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Ano VIII / Nº 320

Texto publicado na revista Super  de agosto de 2002

 

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O poder do mito


Em todas as épocas e em toda parte, o homem compartilhou a idéia do sagrado e encontrou nas mitologias uma forma de resolver seus conflitos 

Por Jomar Morais    

Há 50 000 anos, os nossos ancestrais conhecidos como homens de Neandertal, nômades que vagaram entre a África, a Ásia e a Europa, tornaram-se as primeiras criaturas a sepultar seus mortos com cerimônia. Junto com os corpos, eles enterraram ferramentas, armas, roupas e outros suprimentos que deixaram para a posteridade uma dúvida: teriam os nossos primos da Idade da Pedra equipado os defuntos com utensílios por acharem que, além do túmulo, eles continuariam a viver?

É significativo que tais esboços de prática religiosa, os mais antigos de que se tem notícia na pré-história, estejam associados a esse grupo de homo sapiens. Segundo Andrew Newberg, em seu estudo sobre o "circuito espiritual" do cérebro, eles foram os primeiros a possuir uma estrutura cerebral suficientemente poderosa para compreender a morte, dotada de um lobo parietal semelhante ao nosso e, portanto, habilitada a processar a função causal e binária necessária às construções mitológicas. Em resumo: sabiam diferenciar a vida da morte e transcender a esta com a crença na imortalidade. Milhões de anos antes, outro ancestral humano, o macaco australopithecus, também chegou a exibir um lobo parietal desenvolvido mas, ao que parece, jamais foi capaz de produzir algum tipo de cerimônia elaborada. Faltava-lhe a estrutura neuronial necessária à linguagem, outro detalhe fundamental no desenvolvimento dos mitos.

Com o lobo parietal, possibilidades opostas – como, por exemplo, vida-morte, existência do predador-não existência do predador -, foram resolvidas através das mesmas funções cognitivas que permitem à mente perceber o mundo físico, fato que resultou na transformação de idéias em convicções e de possibilidades lógicas em crenças viscerais. As narrativas elaboradas nessas ocasiões formataram assim os mitos, em cuja moldura simbólica seres e situações opostos, como heróis e monstros ou céu e inferno, são reconciliados pela ação de poderes espirituais, liberando o ser humano de suas preocupações.

O temor da morte criou as religiões, acredita a maioria dos antropólogos. Uma das poucas vozes discordantes é a de Pascal Boyer, professor da Universidade Washington, em Saint Louis, Estados Unidos, embora também ele reafirme a universalidade de algumas imagens mitológicas. No livro Religion Explained (A Religião Explicada), ainda não traduzido para o português, Boyer contesta os que vêem nos mitos quase uma fatalidade biológica e considera a suposta universalidade de tais conceitos apenas o efeito de uma seleção aleatória de ocorrências. A experiência, afirma, teria gerado um gigantesco domínio de informação que o homem só parcialmente conseguiu preservar, em meio a milhões de mensagens perdidas, esquecidas, ignoradas, distorcidas e algumas vezes inventadas por nada. Formou-se então, segundo Boyer, uma sopa de representações e mensagens das quais só algumas acabaram se fixando no imaginário coletivo e se apresentando, senão de forma idêntica, pelo menos conforme certos padrões em diferentes épocas e lugares. Seria o caso de alguns mitos religiosos.

O caráter universal das mitologias, porém, é destacado por Joseph Campbell, o renomado especialista em religiões comparadas, autor dos livros As máscaras de Deus e O poder do mito. Virgens que concebem enviados divinos, dilúvios, expulsões do paraíso, regiões celestes e infernais, tentações demoníacas e ressureições não são exclusividade da Bíblia judaico-cristã. São argumentos mitológicos que se repetem nas diversas tradições religiosas do planeta e têm origem, segundo Campbell, em aspirações e crenças comuns. Veja-se, por exemplo, o episódio da tentação de Cristo. O Evangelho narra que Jesus retirou-se para orar no deserto e, ali, durante 40 dias foi assediado por Satanás, disposto a desviá-lo de seu propósito mediante a oferta de poder e prazeres. Cristo sobreviveu ao cerco e retornou fortalecido para cumprir sua missão. Cinco séculos antes, conforme a tradição budista, o jovem príncipe Sidarta enfrentou provação semelhante. Ao exilar-se na floresta para meditar, durante 40 dias ele combateu as insinuações do demônio Mara, obstinado em tirá-lo de sua busca. Sidarta resistiu e alcançou a meta da iluminação espiritual, tornando-se Buda.

São igualmente universais certos elementos da ritualística religiosa, como a música e os movimentos ritmados, importantes na estimulação do sistema límbico. E o transe, o ápice do processo de estimulação, apesar de sua discriminação pelo racionalismo ocidental e por parte das religiões organizadas. No passado remoto, toda a humanidade experimentou transes provocados pelo canto, pela dança ou por plantas alucinógenas. A decadência do costume – ainda preservado pelo espiritismo, os cultos afro-brasileiros, os evangélicos pentecostais e os católicos carismáticos - pode ser nociva ao homem, segundo alguns estudiosos.

"Trata-se de uma perda perigosa", diz o doutor em antropologia da religião José Jorge de Carvalho, da Universidade Brasília. "As pessoas que praticam o transe formam uma grande reserva de autocontrole. Muitas são capazes de enfrentar situações de adversidade extrema sem se estressarem." A ênfase dada à racionalidade na civilização moderna privilegia as atividades do córtex cerebral mas, de acordo com José Jorge, o córtex é eficiente para mapear e controlar o mundo externo, não para lidar com o mundo interior, o mundo das emoções. No transe, o "cérebro emocional" é exercitado.

No passado, acredita Newberg, o sentimento e as práticas místicas foram fundamentais para a própria sobrevivência e evolução da humanidade, ainda que as religiões estejam associadas aos conflitos mais sangrentos da civilização. Os rituais ajudaram a reduzir a agressividade dos membros do grupo e a estabelecer laços sociais fortes entre eles. Evitaram a dispersão e facilitaram o esforço coletivo como nenhum outro recurso. "O poder dos mitos está no fato de que seus símbolos e temas nos conectam à parte mais essencial de nós próprios de um modo que a lógica e a razão, sozinhas, não conseguem fazer", diz Newberg.

 

 

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Envie agora sua mensagem (cite o título da matéria) para o jornalista Jomar Morais:

jmorais@abril.com.br


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