há quem discorde do método de pesquisa da psicóloga - os dados foram levantados principalmente por meio da Internet - e de suas conclusões, tidas como alarmistas pelos críticos. Apesar disso, Kimberly é reconhecida como autoridade no assunto e presta seus serviços a empresas e entidades governamentais como a Motorola, a CIA e o Departamento de Saúde do estado de Nova York. Seu estilo afirmativo está presente nesta entrevista à SUPER:

A Internet pode ser uma ameaça à saúde?

Sim. Cerca de 5 a 10% dos usuários da rede se enquadram na categoria dos dependentes, à semelhança dos viciados em álcool. Mas felizmente a maioria dos usuários consegue integrar a Internet às suas vidas de forma positiva.

Que áreas e atrativos da Internet são potencialmente mais perigosas nesse sentido?

Aquelas que são mais interativas, como as salas de bate-papo e sexo on-line e os sites múltiplos onde há jogos e outras aplicações interativas.

Profissionais que usam intensivamente a Internet no trabalho estão mais propensos a desenvolver dependência?

Qualquer pessoa com um computador e um modem é um candidato em potencial ao problema.

Espere aí. Então uma pessoa normal, sem qualquer transtorno psicológico prévio, pode se tornar dependente digital?

Claro. Os estudos feitos até agora mostram que 50% dos webaholics têm histórico de distúrbios psiquiátricos, mas a outra metade era psicologicamente sadia. Muitas vezes o comportamento patológico manifesta-se sob a forma de um romance virtual ou na prática de sexo on-line. O acesso fácil, a sensação de poder e disponibilidade e, sobretudo, o anonimato proporcionados pela Internet são um estímulo a essa situação.

Na sua pesquisa em Pittsburgh, constatou-se que havia mais mulheres de meia-idade do que homens entre os dependentes de Internet. As mulheres seriam mais vulneráveis aos atrativos da rede?

Sim. Num grupo de 396 dependentes, 239 eram mulheres maduras. Os homens costumam exercer um certo controle sobre suas emoções e fantasias. As mulheres, não.

A senhora se propõe a tratar de pessoas viciadas em Internet através da própria Internet. Isso não é contraditório?

Não. Ao contrário das dependências físicas, como o alcoolismo, o processo de cura da dependência digital não exige abstinência. De qualquer modo, em nosso Center for On-line Addiction oferecemos também o tratamento tradicional, em consultório.

De quanto tempo um webaholic precisa para se livrar da dependência?

Dependendo da situação do paciente, o tratamento dura de três a 18 sessões.

Envie agora sua mensagem para o jornalista Jomar Morais:

jmorais@abril.com.br


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