Ano VI // Nº 296
Texto publicado na edição de
Outubro de 2000 da revista SUPER
Leia mais:
Carta
do Diretor
de
Redação
Armadilha
digital
Entrevista
exclusiva com Kimberly Young
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Armadilha
digital - 2
Orgasmos virtuais
O que leva alguém a trocar
um amante de carne
e osso por imagens frias em uma tela?
A
dependência digital assume caráter
explosivo quando reage com a compulsão
sexual, um problema antigo que, segundo
estimativas, afeta cerca de 3% da
população. Para alguém que só pensa
naquilo, mas, por timidez, não consegue
expressar suas intenções no mundo real, a
Internet representa a queda de todas as
barreiras à manifestação de fantasias e
desejos. Claro, o ato sexual nunca se
completa na rede. Mas quem liga? Na maioria,
os que ali se reúnem com tal objetivo querem
exatamente isso: sexo sem contato físico.
Trata-se, quase sempre, de pessoas tímidas,
que têm dificuldade em estabelecer
relacionamentos face a face e até preferem
evitá-los, temendo enfrentar decepções.
Algumas são portadoras de desvios ou
disfunções sexuais e buscam se proteger
contra preconceitos e discriminações no
ambiente liberal e anônimo da Internet.
Estão lá também os cônjuges infelizes no
casamento e uma gama de homens e mulheres
saídos de relacionamentos traumáticos.
Não é pouca
gente. Pesquisa recente da Sociedade
Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana
constatou que 16% dos internautas do país
passam, em média, 14 horas semanais
circulando pela rede à procura de sexo. Nos
Estados Unidos, onde os sites eróticos já
são um negócio de 1 bilhão de dólares
anuais, o tempo dedicado ao prazer virtual é
quase o dobro. Realizada com 834 usuários da
Internet, a pesquisa brasileira mostrou que
65% deles freqüentam salas de bate-papo e,
entre esses, 63% praticam sexo on-line,
masturbando-se enquanto trocam frases
eróticas. Os homens, incluindo aí os
homossexuais, formam 80% desse contingente.
Todos se acham tímidos e apenas 4% deles se
aventuram a fazer sexo real com o parceiro de
embalo cibernético.
O que fica
depois de cada experiência? Uma sensação
de vazio. E também uma penca de
complicações em família. São muitos os
casamentos desfeitos ou abalados porque um
dos cônjuges viciou-se em sexo virtual e já
há registros de casos extremos, como o de um
paciente do psiquiatra Dartiu Xavier da
Silveira, em São Paulo. Webaholic pesado,
ele só decidiu se livrar do problema depois
que a mulher, sentindo-se desprezada, tentou
o suicídio, cortando o corpo com uma lâmina
de barbear. Foi a única maneira de chamar a
atenção do marido dependente.
No Rio de
Janeiro, a secretária Tereza Cristina
Barcellos, uma senhora de 50 anos, com dois
filhos e dois casamentos desmoronados, por
pouco não detonou a carreira ao apaixonar-se
por um rapaz de 25 anos com quem se
encontrava apenas na Internet. Teresa passava
até 8 horas por noite em papos e
procedimentos de sexo virtual com o amado e,
no dia seguinte, não conseguia ser produtiva
no trabalho. Largou o xamego quando a conta
telefônica bateu nos 400 reais, ainda a
tempo de salvar o emprego.
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