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Ano VI // Nº 296

Texto publicado na edição de Outubro de 2000 da revista SUPER

Leia mais:

Carta do Diretor
de Redação

Orgasmos virtuais

Entrevista exclusiva com Kimberly Young

Armadilha digital

Os benefícios da Internet todo mundo já conhece.
Mas cuidado: novos estudos mostram que a Web
pode viciar tanto quanto uma droga

Por JOMAR MORAIS (*)

O carioca Bruno Parodi é um rapaz de sucesso. Aos 23 anos, ele é um dos donos da Tessera, empresa de Internet que, segundo diz, vai muito bem, obrigado, apesar das tempestades que assolam a economia pontocom. Fundada em 1995, quando Bruno tinha apenas 18 anos, a Tessera desenvolve projetos virtuais para terceiros e mantém na rede produtos próprios como o Indicão, um site de entretenimento personalizado, que em apenas dois meses de vida capturou 10 000 usuários registrados e já computou 2 milhões de páginas vistas. Apesar disso, a habilidade empreendedora não é o detalhe que mais se destaca no perfil desse jovem empresário. Incrível mesmo é a sua capacidade de se manter plugado à Internet por horas a fio, numa demonstração de resistência muito além do limite das pessoas comuns.

"São 12 horas de conexão por dia", diz Bruno. "Tenho mais de 10 contas de email, recebo, em média, 400 mensagens diariamente e, tirando os spams (aquelas irritantes propagandas não solicitadas que costumam invadir nossos micros), respondo a todos". É mole? Pois tem mais. Com toda essa montanha de correspondência desabando em sua tela, o rapaz ainda encontra tempo para navegar por dezenas de sites de informação, bater papo on-line com 700 pessoas cadastradas em seu canal de ICQ - de figuras anônimas a celebridades como o craque Ronaldinho - e, de quebra, costuma publicar na rede artigos sobre marketing e comunicação, sua especialidade profissional. "Conheço muita gente importante do mercado sem nunca ter visto pessoalmente. Até meu sócio na empresa, eu encontrei na Internet", revela.

Bruno é um gênio? Um fenômeno da sociedade tecnológica? Ele próprio acha que não. "Considero-me um viciado em Internet, um webaholic", define-se. Como os profissionais obsessivos por trabalho, os workaholics, o jovem carioca traça sua auto-imagem com bom humor e uma ponta de vaidade, mas a verdade é que comportamentos como o de Bruno começam a ser vistos como sinal de uma nova doença: a compulsão pela vida digital. As infinitas facilidades proporcionadas pela Internet, como fonte de informações, serviços e meio de comunicação entre as pessoas, têm levado muita gente a perder o controle do tempo quando estão à rede. Quando isso acontece, o resultado é sempre uma sucessão de prejuízos que vão do desequilíbrio nas relações afetivas até a perda do emprego.

Chega a ser paradoxal que um sistema de comunicação que está revolucionando os negócios, ampliando o provimento de informações e colocando em contato pessoas dos quatro cantos do planeta possa ser associado a uma patologia. No entanto, estudos realizados nos últimos quatro anos, especialmente nos Estados Unidos - berço da Internet e país onde existem hoje 146 milhões de internautas -, evidenciam que atuar na teia mundial de computadores tem lá os seus perigos.

No semestre passado, por exemplo, uma pesquisa da Universidade Stanford entre 35 000 usuários de Internet em cidades americanas atestou que o uso abusivo da rede está criando uma nova categoria de pessoas solitárias, que se refugiam nos computadores e já não se interessam pelas obrigações e prazeres do mundo real. O dado não é exatamente de uma novidade. Afinal, dois anos antes, um outro estudo patrocinado pela organização HomeNet em Pittsburgh, na Pensilvânia, havia identificado uma significativa tendência à depressão entre usuários intensivos da Internet. O curioso é que, dessa vez, a divulgação dos resultados chocou de tal modo os americanos que um dos coordenadores da pesquisa, Norman Nie, não conteve um desabafo. "Eu sabia que o assunto é sério", disse. "Mas não esperava que fosse tão explosivo".

A explicação para o alvoroço está, talvez, em um número ainda não referendado pelo rigor estatístico, mas já suficiente para preocupar até o governo dos Estados Unidos. Estima-se que pelo menos 200 000 americanos perderam o controle sobre o uso da Internet e hoje sofrem de um mal catalogado pela Associação Americana de Psicologia como PIU (Pathological Internet Use) ou Uso Doentio da Internet, cujo sintoma básico é o uso preferencial e, muitas vezes, exclusivo da Internet sobre todas as outras atividades do cotidiano. Suas vítimas se tornam incapazes de controlar o número de horas que permanecem ligadas à rede, numa onda compulsiva que acaba isolando-as de familiares e amigos e comprometendo seu desempenho profissional.

É uma obsessão como o vício em jogo, dizem os especialistas, mas cujos efeitos se assemelham aos da dependência de drogas químicas. Um viciado em Internet costuma ficar triste ou ansioso quando não está conectado. Ele também desenvolve o fenômeno da tolerância - isto é, passa a ter necessidade de permanecer conectado por períodos cada vez mais longos para alcançar o mesmo nível de satisfação. A síndrome de abstinência, provocada pela cessação do uso da rede, pode incluir até distúrbios psicomotores, entre os quais o movimento incontrolável dos dedos, como se o internauta continuasse teclando mensagens sem fim num computador imaginário.

É provável que, enquanto lê esta reportagem, você já se tenha perguntado: não seria esse um risco a que estão expostos apenas os nerds, aqueles fanáticos por computador? Afinal, são eles e não os usuários comuns, como você, que dão plantão permanente à frente de um monitor. Também pensávamos assim até conversarmos com Kimberly Young (leia quadro na página ... ), doutora em Psicologia e autora do mais completo estudo já realizado sobre dependência de Internet nos Estados Unidos. "Qualquer pessoa que possui um computador e um modem pode tornar-se um cyberdependente", diz Kimberly. Inclusive você. A propósito, a pesquisa feita por essa americana constatou maior incidência de viciação entre pessoas que navegavam na web há pouco mais de seis meses. No Brasil, onde existem 5 milhões de internautas e estima-se que mais 2,5 milhões chegarão à rede nos próximos três anos, não há ainda estatísticas sobre o problema. Mas os casos de dependência digital começam a sair do anonimato.

Se você ficou impressionado com a rotina louca de Bruno Parodi, é bom ficar sabendo: o rapaz está longe de ser um caso grave de cyberdependência. Parodi passa metade do dia surfando na web, mas boa parte de suas atividades on-line diz respeito aos seus negócios que, aparentemente, até agora não foram prejudicados. E é justamente aí que está a linha divisória entre a normalidade e a dependência na Internet, segundo os pesquisadores americanos. Apesar de os estudos indicarem que a maioria dos webaholics fica plugada à rede, em média, 38 horas por semana, o que mais importa, na definição do quadro clínico, é o impacto do uso da Internet na vida de cada usuário e não o tempo de conexão.

Veja o caso de Rafael Fijalkowski, um gaúcho de 23 anos, estudante de Radiologia em Porto Alegre. No início do ano passado, ele entrou pela primeira vez numa sala de bate-papo na Internet e sua vida nunca mais foi a mesma. Piorou muito, ressalte-se. Fascinado pelas conversas on-line e pelo namoro virtual, o rapaz deixou de lado festas, amigos e até a família. "Perdi um semestre na faculdade porque já não conseguia estudar", diz Rafael. Exceto por um único final de semana, Rafael costuma ficar bem menos de 12 horas por dia plugado, mas os efeitos da obsessão digital em sua vida são mais nocivos que na do carioca Bruno.

Por que isso acontece? Depois de estudar o comportamento de jovens internautas como Rafael, um outro pesquisador, o doutor em Psicologia John Suler, da Universidade Rider, concluiu que a Internet funciona como uma extensão do mundo psíquico do indivíduo, um lugar onde a comunicação escrita (as limitações técnicas ainda não permitem a generalização das videoconferências nos chats) estimula os processos psicológicos de projeção e transferência. No anonimato das conversas on-line qualquer pessoa é capaz de, não apenas expressar seus desejos e fantasias com uma liberdade que jamais teria no mundo real, como também de projetar com mais intensidade no outro suas aspirações, ansiedades e receios. O garoto tímido se transforma no galã bem apessoado e falante. A mulher tribufu ganha contornos de gata da Play Boy. O teclado aceita tudo e o medo de rejeição praticamente desaparece, em razão da possibilidade de sair de cena a qualquer momento, sem deixar rastro sobre a própria identidade. A Internet, assim, proporciona uma gratificação imediata, uma experiência prazerosa que, no entanto, pode reforçar determinados comportamentos e necessidades não supridas pelo mundo real.

A dependência digital é também um problema para as empresas. Quase 70% do tráfego em sites eróticos ocorre durante o horário comercial e é protagonizado por profissionais que se utilizam de computadores das companhias para burlar o trabalho e dar vazão às fantasias. Incomodadas com a queda da produtividade, elas começam a reagir. No ano passado, a Xerox Corporation, nos Estados Unidos, demitiu em um único dia 40 funcionários, por acessar páginas pornográficas em horário de serviço. Em julho, foi a vez da Dow Chemical mandar para o olho da rua 50 funcionários e suspender outros 200 por uso do email da companhia para correspondências obscenas. A preocupação se estende, inclusive, aos teletrabalhadores, aqueles profissionais que, mesmo vinculados a uma empresa, trabalham em casa, através da Internet.

Em tese, quem acessa a Internet no trabalho tem menos chance de se tornar dependente, segundo o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, coordenador do Proad, o programa de assistência a dependentes de drogas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). É que, nesse caso, o uso dá-se por necessidade, não por fuga. A exceção são os teletrabalhadores, que muitas vezes acabam desenvolvendo uma atitude obsessiva, perdendo a noção do tempo diante do computador doméstico. Para amenizar o problema empresas como a AT&T, a gigante americana das telecomunicações, que mantém milhares de funcionários produzindo em casa, impõem a seus telecomuters a obrigação de respeitar rigorosamente o horário de trabalho da companhia.

Mesmo referendado avalizados por universidades de prestígio, os estudos sobre dependência digital ainda constituem um tema polêmico, contra o qual se insurgem alguns acadêmicos, mesmo nos Estados Unidos. Eles questionam, por exemplo, os critérios das pesquisas e estranham que cientistas se assustem com a absorção de rotinas do cotidiano pela Internet, quando o desenvolvimento da tecnologia de tele-imersão em breve deve tornar corriqueiras a prática de esportes, a troca de carícias e a percepção de odores em ambientes de realidade virtual. Para cientistas como Jaron Lanier, criador da expressão realidade virtual e um dos pais da programa Internet-2, a rede de altíssima velocidade, o difícil é imaginar o que estará fora do mundo virtual daqui a 20 anos. No Brasil, a contracorrente, é liderada pela doutora em Psicologia Ana Maria Nicolaci da Costa, da PUC do Rio de Janeiro. Seu raciocínio: ninguém considera viciada uma pessoa que passa quatro horas por dia diante da televisão, mas se está querendo aplicar o rótulo a quem acessa a Internet apenas 10 horas por semana. Para a psiquiatra paulista Denise Razzouk, não há como uma pessoa equilibrada possa viciar-se em Internet ou em qualquer coisa.

Chame-se a isso vício, uso patológico ou mania, a verdade é que muita gente não tem conseguido conviver de forma saudável com uma novidade que está mudando radicalmente o mundo e o estilo de vida das pessoas. E, neste caso, a solução é impor limites que assegurem o retorno ao equilíbrio, seja por meio de uma boa dose de autodisciplina ou com ajuda de terapia psicológica. Em muitos casos, o tratamento do webaholic inclui a administração de calmantes e antidepressivos - enfim, a mesma terapia aplicada a dependentes de álcool e outras drogas químicas.

Em qualquer das alternativas, porém, o xis da questão é sempre o reconhecimento, pelo dependente, de que algo anda errado em sua relação com os bits. "Não é fácil", diz a psicóloga Rosa Maria Farah, do Núcleo de Pesquisa de Psicologia em Informática da PUC, em São Paulo. "A resistência do dependente é muito grande e são sempre os familiares e amigos que tomam a iniciativa de buscar ajuda".

Lembra de Rafael, o gaúcho? Não são poucas as vezes em que ele pensou em buscar um tratamento, mas na hora H... "A gente sempre arruma uma desculpa para não fazer", diz. Talvez, nenhuma trilha para a cura leve tão rápido a resultados quanto a encontrada pelo webdesigner paulistano Eduardo Salgado, cuja vida andava enroscada na rede. Ele já havia perdido os amigos, que não agüentavam mais aquele interminável "minutinho" para terminar algo na Internet, quando se viu forçado a vender o micro. "No começo foi duro, fiquei desesperado", conta. "Mas depois descobri o que estava perdendo. Eu era muito viciado."

Bruno e Rafael, vocês não gostariam de fazer o mesmo?

(*) Com a colaboração de Mariana Mello

Que achou da reportagem acima? Tem algo a dizer ao autor? 
Envie agora sua mensagem (cite o título da matéria) para o jornalista Jomar Morais:

jmorais@abril.com.br


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