Ninguém
jamais recebeu tantos nomes. Nenhum ser excitou tão
intensamente a imaginação humana ao longo dos séculos.
Num mundo dominado pelo computador e pelas comunicações,
com tecnologia, educação e informação em larga escala,
imaginou-se até que não haveria mais lugar para ele.
Engano. No alvorecer do terceiro milênio ei-lo aí, vivo e
atuante, ainda que transformado e sem os superpoderes de
antigamente. Ele – Asmodeu, Belzebu, Azazel, Belial...
entre os muitos nomes com os quais os antigos hebreus o
rotularam. Ou Iblis, como dizem os muçulmanos. Ou Arimã,
como o chamavam os seguidores de Zoroastro, na Pérsia. Ou
simplesmente, como bem o sabem os brasileiros temerosos de
mencionar-lhe o nome, o Rabudo, o Tinhoso, o Sujo, o
Beiçudo, o Pai da Mentira, o Coxo, o Cão. Senhores, eis
Satanás, o Demo, o Diabo, a mais intrigante das figuras que
povoam o imaginário ocidental.
O Diabo chega
ao século XXI deitado sobre a fama. Não mais aparece em
murais com a aparência grotesca de um bode alado, coroado
de enormes chifres, com rabo de dragão e olhos nas asas, na
barriga e no traseiro. Há muito seu nome foi retirado do
Pai Nosso, a principal oração cristã. Ele já não é
acusado em toda parte de estar por trás das doenças, das
hecatombes, das tragédias do cotidiano. Não, o Diabo teve
que ceder aos progressos da ciência, à liberdade de
pensamento e ao avanço da razão sobre a superstição um
considerável naco de suas habilidades. Mas é inegável que,
quase reduzido à quintessência de uma idéia, ele continua
influente em nossos dias, qualquer que seja a classe social
e o nível cultural das pessoas, respeitadas aí as
diferenças de interpretação. Não é exagero dizer que,
de certa forma, Satã tem sido revalorizado nos últimos
tempos.
Nos Estados
Unidos, símbolo de sociedade regida pelos ideais
iluministas e maior centro científico e tecnológico do
planeta, o número de exorcistas autorizados pela Igreja
Católica cresceu mais de dez vezes nos últimos dois anos.
Antes, o país tinha apenas um. Na França, no mesmo
período, os exorcistas saltaram de 15 para 120. Em todo o
mundo desenvolvido, o Demônio e os seus sequazes continuam
a rodar a roda da fortuna na literatura e na indústria do
cinema (até o velho "O Exorcista", de 1973,
voltou às telas apimentado com cenas cortadas na versão
original). Em países ricos ou pobres Satã não pára de
estimular debates, teses e, principalmente, facilitar as
manipulações do jogo político – afinal, satanizar o
adversário sempre foi uma arma afiada em qualquer disputa.
Entre
fundamentalistas islâmicos, Iblis ganhou as cores da
bandeira dos Estados Unidos, país rotulado pelos radicais
como o "Grande Satã". Foi contra o Diabo, em
última instância, que os terroristas liderados por Osama
Bin Laden lançaram os aviões que derrubaram as torres
gêmeas de Nova York, em setembro passado. E foi a mão
malvada do Demo que, para muitos americanos, guiou os
comparsas de Bin Laden naquela manhã. Era para impedir-lhe
a ação subversiva, por meio da liberação dos costumes,
que no Afeganistão os talibãs impunham às mulheres o
sufoco das burkas. Da Europa pós-moderna aos grotões da
África, Belzebu prosseguiu inspirando extravagâncias e
violências. Enfim, como não poderia ser diferente numa
sociedade marcada pelo sincretismo, Belial encontrou no
Brasil um campo vastíssimo para suas trapalhadas.
"O Diabo
é a origem das doenças, da miséria, dos desastres e de
todos os problemas que afligem o homem desde que ele iniciou
sua vida na Terra", afirma o fundador e bispo da Igreja
Universal do Reino de Deus, Edir Macedo, em seu livro Orixás,
Caboclos e Guias – Deuses ou Demônios?, uma das 26
obras nas quais o religioso tenta convencer a humanidade de
que Satã existe e exerce poder quase absoluto sobre as
pessoas. Sua Igreja, uma das que mais crescem no segmento
neopentecostal, começou apoiada nos pobres – os que mais
se sensibilizam com os exorcismos espetaculares realizados
em seus templos -, mas logo penetrou a classe média,
desiludida com os meios convencionais de solução de seus
problemas. Após 25 anos de atuação, já é possível ver
nos cultos da Universal alguns novos ricos preocupados em
manter a prosperidade. O que busca a multidão que não se
importa de engordar o caixa da Igreja do bispo Edir com
doações generosas? A garantia de que Azazel, aprisionado
pelas orações dos pastores, não mais atrapalhará seus
negócios, sua saúde, seus desejos.
A Igreja
Católica, que até meados do século passado, oferecia ao
mundo o retrato mais detalhado - e terrível – do Tinhoso,
decidiu retocá-lo numa adaptação aos novos tempos. Mas
que ninguém se engane: o Demônio católico, despido de sua
aparência ridícula, não virou um mero símbolo, a não
ser para alguns poucos religiosos revisionistas. O Vaticano
exorta os fiéis a considerá-lo "a causa do mal",
cuja presença evidencia-se desde a crença de que a
felicidade se encontra no dinheiro, no poder e na
concupiscência carnal ao relativismo que induz o homem a
não atender "à vontade de Deus". Satã tornou-se
assim sutil e requintado, mas ainda individual e poderoso ao
ponto de apossar-se de seres humanos, como esclarece o
documento oficial De Exorcismis et Supplicationibus
(De todos os Gêneros de Exorcismos e Súplicas), de 1999.
Ao argumentar nesse sentido, o papa João Paulo II retoma o
tema do poeta francês Charles Baudelaire, no século XIX,
segundo o qual "o mais belo estratagema do Diabo seria
o de nos persuadir de que ele não existe". O papa não
tem dúvida: o Demo trabalha de modo a que "o mal que
ele inculca desde o começo se desenvolva no próprio homem,
nos sistemas e nas relações inter-humanas entre as classes
sociais e as nações".
Mas, afinal,
quem é o Diabo? Desde quando ele está entre nós? Que o
papel ele desempenha no mundo atual?
Historicamente,
Satã, do jeito como o visualizamos no ocidente – um ser
que concentra em si a maldade absoluta – é resultado de
uma longa gestação psicológica na qual os arquétipos (imagens
psíquicas do inconsciente coletivo que, segundo Carl Jung,
estruturam modos de compreensão e comportamento) do mal
foram ganhando formas concretas em processos de
transferência e sincretismos. O Demônio fascina a
humanidade, talvez porque nele identifiquemos a expressão
maior dos impulsos primários que nos submetem e o
combustível dos dilemas que nos angustiam. É a sombra que
se faz inseparável do homem e teima em mostrar-se em seus
esforços mais sublimes. No Novo Testamento, base da
doutrina cristã, há mais citações sobre o mal do que
acerca do bem, mais referências a Satã do que a Deus.
"No cristianismo a presença do mal é essencial como
em nenhuma outra religião", diz o filósofo Roberto
Romano, da Universidade de Campinas (Unicamp).
O primeiro
rascunho do Rabudo teria surgido no século VI antes de
Cristo, na Pérsia. Ali, o profeta Zoroastro (Zaratustra)
descreveu a figura de Arimã, o "príncipe das trevas"
em seu permanente conflito com Mazda, o "príncipe da
luz". Eram essas duas divindades, que expressam a
polaridade existente no universo, que regiam o mundo de
Zaratustra. Durante o cativeiro na Babilônia, os hebreus
tiveram contato com o masdeísmo persa, fato que, conforme
alguns historiadores, foi fundamental para a concepção do
que viria a ser o Satã do judaísmo e do cristianismo. Na
antiga língua hebraica, Satanás quer dizer apenas acusador,
caluniador, aquele que põe obstáculos. E foi assim, sem a
face aterrorizante que ganharia mais tarde, que o Diabo
estreou no Velho Testamento. Agia, então, como uma espécie
de colaborador de que se servia Jeová (Deus) para testar a
lealdade ou castigar os seus escolhidos. Jeová, por exemplo,
determinou a Satã que precipitasse o desobediente rei Saul
no poço da depressão. Sob a mesma autorização divina, o
Satã infligiu pesadas perdas e sofrimentos ao rico e fiel
Jó, no desenrolar de um aposta na qual Jeová jogou todas
as fichas na lealdade de seu servo.
Na mesma
linha dos deuses pagãos, que eram ambivalentes, Jeová
também expressava paixões contraditórias, semelhantes às
do homem, e distribuía com exclusividade tanto o bem quanto
o mal. "Os primitivos hebreus não tinham necessidade
de corporificar uma entidade maligna", lembra o
professor Carlos Roberto Figueiredo Nogueira, doutor em
história medieval pela Universidade de São Paulo (USP), no
livro O Diabo no imaginário cristão. "Para
eles Jahveh (Jeová) era um deus tribal e, como tal,
superior aos deuses das populações vizinhas, que se
colocavam assim como seus adversários e como expressões
naturais da maldade". Não surpreende, portanto, que ao
ganhar contornos de entidade, o Diabo tenha recebido nomes
como Belzebu, um deus filisteu, e Asmodeu, deus da
tempestade na mitologia persa (veja quadro na página XXXX).
A influência
persa, segundo Carlos Nogueira, forneceu o pano de fundo
dualista no judaísmo, por meio da assimilação da crença
em espíritos benéficos e maléficos, os gênios da
religião de Zoroastro. Os anjos, antes vistos como
símbolos da manifestação divina, foram transformados em
entidades autônomas, enquadradas numa hierarquia que
justificaria a lenda da revolta de Lúcifer, o serafim mais
belo e mais próximo de Deus (lúcifer quer dizer "portador
de luz"), expulso do céu e metamorfoseado no Demônio
após se deixar dominar pela soberba. A mudança de
perspectiva teológica se tornará mais evidente a partir do
século II antes de Cristo, com o desenvolvimento, à margem
da tradição judaica erudita, de uma rica literatura sobre
o demoníaco, de tom apocalíptico. No Livro dos Jubileus
(135-105 a.C.) são mencionados os espíritos malignos
acorrentados no "lugar da condenação" . No
Testamento dos Doze Patriarcas (109-106 a.C.) pela primeira
vez Satã aparece personalizado na figura de Belial.
As crenças
populares acerca do Diabo chegaram a ser assimiladas pela
elite judaica, razão pela qual muitos "doutores da
lei" acusaram Jesus de promover os seus milagres
"sob o poder de Belzebu". Com o tempo, porém, os
rabinos perderam interesse nessas versões e Satã voltou a
ser uma figura menor no judaísmo. Ao contrário, os
cristãos não apenas introduziram em sua doutrina os
elementos da literatura escatológica, como também
ampliaram-lhe os limites concedendo poderes colossais ao
Demônio. Os Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, as
epístolas de Paulo e o Apocalipse do apóstolo João são
pródigos em referências à luta de Satã contra Deus,
retomando a lenda inicial de Lúcifer e seus aliados –
nada menos que um terço dos anjos - na batalha celestial
ocorrida nos primórdios da criação. De qualquer modo, a
corporificação do Diabo cristão consumiu pelo menos 400
anos de debates e só veio a consolidar-se no século VII
com a ajuda da arte cristã. É quando a figura monstruosa
de Satanás se multiplica nos vitrais, colunas e tetos dos
templos, é mostrada em murais nas ruas, assume a
imaginação de clérigos e do povo e abre caminho para as
práticas mais obscuras da Idade Média, cujo ápice é a
instituição dos tribunais da Inquisição.
Tal lentidão
é compreensível. Nos três primeiros séculos, os
cristãos, membros de uma seita perseguida, certamente não
precisavam imaginar uma face para Satã, já que a conheciam
sob a forma de gladiadores e leões que os trucidavam nas
arenas romanas. No século IV, quando o império romano
curvou-se ao cristianismo, uma onda de euforia alastrou-se
entre os fiéis, que viam nos sucessos da ação
proselitista sinais do enfraquecimento do adversário de
Cristo e sua iminente derrota final. Mas logo a
persistência de conflitos, desigualdades e paixões depois
desse grande marco arrefeceu o otimismo e acabou por
sedimentar a crença de que a força de Satanás era bem
maior do que se imaginara. Precaver-se contra suas manhas e
combater permanentemente o seu trabalho maléfico tornaram-se,
então, uma obsessão.
Na Idade
Média, como ainda hoje, entre as seitas fundamentalistas,
via-se o Diabo e seus auxiliares por toda parte. Imaginava-se
pactos entre homens e Satã, em troca de fortuna,
conhecimento e poder - tema cujo paradigma é a história de
Johannes Faustus, de Heidelberg (1480-1540), retratado mais
tarde em Doutor Fausto, o famoso drama de
Goethe. Acreditava-se que, enquanto dormiam, mulheres podiam
ser possuídas sexualmente por demônios chamados de
íncubos, enquanto homens eram atacados por demônios
súcubos, travestidos de belas mulheres. Eremitas do deserto
se diziam tentados diretamente por seres infernais com
apelos luxuriantes. O sexo tornou-se a armadilha predileta
de Satã para conduzir os homens à perdição, o que
justifica uma das mais conhecidas representações
iconográficas do Demo – aquela em que ele aparece com
patas de bode, olhos oblíquos e chifres, tomados por
empréstimo à imagem de Pã, divindade greco-romana que se
divertia em orgias.
O Diabo era
apontado como a causa de quase todas as doenças. Os
médicos medievais, para livrar a própria pele, afirmavam
que a simples impossibilidade de diagnosticar a enfermidade
era em si um sinal de que se estava diante de um caso de
possessão demoníaca. Satã podia entrar no corpo, segundo
a crença popular, através dos orifícios, razão pela qual
nos países anglo-saxônicos até hoje saúda-se o espirro,
então visto como a expulsão de um demônio, com a frase
"Deus o abençoe". O Tinhoso também costumava
ocultar-se sob mil disfarces, em lances dignos de um conto
de fadas. Que o diga o papa Gregório Magno, em cujos Diálogos
está registrado o caso de uma pobre freira, endemoniada
porque colhera alface na horta do convento sem a devida
oração – Belzebu, espreitara-lhe, escondido nas folhas
da singela planta. A histeria coletiva e o jogo político
nos bastidores da vida religiosa nesse período levaram
milhares de pessoas a arder nas fogueiras da Inquisição, o
jeito piedoso estabelecido pela Igreja para "salvar"
a alma de quem se deixasse ludibriar pelo Demo.
Com o tempo,
as imagens e a nomenclatura demoníaca, sempre relacionadas
aos deuses que guerrearam contra Jeová e às divindades e
tradições pagãs abominadas cristãos (é bom lembrar que
a palavra demônio deriva do grego daimon, que significa
tão somente espírito ou gênio), foram sendo enriquecidas
conforme os novos adversários definidos pelo catolicismo.
No período das Cruzadas, a figura de Satã ganhou pele
morena e barbicha que o identificavam com os árabes. Com a
chegada dos primeiros missionários ao Oriente, logo Sita e
Rama, deidades do hinduísmo, se tornaram codinomes do Diabo.
O que isso quer dizer é mais ou menos óbvio. "Significa
que Satanás é o inimigo, é aquele que não concorda
conosco", diz Elaine Pagels, professora de história da
religião na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos.
Tem sido assim até hoje. Para a especialista, autora do
livro As Origens de Satanás, esse adversário sequer
precisa ser alguém distante e estranho. Na maioria das
vezes é um inimigo íntimo, o companheiro, o colega, o
irmão divergente – o herético que afronta a crença
imposta pela organização religiosa com idéias próprias.
O começo da
era moderna na Europa seria marcada por um enorme medo do
Demônio, um momento psicológico retratado na trama da
Divina Comédia, de Dante, e na assustadora iconografia do
inferno presente na arte renascentista: demônios
desenrolando os intestinos dos invejosos e enterrando ferros
em brasa nas vaginas de mulheres levianas, pântanos
fumegantes onde animais asquerosos atacam as almas pecadoras.
O surgimento da imprensa e as reformas religiosas conferiram
a Satã difusão e superpoderes ainda mais amplos. A
didática do medo na catequese cristã parecia embutir, como
lembra Carlos Nogueira, "um prazer estético com o
mal".
Belial
mostrava-se à vontade mesmo após a vitória da revolução
francesa e a conseqüente separação entre a Igreja e o
Estado, no final do século XVIII. Mas, fora do círculo
religioso, sua imagem começara a sofrer uma mutação
radical. O romantismo, em rebelião contra o autoritarismo
católico, transformou Satã num símbolo do espírito livre,
da ciência, do progresso e da revolta contra a moral
tradicional – um aliado do homem condenado ao sofrimento.
Em Fausto, de Goethe, a visão do demoníaco reflete
não apenas a questão do mal, mas também o problema do
conhecimento e o desejo do homem de dominar as forças da
natureza. O Diabo entrou no século XX como um personagem
mais comportado, apesar de sua popularidade, da
proliferação de seitas que lhe reverenciam os atributos
mitológicos e da sua enorme utilidade como marketeiro,
dentro e fora da religião. Pagou um preço alto por essa
inesperada secularização, sob a forma de perda do respeito
que sua figura sempre inspirou.
Para alguns
estudiosos do comportamento social, isso não é um bom
sinal. "Trata-se de uma situação perigosa, pois
significa que o mundo moderno está perdendo o senso do
mal", diz Jeffrey Burton Russel, professor da
Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, nos Estados
Unidos. "E sem o senso do mal a civilização pode
desagregar-se, ir direto para o inferno".
Mas, então,
podemos deduzir que Satanás, enfraquecido, anda sem
utilidade nos dias atuais?
Não é bem
assim. No início desta matéria dissemos que o Diabo está
vivo, desafiando os que achavam que não haveria mais lugar
para ele num mundo regido pela ciência e pela razão. E, a
julgar pelo cotidiano do homem moderno, também prossegue
ocupado, muito ocupado. Na política (como na religião) a
satanização do adversário continua em alta, do confronto
entre os americanos e fundamentalistas islâmicos às
disputas paroquiais entre os partidos brasileiros. Nos
negócios da indústria cultural ou nos das igrejas
apocalípticas, como em todos os empreendimentos nos quais
sua imagem é utilizada para chocar, assustar ou
simplesmente divertir, Satã é garantia de produto
competitivo e de lucro certo. No plano psicológico, enfim,
o Beiçudo continua imbatível na função de livrar o homem
do fardo da culpa.
Nesse sentido,
o Diabo é um grande achado, dizem psicólogos e
psicanalistas. Graças à crença na existência de um
Príncipe das Trevas, as vítimas dos infortúnios não se
sentem responsáveis por eles. Há mesmo quem se beneficie
dos préstimos do Demo para fazer o mal por interposta
pessoa – como nos casos de magia negra –, apoiado na
sensação de impunidade decorrente de tal expediente.
"As pessoas atribuem ao outro algo que está em suas
atitudes, em seu inconsciente", afirma o psicanalista
Renato Mezan. Satã, por tudo que já foi dito e escrito, é
esse "outro" talhado para cumprir o papel de bode
expiatório.
A verdade é
que, embora a plasticidade de suas manifestações e
representações ao longo dos séculos, o Diabo tornou-se
algo indispensável ao pensamento cristão e à filosofia
ocidental. Com ele, é possível explicar de modo simples a
existência do mal, justificar a concepção de Deus como um
ser perfeito em sua bondade e dar sentido aos permanentes
dilemas da vida. Com ele, fica mais fácil esclarecer, nos
limites do mesmo pensamento cristão, a "capacidade
divina para ordenar a criação em relação a seus
fins", lembra o prefácio da obra O Diabo no
Imaginário Cristão. "Sendo agente tentador, o
Diabo força o homem a optar, cria condições que o obrigam
a decidir, o que em última análise tem um sentido
potencialmente positivo".
PARA
SABER MAIS:
Na Livraria:
O Diabo no
imaginário cristão,
Carlos Roberto F. Nogueira, Edusc, Bauru, 2000
Biografia do Diabo,
Alberto Cousté, Record, São Paulo, 1996
The death of Satan: how
americans have lost the sense of evil, Andrew
Delbanco, Farrar, Straus & Giroux, Nova York, 1996
As Origens de Satanás,
Elaine Pagels, Ediouro, São Paulo, 1996