Como
começou o universo? "Com o Big Bang",
responderão nove entre dez especialistas. Big Bang, ou a
grande explosão, é o fenômeno que permitiu, há 15
bilhões de anos, que uma minúscula bola de fogo, de
extrema densidade e altíssima temperatura, se expandisse e
esfriasse dando origem às galáxias e a tudo o que existe
no espaço. O Big Bang é apenas uma hipótese, claro. Mas
pouca gente discorda dessa idéia, concebida pelos físicos
no início do século XX. Agora, pergunte como a vida
começou na Terra e você terá uma boa chance de iniciar um
acalorado bate-boca. Seres vivos são as coisas mais
complexas do universo. Ao contrário de rochas e nuvens,
eles exibem qualidades, habilidades e competências que
despertam inúmeras perguntas.
A vida surgiu por acaso ou a
partir de uma vontade superior? Os seres vivos sempre
tiveram a aparência atual ou sofreram transformações ao
longo do tempo? Os animais de diferentes espécies
apresentam algum grau de parentesco? Temos todos um
ancestral comum? Até hoje, a tentativa de responder a essas
perguntas opõe cientistas e, sobretudo, cientistas e
religiosos, os herdeiros das primeiras tentativas de
explicar a origem da vida. O confronto entre ciência e céu
começou no século XVIII, quando surgiram novas teorias que
contradiziam as antigas crenças numa vida planejada por um
ser superior. O ponto alto da discórdia foi a publicação,
em 1859, do livro A Origem das Espécies por Meio da
Seleção Natural, do naturalista inglês Charles Darwin. A
vida, dizia Darwin, resultou de mutações aleatórias da
matéria a partir de modelos extremamente simples. E foi
evoluindo por meio de uma seleção adaptativa dessas
mutações, guiada pela necessidade de sobrevivência.
Na época, o naturalista
escandalizou a Igreja e todos os defensores da idéia de um
desígnio superior na criação – os chamados
criacionistas. Mas, em pouco tempo, a teoria darwinista
convenceu a maioria dos cientistas e se espalhou pelo mundo.
Seu conceito de evolução passou a permear da medicina à
sociologia, da psicologia à economia. Darwin, hoje em dia,
é invocado para iluminar assuntos tão diversos quanto a
competição entre empresas e a culinária regional. Na
maioria dos países, inclusive o Brasil, o darwinismo é a
única teoria sobre a origem da vida estudada nas escolas.
Todo esse sucesso da visão
cientificista não chegou a sepultar as controvérsias do
passado. A velha polêmica está de volta, agora com nova
roupagem e argumentos mais sofisticados. A recente ofensiva
contra Darwin, travada principalmente nos Estados Unidos,
tem como desafiante um grupo de biólogos, matemáticos e
bioquímicos empenhado em provar a inconsistência do
evolucionismo com base na biologia molecular. Para eles, a
complexidade da vida requer necessariamente a existência de
um "planejamento inteligente".
"A teoria de Darwin pode
explicar cascos de cavalos, mas não os alicerces da vida",
diz o bioquímico Michael Behe, professor da Universidade
Lehigh, na Pensilvânia, Estados Unidos, e autor do livro A
Caixa Preta de Darwin, uma das peças fortes na divulgação
do planejamento inteligente. Do outro lado, a resposta vem
também em tom de briga. "A função de um bioquímico
é ocupar-se com problemas que envolvem os elementos",
diz o biologo Richard Dawkins, da Universidade de Oxford,
Inglaterra, autor de uma coletânea de livros evolucionistas.
"Não é vomitar idéias apressadas sobre um suposto
projeto sobrenatural só porque ainda não se sabe como
algumas reações químicas evoluíram."
Para entender o que está se
passando, é melhor conhecer primeiro o que propõem as duas
teorias em jogo nesse confronto. De um lado, Darwin disse
que a vida começou espontaneamente no momento em que uma
sopa primordial de elementos químicos, submetida às
condições da Terra primitiva, produziu pela primeira – e
única vez – uma molécula replicante. Mudanças graduais
ocorridas por acaso permitiram a formação, ao longo de
bilhões de anos, de seres cada vez mais complexos.
A evolução consiste
basicamente na repetição incessante da reprodução, por
meio da qual a geração anterior passa à seguinte os genes
herdados de seus ancestrais, mas com pequenos erros – as
mutações. Isso acontece de forma aleatória, segundo
Darwin, e é praticamente imperceptível. No decorrer das
gerações, no entanto, haveria uma espécie de seleção
das mutações que seriam mais úteis à sobrevivência. É
o que Darwin chamou de seleção natural, uma espécie de
filtro da natureza evidenciado pelo fato de que o número de
indivíduos, numa geração, que sobrevivem e conseguem
deixar descendentes é sempre menor que o número dos que
nasceram. Os felizardos seriam aqueles selecionados pela
natureza em razão de suas características de adaptação
ao ambiente. Com o tempo, as seleções acabam por
estabelecer diferenças tão drásticas entre descendentes
de um mesmo ancestral que já não persistem os traços
básicos da espécie original. Dá-se, então, o surgimento
de outro tipo de animal. (Esse seria um dos motivos pelo
qual você não se identificaria com um Australopithecus
afarensis, nosso alegado ancestral de 3,5 milhões de anos,
que hoje passaria batido ao lado de alguns macacos no
zoológico.)
Já para os chamados
neocriacionistas – aqueles que, comparados aos
criacionistas originais que lêem a bíblia ao pé da letra,
têm um discurso muito mais apurado – a vida não tem nada
de aleatório e parece ter seguido algum desenho inteligente.
A prova seria a complexidade dos sistemas celular e
molecular: verdadeiras máquinas cujas partes independentes
estão tão estreitamente interligadas que a ausência de um
único componente é o bastante para impedir que elas
funcionem. É o que o bioquímico Michael Behe denomina com
o palavrão "complexidade irredutível": um
sistema que existe apenas se todos os seus mecanismos
estiverem ali para servir o todo. Órgãos como o olho
humano e o sistema de coagulação do sangue seriam os
exemplos mais evidentes desse modelo. Eles só conseguem
trabalhar quando todas as suas "peças" estão
encaixadas. Ou seja: essa engenharia cheia de detalhes e de
encaixes únicos e precisos não poderia ser fruto de
mudanças aleatórias. Outra confirmação disso seria o
fato de que até hoje não foram encontrados registros de
animais transicionais (um fóssil de animal que fosse
exatamente uma transição de uma espécie para outra).
Para os darwinistas, a idéia
de que a vida seguiu um plano inteligente é apenas um jeito
novo de dizer que Deus criou do nada todos os seres. A velha
idéia presente no Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, e
no discurso do fundamentalismo cristão americano – desde
a década de 1920 empenhado numa cruzada anti-evolucionista.
Mas os teóricos do planejamento inteligente afirmam que
eles nada têm a ver com o criacionismo de raiz religiosa.
"Essa teoria não especula sobre a existência de um
Criador ou suas intenções", diz o matemático William
Dembsky, um dos líderes da nova escola. "Ela apenas
constata que a complexidade dos seres vivos sugere um
desenho inteligente." As duas premissas dos
neocriacionistas, segundo Dembsky, não englobam nenhum dos
seis pontos básicos do criacionismo clássico (veja boxe na
página 99), entre os quais estão a afirmação de que a
Terra existe há apenas 10 000 anos e a de que humanos e
macacos não têm ancestrais comuns.
Os partidários do
planejamento inteligente até admitem parcialmente a
evolução pregada por Darwin. Mas, para eles, ela só seria
válida para microorganismos, onde já se produziram provas
experimentais. Em A Caixa Preta de Darwin, Behe considera a
idéia de ascendência comum "muito convincente",
mas lança dúvidas sobre o mecanismo da seleção natural
como explicação para a origem da vida molecular. Quando
Darwin defendeu essa idéia, diz o bioquímico, não existia
ainda o microscópio eletrônico e imaginava-se a célula
como uma estrutura simples e rudimentar, não como um
organismo complexo, cujas partes também abrigam sistemas
sofisticados.
O argumento central de Behe
é que um sistema irredutivelmente complexo é como uma
ratoeira: só consegue pegar o rato se todas as suas partes
(uma plataforma, uma trava, um martelo, uma mola e uma barra
de retenção) estiverem perfeitas e ativas. É diferente de
um automóvel que pode funcionar com faróis queimados, sem
as portas ou sem pára-choques. O mundo da bioquímica,
segundo Behe, está repleto de sistemas irredutivelmente
complexos, verdadeiras máquinas químicas, precisas e
interdependentes. E isso requeria uma amarração que está
muito além da coincidência.
Os evolucionistas contestam.
Eles dizem que um grupo de células sensíveis à luz não
seria obviamente um olho no futuro, mas bem poderia servir
como um sensor primitivo de localização para animais
rudimentares. O ouvido de hoje pode ser resultado da
evolução de uma membrana sensível a vibrações do ar, o
que seria suficiente para salvar uma antiga espécie de um
predador pré-histórico.
Muita gente ainda duvida do
modelo evolucionista, diz Dawkins, porque não percebe que
as mutações entre uma e outra geração são mínimas,
praticamente imperceptíveis, só ganhando consistência ao
longo de milênios, milhões de anos. Outro equívoco dos
anti-evolucionistas, conforme o pesquisador, é imaginar que
a evolução é sinônimo de progresso. A maioria das
mutações, provocadas por fatores externos – como as
radiações cósmicas, por exemplo –, concorrem para
piorar e não para melhorar o organismo. Elas seriam
aleatórias. Mas sobre esse leque de opções atua, também
ao acaso, a seleção natural, perpetuando as mudanças que
facilitam a adaptação do organismo ao ambiente e,
conseqüentemente, a sobrevivência da sua espécie. Nos
casos em que aconteceu o contrário, não sobraram
descendentes para reproduzir a mudança.
A raiz do planejamento
inteligente remonta ao século XIII, quando São Tomás de
Aquino usou o argumento da complexidade da vida como uma das
provas da existência de Deus. O neocriacionismo do
planejamento inteligente livrou-se dos raciocínios
metafísicos e das analogias esotéricas do passado, diz
Behe, e, apoiado na bioquímica, tenta oferecer alternativas
refinadas à tese de Darwin.
A argumentação
pró-planejamento inteligente também bebe daquilo que seria
o ponto mais frágil da teoria darwiniana: a questão do
registro fóssil. A coleta de fósseis já na época de
Darwin sinalizava um problema. Nunca ficou evidente a lenta
modificação dos traços entre animais prevista pela teoria.
Muitas espécies pré-históricas apareciam como que de
repente. Essa lacuna, que permanece aberta até hoje, foi
minimizada em 1972 pelos paleontólogos americanos Stephen
Jay Gould e Niles Eldredge com a formulação da hipótese
do "equilíbrio pontuado", segundo a qual as
lacunas fósseis sugerem que a evolução ocorre em saltos
rápidos e, em seguida, as espécies tendem a permanecer
estáveis por milhões de anos. (Gould, que morreu no
último dia 20 de maio de câncer no pulmão, foi
entrevistado pela Super na edição de novembro e escreveu
vários artigos condenando os defensores do planejamento
inteligente). Mas os neocriacionistas continuam vendo na
falta de fósseis uma prova da inconsistência de Darwin.
"O registro fóssil é importante no estabelecimento da
teoria da evolução como fato", diz Enézio de Almeida
Filho, principal divulgador do planejamento inteligente no
Brasil. "Ocorre que não há como verificar a
evolução por meio de fósseis. Há somente evidências
circunstanciais, mas não há nenhuma prova."
Como os darwinistas encaram
tais críticas? As reações oscilam do desprezo ao respeito
moderado. "Bobagem", diz Francisco Gorgônio
Nóbrega, doutor em Genética Molecular pela Universidade de
Columbia, nos Estados Unidos, e pesquisador do Conselho
Nacional de Pesquisa (CNPq). "A teoria de Darwin tem
sido comprovada por mais de um século de pesquisas
biológicas, abrangendo de bactérias ao homem."
Nóbrega lembra que o cientista é treinado para ser
crítico e, certamente, muitos sonham com a possibilidade de
oferecer ao mundo uma teoria superior à de Darwin. Para que
isso aconteça, no entanto, é necessário reunir dados
consistentes e submetê-los ao rigor de outros pesquisadores
– "e não apenas escrever livros". Outro doutor
em Genética, o evolucionista Crodowaldo Pavan – único
brasileiro a integrar o fórum independente de cientistas
convocado pela Academia de Ciências do Vaticano –,
considera o planejamento inteligente pelo menos "uma
hipótese mais respeitável" que a do criacionismo
clássico, que não acredita na evolução apenas por
convicção religiosa. "Ao estudar a complexidade da
vida, os neocriacionistas nos ajudam a interpretar a
natureza", afirma.
Os evolucionistas também
têm se debruçado sobre a biologia molecular e dali
retirado novos argumentos em defesa da teoria darwiniana.
Dawkins lembra que os "textos" (as seqüências de
aminoácidos) do citocromo C, presentes no DNA de vários
organismos, têm sido comparados com grande sucesso, letra
por letra. Está provado que 12 letras – num conjunto de
339 – separam o citocromo C humano do citocromo C dos
cavalos, que seriam primos distantes do homem. E apenas uma
troca de letras diferencia o citocromo C humano do dos
macacos, o mesmo número que separa os citocromos de cavalos
e jumentos, que são primos muito próximos. Já a
distância entre o citocromo humano e o do levedo é de 45
trocas de letras. São fatos que sugerem o parentesco entre
todos os seres vivos e reforçam a tese do ancestral comum.
Apesar do status de ciência
pretendido por seus defensores, o neocriacionismo não deixa
de dar seqüência, nos dias atuais, ao embate centenário
entre religiosos e evolucionistas, hoje praticamente
restrito aos Estados Unidos e a alguns países islâmicos.
Mas há nuances na visão religiosa. A idéia de evolução
choca os conservadores, mas é aceita por religiosos
liberais, que preferem ler o Gênesis bíblico como uma
narrativa mítica. Até o papa João Paulo II admitiu, há
dois anos, que as teorias da evolução, incluindo a de
Darwin, merecem ser encaradas como algo além de hipóteses.
Nesse caso, a evolução é vista como o meio de Deus criar,
ainda que o neodarwinismo (síntese da genética moderna com
a teoria da seleção natural) realce a falta de propósito
e de intenção na evolução. É nesse detalhe, aliás, que
estaria a maior "heresia" de Darwin, um agnóstico,
já que os seres humanos não são vistos aí como o
propósito final da evolução, mas apenas como resultado de
um acidente que poderia ainda levar a a outros acidentes.
Trata-se de conflitos que
ganham dimensões profundas nas religiões judaico-cristãs.
Especialmente no fundamentalismo evangélico e no Islamismo
– que trabalham com o conceito de um Deus pessoal e
intervencionista –, mas perdem densidade em religiões que
não consideram a idéia de uma criação instantânea do
mundo. No Hinduísmo, por exemplo, as escrituras se referem
a infindáveis ciclos de criação e de dissolução na
natureza. As tradições orientais são também menos
centradas no homem do que as religiões do Ocidente e
consideram os humanos uma pequena parte da realidade.
Com ou sem motivações
religiosas, a polêmica em torno da evolução está longe
de acabar. No momento, são vários os estudos sobre
evolução molecular in vitro em andamento nos Estados
Unidos, o que, certamente, conduzirá a novas revelações e
inferências sobre a origem da vida nos próximos anos.
"Não há um único artigo respeitado pela comunidade
científica que tenha oferecido uma alternativa racional à
teoria de Darwin", diz Gorgônio Nóbrega. "Mas
não podemos banalizar o problema: a origem da vida celular
está envolvida em mistério, pois a ciência, apesar de
muitos progressos, ainda está longe de ter um modelo
completo, sem falhas, para explicar a gênese da estrutura
celular e da maquinaria básica da vida." Pelo menos
nesse ponto, evolucionistas e neocriacionistas têm a mesma
opinião.
PARA SABER
MAIS:
Na livraria:
A Caixa Preta de Darwin, Michael Behe, Zahar,
Rio de Janeiro, 1999
O Relojoeiro Cego,
Richard Dawkins, Companhia
das Letras, São Paulo, 2001
Evolution: A Theory in
Crisis, Michael Denton, Adler
& Adler, Bethesda, EUA, 1985
Rebuilding the Matrix,
Denis Alexander, Lion, Londres,
Inglaterra, 2001
Reconciling Science and
Religion, Peter J.
Bowler, The University of Chicago Press,
Chicago, Estados Unidos, 1996