Ano VIII / Nº 320
Texto
publicado na revista Super de agosto de
2002
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|
Programado
para a fé

Imagens do cérebro, obtidas durante sessões de preces e
meditação,
ajudam a neuroteologia a desvendar os mistérios que cercam os
fenômenos espirituais e explicar a sua base biológica
Por Jomar Morais
No
início, é só uma sensação de crescente tranqüilidade.
Pequenos incômodos ambientais, como o zumbido de um mosquito
ou a elevação da temperatura, deixam de ser obstáculos à
concentração. A ansiedade cede lugar à observação serena
da vida, a uma paz indefinível. Então, numa súbita e
indelével onda tem-se a impressão de que o corpo e a
própria individualidade se dissolveram. Não mais existe
limite entre o indivíduo e o resto do mundo, não mais há
tempo nem espaço. É como se o universo inteiro pulsasse no
fundo do ser sem fronteiras. Uma "iluminação"
repentina parece esclarecer todas as coisas.
Delírio?
Mergulho numa dimensão que está além da realidade concreta?
Estranha experiência essa na qual a mais básica das
percepções humanas – a própria noção da existência do
"eu" e sua separação do mundo físico – evapora-se
como a neblina numa manhã de sol. O Dalai Lama já passou por
isso (E, muito à vontade, repete a dose diariamente). No
século XII, São Francisco de Assis, o santo do mundo
natural, experimentou as mesmas sensações. Chico Xavier, o
médium brasileiro falecido no dia 30 de junho passado, conhecia o fenômeno desde criancinha. Na
verdade, não existe uma única religião no planeta sem casos
do gênero para narrar. Mas, afinal, o que é esse estado
alterado de consciência tão constante nos fundamentos de
todos os credos e no da própria civilização? A resposta
pode estar na mais recente iniciativa da ciência para
explicar os eventos místicos, antes rotulados de
sobrenaturais: a neuroteologia.
O
hábito de cientistas estudarem as experiências religiosas
não é novo, mas durante muito tempo o rigor do método
científico foi utilizado praticamente para sepultar as
tentativas de se levar a sério a ocorrência dos chamados
fenômenos espirituais. A psiquiatria e a psicologia do
início do século XX os incluíram entre as patologias da
mente. Pesquisadores da área biomédica raramente se
preocuparam com o assunto. "Apesar de sua importância na
vida das pessoas, a religião sempre foi tratada com
indiferença ou apatia pela maioria dos psicólogos e
neurocientistas", diz David Wulff, psicólogo e professor
do Wheaton College em Massachussets, Estados Unidos. Com a
neuroteologia, está em curso uma mudança de atitude radical.
A partir de imagens obtidas na intimidade do organismo por
equipamentos de última geração – como é o caso dos
tomógrafos guiados por feixes de pósitrons, as
antipartículas de elétrons -, um grupo de pesquisadores
procura agora entender o complexo relacionamento entre
espiritualidade e cérebro, lançando as bases do que vem
sendo considerado uma biologia da fé.
Não
se trata de conversão dos homens de ciência às crenças
milenares. Eles continuam exigentes como antes e buscam provas
factuais, passíveis de confirmação em experimentos
realizados por laboratórios independentes. A diferença
consiste nas novas técnicas de investigação e na
importância crescente atribuída a esse tipo de pesquisa, num
esforço para decifrar alguns dos maiores enigmas da
humanidade. Para isso, certos cientistas não têm hesitado
sequer em se transformar em cobaias de seus próprios estudos.
Eles se submetem ao fenômeno da consciência alterada durante
transes naturais ou provocados, a fim de avaliarem nas
entranhas a sensação de estar fora do espaço e do tempo
relatada pelos religiosos. E ao retornarem à normalidade,
quase sempre trazem consigo alguma descoberta.
Nessas
ocasiões, um místico sempre dirá, de imediato, que se
encontra na presença de Deus ou de uma entidade espiritual.
Um cientista pode ter uma resposta diversa, como ocorreu ao
neurologista americano James Austin, que há 20 anos
experimentou a percepção de unicidade com o universo – tal
como descrita no início desta reportagem -, enquanto esperava
o metrô numa estação de Londres.
Austin
apreciava o rio Tâmisa fluir quando tudo aconteceu, de
repente: sumiram o senso de individualidade e separação do
mundo físico e ele sentiu-se fundido aos edifícios, ao rio e
às nuvens, em meio a uma sensação de eternidade. Foram
segundos infindáveis de deslumbramento. "Todos os meus
receios, inclusive o medo da morte, desapareceram. Eu havia
alcançado a compreensão da natureza última das coisas",
revelou Austin, há três anos, no livro Zen and the brain
(O Zen e o Cérebro), publicado pelo Instituto de Tecnologia
de Massachussetts, o MIT, e ainda não traduzido para o
português. Para o neurologista, no entanto, o extraordinário
fenômeno só o conduziu a uma conclusão: "Eis aí uma
prova da existência do cérebro".
O
estudo de Austin tem o mérito de ser um dos pioneiros na nova
vertente de pesquisas dos eventos místicos, mas está longe
de encerrar o assunto. De lá para cá, vários outros
experimentos foram anunciados por cientistas de universidades
renomadas, como Harvard e Columbia, a maioria baseada no
mapeamento do território cerebral durante os estados de
meditação profunda e oração. Uma das incursões mais bem
sucedidas foi realizada por dois pesquisadores da Universidade
da Pensilvânia, também nos Estados Unidos: o radiologista
Andrew Newberg, e o psiquiatra Eugene d´Aquili, falecido há
dois anos, cujos dados e conclusões estão reunidos no livro Why
God won´t go away (Por que Deus não vai embora), ainda
sem tradução no Brasil. Graças às imagens de tomografia,
eles conseguiram identificar o que seria o circuito espiritual
do cérebro e esclarecer como os rituais religiosos e
similares costumam ativar esse conjunto de componentes. É um
passo muito além das técnicas que vinham sendo utilizadas
desde os anos 60, quando as pesquisas dos fenômenos místicos
se intensificaram. Antes, podia-se medir a alteração das
ondas cerebrais – de beta para alfa – durante as
experiências contemplativas, mas não se sabia porque a
mudança ocorria nem que áreas do cérebro eram responsáveis
por isso.
Newberg
e Aquili avaliaram o desempenho cerebral de oito praticantes
budistas, durante sessões de meditação, e o de um grupo de
freiras franciscanas, enquanto estas rezavam fervorosamente
durante 45 minutos. A maior novidade surgiu por conta das
imagens do lobo parietal superior, a área do cérebro
localizada na parte traseira do crânio. Constatou-se que, no
transcorrer das meditações, a região reduzia gradualmente
sua atividade até mostrar-se totalmente bloqueada no momento
de pico, aquele em que o meditador experimenta a sensação de
unicidade, cerca de uma hora após o início da concentração.
Surpresa! Afinal, é exatamente essa a área do cérebro que,
em estado normal, proporciona ao indivíduo o senso de
orientação no espaço e no tempo, bem como a diferenciação
entre o próprio corpo e a individualidade e os demais seres e
coisas. É como se, privados de impulsos elétricos, os
neurônios do lobo parietal – os quais, imaginava-se, nunca
dormiam - desligassem os mecanismos das funções visuais e
motoras do organismo. Quando a experiência foi repetida com
as franciscanas – cujas rezas enfatizam mais palavras que
imagens -, registrou-se uma excitação da região associada
à linguagem, na base do lobo parietal, mas também elas
tiveram os impulsos da área de orientação bloqueados ao
atingirem o êxtase místico.
O
que os budistas e as freiras sentiram não é resultado de
auto-sugestão ou de um quadro patológico, asseguram os
pesquisadores. É algo real, baseado em eventos biológicos.
"O sentimento de unicidade parece paralisar os receptores
sensórios da região parietal", diz Newberg. Com isso,
não há saída para o cérebro impossibilitado de traçar ou
identificar fronteiras senão perceber o "eu" como
um ente expandido, ilimitado e unido a todas as coisas. A
sensação de unicidade, porém, é apenas uma – certamente
a mais marcante - das impressões causadas pelas experiências
místicas profundas. Os êxtases incluem ainda uma intensa
alteração emocional, com expressões de alegria e pavor
diante de algo que se afigura de enorme significação para
quem vivencia o fenômeno. E, nesse aspecto, as imagens da
intimidade cerebral fazem mais revelações.
As
tomografias dos lobos temporais, onde repousa o chamado "cérebro
emocional" ou sistema límbico, mostram uma atividade
redobrada dessas áreas durante as experiências
contemplativas, o que ajuda a explicar as marcas deixadas por
tais eventos na personalidade dos praticantes. Formado numa
etapa remota da evolução, quando surgiram os répteis, o
sistema límbico está relacionado às emoções e reações
instintivas. Nos humanos, os sentimentos primitivos
processados por seus três componentes – o hipotálamo, a
amígdala e o hipocampo – são integrados com as funções
cognitivas superiores produzindo assim uma ampla, complexa e
variada experiência emocional. Cabe ao sistema límbico
monitorar nossas experiências, atribuindo a cada uma delas um
valor sentimental, o traço emotivo que permanece na memória
e, não raro, pode ser a causa de fortes mudanças de atitude.
Você
certamente já ouviu falar de alguém que alterou radicalmente
os hábitos e o modo de ver a vida depois de escapar ileso de
um acidente ou após ser alvo de uma demonstração extrema de
amor num momento de dificuldade. Em escalas diferentes, eu e
você certamente já fomos protagonistas de cenas do gênero,
nas quais o sistema límbico assume o papel de diretor da
peça. No terreno da religião isso é ainda mais freqüente e
decisivo. O judeu Saulo, por exemplo, comandava uma blitz
policial para prender líderes cristãos, no século I, quando
experimentou um transe durante o qual viu o próprio Cristo a
propor-lhe uma nova vida. Depois disso, convertido, tornou-se
o apóstolo Paulo, o grande responsável pela propagação
global do cristianismo.
A
participação do sistema límbico nos fenômenos espirituais
é tão evidenciada que alguns estudiosos o rotulam como o
"transmissor de Deus". Sabe-se agora que uma intensa
atividade elétrica nos lobos temporais acompanha o êxtase
místico, detalhe que leva certos pesquisadores a considerar
uma conexão entre o fenômeno religioso e o ataque de
epilético, quando idêntica atividade dos lobos é registrada.
Não existe nada conclusivo sobre tal hipótese, mas uma
engenhoca concebida para testá-la - um capacete que emite
descargas elétricas, inventado por Michael Persinger, da
Universidade Laurentian, em Sudbury, Canadá -, confirmou que
estímulos elétricos na estrutura do sistema límbico podem
provocar alucinações, a sensação de estar fora do corpo e
o senso do divino. Outras experiências de estimulação da
estrutura límbica, feitas durante cirurgias do cérebro,
também constataram a ocorrência de sentimentos religiosos em
alguns pacientes.
A
influência decisiva do "cérebro emocional" nos
eventos místicos, diz Newberg, pode esclarecer ainda por que
os rituais são uma prática tão importante nas religiões.
Os movimentos estilizados e repetitivos, os símbolos como a
cruz e as imagens sagradas e os cânticos usados nas
cerimônias religiosas as diferenciam das ações cotidianas.
Assim, segundo Newberg, ajudam o cérebro a percebê-las como
eventos mais significativo. Esses acessórios disparam o
mecanismo do sistema límbico, ora produzindo alegria e
harmonia, ora tensão e medo, facilitando a transição para
os estados alterados de consciência. O mesmo ocorre quando se
medita, pois a meditação tanto pode acalmar quanto excitar a
estrutura límbica, contribuindo para a intensidade da
experiência.
Os
fenômenos transcendentais, ao contrário do que se imagina,
não estão restritos aos círculos de iniciados. Repetem-se
corriqueiramente entre pessoas comuns, mesmo aquelas que não
têm a prática religiosa como hábito. Na década passada,
uma pesquisa do Instituto Gallup apurou que 53% dos americanos
adultos admitiam já ter vivenciado um momento de súbito
despertar espiritual ou insight, um lampejo intuitivo. Os
relatos dessas experiências aumentavam com a idade, a
educação e a renda das pessoas ouvidas. No Brasil não
existem estudos específicos sobre o tema, mas é razoável
admitir-se que uma sondagem do gênero poderia registrar
percentuais ainda maiores que os da pesquisa americana, se
considerarmos que a crença em Deus é praticamente uma
unanimidade entre os brasileiros – 99% da população,
segundo apurou o Instituto Vox Populi no semestre passado –
e o país é um celeiro mundial de religiões mediúnicas.
Quando
se esmiuça a ação do cérebro nos estados transcendentais,
como fazem agora os cientistas, pode-se então dizer que
certamente não existe um só homem com as funções cerebrais
em dia que não tenha experimentado um estado de êxtase
semelhante aos dos místicos. Lembra aquele grito de gol que
você deixou sair no meio da torcida organizada de seu time?
Pois é, aquela impressão de que o tempo parou e você ficou
maior que o estádio, enquanto berrava, é a mesma que desde o
início deste texto estamos chamando de sensação de
unicidade. E aquele arrepio que tomou conta de você ao cantar
o hino nacional na passeata de seu partido? Até quando você
dança ou escuta um discurso patriótico – enfim, quando
está diante de algum recurso que desperte o sistema límbico
- é possível entrar em transe suave e sentir pelo menos
parcialmente o que os místicos costumam vivenciar quando
buscam Deus. Newberg e Aquili estudaram essas variantes e
concluíram que isso acontece com pessoas absolutamente
saudáveis. Os portadores de psicoses, como os
esquizofrênicos, podem até entrar em transe, ter visões e
ouvir vozes mas, nesse caso, segundo os pesquisadores, o
fenômeno, relacionado a processos obsessivos, é repetitivo e
torturante e não espontâneo e criativo como ocorre nas
experiências místicas.
Os
eventos místicos acontecem numa escala que vai da
resistência a qualquer alteração da consciência aos
momentos de pico, nos quais o indivíduo perde totalmente a
noção do ego. A maioria dos praticantes encontra-se no meio
desse continuum. "Nem todos os meditadores
alcançam o estado de unicidade", ressalta Robert Formam,
especialista em religiões comparadas do Hunter College de
Nova York. "E isso sugere que algumas pessoas podem ser
geneticamente predispostas à experiência espiritual".
Segundo Forman, tais indivíduos, na maioria das vezes, se
mostram mais abertos a inovações e apresentam um grau maior
de tolerância com a ambigüidade e a incerteza. Têm também
mais dificuldade em distinguir o que é imaginação do que é
real, acrescenta David Wullf.
Ao
apresentar com mais clareza a conexão entre cérebro e
espiritualidade, a ciência dá um salto adiante também na
compreensão dos mitos, os elementos imaginários que em todas
as épocas nortearam as religiões e a organização social (veja
a matéria seguinte). A existência de um lobo parietal
desenvolvido no cérebro dos humanos foi fundamental para a
emergência da mitologia. É nessa área que está a estrutura
neurológica que proporciona a noção de causalidade e
oposição, bem como o centro da linguagem, ambos necessários
à formação da narrativa mítica. Um chimpazé, que possui
um lobo parietal rudimentar, é hábil para dominar alguns
conceitos matemáticos e manifestações de linguagem não
verbal. Mas incapaz de formular pensamentos abstratos, aqueles
que conduzem à arte, à tecnologia e aos mitos.
OK.
Então não há mais dúvida de que o funcionamento do
cérebro explica toda a fenomenologia que, ao longo de
milênios, o homem tem atribuído aos deuses e outras forças
imponderáveis, certo? Não é bem assim. Na verdade, o velho
enigma persiste e o que mudou são as novas possibilidades de
leituras trazidas pela neuroteologia.
Proponha-se
a questão a um neurofisiologista convencional, como o
professor Luis Eugênio Mello, da Universidade Federal de São
Paulo, e a resposta virá, taxativa: "As experiências
místicas têm relação direta com o efeito placebo, que pode
ser gerado por condicionamento ou por expectativa. O fato de
se acreditar que alguma coisa vai acontecer acaba gerando
conseqüências sobre as reações fisiológicas". Luis
Eugênio não aceita que o cérebro tenha sido "meticulosamente
preparado" para a experiência transcendental e acha que
se temos essa percepção ela se estabeleceu "por acaso"
usando áreas relevantes para outros processos neurais. Idéia
semelhante têm muitos ateístas e materialistas, para os
quais o denominador comum de todos aqueles fenômenos é o
cérebro e nada mais.
"Não
podemos dizer que eles estão errados", afirma Newberg.
"Nem que estão errados os que acreditam na existência
de algum tipo de interação do cérebro com algo divino".
Indiscutível, a essa altura, é que todas as nossas
experiências, sejam as da realidade concreta ou as místicas,
ocorrem em nossa estrutura cerebral. A neuroteologia, no
entanto, levanta suspeitas sobre o que poderia ser uma
dimensão da consciência além dos lobos e feixes de
neurônios, a partir da constatação de que a consciência
persiste quando o indivíduo perde a noção do "eu"
e os sentidos deixam de funcionar. O fato de as experiências
espirituais serem associadas à atividade neuronial não quer
dizer necessariamente que tais experiências são meras
ilusões neurológicas, segundo Newberg, mas certamente que a
engrenagem cerebral possui um mecanismo para a transcendência.
"A questão central é determinar se a atividade
neurológica associada à experiência espiritual significa
que o cérebro é a causa dessa experiência ou se, em vez
disso, está percebendo uma realidade além do corpo",
acrescenta o cientista.
Apesar
da interação entre o sagrado e o laboratório nos dias
atuais, ainda por muito tempo ciência e religião acenarão
com explicações exclusivas ao se debruçarem sobre o
cérebro e os fenômenos transcendentais. Até que se alcance
o consenso, só a fé, numa teoria ou num dogma, será capaz
de responder se foi a maquinaria cerebral que criou Deus ou se
Deus criou o cérebro para que o homem pudesse percebê-lo.
PARA
SABER MAIS
Na
Livraria:
Why
God won´t go away,
Andrew Newberg e Eugene D´Aquili, Ballantine Books, Nova
York, EUA, 2001
Religion
Explained, Pascal
Boyer, Basic Books, Nova York, EUA, 2001
O
Universo Autoconsciente,
Amit Goswami, Rosa dos Tempos, Rio de Janeiro, 2001
O
Tao da Física, Fritjof
Capra, Cultrix, São Paulo, 1999
Na
Internet:
www.andrewnewberg.com
http://www.innerworlds.50megs.com
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