Ano
X
Nº 339
Texto
especial para o Planeta Jota
Maio
2004
Outras
reportagens
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EXCLUSIVO Medicina
do futuro inclui o poder de cura da oração
Quais
os limites da medicina científica? Por que as terapias
alternativas ameaçam invadir o campo de trabalho da medicina
convencional? Qual é o novo conceito de tratamento
integral? Qual o papel das crenças e das orações nas curas
médicas? Que interesses conspiram contra a medicina moderna?
Por que os médicos vivem tão mal?
Estas
e outras questões da medicina do presente e do futuro são
respondidas neste depoimento inédito do neurocirurgião
fluminense Francisco Di Biase a Jomar Morais. A conversa foi
realizada durante a produção da reportagem de capa da
revista Super sobre a crise da medicina, assinada por
JM, mas só agora é divulgada na íntegra.
Di
Biase é autor do livro O
Homem Holístico- a unidade mente-natureza e
co-autor do livro Science
and the Primacy of Consciousness- Intimation of a 21st Century
Revolution, em parceria com Stanislav Grof, o pai da
Psicologia Transpessoal, Karl Pribram, criador da teoria holonômica
do funcionamento cerebral, Rupert Sheldrake, criador da teoria
dos campos morfogenéticos, e os físicos quânticos Henry
Stapp, Fred A. Wolf, Amit Goswami e Richard Amoroso.
"A
crise da Medicina atual faz parte de uma crise mais abrangente
do próprio processo civilizatório ocidental, que tem suas raízes
em um terrível erro de percepção ocorrido há cerca de 400
anos. A partir do Renascimento, em uma tentativa de substituir
a visão de mundo e os métodos utilizados pela Igreja Cristã
na busca da verdade - que na época queimava nas fogueiras da
Inquisição homens e principalmente mulheres que ousavam
desafiar a
concepção de mundo vigente, o paradigma aristotélico-tomista
- , as cabeças pensantes da época começaram a investigar o
mundo e as estrelas com uma metodologia que viria a ser
conhecida como método científico. Esta nova maneira de olhar
o universo resultou de contribuições de homens como Copérnico,
Galileu, Kepler Descartes e Sir Isaac Newton que investigaram
e sistematizaram o conhecimento desses séculos. Sua abordagem
reflete o que hoje conhecemos como paradigma
cartesiano-newtoniano, que é um modelo dualista (porque
separa corpo/mente, e homem/universo), reducionista ( porque
reduz o funcionamento do universo e do homem às interações
atômico-moleculares), e mecanicista (porque concebe o
universo como um imenso e complexo mecanismo de relógio
regido pelas leis da física clássica newtoniana).
A
ciência tal como é praticada hoje , dessa forma dualista,
reducionista e mecanicista não tem como lidar com experiências
vivenciais , nem com valores, ética , ou tudo que se refira
à qualidade. Galileu chegou mesmo a afirmar que somente os fenômenos quantificáveis deveriam ser admitidos no domínio
da ciência. Ele disse "aquilo que não pode ser medido e
quantificado não é científico" ,e em nossa ciência pós-galilaica
isso passou a significar "o que não pode ser
quantificado não é real". Como afirmou Laing, 'este foi
o mais profundo corrompimento da concepção grega da natureza
como physis, que é algo vivo, sempre em transformação e não
divorciado de nós'. Esse corrompimento do programa de Galileu
foi incorporado pelo paradigma cartesiano-newtoniano de nossa
época, relegando para fora do método científico a
sensibilidade, a estética, os valores, a qualidade, a alma, a
consciência, o espírito, ou seja a experiência humana.
Acrescido do famoso erro de Descartes que separou o corpo da
mente e isolou o homem do universo, e somado ao sucesso da física
mecanicista newtoniana, isso gerou uma grave esquizofrenia
cultural, confundindo a imagem do universo criada pela ciência
com a realidade em si, quando na verdade ela é somente um
conjunto de observações que nos permitem mostrar um quadro
aproximado da realidade.
O
LIMITE DA CIÊNCIA X O UNIVERSO ILIMITADO
A
ciência é somente uma pequenina janela através da qual
olhamos a vastidão do universo sempre de uma perspectiva
limitada e incompleta . Vida e consciência são os modos que
o universo desenvolveu para olhar a si mesmo.Somos o próprio
universo que se olha através de nossos olhos. A ciência é
apenas um dos olhos possíveis nesta imensa busca de
significado. Intuição, meditação, estados alterados de
consciência, emoções, sentimentos, são outras maneiras de
olhar o universo, tão ou mais importantes até do que a ciência.
Atualmente com as contribuições da Física Quântica de
David Bohm, da Teoria Holográfica de Denis Gabor e suas
aplicações às Neurociências desenvolvidas por Karl Pribram,
da Psicologia
Transpessoal de Stanislav Grof, da Teoria Auto-Organizadora
dos Estados Dissipativos de Illya Prigogine, e da Teoria dos
Campos Mórficos do biólogo Rupert Sheldrake, estamos
retornado a uma visão científica mais abrangente, orgânica
e holística do universo, demonstrando com as próprias
ferramentas da ciência cartesiana-newtoniana que somos parte
de algo muito mais vasto do que nossas mentes individuais. Os
dados científicos atuais permitem afirmar que somos parte de
uma Consciência Holográfica Universal que permeia todo o
universo e se confunde com sua própria estrutura, a qual
podemos acessar por meio dos estados alterados de consciência,
como o faz Grof em sua psicoterapia transpessoal holotrópica.
Estas abordagens científicas vieram ao encontro aos
pensamentos e conhecimentos descritos pelas mais antigas
filosofias e tradições espirituais da humanidade,
continuando a senda aberta por Capra e outros, em livros como
O Tao da Física. É uma cosmovisão que permite englobarmos o
homem e o universo em uma concepção holística e ecológica
mais abrangente que une a ciência moderna às tradições espirituais, às filosofias,à mitologia e às artes, e que
desde a famosa Declaração de Veneza da UNESCO, de 1986, vem
sendo conhecida como Paradigma Holístico.
No
entanto, nada disso existe nos currículos acadêmicos das
universidades que estão cristalizadas no antigo modêlo
cartesiano-newtoniano. Essa reviravolta paradigmática vem
abalando os alicerces da moderna medicina que apesar de muitas
vezes utilizar uma tecnologia baseada em ciências de ponta
como a física quântica e a holografia, ainda se encontra
imersa nas concepções biopsicosociais do antigo paradigma
cartesiano-newtoniano. Na verdade, o que observamos é um jogo
de poder, em que tem mais autoridade quem pertencer a alguma
instituição acadêmica ou sociedade oficial, ou seja é a
valorização do membership, em detrimento daquilo que é a
essência do método científico que é o estar aberto para
toda e qualquer hipótese e investigá-la por meio da ciência.
O
PAPEL DA MENTE X VISÃO PRECONCEITUOSA
O
que hoje observamos é a negação, baseada em preconceitos,
de qualquer idéia ou prática que provenha do conhecimento
transmitido pelas antigas civilizações, como por exemplo, a
medicina ayurvédica da Índia, ou a medicina chinesa que
desenvolveram sistemas médico-psicológicos, em muitos
aspectos, hoje o sabemos, mais profundos e corretos do que
nossos modelos cartesianos ocidentais. Por exemplo, comparada
à moderna Psicologia Transpessoal, que utiliza estados
expandidos de consciência desvelando toda a cartografia e os
estratos mais profundos da mente humana, a Psicanálise
freudiana com seu restrito modelo autobiográfico de
inconsciente baseado no paradigma cartesiano-newtoniano, nem
arranha as profundezas do inconsciente humano.
Até
há pouco tempo não só a acupuntura, cuja eficácia está
exaustivamente comprovada no ocidente e no oriente, mas até
mesmo a homeopatia que tem origem ocidental, eram consideradas
charlatanismo. A meditação que vem sendo estudada
exaustivamente desde a década de 70, quando o Dr. Herbert
Benson, em Harvard, demonstrou sua eficácia, monitorando o
eletroencefalograma, o eletrocardiograma, a bioquímica do
sangue e a resistência elétrica da pele, de meditantes, já
originou milhares de trabalhos publicados nas mais renomadas
revistas científicas ocidentais ( os interessados podem
consultar a bibliografia de meu livro Caminhos da Cura). A
eficácia da meditação é tão levada a sério nos Estados
Unidos, que
a Sociedade de Cardiologia Americana recomenda o ensino da
resposta de relaxamento (nome científico da meditação) no
tratamento da hipertensão arterial. Pois, pasmem, no Brasil o
Conselho Federal de Psicologia proibiu o uso da meditação
como forma de terapia pelos psicólogos!
Como
afirma o Dr Carl Simonton, oncologista e radioterapeuta
americano que trabalha com pacientes portadores de câncer, e
utiliza além das técnicas acadêmicas, psicotecnologias como
a meditação e a visualização voltadas para a cura:
"Continuar a ignorar o papel da mente e das emoções na
recuperação - apesar das provas médicas que já existem -
é uma forma de charlatanismo, pois estaremos ignorando técnicas
que já deram as suas provas. A questão atual não é a de
saber se a mente influencia (juntamente com as emoções) o
resultado final do tratamento; agora o importante é saber
como direcioná-las para que influenciem o resultado do
tratamento, de uma maneira mais eficiente".
PRÁTICA MÉDICA X INTERESSES ECONÔMICOS
Um
outro ponto importante a ser abordado é o da influência
exercida pelas empresas multinacionais farmacêuticas no
direcionamento das pesquisas médicas e no desenvolvimento e
mercantilização de medicamentos. Todo tipo de conhecimento
ou pesquisa que não seja do interesse destas empresas, até há
muito pouco tempo era tratado como irrelevante e colocado de
lado, não sendo divulgado nas escolas de medicina e nas
instituições médicas. Isto só começou a mudar, há muito
pouco tempo, desde há cinco ou seis anos, quando foi criado
no Instituto de Saúde dos Estados Unidos( National Institutes
of Health), o Office of Alternative Medicine, para financiar
pesquisas nas áreas alternativas. Este escritório foi
recentemente transformado em Centro autônomo com verbas próprias
distribuídas para dezenas de hospitais e instituições científicas,
com o objetivo de demonstrar por meio do método científico
quais os
metodos alternativos realmente eficazes. Hoje já se sabe por
exemplo que oração, meditação, visualização, acupuntura,
medicina ayurvédica, medicina homeopática, yoga, tai chi
chuan, e muitos outros métodos são altamente eficazes em inúmeras
doenças, nas quais a medicina alopática ocidental só
consegue tratar os sintomas.
A
MEDICINA DO FUTURO: ALOPATIA E TERAPIAS ALTERNATIVAS
É
importante colocar aqui que a medicina acadêmica e a medicina
alternativa não devem ser vistas como antagônicas, mas como
complementares. Se você estiver doente necessitando de tratar
por exemplo uma apendicite aguda , ou uma pneumonia grave ou
uma meningite, que necessitam de uma terapia rápida e eficaz
por meio de antibióticos, ou se você sofreu um
traumatismo grave que necessite de investigação por meio de
imagens, e de cirurgia, recorra a um médico alopata, pois
nestas áreas nossa medicina tecnológica moderna apesar de
cara, é insubstituível e a que melhor resolve a situação.
Eu não conseguiria mais trabalhar como neurocirurgião se não
tivesse o meu serviço de tomografia computadorizada ao
alcance da mão, permitindo um diagnóstico rápido e preciso
de patologias como por exemplo um traumatismo cranio-encefálico.
Neste momento que escrevo estas palavras aqui em minha clínica,
acabo de receber um telefonema da Santa Casa, informando que
foi admitida no hospital uma criança atropelada em estado de
coma. Antes de sair correndo para atendê-la, já pedi ao
plantonista da emergência que solicitasse uma tomografia
computadorizada de crânio de urgência que me permitirá
saber se o paciente é cirúrgico ou não, e me auxiliará na
conduta, e na indicação da necessidade de tratamento
intensivo( CTI ).
Se você sofrer uma obstrução coronariana aguda, e
necessitar de um diagnóstico e tratamento, rápido e preciso,
isso só poderá ser feito com a moderna tecnologia de imagem
por meio de uma cinecoronariografia ( cateterismo ). E se
necessário, durante o exame poderá ser realizada uma
angioplastia (colocação de stent- uma pequenina mola que
abre a luz do vaso- para desobstrução da artéria
comprometida, o que permite uma pronta recuperação. É uma
tecnologia cara mas altamente eficaz, e para quem está sendo
salvo o importante é a cura.
Por outro lado, se você, por exemplo, tem um filho que sofre
de bronquite asmática há anos e não consegue um tratamento
eficaz, procure um homeopata ou um acupunturista que poderão
curá-lo, enquanto o alopata só continuará tratando os
sintomas.
Este é um dos pontos críticos da crise da medicina acadêmica
atual, pois devido ao acesso fácil aos meios de informação
que divulgam a todo momento tratamentos alternativos, muitos
pacientes, preferem deixar de lado a medicina alopática e
tentar formas mais “suaves “de terapia, acreditando que a
medicina acadêmica e a alternativa são antagônicas. Na
verdade elas se complementam, e até mesmo muitos médicos
sejam eles alopatas ou homeopatas ou alternativos têm essa
visão incorreta de antagonismo. Não devemos esquecer, que
nossa medicina tecnológica, apesar do preço elevado, é
extremamente rápida e eficaz quando indicada corretamente.
TRATAMENTO
INTEGRAL: TECNOLOGIA, REMÉDIOS, ORAÇÃO...
A verdadeira medicina holística do futuro nascerá da
interfecundação da nossa medicina cientifica acadêmica com
a medicina alternativa a qual, devido a iniciativas como a do
Instituto de Saude Americano que está investigando sua eficácia
, com o passar do tempo, se tornará tambem acadêmica. Isto
permitirá que no futuro os médicos tenham à sua disposição
um arsenal de possibilidades terapêuticas muito mais amplo
para tratar seus pacientes.
Em minha Clínica já trabalho com profissionais de diversas
áreas alternativas comprovadamente eficazes há mais de 10
anos, utilizando a meditação, a visualização, a oração,
a acupuntura, e o tai chi chuan o qual eu mesmo pratico há
mais de 11 anos. A meditação e a oração, são em minha
experiência altamente eficazes em pacientes portadores de
doenças psicossomáticas, hipertensão arterial, na normalização
do peso, em pacientes precocemente envelhecidos pelo estresse,
em pacientes que necessitem melhorar a eficiência
cardiovascular, na melhoria do desempenho atlético, na
melhora do desempenho acadêmico, no tratamento da depressão,
da ansiedade e da síndrome do pânico, como coadjuvantes no
tratamento da epilepsia, no pré e pós-operatório de meus
pacientes neurocirúrgicos e como coadjuvantes no tratamento
dos pacientes internados com doenças neurológicas como
derrames, isquemias, tromboses, polineuropatias, etc.
A
CRISE EXISTENCIAL DOS MÉDICOS
Quanto
ao elevado índice de alcoolismo e mortalidade precoce entre
os médicos, esta situação é exatamente o reflexo de uma
experiência vivencial altamente contraditória e limitada,
baseada em concepções e condutas fragmentadoras ,
mecanicistas e cartesianas ( dualistas ) que afastam o médico
da compaixão, da verdadeira cura e da espiritualidade, o
impedindo de vivenciar a vida de forma plena e a morte como
parte natural da vida.
A morte na Medicina ocidental foi sempre encarada como algo
ruim , e a maioria dos médicos inconscientemente se afasta de
seus pacientes terminais não participando desta importantíssima
fase de transição da vida deles , como afirma a Dra
Elizabeth Kubler-Ross. Em suas áridas e frias concepções
acadêmicas cartesianas, a morte é o final de tudo, a derrota
de uma luta que com o tempo, para muitos vai perdendo o
sentido, sendo substituída pela busca dos prazeres materiais
da vida. No entanto, esta situação é também extremamente
inquietante, pois não têm nada para colocar em seus corações
como referência para compreender o seu lugar no universo, e aí
o alcoolismo surge muitas vezes como uma solução para
aliviar o desespero e o niilismo sem sentido, no qual foi
mergulhado pela sua formação e nunca teve coragem de
contestar. O envelhecimento precoce e a morte prematura acabam
sendo a conseqüência de uma vida altamente estressante na
qual nunca ninguém lhe ensinou o caminho da paz interior, da
meditação, da oração e de uma ética de celebração da
felicidade, da vida e do cosmos."
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