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Ano VI // Nº 298

Texto publicado na edição da Brasil em Exame 2000 (Exame - 15/11/00)

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Indústrias são bem-vindas

A economia nordestina se diversifica e cresce mais 
rápido que o restante do país


Por JOMAR MORAIS

Nem mesmo a freada na economia brasileira, no ano passado, impediu o Nordeste de prosseguir caminhando mais rápido que o resto do país. Enquanto o PIB nacional avançou minguado 1%, o produto interno nordestino cresceu 3% em relação a 1998, preservando assim uma rotina iniciada há quase três décadas. O Nordeste possui o terceiro parque industrial do Brasil e só perde para o Sudeste e o Sul em consumo, frota de veículos e número de estradas asfaltadas – três indicadores de robustez econômica. Mesmo assim, continua a ser um ambiente de contrastes. Entre as cinco regiões brasileiras, é o Nordeste quem exibe as piores taxas de alfabetização, tempo médio de estudo, indigência e expectativa de vida.

Nesse sentido, o susto da desaceleração do PIB – que já beirou os 10% de crescimento em anos anteriores – teve seu lado positivo. A fim de ajustar a economia regional às novas condições do mercado, governos e empreendedores estão mexendo em estratégias de desenvolvimento que há algum tempo vinham dando sinais de esgotamento, quando não contribuindo para eternizar o paradoxo do crescimento econômico com miséria social.

A palavra de ordem agora é clusters, que em inglês significa aglomerados. Ou cadeias produtivas no jargão economês. Bahia, Pernambuco e Ceará já estão trocando a política de atrair tudo a qualquer custo pela concentração em empreendimentos que possam consolidar pólos produtivos especializados em diferentes áreas do mapa nordestino. Espera-se, com isso, reduzir o desequilíbrio entre as capitais – onde são gerados cerca de 70% do PIB regional – e o interior, ainda um bolsão de pobreza dependente da agropecuária ineficiente. "O objetivo é diminuir os fluxos migratórios e potencializar a diversificação da economia interiorana", diz Fernando Félix, presidente do Instituto de Planejamento de Pernambuco.

É por essa trilha que boa parte dos 12,8 bilhões de dólares em investimentos anunciados por empresas, no semestre passado, começa a produzir resultados. E é por aí igualmente que os investimentos governamentais em infra-estrutura estão sendo alinhados, pelo menos nos estados economicamente mais fortes.

O governo baiano, por exemplo, decidiu dar prioridade absoluta à educação, concentrando nessa área 21% de seus investimentos até 2003. Explica-se: a Bahia é de longe a locomotiva do Nordeste, representando sozinha um terço do PIB e metade do parque industrial regionais, mas há algum tempo vem esbarrando no gargalo da qualificação da mão-de-obra, que segue a passo mais lento que a atração de investimentos.

Somente a fábrica da Ford, que iniciará atividades em 2001, em meio a outras 32 indústrias-satélites, deve significar para a economia baiana o mesmo que o Pólo Petroquímico de Camaçari há 20 anos. Por causa da montadora, um investimento de 5 bilhões de dólares, o PIB da Bahia, o sexto entre os estados brasileiros, pode simplesmente dobrar. No interior, os pólos de informática de Ilhéus e o de papel e celulose, no sul do estado, geram riquezas e multiplicam empregos que, muitas vezes, acabam ocupados por mão-de-obra importada de outras regiões por falta de nativos habilitados a lidar com novas tecnologias. Para se ter uma idéia da importância desses clusters sertanejos, vale lembrar que, ao lado de centenas de empresas médias, estão sendo instaladas algumas megaindústrias, como a fábrica da Veracel Celulose, em Eunápolis. O projeto, de 1,6 bilhão de dólares, deve mudar a vida de seis municípios do sul baiano e engordar a pauta de exportações do estado em meio bilhão de dólares anuais.

O Ceará, que na década passada atraiu cerca de 500 indústrias, também já vem trabalhando com a idéia de clusters, mas o governo decidiu aprofundar a experiência. Recentemente o sistema de incentivos fiscais do estado foi redefinido para privilegiar as indústrias de insumos básicos, como as de siderurgia e refinaria, e as montadoras de veículos – os dois primeiros itens entre meia dúzia de cadeias produtivas preferenciais. Na revisão de vocações econômicas, também ganharam mais peso a fruticultura irrigada e a indústria de base tecnológica, enquanto segmentos como componentes de calçados perderam velhos privilégios. "Esses setores podem agora se beneficiar de incentivos reais proporcionados pela existência de um grande número de compradores de seus produtos no estado", diz Denísio Pinheiro, assessor do governador Tasso Jereissati.

As novas regras, por enquanto, ainda não se refletem no fluxo recente de investimentos da iniciativa privada no Ceará. Entre os novos projetos anunciados no último semestre, no valor de 1,76 bilhão de dólares, há apenas um que se enquadra na lista das cadeias produtivas, mas tem pouco a ver com a política de desenvolvimento cearense: parceira da Petrobrás, a Enterprise Oil prometeu gastar 500 milhões de dólares em exploração de petróleo nas bacias de Campos, no estado do Rio, e no litoral cearense.

A situação se repete em Pernambuco, onde a maioria dos investimentos anunciados, em torno de 2,2 bilhões de dólares, destina-se à área metropolitana de Recife e tem como vedete os 439 milhões que o grupo espanhol Iberdrola pretende aplicar na melhoria dos serviços da companhia energética Celpe, privatizada no ano passado. Na verdade, Pernambuco luta contra o tempo. Há anos, sua economia vinha dando sinais de desaceleração e, em 1999, a esperança de recuperação reacendeu com o índice de 2,5% de crescimento, motivadoprincipalmente pelo avanço do setor de serviços. A indústria de transformação pernambucana obteve o segundo pior desempenho da região, crescendo apenas 0,24% contra 4% da rival cearense. O estado elegeu a fruticultura irrigada, que movimenta cerca de 200 milhões de dólares anuais na região de Petrolina, no vale do rio São Francisco, e a produção de gesso, que envolve 300 empresas no sertão do Araripe, como os principais clusters do interior. Na área metropolitana de Recife, a aposta é em serviços de logística, turismo e indústria de base tecnológica.

Estados nordestinos de menor expressão econômica também prosseguem crescendo em rítmo mais rápido que o do país, graças à ampliação indústrias já instaladas e à expansão de pólos produtivos formadas espontaneamente nos últimos anos. No Maranhão, a ampliação da refinaria da Alumar, a construção de uma usina de pelotização da Vale do Rio Doce e o projeto de uma fábrica de componentes automotivos da Usimar respondem por 70% das intenções de investimentos anunciadas. No Rio Grande do Norte, as novas unidades da Coteminas e do grupo Vicunha, além de projetos turísticos como o Complexo de Lazer de Pitangui, do grupo Paulo de Paula, confirmam a indústria têxtil e o turismo como base econômica estadual.

A economia nordestina, enfim, tem sido também beneficiada por dois fatores atípicos: as chuvas abundantes, que fizeram disparar a produção agrícola, e o reforço de caixa dos governos, com a privatização de companhias estatais. Parte desses recursos está sendo empregado em aberturas de estradas e obras hídricas que ajudam na industrialização do interior e na criação de centros de capacitação tecnológica.


Envie agora sua mensagem para o jornalista Jomar Morais:

jmorais@abril.com.br


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