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Ao
declarar publicamente, em setembro de 2008, que "as
pessoas deveriam considerar comer menos carne como uma forma de
combater o aquecimento global”, o prêmio Nobel da Paz,
Rajendra Pachauri, presidente do Painel Intergovernamental
sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão das Nações Unidas, fez
um alerta sobre os impactos causados ao meio ambiente pela pecuária
industrial.
Certamente,
esse alerta foi baseado no relatório de 2006 da própria ONU – Livestock’s
Long Shadow: environmental issues and options (A Grande Sombra
dos Estoques Vivos: questões ambientais e opções) –, resultado
de um extenso levantamento pela FAO, a agência da ONU para a
Agricultura e Alimentação, sobre toda a cadeia produtiva da pecuária
industrial (produção da carne, laticínios e outros produtos de
origem animal em larga escala).
Uma
das principais conclusões desse relatório é que esta atividade é
responsável por pelo menos 18% do total de emissão de gases
ligados diretamente ao aquecimento global. E o que surpreende neste
dado é que ele é maior, por exemplo, que a soma das emissões causadas por todos os meios de transporte do planeta, que é de 13 %.
Para
melhor entender este número, foi considerado, além das emissões
provocadas pelo sistema digestivo dos animais, como metano obtido da
fermentação entérica no processo digestivo, e o oxido nitroso
emitido pelas fezes, temos também, o CO2 gerado nas queimadas que
precedem a formação de pastos e devido ao uso de energia para a
fabricação de insumos, produção de ração, água, transporte de
animais, processamento das carcaças, refrigeração dos estoques,
enfim, todos os gastos até o ponto de consumo.
Decifrando
melhor a conclusão do relatório chegamos aos seguintes dados
relacionados à emissão de gases pela pecuária industrial: 9 % de toda a emissão de gás carbônico (CO2) - 37 % das emissões de
metano (CH4), que é 20 vezes mais prejudicial para a atmosfera que
o CO2 – 65 % das emissões de óxido nitroso (N2O), que é quase
300 vezes mais prejudicial para a atmosfera do que o CO2.
O
fato é que estes dados geraram muita discussão e a conclusão de
que, na atualidade, a pecuária industrial usa mais de 70 % de todas
as áreas agricultáveis do planeta, o que corresponde a 30 % de
toda terra firme existente, sendo, portanto, a atividade humana que
lidera a ocupação de terras. A conseqüência são os grandes
problemas ambientais que assolam a humanidade como: aquecimento
global, a degradação de terras, a poluição do ar e das águas e
a destruição de florestas, inclusive a floresta amazônica, cuja
destruição é totalmente voltada para a criação de gado, estão
relacionadas ao consumo excessivo de carne pela população. Apenas
como dado, estima-se que na Amazônia, 70 % das áreas que foram
desmatadas hoje são usadas como pasto. Outra grande parte é
ocupada por monoculturas de soja e milho, cuja produção é quase
toda direcionada à alimentação do gado.
Hoje,
segundo o relatório O Reino do Gado, da OSCIP Amigos da Terra –
Amazônia Brasileira, lançado em 2008, se estima que existam mais
de 74 milhões de cabeças de gado na Amazônia, ou 3,3 animais por
habitante, o triplo da média no Brasil.
Outro
dado alarmante está relacionado aos recursos hídricos, haja vista
que o uso insustentável destes levou a ONU a declarar que a pecuária
é a maior fonte geradora de contaminação dos cursos d’água,
devido principalmente à grande quantidade de dejetos produzidos
pelos animais e descartados in
natura em rios, aos antibióticos e hormônios usados na criação
e às substâncias químicas usadas nas monoculturas para a produção
de ração. Como conseqüência, 64 % de toda amônia lançada na
atmosfera e nos cursos de rios são de responsabilidade desta
atividade o que contribui para o aumento de chuvas ácidas.
Preocupante
também é o consumo de água para o processamento das carcaças.
Segundo levantamento da CETESB/SP (Companhia de Tecnologia de
Saneamento Ambiental de São Paulo), os abatedouros paulistas
utilizam, em média, 12 litros de água para processar a carcaça de
um frango e 2.500 litros para a de um bovino. É bom lembrar que o
consumo de água para atender todas as necessidades humanas está
estimado em 120 litros por dias.
Portanto,
diminuir o consumo de carne é um ato de amor para com o nosso
limitado e finito planeta. A continuar o consumo crescente de carne
pouco restará como legado às futuras gerações, a não ser um
meio ambiente contaminado, pesados gastos com a infra-estrutura de
saneamento e de tratamento de doenças decorrentes da excessiva
contaminação, além de catástrofes incontroláveis, hoje já
percebíveis.
(*)
Irineu R. G. de Andrade
é engenheiro e ambientalista
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irineurga@supercabo.com.br
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