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Junho
2009

 

 

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A carne e o meio ambiente

Relatório da ONU confirma que a pecuária é uma das grandes causas 
da poluição ambiental e do efeito estufa. Ou diminuímos o consumo de carne
ou enfrentaremos um grave problema sócio-ecológico em breve

por Irineu Andrade (*)

 

Ao declarar publicamente, em setembro de 2008,  que "as pessoas deveriam considerar comer menos carne como uma forma de combater o aquecimento global”,  o prêmio Nobel da Paz, Rajendra Pachauri,  presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão das Nações Unidas, fez um alerta sobre os impactos causados ao meio ambiente pela pecuária industrial.

Certamente, esse alerta foi baseado no relatório de 2006 da própria ONU – Livestock’s Long Shadow: environmental issues and options (A Grande Sombra dos Estoques Vivos: questões ambientais e opções) –, resultado de um extenso levantamento pela FAO, a agência da ONU para a Agricultura e Alimentação, sobre toda a cadeia produtiva da pecuária industrial (produção da carne, laticínios e outros produtos de origem animal em larga escala).

Uma das principais conclusões desse relatório é que esta atividade é responsável por pelo menos 18% do total de emissão de gases ligados diretamente ao aquecimento global. E o que surpreende neste dado é que ele é maior, por exemplo, que a soma das emissões causadas por todos os meios de transporte do planeta, que é de 13 %.

Para melhor entender este número, foi considerado, além das emissões provocadas pelo sistema digestivo dos animais, como metano obtido da fermentação entérica no processo digestivo, e o oxido nitroso emitido pelas fezes, temos também, o CO2 gerado nas queimadas que precedem a formação de pastos e devido ao uso de energia para a fabricação de insumos, produção de ração, água, transporte de animais, processamento das carcaças, refrigeração dos estoques, enfim, todos os gastos até o ponto de consumo.

Decifrando melhor a conclusão do relatório chegamos aos seguintes dados relacionados à emissão de gases pela pecuária industrial: 9 % de toda a emissão de gás carbônico (CO2) - 37 % das emissões de metano (CH4), que é 20 vezes mais prejudicial para a atmosfera que o CO2 – 65 % das emissões de óxido nitroso (N2O), que é quase 300 vezes mais prejudicial para a atmosfera do que o CO2.

O fato é que estes dados geraram muita discussão e a conclusão de que, na atualidade, a pecuária industrial usa mais de 70 % de todas as áreas agricultáveis do planeta, o que corresponde a 30 % de toda terra firme existente, sendo, portanto, a atividade humana que lidera a ocupação de terras. A conseqüência são os grandes problemas ambientais que assolam a humanidade como: aquecimento global, a degradação de terras, a poluição do ar e das águas e a destruição de florestas, inclusive a floresta amazônica, cuja destruição é totalmente voltada para a criação de gado, estão relacionadas ao consumo excessivo de carne pela população. Apenas como dado, estima-se que na Amazônia, 70 % das áreas que foram desmatadas hoje são usadas como pasto. Outra grande parte é ocupada por monoculturas de soja e milho, cuja produção é quase toda direcionada à alimentação do gado.

Hoje, segundo o relatório O Reino do Gado, da OSCIP Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, lançado em 2008, se estima que existam mais de 74 milhões de cabeças de gado na Amazônia, ou 3,3 animais por habitante, o triplo da média no Brasil.

Outro dado alarmante está relacionado aos recursos hídricos, haja vista que o uso insustentável destes levou a ONU a declarar que a pecuária é a maior fonte geradora de contaminação dos cursos d’água, devido principalmente à grande quantidade de dejetos produzidos pelos animais e descartados in natura em rios, aos antibióticos e hormônios usados na criação e às substâncias químicas usadas nas monoculturas para a produção de ração. Como conseqüência, 64 % de toda amônia lançada na atmosfera e nos cursos de rios são de responsabilidade desta atividade o que contribui para o aumento de chuvas ácidas.

Preocupante também é o consumo de água para o processamento das carcaças. Segundo levantamento da CETESB/SP (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental de São Paulo), os abatedouros paulistas utilizam, em média, 12 litros de água para processar a carcaça de um frango e 2.500 litros para a de um bovino. É bom lembrar que o consumo de água para atender todas as necessidades humanas está estimado em 120 litros por dias.

Portanto, diminuir o consumo de carne é um ato de amor para com o nosso limitado e finito planeta. A continuar o consumo crescente de carne pouco restará como legado às futuras gerações, a não ser um meio ambiente contaminado, pesados gastos com a infra-estrutura de saneamento e de tratamento de doenças decorrentes da excessiva contaminação, além de catástrofes incontroláveis, hoje já percebíveis.        

(*) Irineu R. G. de Andrade é engenheiro e ambientalista

Quer falar com o autor?

 Email: irineurga@supercabo.com.br


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