Nem
mesmo a freada na economia brasileira, no ano passado,
impediu o Nordeste de prosseguir caminhando mais rápido que
o resto do país. Enquanto o PIB nacional avançou minguado
1%, o produto interno nordestino cresceu 3% em relação a
1998, preservando assim uma rotina iniciada há quase três
décadas. O Nordeste possui o terceiro parque industrial do
Brasil e só perde para o Sudeste e o Sul em consumo, frota
de veículos e número de estradas asfaltadas – três
indicadores de robustez econômica. Mesmo assim, continua a
ser um ambiente de contrastes. Entre as cinco regiões
brasileiras, é o Nordeste quem exibe as piores taxas de
alfabetização, tempo médio de estudo, indigência e
expectativa de vida.
Nesse sentido, o susto
da desaceleração do PIB – que já beirou os 10% de
crescimento em anos anteriores – teve seu lado positivo. A
fim de ajustar a economia regional às novas condições do
mercado, governos e empreendedores estão mexendo em
estratégias de desenvolvimento que há algum tempo vinham
dando sinais de esgotamento, quando não contribuindo para
eternizar o paradoxo do crescimento econômico com miséria
social.
A palavra de ordem
agora é clusters, que em inglês significa
aglomerados. Ou cadeias produtivas no jargão economês.
Bahia, Pernambuco e Ceará já estão trocando a política
de atrair tudo a qualquer custo pela concentração em
empreendimentos que possam consolidar pólos produtivos
especializados em diferentes áreas do mapa nordestino.
Espera-se, com isso, reduzir o desequilíbrio entre as
capitais – onde são gerados cerca de 70% do PIB regional
– e o interior, ainda um bolsão de pobreza dependente da
agropecuária ineficiente. "O objetivo é diminuir os
fluxos migratórios e potencializar a diversificação da
economia interiorana", diz Fernando Félix, presidente
do Instituto de Planejamento de Pernambuco.
É por essa trilha que
boa parte dos 12,8 bilhões de dólares em investimentos
anunciados por empresas, no semestre passado, começa a
produzir resultados. E é por aí igualmente que os
investimentos governamentais em infra-estrutura estão sendo
alinhados, pelo menos nos estados economicamente mais
fortes.
O governo baiano, por
exemplo, decidiu dar prioridade absoluta à educação,
concentrando nessa área 21% de seus investimentos até
2003. Explica-se: a Bahia é de longe a locomotiva do
Nordeste, representando sozinha um terço do PIB e metade do
parque industrial regionais, mas há algum tempo vem
esbarrando no gargalo da qualificação da mão-de-obra, que
segue a passo mais lento que a atração de investimentos.
Somente a fábrica da
Ford, que iniciará atividades em 2001, em meio a outras 32
indústrias-satélites, deve significar para a economia
baiana o mesmo que o Pólo Petroquímico de Camaçari há 20
anos. Por causa da montadora, um investimento de 5 bilhões
de dólares, o PIB da Bahia, o sexto entre os estados
brasileiros, pode simplesmente dobrar. No interior, os
pólos de informática de Ilhéus e o de papel e celulose,
no sul do estado, geram riquezas e multiplicam empregos que,
muitas vezes, acabam ocupados por mão-de-obra importada de
outras regiões por falta de nativos habilitados a lidar com
novas tecnologias. Para se ter uma idéia da importância
desses clusters sertanejos, vale lembrar que, ao lado
de centenas de empresas médias, estão sendo instaladas
algumas megaindústrias, como a fábrica da Veracel Celulose,
em Eunápolis. O projeto, de 1,6 bilhão de dólares, deve
mudar a vida de seis municípios do sul baiano e engordar a
pauta de exportações do estado em meio bilhão de dólares
anuais.
O Ceará, que na
década passada atraiu cerca de 500 indústrias, também já
vem trabalhando com a idéia de clusters, mas o
governo decidiu aprofundar a experiência. Recentemente o
sistema de incentivos fiscais do estado foi redefinido para
privilegiar as indústrias de insumos básicos, como as de
siderurgia e refinaria, e as montadoras de veículos – os
dois primeiros itens entre meia dúzia de cadeias produtivas
preferenciais. Na revisão de vocações econômicas,
também ganharam mais peso a fruticultura irrigada e a
indústria de base tecnológica, enquanto segmentos como
componentes de calçados perderam velhos privilégios.
"Esses setores podem agora se beneficiar de incentivos
reais proporcionados pela existência de um grande número
de compradores de seus produtos no estado", diz
Denísio Pinheiro, assessor do governador Tasso Jereissati.
As novas regras, por
enquanto, ainda não se refletem no fluxo recente de
investimentos da iniciativa privada no Ceará. Entre os
novos projetos anunciados no último semestre, no valor de
1,76 bilhão de dólares, há apenas um que se enquadra na
lista das cadeias produtivas, mas tem pouco a ver com a
política de desenvolvimento cearense: parceira da
Petrobrás, a Enterprise Oil prometeu gastar 500 milhões de
dólares em exploração de petróleo nas bacias de Campos,
no estado do Rio, e no litoral cearense.
A situação se repete
em Pernambuco, onde a maioria dos investimentos anunciados,
em torno de 2,2 bilhões de dólares, destina-se à área
metropolitana de Recife e tem como vedete os 439 milhões
que o grupo espanhol Iberdrola pretende aplicar na melhoria
dos serviços da companhia energética Celpe, privatizada no
ano passado. Na verdade, Pernambuco luta contra o tempo. Há
anos, sua economia vinha dando sinais de desaceleração e,
em 1999, a esperança de recuperação reacendeu com o
índice de 2,5% de crescimento, motivadoprincipalmente pelo
avanço do setor de serviços. A indústria de
transformação pernambucana obteve o segundo pior
desempenho da região, crescendo apenas 0,24% contra 4% da
rival cearense. O estado elegeu a fruticultura irrigada, que
movimenta cerca de 200 milhões de dólares anuais na
região de Petrolina, no vale do rio São Francisco, e a
produção de gesso, que envolve 300 empresas no sertão do
Araripe, como os principais clusters do interior. Na
área metropolitana de Recife, a aposta é em serviços de
logística, turismo e indústria de base tecnológica.
Estados nordestinos de
menor expressão econômica também prosseguem crescendo em
rítmo mais rápido que o do país, graças à ampliação
indústrias já instaladas e à expansão de pólos
produtivos formadas espontaneamente nos últimos anos. No
Maranhão, a ampliação da refinaria da Alumar, a
construção de uma usina de pelotização da Vale do Rio
Doce e o projeto de uma fábrica de componentes automotivos
da Usimar respondem por 70% das intenções de investimentos
anunciadas. No Rio Grande do Norte, as novas unidades da
Coteminas e do grupo Vicunha, além de projetos turísticos
como o Complexo de Lazer de Pitangui, do grupo Paulo de
Paula, confirmam a indústria têxtil e o turismo como base
econômica estadual.
A economia nordestina, enfim, tem sido
também beneficiada por dois fatores atípicos: as chuvas
abundantes, que fizeram disparar a produção agrícola, e o
reforço de caixa dos governos, com a privatização de
companhias estatais. Parte desses recursos está sendo
empregado em aberturas de estradas e obras hídricas que
ajudam na industrialização do interior e na criação de
centros de capacitação tecnológica.