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Ano VIII 
Nº 325

Texto especial para o Planeta Jota,  fevereiro de 2003

 

 

Outras reportagens

 

Aventura nos Andes


A Bolívia é um barato! Em todos os sentidos. Para quem aprecia paisagens naturais 
deslumbrantes, diversidade cultural e aventura, o país oferece um atrativo que torna o passeio 
ainda mais agradável: os preços baixos, muito baixos.  Com menos de 1 000 dólares é 
possível curtir durante uma semana as geleiras eternas da cordilheira dos Andes, rotas de 
mountain bike, tesouros arqueológicos de civilizações pré-incas, o gigantesco lago Titicaca e 
suas 82 ilhas, a alegre confusão de carros, gente e barracas de vendedores ambulantes das ruas 
de La Paz, uma cidade onde presente e passado andam sempre juntos

Por Jomar Morais    

Estive em La Paz no mês passado. Foi uma viagem inesperada. Pretendia desfrutar o final de minhas férias num périplo pela Venezuela, um dos poucos países americanos que ainda não tive o prazer de conhecer, mas a crise política venezuelana levou-me a mudar a rota na última hora. Tenho agora bons motivos para agradecer por esse imprevisto. No passado viajara à Bolívia, em serviço jornalístico, mas não estivera ainda na região do altiplano, onde está La Paz e toda a série de atrativos andinos, dos quais destaco alguns, resumidamente, nesta página. O que posso dizer é que, em sua singeleza - e pobreza - o altiplano boliviano é um raro encanto para quem anda saturado com viagens pausterizadas aos Estados Unidos e roteiros (quase sempre) engessados por países europeus ou para quem simplesmente valoriza o patrimônio cultural latino-americano, ainda tão desconhecido de nós próprios.

Impressiona o número de gringos nos hotéis de La Paz. A maioria jovens, gente antenada com valores ecológicos e a diversidade cultural ou apenas interessada em experimentar emoções fortes nas encostas andinas. Alemães, franceses, suiços, canadenses, alguns poucos americanos. Os argentinos estão por toda parte. Os brasileiros, festejados num país que toca axé e samba e vende camisetas com a imagem de Pelé, são muitos no lado oriental,onde gaúchos e paranaenses tentam fazer dinheiro com soja na região de Santa Cruz de la Sierra. Mas La Paz ainda tem poucos turistas que falam português.

E é fácil chegar à maior cidade boliviana (lembre-se: a capital da Bolívia é Sucre, onde está a sede do comando militar boliviano, e não La Paz, onde ficam o presidente da República e o Congresso). A passagem aérea custa 504 dólares na Varig, mas convém consultar as opções do LAB (Lloyd Aéreo Boliviano) e da Aerosur, empresa que está iniciando vôos entre La Paz e São Paulo. Há opções mais baratas, por terra, a partir do Mato Grosso do Sul, inclusive o chamado "Trem da Morte",mas o desconforto pode ser insuportável para pessoas idosas ou menos habituadas a aventuras. 

A estadia é  barata. Hotéis de porte médio e mais simples têm diárias oscilando entre 10 e 50 dólares. É possível ficar bem alojado no centro histórico da cidade, pagando pouco e comendo razoavelmente. O Hotel Galeria (Calle Santa Cruz, 583, tel. 246-1015), bastante freqüentado por gringos, por exemplo, tem apartamentos com banho privado a partir de 10 dólares. É um ambiente aconchegante, alegre e onde se pode desfrutar de um pequeno e agradabilíssimo restaurante que serve comidas típicas e pratos internacionais a partir de 3 dólares. Taxistas cobram 6,5 dólares para levar passageiros do hotel ao aeroporto. 

Antes de viajar, pesquise na Internet. Mas não faça reserva para todo o período em que pretende permanecer no país. Ao chegar, com certeza, descobrirá opções mais razoáveis e poderá mudar de hotel sem embaraços.

Vários estabelecimentos aceitam reais, mas é melhor levar a moeda americana. Em janeiro a cotação do dólar era de 7,54 bolivianos; a do real, apenas 1,80 bolivianos. De qualquer modo, câmbio não é problema. Além dos bancos e das lojas, centenas de cambistas trocam moeda dia e noite na avenida 16 de Julio (El Prado), o centro comercial de La Paz, e na Praça de Los Heroes. Ao longo da calle Sargánaga e ruas transversais, centenas de agências de turismo oferecem pacotes de city tour e opções de passeios ecológicos, prática de esportes radicais nas montanhas e visitas a sítios arqueológicos - além,é claro, de shows nas populares Peñas, restaurantes folclóricos. Os preços variam ao infinito. É recomendável pesquisar e pechinchar. Na Bolívia, a exemplo do Brasil, a pechincha é uma instituição. Sempre se obtém algum desconto. Além disso, os bolivianos costumam cobrar mais  (e bem mais, em relação aos preços de tabela) por tudo que é oferecido aos estrangeiros. Após alguns dias no país, esse problema pode ser contornado em parte com um pouco de conversa e simpatia.

O sistema viário boliviano é precário e o transporte coletivo (velhos microônibus e vans abarrotadas) deixa a desejar. Mas o serviço de telecomunicações é moderno e eficiente. La Paz anda deslumbrada com a Internet. Os postos de acesso à rede mundial estão em cada esquina (uma hora de acesso custa de 3 a 5 bolivianos). Uma peculiaridade eletrônica chama a atenção dos visitantes: o telefone público celular. Centenas, talvez milhares, de jovens vestidos com coletes específicos percorrem as ruas da cidade com telefones móveis atados a correntes metálicas, oferecendo chamadas a 1 boliviano o minuto.

Antes de curtir o altiplano boliviano, no entanto, é bom saber como vai a saúde. A altitude e o frio ( mesmo no verão a temperatura cai a 5 graus à noite) afetam o organismo de quem não está habituado a tais condições e problemas podem ser maiores para hipertensos e portadores de arritmias. Os primeiros dois dias na região devem ser dedicados á adaptação do organismo. Podem ocorrer palpitações, tonturas e, às vezes, um pouco de dor de cabeça. Para superar o problema, os nativos recomendam mastigar folha de coca, um tipo de medicina natural que na Bolívia é usada para melhorar a oxigenação do sangue, ajudar na digestão e no funcionamento dos rins. Nas ruas, é comum ver-se os bolivianos mais pobres mascando folha de coca, o que se explica pelo fato de a planta também disfarçar a fome. Quanto a mim, superei os transtornos da chegada apenas com um pouco de repouso e meditação. A ajuda da folha de coca só foi necessária na subida do monte Chacaltaya com seus 5 200 metros ornamentados de gelo.

Subir e descer, aliás, são operações rotineiras para quem está em La Paz. A cidade, erguida entre encostas, praticamente não tem ruas planas. Apenas ladeiras, a maioria bastante inclinada. Isso não é problema para os nativos, nem mesmo para bolivianas idosas que sobem encostas transportando botijões de gás nas costas. Mas o visitante comum só consegue vencê-las a passos lentos, respiração ofegante e muitas paradas para descanso. Se você vai a La Paz, então, prepare-se.

 


Chacaltaya: JM sobe ao topo do monte onde está a pista de esqui mais alta do mundo, a 5 200 metros de altitude, no coração da cordilheira dos Andes. Meditar aqui é uma experiência direta incrível



Tiwanaku: à frente do templo semi-subterrâneo, um momento para observar a herança arquitetônica da civilização pré-inca que construiu pirâmides e observatórios nos Andes entre os séculos XIII a.C. e XII d.C. O monolito Pachamama é uma das grandes atrações.


Ilha do Sol: meninas bolivianas oferecem artesanato da etnia aymara nas trilhas da ilha, no lago Titicaca, santuário habitado no passado apenas por sarcedotes incas. Vale a pena visitar as ruínas do Templo do Sol.


Lago Titicaca: a 4 000 metros de altitude, o pajé aymara (à esquerda de JM) invoca Pachamama, a deusa da terra, às margens do lago quase quatro vezes maior que a superfície do Rio Grande do Norte. Convém subir ao morro Calvário para ter uma visão arrebatadora do lago.

 

 

Leia mais:

JM em NY

JM na ilha de Neruda

 

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Envie agora sua mensagem (cite o título da matéria) para o jornalista Jomar Morais:

jomar.morais@supercabo.com.br


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