Ano
X
Nº 341
Texto
publicado na edição de setembro de 2004 da revista Viagem e
Turismo
Outras
reportagens
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O Nordeste
que poucos conhecem - II
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O
sertão virou mar
Além
da esquina do continente, o encontro do sertão com o
mar transforma a Costa Branca, no Rio Grande do Norte,
num lugar exclusivo e perfeito para quem busca ócio,
beleza e paz
Por Jomar Morais
/ Fotos Luis Morais
(O
texto completo e o serviço estão nas páginas da Viagem
e Turismo) |
Dunas
do Rosado: beleza do Saara junto ao mar
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Estamos
em Galinhos, a península que invade o Atlântico a 160 quilômetros
de Natal. Por aqui não há quiosques, bugueiros ou lixo na
orla. Não há turistas amontoados. Só cores, paz e uma
imensa sensação de liberdade. Galinhos foi vacinada pela própria
natureza contra todos os transtornos citados. O acesso à península
é dificultado por dunas que só podem ser cruzadas em jipões
4x4 – ainda assim, a circulação desse tipo de veículo é
proibida pela prefeitura local e os 2 000 moradores da vila
caiçara torcem o nariz para quem desobedece a norma. Para
chegar aqui, só deixando o carro no Pratagil, do lado de lá
do rio, para em seguida atravessar o braço de mar em
barquinhos que transportam, no máximo, 15 pessoas. Graças
aos céus e ao bom senso dos nativos, Galinhos mantém-se
imaculada como a cidade das charretes puxadas a cavalo e
jumento - sempre enfileiradas no cais à espera de visitantes
-, dos manguezais e das praias de águas mornas e serenas,
onde dá para espreguiçar-se sem culpa o dia inteiro à
espera do espetáculo maior dos fins de tarde: o pôr-do-sol
nas águas da ponta do farol. Um santuário ecológico repleto
de garças e peixes-galo (espécie que deu nome ao lugar),
porta de entrada do último paraíso eco-turístico descoberto
no Nordeste: a Costa Branca do Rio Grande do Norte.
A
área é uma sucessão de praias de características incomuns,
esparramadas numa faixa de quase 200 quilômetros logo depois
da esquina do continente, na face norte do litoral brasileiro.
Chama-se Costa Branca numa alusão às salinas, que aqui se
multiplicam sob o sol intenso e a brisa constante. Mas o que
se vê é muito mais que alvos montes de sal marinho. Pense em
praias calmas, um enorme piscinão natural emoldurado por
enseadas, falésias e dunas coloridas, e adicione a essa
paisagem a vegetação típica da caatinga, fazendas, bois,
cabras e jegues à beira-mar. Eis a aquarela natural que, começando
em Galinhos, culmina na bela Ponta do Mel, cenário recente de
filmes nacionais. Na Costa Branca, o sertão vira mar e o mar
vira sertão, como na profecia de Antonio Conselheiro. E sob
os reflexos da forte luminosidade, aqui a paisagem real deixa
livre o caminho para a imaginação. Deslocando-se entre uma
praia e outra ou simplesmente mudando o ângulo de visão no
alto de uma duna ou falésia, tem-se a sensação de passear
por diferentes lugares do mundo.
A
imagem de paraíso ecológico não significa que a Costa
Branca não esteja apta a receber visitantes com um mínimo de
conforto. A infra-estrutura combina com a proposta de repouso
e lazer em contato com a natureza, mas a simplicidade das
instalações e serviços envolve, com freqüência, elegância,
boa comida e, em alguns casos, sofisticação e criatividade,
como é o caso da Pousada Costa Branca, um monumento ao ócio
erguido em Ponta do Mel, e da pequena Oásis e seus chalés de
madeira, coloridos, sobre a areia de Galinhos. Há passeios a
cavalo à beira-mar, caiaques em rios e lagos, barcos a motor
nos estuários, caminhadas e incursões caatinga adentro. A
região desde anos recentes está na mira de portugueses,
franceses e escandinavos que chegam, discretamente, em busca
de refúgio inviolável e, não raro, acabam comprando casas
para temporada ou abrindo pequenas pousadas já incluídas em
listas de guias europeus. Agora, os brasileiros começam a
curtir o novo roteiro.
Não
espere encontrar os agitos noturnos da Pipa, a badalada praia
do litoral sul potiguar, nem o frisson dos pontos de encontro
de Ponta Negra, em Natal. O espetáculo proporcionado pela
natureza, no entanto, compensa a falta de qualquer adicional
humano. É possível alcançar as praias da Costa Branca de ônibus
ou de carro comum, rodando em estradas asfaltadas, mas essa
seria, com certeza, a opção mais pobre e desinteressante que
um turista pode fazer. A boa é seguir pela beira-mar (só em
alguns trechos é preciso desviar pelo asfalto) e se deliciar
com as 39 lindas praias, coqueirais e vilas acolhedoras que se
sucedem no trajeto. Pode-se comprar um pacote de três ou
quatro dias em empresas que operam jipões Land Rover ou,
melhor ainda, alugar um Land Rover com guia-motorista da
Aventura Expedições e, assim, ter a chance de montar um
roteiro personalizado, com a liberdade de parar onde e por
quanto tempo quiser. A diária do carrão com ar condicionado
é de 680 reais, incluindo motorista, combustível, água e refrigerantes,
mas o custo final fica abaixo do dos pacotes all inclusive, de 1 150 reais por pessoa, já que é possível transportar até cinco passageiros no 4x4 e
ainda negociar preços em pousadas.
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Mama
África e a árvore do amor!
A
primeira providência para alcançar a Costa Branca pela orla
é sincronizar a viagem com o movimento das marés. Na maioria
dos trechos, as trilhas à beira-mar só são transitáveis na
maré baixa. Feito isso, é só curtição. O cabo de São
Roque é um capítulo à parte. Chegando aqui é só olhar o
mar em linha reta para sentir Mama África mais perto. Não dá
para enxergar, mas do outro lado do oceano está a cidade de
Dakar, no Senegal. Virando para o continente, damos de cara
com uma obra insólita da natureza, agora transformada em
“simpatia” pelos que querem sair da solidão: a Árvore do
Amor, assim chamada por que o vento forte soprando durante
anos sobre duas gameleiras acabou unindo seus troncos,
lembrando o ato sexual. Quem passa sob o arco, dizem, encontra
logo sua cara-metade. Rodando um pouco mais, chega-se à praia
do Calcanhar, onde, além de uma linda enseada, nos
surpreendemos com a presença do farol mais alto das Américas,
de 62 metros de altura. No mundo, a esguia torre listada do
Calcanhar só perde para o majestoso farol de Alexandria.
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A
Árvore do Amor: simpatia em frente à África para encontrar
a cara-metade
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Banho
de água mineral
A
figura de um botijão de água mineral – desses usados em
casas e escritórios –conectado ao cano do chuveiro
surpreende o visitante, mas foi esse o jeito que a Pousada Oásis,
da portuguesa Clara Pinto Machado, encontrou para poupar os hóspedes
de um dos raros inconvenientes de Galinhos: os efeitos estéticos
da água de poço, um tanto salobra, que deixa as mulheres
inconsoláveis na hora de pentear o cabelo. É chique tomar
banho de água mineral em chalés de madeira, coloridos e
ornamentados com motivos místicos. E relaxante esparramar-se
sobre uma enorme cama-balanço, no
centro do pentágono formado pelas casinhas, para
curtir o luar (Na manhã seguinte repetimos a dose com o sol
das sete). Depois, caminhar na orla, comer peixe com tapioca
à beira-mar e voltar para o jantar na pousada, pois é aqui
que se come um delicioso bacalhau.
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Cama-balanço
na Pousada Oásis: culto à preguiça na península de
Galinhos
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Trocam-se
ovos
Interessados
em preservar o ecossistema, os proprietários da pousada
Arraial do Marco, na praia de mesmo nome, Humberto Teixeira, o Betinho, e sua mulher Tânia
trocam ovos de galinha pelos de tartaruga, que os nativos
costumam levar à panela. Enterram-nos cuidadosamente nos
jardins da pousada e, 60 dias depois, têm a alegria de ver
tartaruguinhas emergindo para o mar. Só no ano passado, a
incubadora de Betinho garantiu o nascimento de 8 000 desses répteis.
“Queremos que as pessoas percebam a importância de proteger
a nossa rica natureza”, afirma
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Betinho
e Tânia: salvando tartaruguinhas nos jardins de sua
pousada
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Cavalos
de aço
Galinhos
só perde a paz e um pouco da gentileza no carnaval, quando é
tomado por grupos de foliões do estado. No resto do ano é
assim: uma espécie de spa da alma, onde se cura todo tipo de
estresse. Por isso, só a promessa de encontrar outras
maravilhas nos convence a retornar ao velho Land Rover no meio
da tarde, encarando um breve desvio de rota. Por quase uma
hora o jipão roda no asfalto, contornando o estuário do rio
Açu, e o visual praiano é substituído por esplanadas onde
cavalos mecânicos sugam petróleo na maior reserva terrestre
do produto no país. “Aqui é o Texas brasileiro”, diz João
Maria de Souza, o Sabiá, nosso guia-motorista
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Cavalos
mecânicos no caminho para o paraíso: só eles fazem
força
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A poética
do espaço vazio
No
Mel, como dizem aqui, existe apenas uma pousada legal, a Costa
Branca, erguida sobre uma falésia de 50 metros de altura, com
visão panorâmica que abrange a enseada de 10 quilômetros de
extensão, as praias vizinhas e o porto-ilha de Areia Branca,
a 14 quilômetros da costa, onde o sal produzido na região é
embarcado em navios. É pouco, mas nem dá para sentir a falta
de opção. Idealizada e dirigida pelo arquiteto e roqueiro
Carlos Cavalcanti, o Carito, a pousada reverencia a “poética
do espaço vazio” (espaço é o que não falta na fazenda de
140 hectares onde foi construída) e tem como filosofia o
“fazer nada com qualidade”. Em outras palavras, é uma
proposta de conforto e liberdade para quem quer curtir a
preguiça. Os chalés são espaçosos e práticos, existem
duas piscinas com vista para a enseada e um restaurante
nomeado Aldeia do Mundo serve pratos regionalistas, com toque
internacional. Não dá para não provar o camarão flambado
na cachaça Papary, uma aguardente tradicional do agreste
potiguar. O melhor do programa noturno, porém, é a paradinha
no pub Lord Byron, idéia de Carito e sua mulher Joane,
inspirada num suposto encontro de Byron, o poeta inglês, com
repentistas da caatinga.
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A
Ponta do Mel vista da Pousada Costa Branca: poética
do espaço
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O
show do sol
A
alvorada em Ponta de Mel é coisa de cinema e, para não perdê-la,
vale o sacrifício de acordar às 5h. O espetáculo pode ser
apreciado da borda da falésia, mas Carito, da pousada Costa
Branca, oferece um plus aos hóspedes. Costuma transportá-los
em um 4x4 até as Dunas do Rosado, ao sul, que pela manhã tem
contornos e cores diferentes do entardecer, e a uma enorme falésia
vermelha, enfeitada por cactos, onde ainda estão fincadas as
cruzes usadas na filmagem de Maria, a mãe do filho de Deus, estrelado por artistas globais e o
padre Marcelo Rossi (em julho começam as tomadas de um outro
filme do gênero, Irmãos
de fé). No Rosado, cujos formato e beleza se assemelham
às cordilheiras de dunas do Saara, caravanas de cabra cruzam
os morros multicores em direção ao sertão. Impressiona ver,
num único giro de 360 graus, o deserto, a caatinga e o típico
litoral brasileiro juntinhos.
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Alvorada
nas falésias da Ponta do Mel: paisagem da caatinga
junto ao mar
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