Era
uma vez um arcanjo belo e luminoso. Daí o seu nome,
Lúcifer, que na origem latina significa portador da luz.
Era o preferido de Deus, espécie de assessor direto numa
época em que o Criador andava muito ocupado com a criação
do universo. Era também sábio e envolvente, conhecia os
segredos da vida. Algo assim tão extraordinário que o
nobre ser celeste nem teve tempo de perceber o perigo.
Segundo
Dante, na Divina Comédia, a glória de Lúcifer
durou somente 20 segundos. Foi o tempo necessário para que
o orgulho lhe subisse a cabeça, levando-o a se opor aos
desígnios divinos. Na primeira tentativa de golpe de estado
de que se tem notícia, o arcanjo convenceu um terço dos
habitantes do céu a rebelar-se contra o Criador. Houve
guerra nas alturas, mas Lúcifer perdeu feio. Batidos por
tropas angelicais comandadas pelo arcanjo Miguel, ele e seus
aliados foram precipitados nas profundezas do mundo, onde
formaram um reino dissidente mais conhecido como inferno.
E assim
nasceu o Diabo, o senhor do mal, orgulhoso, vaidoso,
astucioso, eternamente rebelado contra tudo que o que consta
dos planos divinos, aí incluindo-se o homem e as virtudes
que o aproximam do Criador.
Esta
história não está no Gênesis, o primeiro livro da
Bíblia, que descreve a criação do céu e da Terra. Nem
poderia. A narrativa acerca de Lúcifer surgiu na literatura
popular judaica, foi reproduzida em escritos apócrifos e
só muito tempo depois associada ao mito de Adão e Eva no
paraíso. (Foi então que a fala da serpente a Eva passou a
ser vista como uma intervenção do Diabo, com o objetivo de
corromper a nascente humanidade.) Os cristãos a
incorporaram à sua doutrina, enriquecendo-a com detalhes
apocalípticos. O Novo Testamento informa que Lúcifer e
seus aliados voltarão a guerrear contra os anjos de Deus no
fim dos tempos e dessa vez o Diabo não terá colher de chá.
O Tinhoso e suas tropas serão definitivamente derrotados.