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(transcrito
do boletim do Ciência Meditativa - www.cienciameditativa.com
)
Este é o resumo das notas de tradução tomadas durante um encontro de Sua Santidade o Dalai
Lama com as sanghas budistas e os membros da organização de sua visita ao Brasil, em maio de
2006, após encerradas suas atividades públicas no país. Como notas tomadas rapidamente, têm
várias imprecisões e não é um relato completo de sua fala.
Os representantes das sanghas de São Paulo e de outras cidades do Brasil se reúnem no
segundo andar do centro de convenções de um grande hotel
paulistano. Há um largo corredor e os presentes - talvez umas cento e oitenta pessoas ou mais - se reúnem em
grupos de 30, para que seja possível caber cada grupo em uma foto com o Dalai Lama. É
quase hora de sua chegada, marcada para as 17h45, e várias sanghas cantam a oração de longa
vida por Sua Santidade. Ele surge pontualmente, com seus seguranças, que o acompanham por todos os países
que visita, e também aqueles enviados pelas polícias federal e militar. São vários, mais de
dez, caminhando em torno dele, que se dirige mais ou menos para o meio do corredor e
pára perto de uma mesa de bufê, ao meu lado direito. Vou traduzí-lo do inglês e,
ocasionalmente, ele falará em tibetano. Para esse caso, à minha esquerda há outro tradutor,
tibetano-inglês, que falará baixinho, em meu ouvido, o significado a ser traduzido para o português.
A aclamação é geral.
Totalmente à vontade, o Dalai Lama apóia-se na mesa, sem se sentar na cadeira reservada a
ele, e começa, de pé, a falar para os budistas e não-budistas que trabalharam na organização
da sua visita ao país, essas pessoas todas, pertencentes a diversos centros budistas,
centros filosóficos, equipes de filmagem, produção e divulgação, assessores de imprensa,
etc. Mas a mensagem será mesmo dirigida principalmente aos
budistas - vários deles já ordenados
monges, ou sagrados lamas ou mestres... Estou ao seu lado e cabe-me traduzir o que ele dirá.
Terei que falar bem alto, para que todos possam me ouvir, até o final do corredor numa e
outra direção. Sinto uma energia enorme, e apesar do momento exigir atenção e concentração,
estou completamente tranqüilo, como sempre me sinto quando estou em sua presença. Demora um
pouco até que cessem as palmas e mantras com que as pessoas o recebem... Ele pede então aos
seguranças que se afastem, abrindo o caminho para que todos possam vê-lo, mesmo os que estão
mais longe, e os homens de terno escuro diluem-se entre os presentes.
O Dalai Lama começa agradecendo a todos pelos esforços realizados para que ele esteja ali,
conosco. Diz que vários já devem ter alguma familiaridade com o budismo, por estarem fazendo
a prece pela sua longa vida. Está com a expressão tranqüila, mais para serena do que para
sorridente. Está cansado, provavelmente, após um dia em que mal teve tempo de almoçar devido
à quantidade de compromissos, entrevistas e palestras agendados para ele.
Não
é preciso virar oriental
Entra então rapidamente no primeiro tema de sua fala: "outro dia, em nosso encontro no
templo chinês [uma sessão de ensinamentos para o público budista realizada dois dias antes
no Templo Zulai, emCotia], em nossa sessão sobre o budismo, vi, naquele dia tão bonito,
muitas pessoas com uma variedade enorme de roupas. Havia roupas dobudismo zen japonês,
roupas do budismo tibetano, roupas de monges tibetanos, roupas de monges de outras
nacionalidades, roupas que eu nem sei quais eram... talvez roupas de outro planeta!" (risos
gerais).
Sua expressão se
altera um pouco. Sério, olha para baixo, como se estivesse procurando as palavras certas...
os outros presentes estão absolutamente encantados com ele, inclusive os seguranças. "Sou um
pouco crítico quanto aos ocidentais que entram em contato com as tradições orientais, como
por exemplo a budista, e começam a mudar seus hábitos exteriores. Primeiro, abandonam suas
tradições de origem. Depois, mudam suas roupas, vestindo-se como os orientais se vestem. Em
seguida, mudam os móveis de sua casa. Mudam seu comportamento, mudam seus gestos...Vemos ocidentais que abraçam por exemplo o sikkismo, ou
tornam-se hare krishnas, e de repente saem as ruas com o cabelo raspado, as vestes laranja
no estilo oriental... acho que isso não é bom."
O Dalai Lama diz que o Dharma não está nas roupas, não está no comportamento exterior, nos
móveis... "Prefiro pessoas que conservem suas tradições de origem e aprendam o que podem
aprender com o budismo, aplicando suas novas descobertas dentro de sua maneira cultural
própria. O budismo não está nas regras monásticas nem na aparência. Olhem para o nosso
mestre, Buda Shakyamuni. Ele criou um conjunto de regras a serem seguidas, mas seu grande
ensinamento está em conhecermos a nossa própria mente! Talvez o que faz do budismo um caso
quase único é que ele procura usar ao máximo a inteligência humana para transformar as
emoções. E essa transformação não acontece através de preces, através de uma meditação
unidirecionada. Não adianta fazer preces para os budas (o Dalai Lama faz um gesto unindo
suas mãos e olhando para o alto) e ficar esperando que ocorra uma transformação mágica em
suas emoções. Você pode fazer cem mil mantras om mani peme hum, fazer todo esse esforço, e
achar que com isso já deve estar transformado, mas a mudança nesse caso só vai ocorrer se
por acaso acontecer um milagre..."
A mudança é gradual e demora A voz do Dalai Lama é cada vez mais forte, e seus gestos começam a adquirir expressividade.
Se antes ele estava cansado, começo agora a sentir nele um vigor e energia extraordinários.
Ele parece ter achado algo muito importante a dizer para os seguidores do budismo, e vai
dizê-lo sem perder uma palavra sequer. O envolvimento entre os presentes é ainda maior, e
o silêncio é absoluto.
"A transformação demora para acontecer. Demanda muito esforço. O próprio Buda Shakyamuni
demorou três eras inteiras para transformar suas emoções. Não vai ser fazendo alguns mantras
que você acha que sua vida vai mudar totalmente! Eu tenho mais de setenta anos, quase
setenta e um. Comecei a interessar-me realmente pelo BuddhaDharma quando tinha dezesseis
anos, e só agora, talvez, minha mente esteja se tornando um pouco mais estável... De nada
adianta você fazer um retiro tradicional de três anos, três meses e três dias. Pode ser até
que a sua mente, ao longo desse tempo, em vez de melhorar, piore... a única coisa certa que
se pode dizer é que, depois desse tempo todo, seu cabelo vai crescer!"
(risos gerais, mas um pouco contidos, porque a audiência percebe que o assunto é sério, e o
puxão de orelha só começou...).
"O desenvolvimento e a transformação da mente requer muito esforço. Mas perceba aqui também
que o esforço cego de nada adianta: ele tem que ser acompanhado pela sabedoria. Novamente,
podemos orar para Buda, para Tara, Avalokiteshvara, fazer uma sadana... mas só há uma chance
em um milhão de que isso baste para a sua transformação: se ocorrer um milagre. De outra
forma, será realmente difícil atingir a mudança desejada.
Estudar, é preciso estudar Uma vez um aluno perguntou a um grande mestre tibetano do início do século vinte se deveria
fazer um retiro de Manjushri de um mês, para melhorar a acuidade de suas percepções mentais.
Esse mestre respondeu ao aluno que se ele fizesse o retiro, talvez houvesse alguma mudança;
mas que se ele ocupasse esse mês estudando seriamente, era certo que sua mente iria mudar.
Isto é MUITO importante. Estudar é crucial. Já estamos trabalhando para que mais livros
sobre o budismo tibetano sejam publicados na língua de vocês. Minha recomendação é: ESTUDEM!
Estudem muito. Estudem e produzam textos, pequenos panfletos; não para venda, não para
comércio, mas para fazer circular entre vocês. Leiam, discutam em pequenos grupos, escrevam
e façam suas idéias circular entre todos do grupo maior. Estudar e discutir é essencial. É
irreal ficar esperando que venha um lama, uma vez por ano, fazer um workshop com ele e um
monte de iniciações, e depois nada mais, e esperar alguma transformação em sua mente. Isso
não é suficiente. É necessário estudar regularmente. Ocasionalmente, se você se encontra com
algum bom professor, e passa com ele uma ou duas semanas fazendo workshops, é ótimo, mas
depois volte ao seu estudo regular e sistemático."
Os presentes estão completamente atentos. O Dalai Lama chama a atenção de seus irmãos
budistas: menos automatismo, mais reflexão, mais consciência! É um momento grave, e a
mensagem é passada de maneira clara e inequívoca. Não há como fugir.
Os falsos mestres, que visam dinheiro
"Mas há um pequeno problema. No mundo de hoje, há vários "businessmen" que, visando obter
dinheiro, dão ensinamentos religiosos. Isso acontece cada vez mais freqüentemente; ocorre
muito na China, que importa "mestres" tibetanos, mas também no resto do mundo. Esses não são
mestres genuínos. Apresentam-se como grandes mestres, mas não são. Seu propósito é
unicamente o de obter dinheiro.Uma vez, um senhor chinês se aproximou de mim e colocou-me
esse problema. "Dalai Lama, faça algo por favor para conter esse fenômeno, esses falsos
mestres". Eu lhe disse que não há nada que eu possa fazer! A única coisa que pode funcionar
é que, do lado do aluno, haja consciência de quais são as qualificações de um mestre
verdadeiro, de um professor autêntico, e ele examine se a pessoa em questão as possui ou não
possui. Isso é MUITO importante. Eu, por exemplo. Examinem-me, se como professor, eu tenho
as qualidades necessárias! Eu também tenho que ser submetido a um exame!"
O Dalai Lama está completamente cheio de energia e vigor em suas palavras. Percebe-se que o
assunto é de total importância, e ele realmente quer que todos entendam a importância do
estudo e do empenho individual em transformar a mente, não de um modo mecânico, mas através
da reflexão consciente.
Os
compromissos do Dalai
Antes que eu acabasse de traduzir sua última fala, a mais longa, ele gentilmente me
interrompe, mudando o rumo do seu pronunciamento. "Mais uma coisa. Como eu já disse, meu
terceiro compromisso é para com a causa tibetana, a nação tibetana. [O primeiro é com os
valores humanos, e o segundo com a harmonia inter-religiosa.]
O Tibete tem uma história muito longa, uma herança cultural viva e muito rica, e tem também
sua própria escrita. Tudo isso tem mais de mil anos, tempo em que a tradição NALANDA do
budismo foi mantida viva, nas regiões geladas das montanhas - como congelada num freezer. As
tradições indianas sofreram muitos danos, mas a tibetana foi mantida intacta esse tempo
todo. Há achados arqueológicos que atestam quanto tempo tem a cultura tibetana ancestral:
mais de trinta mil anos!
Mas este cenário belíssimo, com as montanhas elevadas, traz também o quadro trágico: o de
uma nação que está morrendo. Ainda não somos como o povo inca, que morreu totalmente, mas
estamos morrendo. Ainda lutamos para sobreviver, mas se a situação presente se mantiver, a
cultura tibetana e a nação tibetana perecerão, como aconteceu no caso dos incas.
Neste momento, já está claro para todos que a cultura tibetana em sua forma pura já não
existe no território tibetano - só existe na Índia, entre as comunidades no exílio. O Tibete
luta pela sua sobrevivência, buscando uma liberdade limitada; não apenas política, mas
cultural. Se a luta pelo Tibete fosse unicamente uma questão política, eu, que no fundo sou
um monge budista, não a teria abraçado. Se o fiz, é porque envolve a sobrevivência de nossa
cultura, de nossa tradição, de nossa língua. Portanto, essa luta pela liberdade limitada,
uma luta democrática pela preservação da cultura ancestral tibetana, de sua rica tradição -
se ela é assim, considero que minha atuação nesse sentido é parte da minha prática
espiritual.
A
questão com a China
É claro que nossa cultura ancestral, se comparada com o desenvolvimento das culturas
contemporâneas, podia ser considerada atrasada em muitos aspectos. Assim, o Tibete pode
beneficiar-se de estar sob a China, se houver modernização e progresso material. A
constituição chinesa prevê direitos próprios às diferentes etnias.Mas desde a ocupação,
houve apenas um acordo entre o Governo Tibetano e o Governo Central da China envolvendo a
preservação desses direitos; era um acordo para a liberação pacífica do Tibet, assinado na
década de 50, e que nunca foi cumprido. Ainda nessa década, a própria ONU emitiu várias
resoluções em que considerava o Tibete um caso especial; o governo chinês reconheceu esses
acordos, na ocasião, mas também nunca os cumpriu.
Fui a vários encontros com o "Camarada Mao", mas isso não deu em nada..." O Dalai Lama
parece encher-se de lembranças, e sorri um pouco. "Fiz muitos encontros, naquela época...
provavelmente, em 1957, muitos de vocês não tinham nem nascido! Você, já era nascido? E
você? Pois bem... naquele tempo eu era jovem, e fiquei enormemente atraído pelo "movimento
revolucionário". Acho que eu era, como dizer, um sujeito considerado... como dizer...
perigoso: meio marxista, meio budista! [risos gerais]. O que acho do marxismo? acho que ele não é nem bom
nem ruim. Minha impressão é de que o marxismo original tinha uma série de pontos muito
interessantes, muito bons. Mas depois, quando se tornou apenas parte de um poder político e
nacionalista, tudo isso se perdeu. Hoje, para mim, a China não tem mais qualquer conteúdo:
não é mais ideológica. É apenas autoritária. Assim, faço a todos meu pedido: a nação
tibetana está morrendo - ajudem-nos, de todas as maneiras que puderem...
Meus amigos, meus irmãos e irmãs: agradeço enormemente seu interesse e seu envolvimento de
coração com a cultura tibetana. Muito obrigado a todos!!!
O Dalai Lama, é longamente ovacionado. Enquanto traduzo sua fala final, vai a cada um dos
grupos, e senta-se no meio das pessoas enquanto os fotógrafos, vários, procuram registrar o
momento. Depois, acenando para todos, caminha até o fim do corredor, desaparecendo em
direção aos seus aposentos... |