Imagine-se
em um ambiente inusitado onde móveis são revestidos de
cipós do campo e, na janela, a luz é filtrada por uma
cortina feita de fibra de coco. Ali, paredes de taipa
substituem divisórias tradicionais, enfeitadas com bandôs
de sisal e máscaras de pap
el machê. A colcha de retalhos e
rendas de bilro cobre a cama emoldurada num painel de juta.
Bonecos de cangaceiros, personagens do maracatu, mascates e
rendeiras enchem de cor e vida os quatro cantos do aposento...
Tudo lembra a tradição e o imaginário do sertão do
nordeste, mas o cenário de tintas fortes e traços
rústicos não está encravado na caatinga. Há três meses,
esse é o visual desfrutado por quem se hospeda no Hotel
Barreira Roxa, em Natal, uma escola de hotelaria
administrada pelo Sebrae nacional, que decidiu apostar no
regionalismo como forma de criar sua própria identidade. Os
56 apartamentos do hotel foram batizados com os nomes dos
nove estados nordestinos e ganharam decorações inspiradas
no estilo de vida e na produção artesanal de cada um. Até
o layout das portas foi modificado para marcar os
apartamentos com diferentes temas do folclore regional.
Hotéis com
decoração temática não chegam a ser uma novidade no
país. Os resorts da rede francesa Accord em Costa do
Sauípe, na Bahia, por exemplo, seguem esse padrão desde o
ano passado. O projeto do Barreira Roxa, no entanto, tem
suas peculiaridades e demonstra claramente a intenção de
aplicar no setor turístico o slogan cunhado pelo filósofo
e economista inglês Fritz Schumacher na década de 70:
pensar globalmente e agir localmente. "A idéia era
encontrar um diferencial que vinculasse a escola de
hotelaria à cultura do Nordeste e ao esforço do Sebrae
para promover o pequeno e o microempreendedor", diz
Dival Schmidt Filho, gerente-geral do Barreira Roxa. A nova
ambientação do hotel foi definida a partir de um concurso
que mobilizou arquitetos, designers e artesãos de todos os
estados nordestinos, e as peças de decoração não
entraram nos apartamentos como simples ornamentos. Elas
podem ser compradas pelos hóspedes, detalhe que faz do
Barreira Roxa uma vitrine privilegiada para o artesanato
sertanejo, um dos segmentos mais importantes da economia
regional.
Situado na Via Costeira, o
corredor hoteleiro junto à festejada praia de Ponta Negra,
o Barreira Roxa oferece serviços que o classificariam como
um hotel quatro-estrelas, não fosse o fato de ser um
estabelecimento operado por professores e alunos de sua
escola de hotelaria, a única do Norte e do Nordeste. Com o
projeto temático, acreditam seus idealizadores, abriu-se um
novo nicho de mercado para arquitetos, decoradores e
artesãos habilitados a atuar com tecnologias de
ambientação competitivas. "Não há dúvida de que
criamos um novo produto turístico", diz Dival.