
Ano
V // Nº 272
Texto
publicado na edição de junho de 1999 da revista
Você
s.a.
|
A magia do
delta
Você
conhece o delta do rio Parnaíba? Não? Então
saiba por que os europeus já viraram fregueses
de uma das mais belas e desconhecidas regiões do
Brasil
Por
JOMAR MORAIS, de Parnaíba
O avião
bimotor movimenta os flaps e inicia o
procedimento de pouso, em meio à turbulência
dos ventos que sopram do Atlântico. Estamos
chegando à região do delta do rio Parnaíba, na
divisa entre o Maranhão e o Piauí, nos mais
remotos e menos conhecidos confins do litoral do
Nordeste. O que se vê lá em baixo é um
espetáculo grandioso -- e raro. Delta, como
aprendemos nas aulas de geografia, é um tipo de
foz múltipla ramificada, onde as águas de um
rio se esparramam por canais e igarapés antes de
encontrar as do mar. Coisa parecida - nunca
igual! - só pode ser apreciada em dois outros
locais do planeta: no norte da África, onde
deságua o Nilo, e no sudeste asiático, onde o
Mekong encontra o oceano Pacífico. Com o
Parnaíba, esses dois rios compõem o trio dos
maiores deltas em mar aberto do mundo. O
Mississipi, nos Estados Unidos, fica fora da
lista porque suas águas correm para o golfo do
México.
Do alto, a paisagem que se espraia
por 2 700 quilômetros quadrados - quase o dobro
da área da cidade de São Paulo - lembra um
imenso quebra-cabeças, formado por peças
multicoloridas que cintilam sob o sol do
nordeste. São mais de 80 ilhas e ilhotas de
diferentes formas geométricas. Correndo entre
elas, a água ora amarelada, ora cor de chumbo
dos cinco braços em que se divide o Parnaíba 30
quilômetros antes de alcançar o oceano. Olhando
para continente, vemos o rio caudaloso a
perder-se no horizonte dos campos piauienses.
Rente ao mar, lençóis de dunas brancas,
pontilhadas de piscinas naturais, antecipam um
outro espetáculo: o cordão de praias quase
virgens, enfeitadas de palhoças e pequenos
barcos de pesca. O delta do rio Parnaíba é uma
das áreas mais bonitas do mundo, um roteiro
imperdível que VOCÊ S.A. conferiu para quem
prefere curtir natureza e tranquilidade nas
férias.
Dez minutos depois de toda essa
visão, o bimotor já se encontra estacionado no
aeroporto de Parnaíba.A cidade, com 130 000
habitantes, segunda maior do Piauí, é o portal
do delta. É um lugar modesto: não avião de
grande porte ligando esse lugar ao resto da
civilização. São poucos, raríssimos, os
brasileiros de outros estados que conhecem o
delta. Tudo nessa cidade parece ter parado no
século 19, quando a então Vila de São João da
Parnaíba viveu seu período de esplendor, como
centro exportador de cera de carnaúba e óleo de
babaçu para a Europa.
É
recomendável que o visitante fique pelo menos
quatro dias na região. E que inicie seu programa
pelo roteiro oferecido pelas agências de turismo
locais. Passear a pé pelas ruas do centro,
repletas de casarões coloniais dos séculos 17 e
18, é como viajar na máquina do tempo. A
impressão é de estar vivendo num Brasil que só
conhecemos nos livros. A argamassa usada nas
paredes de pedras dessas construções, por
exemplo, não contém cimento. É feita de
conchas de ostras, abundantes nos manguezais do
delta, trituradas no óleo de baleia. Na
estrutura dos telhados, encontra-se a onipresente
madeira das carnaubeiras. O roteiro urbano pode
acabar no Porto das Barcas, local onde surgiu a
cidade, cujos cais e armazéns desativados foram
transformados num espaço cultural. Artistas
parnaibanos vendem ali seus trabalhos de cestaria
em palha de carnaúba, arte santeira, pinturas,
bordados e rendas tecidas por mulheres e meninas
com a primitiva técnica dos bilros. Nos meses de
junho e julho, a melhor época do ano para se
curtir Parnaíba, o Porto das Barcas vira palco
de festas populares. Quem aparecer por lá, não
deve perder a exibição do Bumba-meu-boi, um
folguedo típico dos estados do Piauí e
Maranhão. A cidade também possui bons
restaurantes típicos, como o Comilão, de dona
Lilian, e o Feito à Mão, de Joaci. Os pratos
são à base de peixes e caranguejos. E há
sucos, muitos sucos de frutas tropicais mais de
30 tipos.Mas o melhor ainda está por acontecer -
nas águas do grande rio.
Há duas maneiras de navegar o
delta. Em barco de ferro, com duplo deck e
capacidade para 70 pessoas, conhecido como
"o iate da Clip", a agência que
explora o serviço, ou em chalana de madeira,
barco típico da região, que transporta até 45
passageiros, da agência Morais Brito. Se você
faz questão de um pouco mais de conforto, fique
com o barco da Clip. Em vez de bancos laterais,
como na chalana, os passageiros viajam acomodados
em cadeiras de fibras em torno de mesinhas
brancas. Ambos os barcos costumam zarpar por
volta das 8 horas do sábado - ou domingo, quando
há grupos interessados - e só retornam ao cair
da tarde. Os serviços, cujos preços variam de
25 a 30 reais por pessoa, incluem lanche à base
de frutas tropicais, almoço (pescado e frango) e
uma caranguejada no meio da tarde. Só no passeio
de chalana, você fará paradas para banhos e
caminhadas nas dunas, graças à capacidade da
embarcação de navegar em águas rasas.
Logo no
início do périplo fluvial, na Ilha Grande de
Santa Isabel - uma das cinco maiores do delta -
dá para se perceber que se está entrando num
paraíso ecológico. As margens do Igaraçu, o
braço de rio que banha a ilha, estão cobertas
pelo tapete verde de aningas, planta que funciona
como dique natural, protegendo a terra firme nas
marés altas. Suas folhas enormes e flutuantes
são utilizadas por crianças nativas que ainda
não aprenderam a nadar. Primeira curva do
percurso e eis o Parnaíba central, o rio que
banha 47 municípios do Piauí e do Maranhão e
percorre 1 458 quilômetros até abraçar o
Atlântico. Os bancos de areia já provocaram
vários naufrágios.
Nessas imediações, a fauna
exótica da região começa a dar sinais de vida.
Rente ao barco, voam alguns martins-escadores, o
pássaro ágil que, como as gaivotas, mergulha
rápido para fisgar peixes que se aproximam da
superfície das águas. Quando já se avista o
primeiro encontro da água barrenta do Parnaíba
com as do oceano, é hora de a natureza brindar
os turistas com um privilégio reservado somente
para visitantes recentes: as belíssimas dunas do
Morro Branco, em forma de meia-lua. Há dez anos
quem passasse pelo local veria ali apenas mais um
carnaubal. Foram os ventos que movem dunas sem
cessar em todo o litoral nordestino transportaram
para lá as areias que, em mais alguns anos, já
terão se movido para outro lugar.
O Morro Branco, na Ilha Grande, é o
último pedaço de terra do Piauí ao norte. Na
margem oposta, as ilhas Canárias e Poldros já
são território maranhense, onde ficam 65% da
área do delta. É nesse trecho que a fauna
regional mostra-se mais exuberante. No céu
surgem as garças brancas e os guarás e em
alguns galhos de mangues pode-se observar o
pica-pau em ação. A chalana navega a um
preguiçoso rítmo de 20 quilômetros por hora.
Ao seu lado, seguem agora cardumes de quatro
-olhos, espécie de peixe voador que se desloca
dando saltos sobre a lâmina d'água. Os
caranguejos que garantem o sustento das vilas de
pescadores (uma dúzia custa 1 real) emergem aos
milhares do lama dos manguezais.
Em alguns trechos, meninos surgem
como que por encanto em canoas precárias
oferecendo ostras (cinco custam 1 real). O ponto
alto do roteiro ocorre ao norte da ilha
Canárias, quando a chalana ancora junto às
dunas que separam o igarapé do mar aberto.
Trata-se de uma ramificação dos Lençóis
Maranhenses, a fantástica sucessão de dunas que
está se tornando point de jovens turistas
radicais. Quem tem fôlego desce do barco e faz a
travessia de três quilômetros sobre morros para
banhar-se no Atlântico. Da Canárias, avista-se
a oeste a ilha do Caju, propriedade dos herdeiros
de Fredric Clark, o alemão que fez fortuna
exportando carnaúba em Parnaíba, agora
transformada em reserva ecológica. A reserva é
uma opção arrojada para turistas que preferem o
total isolamento da civilização. Ao preço de
480 reais por pessoa, incluindo traslado de
barco, é possível passar quatro dias na ilha,
abrigado em chalés de razoável conforto e com
direito a passeios a pé, a cavalo e em jipes -
em meio a veados, raposas,macacos e coatis -,
além de pescarias e banhos. Quem costuma aportar
por lá? Alguns brasileiros que não querem mais
as praias tradicionais do Nordeste e centenas de
alemães, franceses e italianos.
No terceiro
dia, não há como fugir das praias piauienses. O
Piauí tem algumas das praias mais belas do
Brasil, algo como uma compensação da natureza
ao fato de ser o estado com menor faixa
litorânea: apenas 66 quilômetros. Na Ilha
Grande está a única praia do município de
Parnaíba, a baía da Pedra do Sal. Ali, algumas
poucas dezenas de casas de alvenaria ladeiam
choupanas de pescadores e barracas que abrigam
bares e restaurantes. O braço de pedras
graníticas que avança mar adentro é tema de
muitas estórias de assombração e, à noite,
local preferido de namorados e ufologistas. É,
no entanto, no município de Luis Correia, a 17
quilômetros de Parnaíba, que se encontram as
praias mais frequentadas e os melhores hotéis.
Atalaia, Coqueiro, Itaqui, Carnaubinha... Variam
os nomes e as pequenas surpresas que surgem com o
desenho da orla, a localização de um arrecife,
as águas tranquilas que convidam ao banho. O
melhor dessa paisagem está na praia de Macapá,
onde o encontro do rio Cardoso com o mar emoldura
um cenário paradisíaco. O estuário de águas
esverdeadas guarda muitas espécies de peixes,
inclusive alguns exemplares de peixe-boi
monitorados pelo Ibama. Só recentemente os
primeiros forasteiros chegaram e erigiram as
primeiras casas. A única hospedaria do lugar, a
pousada do Paulo, é obra de um ex-funcionário
do McDonalds que abandonou São Paulo para curtir
a simplicidade da vida numa aldeia de pescadores.
Chegamos ao quarto e último dia da
temporada no delta e, se você também vai sair
da região no velho bimotor, é bom ter cuidado.
O avião decola às 16 horas para Fortaleza - e
outra chance só na tarde seguinte. O que fazer
para ganhar o dia? Dedique a manhã à Lagoa do
Portinho, um programa imperdível. O lago
espalha-se por cerca de dez quilômetros
quadrados no coração das dunas, entre Parnaíba
e Luis Correia. O forte aqui é navegar em lancha
ou no banana boat, com direito a parada para a
subida às dunas. A água é escura,mas propícia
para banho e no local há dois restaurantes e uma
pousada do Sesc.
Como chegar
Se você prefere avião, terá de ir primeiro
para Fortaleza ou São Luís, cidades de onde
parte o bimotor Brasília da Nordeste Linhas
Aéreas, única aeronave a pousar em Parnaíba. O
preço normal da passagem Fortaleza-Parnaíba é
125 reais.
Por terra, há ônibus com ar condicionado
partindo diariamente de Fortaleza e São Luis
(cerca de nove horas de viagem ao custo de 22
reais) e de Teresina (cerca de 5 horas de estrada
ao preço de 15 reais).
Em São Paulo, as agências Ecotrip (tel.
011-425-5743) e Freeway (tel. 011-572-0999)
organizam pacotes em parceria com a agência
parnaibana Morais Brito (086-321-1969). Em
Fortaleza, a Turistar (085-212-2456) realiza
excursões ao delta às sextas-feiras a 150 reais
por pessoa, incluindo hospedagem em hotel simples
e refeições.
Onde ficar
O Hotel Cívico, em Parnaíba (tel.
086-322-2028), tem piscina, restaurante 24 horas
e apartamentos com ar condicionado. Na atual
baixa estação as diárias para casal variam de
39 reais a 124 reais (suíte presidencial), mas
é possível negociar descontos de até 30%.
Os melhores hotéis estão fora da cidade. O das
Araras (tel. 086-322-3121), na estrada para Luís
Correia, possui 54 chalés para até cinco
pessoas, apartamentos e suítes de 200 metros
quadrados, centro de convenções com 500
lugares, três piscinas, quadras, pista de
motocross e kartódromo. As diárias variam de 45
reais a 100 reais o casal.
Nas praias de Luis Correia destacam-se três
estabelecimentos. O Aimberê Resort (tel. 086-366-1143 / www.aimbereresorthotel.cjb.net), possui piscinas, toboáguas e
ambientes decorados com muito bom gosto. A
diárias vão de 60 reais a 120 reais por pessoa
e de 85 reais a 145 reais o apartamento triplo. O
Rio Poty, o maior e mais organizado (tel.
086-367-1277) do município, e o Amarração
(tel. 086-367-1300) cobram, na baixa estação,
entre 40 reais e 68 reais o casal.
O que fazer
Duas agências locais oferecem passeios pelo
delta. A Morais Brito (086-321-1969) cobra 25
reais por pessoa em sua chalana. No barco da Clip
(086-322-3129), o preço do passeio é 30 reais.
Se sua opção é ficar na reserva ecológica da
Ilha do Caju durante quatro dias ligue para a
Clark Representações (tel. 086-321-1423). O
preço por pessoa: 480 reais.
O tour pela cidade de Parnaíba, incluindo a
praia da Pedra do Sal e a lagoa do Portinho, pode
custar 40 reais (uma pessoa) ou apenas 10 reais,
no caso de grupo com mais de sete pessoas. O
passeio pelas praias de Luís Correia pode variar
de 50 reais (uma pessoa) a 10 reais (grupo). O
traslado entre o aeroporto e o centro de
Parnaíba custa 15 reais.
Na lagoa do Portinho, o quente é fazer o passeio
de lancha por 15 reais ou, em caso de grupo de
cinco pessoas, por apenas 3 reais a hora.
Nos melhores restaurantes da região, os pratos
para duas pessoas oscilam entre 12 reais (carne
ou peixe) e 18 reais (camarão).
Anote
· A melhor época do ano para conhecer o delta
é entre abril e julho, quando a água das chuvas
enche as lagoas e as aves se reúnem para
reprodução. Em junho e julho você ainda pode
apreciar os folguedos no espaço cultural do
Porto das Barcas.
· O sol forte mesmo no inverno sugere que você
não deve esquecer o protetor para a pele.
· Não arrisque velejar sozinho pelo delta. Os
igarapés formam labirintos onde apenas nativos
experientes conseguem entrar e sair sem
dificuldade.
· Antes de mergulhar procure saber se não há
piranhas na área e evite imitar os
caranguejeiros, andando descalço no mangue. Sob
a lama há troncos escondidos que podem ferir seu
pé.
|