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Ano V // Nº 271

Texto publicado na edição 02 de junho de 1999 da revista Exame

O FURACÃO Byron

O Banco do Nordeste era um reduto do clientelismo e da ineficiência. Era. Em quatro anos, seu presidente transformou-o num negócio ágil e lucrativo. Eis sua receita

Por JOMAR MORAIS, de Fortaleza

O presidente do Banco do Nordeste, o BN, Byron Costa de Queiroz, prefere não falar de gurus, mas não esconde que é fã de carteirinha de Jack Welch, o super-executivo que revolucionou a GE, transformando-a na empresa mais valiosa do mundo. Recentemente, ele leu Jack Welch, o Executivo do Século, perfil do gênio da gestão corporativa traçado por Robert Slater, e ficou encantado. “Admiro muito as idéias e o trabalho de Welch”, diz Byron. Até aí nada demais. Afinal, Welch é um ícone do sucesso na arena dos negócios e tem milhares de admiradores no planeta. O ponto é que Byron não se limita a admirá-lo. Com o porte atarracado e o jeito incisivo de expor suas idéias, como o próprio Welch, esse cearense de 51 anos, com nome de poeta inglês do século 18, busca no presidente da GE a inspiração para vencer um desafio igualmente fascinante: fazer do Banco do Nordeste, um dos dinossauros da burocracia estatal brasileira, uma empresa ágil, eficiente e lucrativa.

Guardadas as devidas proporções, eis aí uma tarefa tão trabalhosa quanto o foi para Welch mudar radicalmente a GE, o gigante fundado por Thomas Edison no século passado. Criado em 1952, para dar suporte ao desenvolvimento regional, o velho Banco do Nordeste do Brasil acabou, como tudo que é estatal no nordeste, dominado pelos “coronéis” da política e atolado em burocracia. Com 86% de seu funding representados por recursos do Fundo Constitucional do Nordeste, o FNE, há quatro anos o banco praticamente limitava-se a repassar dinheiro público a empresários ávidos por empréstimos a fundo perdido. Era também uma espécie de paraíso da ineficiência bem remunerada, com seus pequenos marajás contemplados com horas extras, anuênios, licenças-prêmios e uma série de benefícios fixos e reajustes lineares. Se não bastasse, o BN convivia com um rombo de 570 milhões de reais na Caixa de Previdência de seus funcionários e, por causa disso, nem sequer conseguia classificação de risco para captar recursos dentro e fora do Brasil.
Alterar essa rotina era mexer num vespeiro. E, de fato, foi o que aconteceu a partir de 1995, quando o furacão Byron colocou de pernas para o ar a antiga estrutura. Ainda hoje há políticos impedidos de ditar ordens ao banco, funcionários aposentados e empresários inadimplentes tentando reverter o processo de mudanças. Mas os resultados obtidos com o novo modelo de gestão mostram que valeu a pena comprar a briga.

Em 1994, último ano em que funcionou à velha moda, o BN concedeu apenas 27 000 financiamentos e aplicou na economia regional - sua missão primordial como banco de fomento -- 615 milhões de reais. O banco tinha então 174 agências e 78 000 clientes. No ano passado, apenas o número de agências permanecia inalterado. Com 720 000 clientes ( hoje já são 800 000), o Banco do Nordeste fechou 517 000 contratos de financiamentos, investindo na região 3,2 bilhões de reais. No período 95-98, a rentabilidade sobre o patrimônio evoluiu de 4% para 9,4%, enquanto as despesas administrativas caíram de 645 milhões de reais para 464 milhões. Até a participação dos salários nos custos, uma velha distorção, foi reduzida à metade sem que houvesse demissões. Bastou trocar a lógica das remunerações e benefícios fixos por uma política salarial apoiada no desempenho. Com acesso fácil a outras fontes de recursos, o dinheiro do FNE não representa agora mais que 30% do funding do banco.

Nascido em Iracema, cidadezinha do sertão que só há pouco conheceu a luz elétrica, Byron ganhou esse nome por sugestão de uma amiga de sua mãe, estudante de literatura inglesa na capital. É uma homenagem ao barão George Gordon Byron (1788-1824), poeta polêmico cuja obra mais famosa é Don Juan. Byron, o poeta, tinha um estilo irônico e exerceu grande influência no romantismo inglês. Byron, o executivo, é um homem pragmático que corre atrás de resultados e busca inspiração em biografias de grandes personalidades. "Gosto de enfrentar desafios" , diz ele. E isso não é de agora. Aluno interno do Colégio Marista, em Fortaleza, Byron começou a trabalhar aos 12 anos, num armazém de algodão, e aos 20 deu a primeira grande demonstração de confiança em seu talento. À época, ele estudava administração na Universidade Estadual do Ceará à noite e, durante o dia, trabalhava como assessor na Prefeitura de Fortaleza, onde ganhava 1 200 cruzeiros mensais. Por ter se destacado na faculdade, certa vez o dono de um escritório de assessoria fez-lhe uma proposta indecente: queria-o como estagiário para trabalhar dobrado e receber somente 500 cruzeiros por mês. Parecia loucura, mas Byron viu aí uma chance de crescimento profissional e mudou de emprego. Estava certo. Apenas alguns meses depois foi promovido a diretor do escritório. No ano seguinte, já despachava como diretor administrativo-financeiro da Indústria de Confecções Del Rio, um posto bem maior que os seus 21 anos. "Deixar o emprego público foi uma opção difícil", relembra. Sem tempo para a universidade, Byron pedia a colegas para gravar as aulas, que ele ouvia no ônibus enquanto voltava para casa.
Essa disciplina espartana ajudou-o a cumprir uma trajetória de sucesso em várias indústrias têxteis, coroada depois com a vice-presidência do grupo J. Macedo, um dos maiores do nordeste. "Byron sempre foi um batalhador destemido e um profissional de rara visão", atesta José Dias Macedo, o octogenário presidente do conglomerado. Só em 1986, com a primeira eleição do amigo Tasso Jereissati para o governo do Ceará, Byron Queiroz ele migrou para a área pública, primeiro como secretário de Planejamento, depois na Fazenda. Nada comparável, porém, ao desafio de por em ordem o Banco do Nordeste.

Como Welch, Byron chegou ao então BNB decidido a promover o compartilhamento de idéias e a romper barreiras hierárquicas que cerceavam o fluxo de informações na empresa. A meta era fazer germinar, o mais rápido possível, uma cultura participativa e de aprendizado permanente. O problema era como chegar lá. Para começar, os sistemas de informação do banco estavam completamente obsoletos. Havia apenas 700 computadores jurássicos, modelo 286, servindo aos 4 000 funcionários espalhados pelos nove estados nordestinos e o norte de Minas Gerais -- nenhum deles em rede. Uma estrutura burocrática gigantesca, com superposição chefias, entravava de tal modo o poder decisório que um financiamento não contemplado com a ajuda de algum "padrinho" vagava em média 217 dias - alguns até dois anos - pelas mesas dos burocratas até que o dinheiro finalmente fosse liberado ao cliente. Hoje em dia, um empréstimo é liberado entre 21 e 60 dias.

Na primeira canetada, o novo presidente desmontou os conselhos departamentais, marcados por disputas políticas, e em seu lugar criou os fóruns de gestão, pontos de apoio da mobilização para mudanças e principal instância da participação dos funcionários na gestão do banco. Com o tempo, os 286 foram substituídos por 5 000 computadores de última geração e uma intranet passou a interligar todas unidades do BN. Atualmente são 207 os fóruns de funcionários. O principal, conhecido como Grupo de Assessoramento Básico (GAB), tem 70 integrantes e reúne, além do presidente do BN, os superintendentes, gestores de áreas e convidados das agências. Os clientes, o foco da nova gestão, também ganharam seus próprios fóruns em nível estadual e, segundo Byron, participam intensamente.

A cada quinzena, tais grupos discutem sobre tudo o que é relevante à melhoria dos processos, das sinalizações da presidência às sugestões de funcionários e consultores. O benchmarking interno, por exemplo, já proporcionou 1 982 boas idéias, agora disseminadas pela organização. Discutem também as novas propostas de especialistas em negócios, a partir da resenha de obras recém-lançadas. Na reunião do GAB de 19 de abril, Bill Gates e sua proposta de "sistema nervoso digital", tema do livro A Empresa na Velocidade do Pensamento, foram alvo de debate. No livro, Gates afirma que, nos dias atuais, a vantagem de um banco é estabelecida principalmente por sua capacidade de capitalizar as melhores idéias de seus funcionários, mediante o uso de tecnologia da informação.
Foi essa mesma crença que levou Byron a apostar na intranet como meio de democratizar a informação, o conhecimento e a participação no BN. Os debates dos fóruns -- mesmo os das agências mais simples -- são disponibilizados na rede em 24 horas e uma agenda de compromissos permite aos gestores e funcionários monitorar a execução tanto de um macroprojeto quanto de uma simples providência de rotina. Há também uma seleção de leituras recomendadas. Tudo circula na intranet.

Byron, obviamente, usa bastante a rede, mas é ao telefone que ele passa boa parte do dia, orientando e cobrando até mesmo funcionários de terceiro escalão. "Gosto de falar com quem está executando o trabalho, ouvir suas idéias, expor as minhas", afirma. Se precisar mudar um gestor, diz, não terá dificuldade, pois sabe como cada técnico trabalha. Qualquer funcionário pode pedir uma audiência ou enviar-lhe um e-mail com sugestão ou questionamento. Mas é bom não esperar a resposta pelo correio eletrônico. "Apesar de toda a tecnologia, nada substitui o contato direto, o olho no olho", diz Byron. Nesse caso, o normal é que o funcionário seja convocado à sala da presidência. Comunicativo, ainda que durão em certos momentos, Byron costuma reunir assessores em sua casa onde, em meio às gentilezas de sua segunda mulher Sônia (ele é viúvo), fala-se de tudo e, principalmente, de... trabalho. É comum também encontrá-lo em festinhas nas casas de funcionários ou fazendo visitas-surpresa a áreas do banco.

Dono de uma memória prodigiosa, admirada e temida pelos colaboradores, Byron é um homem organizado, que registra tudo o que realiza e faz questão de guardar até documentos prosaicos, como cadernos utilizados na escola primária e bilhetes de amigos. O que isso quer dizer? Que ele leva a sério tudo o que faz. "Doutor Byron delega, estimula e dá os meios para executar", afirma o gerente do Ambiente de Políticas de Desenvolvimento do BN, Walmir Marques. "Mas ninguém se engane: ele também sabe cobrar". Com a mesma velocidade com que delega tarefas, costuma transferí-las quando quem as executa não atende à sua expectativa de eficiência.

Byron diz que é possível gerenciar com simplicidade e objetividade e, como Jack Welch, impõe a si mesmo o dever de não complicar. "Lidero a partir de um conceito simples: uma empresa precisa dar resultados", afirma. "Meu feedback é diário, mas num modelo de gestão aberta não deve haver constrangimentos nem preocupações com suscetibilidades". Formado em Administração e tendo cursado até o quarto ano de Direito, ele acredita que o melhor de seu aprendizado aconteceu com vida, administrando empresas e mirando-se no exemplo de grandes homens. Byron tem sede de informação, venha de onde vier. Para aprender um pouco mais não dispensa nem mesmo as aulas do telecurso 2º grau. Como acorda sempre às 6 horas - ele vai para cama à meia-noite e prefere não trabalhar mais do que nove horas por dia - todas as manhãs está diante da TV, assistindo a lições de química ou geografia destinadas a trabalhadores sem acesso à escola formal. "É bom, e eu ainda arrumo assunto para conversar com os clientes", diz.
No Banco do Nordeste esse estilo se traduz na transparência e no senso de oportunidade. "Não se pode perder o timing para agir e toda a organização tem de atuar dentro de uma mesma visão de futuro e de resultados", afirma. Mesmo que no início isso provoque marolas. Em 1995, quase 40% dos 4 000 funcionários do BN trabalhavam na sede do banco, à época instalada num edifício de 15 andares no centro da Fortaleza. O que fez Byron? Transferiu 1 200 deles para os grotões do sertão, onde o atendimento ao cliente agonizava em agências sem funcionários. No ano passado foi possível mudar toda a direção geral para a área do Centro de Treinamento, no bairro Passaré, e economizar, apenas com energia elétrica, 200 000 reais por mês.

Claro, houve protestos. Choveram cartas de políticos exigindo que seus protegidos não fossem mandados para o interior. A ordem de Byron à secretária: ignore-as. Em julho de 1996, durante a reunião dos presidentes dos países do Mercosul em Fortaleza, ele chegou a ser combatido em outdoors que anunciavam em espanhol: "Hay un ditador entre nosotros: Byron Queiroz". Desses anos de atrito restaram mágoas recíprocas. Byron diz que acabou com uma dinastia que há 30 anos dominava o banco e fazia lobby com o dinheiro da Capef, a caixa de previdência dos funcionários. O presidente da Associação dos Aposentados, Luiz Gonzaga Pereira, rebate dizendo que o presidente do banco é um homem insensível aos problemas humanos e o acusa de ter manipulado os números do déficit da Capef. Nos primeiros anos à frente da GE, Jack Welch demitiu em massa, fechou unidades e ficou conhecido como Neutron Jack, numa referência ao poder destruidor da bomba de neutron. Passada a tempestade e arrumada a casa, Welch é hoje respeitado pelos sobreviventes da GE e no resto do mundo. Byron, a seu modo, também está conseguindo virar o jogo da popularidade.

Quem no início temeu ou resistiu ao modelo de times de trabalho e de gestão por projetos, com orientação para o cliente, começa a mudar de idéia diante dos resultados obtidos. "Na velha estrutura eu tinha poder, mas não empregabilidade", diz Joaquim dos Santos Barros, superintendente de auditorias do BN. "Hoje sou um profissional competitivo no mercado.” Já foram oferecidas 35 000 oportunidades de treinamento e atualização a funcionários. A produtividade nas agências BN triplicou.
Byron ainda tem problemas com 25 grandes empresas que respondem por mais da metade dos 9% do índice de inadimplência no banco. É gente poderosa que já tentou obter a cabeça do presidente do banco em Brasília. Mas Byron avisa: "Acabou o tempo do dinheiro a fundo perdido. Quem tomou emprestado vai ter de pagar”. No passado, Byron chegou a romper com alguns patrões ao perceber que já não podia ser Byron. Foi assim, por exemplo, no próprio grupo J. Macedo. "Eu saneara as contas da empresa e alguns insetos começaram a aparecer para saborear o mel", afirma, enigmático. Na Unitêxtil e na Têxtil Bezerra de Menezes teve passagens rápidas porque lhe faltou espaço para agir. No Banco do Nordeste, ao contrário, tem carta branca do governo para ser implacável com os inadimplentes. "Nas condições atuais nenhum devedor do Banco do Nordeste pode pagar suas dívidas", alega o presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte, Abelírio Rocha. O que Byron tem a dizer? "Vou mandá-los para o pau", rebate.

Com o redirecionamento estratégico, desde 1995 o Banco do Nordeste corre atrás do pequeno empreendedor, aquele que sustenta a economia nordestina e costuma pagar o que deve. Graças à figura do agente de desenvolvimento, espécie de caixeiro-viajante do banco que busca clientela nas pequenas comunidades, o BN ganhou capilaridade e conseguiu cobrir os 1 875 municípios de sua jurisdição sem gastar um centavo com a abertura de novas agências. No ano passado, das 517 500 operações de crédito fechadas, 87% destinavam-se a pequenos tomadores. Os grandes representaram apenas 4% do bolo. Os pequenos ficaram com 67% dos 3,2 bilhões de reais aplicados na região. Os grandes receberam 21%.

Diante desses números, Byron se delicia e é capaz de falar horas a fio sobre suas idéias, sem poupar espetadas nos adversários. Mas admite: "Ainda há muito por fazer". Resolvidos os problemas de foco, gestão e crédito, agora o BN vai encarar o desafio de aperfeiçoar a qualidade de seus serviços e investir em novos nichos de mercado, como o da previdência privada. Byron também não esconde seu temperamento forte e um certo toque aristocrático. Seu gabinete é o único do andar. Apesar do ambiente participativo, os olhares cerimoniosos acompanham as palavras do chefe e sente-se ainda no ar o receio de alguns assessores de virem a ser o alvo de suas críticas diretas. Resta saber para onde caminha o BN revigorado e eficiente que leva a sua marca. O governo pretende reavaliar a rede de bancos federais e, nesse caso, o Banco do Nordeste pode continuar como está ou vir a fundir-se a outra instituição. Byron aposta na continuidade do BN e trabalha para isso. “Uma região ainda carente como o nordeste, com economia apoiada na informalidade e na microempresa, não pode dispensar um banco de fomento”, diz.

Byron Costa de Queiroz

  • Data de nascimento: 11/06/1947

  • Filhos: Fabíola, Flávio e Fernando, do primeiro casamento. Juliana e Cláudia, filhos da mulher atual, Sônia

  • Formação acadêmica: administração de empresas pela universidade estadual do Ceará

  • Livro inesquecível: Memórias da Segunda Guerra Mundial, de Winston Churchill

  • Empresário que admira: Jack Welch,da GE

  • Byron por Byron: "Um otimista, com bastante realismo, que não contabiliza frustrações. Direto e franco"

  • Melhor momento: "Cada momento em que se está bem pode ser o melhor"

  • Pior momento: "Não administro o pior"

  • Hobby: "Curtir a natureza ouvindo música"

  • Esporte: "Basquete. Como espectador"

O BN em Números

(Valores em milhões de reais / dezembro de 1998)

  • Ativo total 12 100

  • Patrimônio líquido 886

  • Lucro líquido 74,2

  • Agências 174

  • Funcionários 4 000


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