Ano 23                                                                                                          Editado por Jomar Morais
 
 


 
 

 
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A revista M do jornal francês Le Monde traz esta semana uma
reportagem sobre a solução encontrada pela Finlândia para tentar
resolver o problema dos moradores de rua. Graças a uma política de
distribuição de moradias de baixo custo, o país vai na contramão da
Europa e registra uma queda no número de pessoas sem-teto.

Atualmente, segundo informa um relatório da Fundação Abée Pierre, a
Europa registra uma alta generalizada de moradores de rua. Na França,
por exemplo, essa população aumentou 50% nos últimos dez anos.

Mas a Finlândia é apontada como uma exceção nessa estatística, já
que o país escandinavo, que conta com uma população de 5,5 milhões
de habitantes, conseguiu dividir por três o número de moradores de rua
desde 1980. Além disso, entre 2008 e 2015, o governo finlandês
reduziu em 35% os chamados sem-teto de longa duração, nome dado
àqueles que vivem há anos nas ruas.

“Durante décadas, a Finlândia fez como o resto dos países do norte da
Europa, construindo moradias como se fossem uma recompensa, que
exigiam inúmeras etapas antes de serem concedidas”, explica o texto.
Para obter um teto graças aos dispositivos sociais, os moradores de
rua na Escandinávia precisam abandonar as drogas e seguir um
acompanhamento psicológico, o que nem sempre funciona, relata a
reportagem.

Moradia é um “direito fundamental”

Mas o governo finlandês decidiu mudar esse sistema, oferecendo,
sem nenhum tipo de exigência, um teto para quem vivia nas ruas. Em
vigor desde 2008, o sistema, intitulado “Housing First” (Prioridade para
a moradia, em português), vê a residência como um “direito
fundamental”, seguindo ao pé da letra o que prega a Declaração
universal dos direitos humanos. “Suprimimos todas as condições para
se obter um teto, pois sabemos que, sem moradia, é impossível se
resolver os demais problemas”, explica à revista Paavo Voutilainen, ex-
diretor de assuntos sociais de Helsinki.

Para isso, mais de € 170 milhões foram desbloqueados e usados na
construção de residências coletivas ou na aquisição de imóveis já
existentes. Antigos abrigos de emergência também foram
transformados em moradias perenes e 300 pessoas foram contratadas
pelas prefeituras para cuidar desses prédios e ajudar os novos
moradores, lista a reportagem.

O dispositivo não foi aceito imediatamente, já que muitos
consideravam que entregar uma moradia para um sem-teto alimentaria
o assistencialismo, conta a revista. Além disso, alguns temiam pela
segurança e não queriam ter essa população na vizinhança. Mas de
acordo com o diretor de uma das residências ouvido pela reportagem,
de todas as unidades do projeto, apenas uma foi totalmente rejeitada
em razão da resistência da vizinhança.

Sistema representa uma economia para os cofres públicos

O sistema não é gratuito. Os moradores têm acesso a pequenos
apartamentos independentes, e pagam um aluguel de € 400 euros,
valor extremamente baixo para a Finlândia. Mas na maioria dos casos,
esse montante é coberto pelas ajudas do governo e não custa nada
para os residentes. Segundo os dados mais recentes, apenas 18%
dos sem-teto voltam para a rua.

Além da melhoria na vida dessas pessoas, o projeto representa um
ganho financeiro para o país, explica o texto. Estudos mostram que ao
dar uma moradia aos sem-teto, a sociedade finlandesa economiza,
para cada indivíduo beneficiado, cerca de € 15 mil por ano, que seriam
gastos em intervenções da polícia ou urgências médicas. A
reportagem relata que pesquisadores do mundo todo têm ido até
Helsinki para estudar o programa de moradia implementado pelo
governo local.
Texto publicado originalmente no site da RFI
Finlândia tenta resolver crise de moradia oferecendo casa para os sem-teto
A Finlândia vê a residência como um “direito fundamental”, seguindo ao pé da letra o que prega a Declaração Universal dos Direitos Humanos