
Ano
V // Nº 270
Texto
publicado na edição de abril de 1999 da revista
Você S.A., do Grupo Exame
|
O
Ceará
que
poucos conhecem
Tatajuba,
Guaramiranga, Ubajara: três roteiros muito
especiais num dos estados mais bonitos do Brasil
Por
JOMAR MORAIS, de Fortaleza
Pense no Ceará. Qual a
primeira coisa que vem à mente? Praia, certo?
Mar calmo, jangadas, areia branca e fofa,
coqueiros, essa coisa toda. De fato, foram praias
como Canoa Quebrada, Lagoinha e Jericoacoara -
sem mencionar as de Fortaleza - que elevaram o
Ceará ao posto de segundo pólo turístico do
Nordeste, atrás apenas da Bahia. Mas acredite:
isso, embora seja uma parte importante, não é
tudo. Há bem mais. O Ceará pode ser comprado a
uma mulher que, à primeira vista, chama a
atenção por seu corpo esguio e sinuoso, mas que
depois, com o tempo, demonstra que o melhor está
numa parte menos visível e óbvia, que ela
revela para poucos.
Nas
mulheres, isso pode ser um jeito de sorrir, de
afastar o cabelo, de abraçar com a respiração
suspensa, de olhar bem no fundo dos olhos. Tanto
faz. No Ceará, esse algo mais para os eleitos
também assume várias formas - pode ser uma
pequena cidade, serras verdejantes ou mesmo uma
praia, semideserta e silenciosa. A essa altura,
já deu para perceber: esta reportagem não é
para quem prefere lugares cheios e badalados. É
para quem gosta de coisas diferentes, quase
exclusivas.
É isso que vamos mostrar aqui: três roteiros
nada badalados de um dos estados mais bonitos do
Brasil. O primeiro deles é um passeio a
Guaramiranga, cidadezinha próxima de Fortaleza,
com 5 000 habitantes, belas paisagens e prazeres
simples (que costumam ser os melhores). O segundo
mostra a Chapada da Ibiapaba, lugar em que fica
uma das cavernas mais interessantes do país. Por
fim, rendendo-se à evidência de que brasileiro
adora uma praia, vem Tatajuba, um lugar
deslumbrante, com dunas e lagoas, muito parecida
com o que Jericoacoara foi há uns dez anos,
antes da invasão dos turistas. Boa viagem.
Guaramiranga
O passeio a Guaramiranga é
um programa rápido que pode ser feito no início
ou no final de sua temporada cearense. A maneira
mais agradável de chegar lá é viajar na
litorina especial que sai de Fortaleza aos
domingos. Distante 91 quilômetros da capital
cearense, a cidadezinha, de apenas 5 000
habitantes, é uma estância serrana que desde o
início do século tem sido o refúgio de
cearenses abastados no verão. A temperatura aqui
varia entre 18 e 25 graus o ano todo. O forte de
Guaramiranga, sem contar o sossego, é o contato
com a natureza - mais precisamente com o Maciço
de Baturité, uma das regiões mais verdes do
Ceará. Pode-se caminhar em trilhas ecológicas
ladeadas por Mata Atlântica ou subir o Pico
Alto, com 1 115 metros de altitude e vista para
as dunas do litoral. O pôr-do-sol nesse lugar é
uma beleza. Na lsita de prazeres simples, você
também pode visitar as muitas floriculturas ou
os mini-engenhos nos quais se fabricam cachaça e
rapadura. A propósito, não deixe de conhecer o
Convento dos Capuchinhos, hoje uma pousada
administrada pelos religiosos, cujos hóspedes
adormecem ao som de cantos gregorianos.
Como chegar
Uma litorina especial parte de Fortaleza, na
manhã do domingo, levando grupos organizados
pela agência Turistar. O trem pára em
Baturité. A partir daí a subida da serra é
feita em ônibus até Guaramiranga. O retorno é
no final da tarde. Preço do pacote: 35 reais por
pessoa.
Onde ficar
Visitantes que ficarem mais tempo na cidade podem
escolher entre dois e três pousadas. Os
destaques são:
*
Hotel-Escola de Guaramiranga - o apartamento para
uma pessoa, com frigobar, custa 33 reais a
diária, com café da manhã, de segunda a
quinta. Nos fins de semana sobe para as 48 reais.
Reservas: (085) 321-1106.
*
Convento da Gruta - pousada administrada por
frades capuchinhos no prédio onde funcionou um
convento, no topo da colina principal de
Guaramiranga. Quartos custam 27 reais, com café
da manhã,e apartamentos, 30 reais. Reservas:
(085) 321-1112.
Ubajara
A Chapada de Ibiapaba fica
na divisa do Ceará com o Piauí. De Fortaleza
até há muito chão: são 318 quilômetros,
quase a mesma distância que separa a capital de
Jericoacoara, uma das praias mais famosas do
Ceará. Mas vale a pena enfrentar a estrada.
Depois de atravessar o sertão, chega-se a uma
ilha de verde, com montanhas e muitas árvores.
Logo na primeira cidade da Chapada - Tianguá, a
835 metros de altitude - há um encontro de sete
pequenas cachoeiras (mais conhecidas como
"bicas") que formam piscinas naturais
de águas cristalinas. Ali está o que restou da
Mata Atlântica, com imbaúbas, ipês,
gameleiras, barrigudas e babaçus. Nessa viagem,
Tianguá funciona como base para os turistas que
prezam o conforto. Trata-se do único ponto da
Chapada onde existe um estabelecimento
qualificado como hotel - o Hotel Serra Grande,
com 110 apartamentos, piscina, quadras e salão
de convenções. No mais, há só pousadas.
Cerca de 20 quilômetros adiante, está o lugar
mais bonito de toda a Chapada de Ibiapaba. É em
Ubajara, uma pequena cidade que serve de porta de
entrada para o Parque Nacional de Ubajara, onde
fica uma das cavernas mais bonitas do Brasil. o
parque tem 563 hectares de mata nativa. Uma parte
é cortada por uma trilha de 6 quilômetros que
serpenteia chapada abaixo até encontrar o
povoado de Araticum. Essa trilha foi aberta pelos
tropeiros do século passado, que negociavam
mercadorias no lombo de jumentos. Ainda hoje, os
jegues partem de Araticum com verduras, legumes,
rapaduras e cachaças que serão vendidos - ou
trocados - em Ubajara. No caminho, leva-se de
brinde a fauna da região, com gaviões, jacus,
veados e macacos-pregos.
Os passeios pelo parque são acompanhados por
guias de Cooperativa de Turismo de Ubajara,
licenciados pelo Ibama. O roteiro inclui uma
vista à Cachoeira do Cafundó - onde se pratica
rapel acompanhando a queda livre de 73 metros das
águas - e tem seu momento maior na chegada à
Gruta de Ubajara. Com seus 518 metros de
extensão, a gruta avança 77 metros montanha
adentro. Os turistas, no entanto, não podem
descer além dos 37 metros - eles só percorrem
um terço dos 1 120 metros de trilhas internas.
Seja como for, o desfile de esculturas naturais
é de uma beleza rara. O nome técnico dessas
esculturas é espeleotema, ou formas que foram
desenhadas pelos anos durante milênios no
calcário da montanha. A caverna compõe-se de 15
câmaras, ou "salas", nomeadas de
acordo com os espeleotemas que exibem. As mais
belas são a do Índio, a da Rosa e a do
Presépio. Infelizmente o acesso ao
"corredor das maravilhas" é vetado,
mas da Sala do Índio pode-se ouvir o barulho das
águas do riacho que passa pela base da gruta
para formar uma nova "bica" em algum
ponto da Ibiapaba.
Quando a visita à caverna acaba, já se passaram
quase 2h30 de caminhada e é pouco provável que
alguém que não seja um atleta se aventure a
retornar subindo a íngreme trilha dos jegues.
Não esquente. A apenas 100 metros da gruta está
a estação do teleférico, o bondinho que leva
os turistas de volta a Ubajara, ou faz a
trajetória inversa quando visitantes não
desejam queimar calorias ao longo da trilha. Este
é um dos momentos mais deliciosos do passeio. Em
primeiro lugar, o veículo desliza em cabos
dispostos numa inclinação de 60 graus. Isso faz
disparar mais adrenalina do que se você
estivesse no bondinho do Pão de Açucar, no Rio
de Janeiro. Em segundo, porque o que se vê, à
medida que se ganha altura, é algo realmente
inesquecível. De um lado, a imensa parede verde,
em semicirculo, da chapada jorrando água em
"bicas" cristalinas. Do outro, o campo
verdejante, ornamentado com monólitos (enormes
pedras calcárias brancas) que parecem encontrar
o céu muito azul nos confins do Piauí. Você
gosta de voar de asa-delta? A 2 quilômetros do
mirante do teleférico há uma rampa ótima. (O
sertão do Ceará é tido como uma das melhores
áreas do Brasil para a prática de vôo livre.)
Depois de tanto esforço, uma boa pedida é se
largar em alguma das muitas cachoeiras da região
da Ibiapaba. Uma das melhores é a Bica do
Cafundó, mas, se o nível dos rios temporários
não estiver baixo, vale refrescar o corpo nas
cascatas da Cachoeira do Boi Morto, também em
Ubajara. Ou então dar uma esticada à Bica do
Ipu, a meia hora de carro, para apreciar a maior
queda livre da chapada, a 180 metros de altura.
Por fim, saiba que os pacotes turísticos para
Ibiapaba sempre incluem a passagem por Viçosa do
Ceará, cidadezinha erguida pelos jesuitas no
século 18. Lá, é obrigatória a visita à
Igrejinha de Nossa Senhora das Vitórias no alto
do Morro do Céu, a 820 metros, cujo acesso se
dá por uma escadaria de 360 degraus ou pela
Ladeira do Inferno. A cidade também tem bicas e
pedras famosas, mas são as peças de cerâmica,
os doces e os 40 sabores de licores vendidos em
seu centro artesanal que realmente agradam os
turistas.
Como chegar
Você
pode alugar um carro em Fortaleza ou comprar
algum pacote das agências de turismo locais, com
saída às 20h de sexta-feira e retorno às 15h
do domingo. Na Turistar (tel. 085-212-2456), o
pacote custa 110 reais; na Neblina (tel.
085-223-9327), o preço é 105 reais. O
fretamento de helicóptero de cinco lugares, para
ida e volta no mesmo dia, custa 3 600 reais na
NorthStar (085-257-5656).
Onde ficar
Em
Ubajara:
* Pousada Neblina - sua vantagem é estar
localizada a 500 metros do teleférico da gruta.
Tem piscina, restaurante, bosque e heliponto. Só
alguns dos apartamentos possuem frigobar e tv.
Diárias: de 28 reais a 45 reais (casal).
Reservas:(088) 634-1270.
*
Pousada Le Village - situada no lado oposto da
cidade, possui apartamentos para grupos de até
cinco pessoas, além de piscina, quadras de
esportes e salão de jogos. Diárias: de 20 reais
(solteiro) a 50 reais (apto. triplo). Reservas:
(085) 634-1364.
Em
Tianguá:
* Hotel Serra Grande - 110 apartamentos amplos e
com ar condicionado. Possui piscina decente,
restaurante de nível, quadras e campo de futebol
e salão de convenções. Diárias: de 70 reais
(uma pessoa) a 93 reais 9duas pessoas no padrão
luxo), mas é possível negociar descontos de
até 40%.
Tatajuba
Tatajuba, um vilarejo de
pescadores a 380 quilômetros de Fortaleza, é
uma das praias mais belas do mundo. Tem
coqueiros, areias muito brancas, dunas e, na
época das chuvas, lagoas entre as dunas. É um
lugar muito parecido com o que foi Jericoacoara
há dez anos, antes da invasão turística. Em
Tatajuba, não há luz elétrica, pousadas ou
bares e restaurantes coalhados de gente. O que
há é uma paz descomunal em meio a um cenário
soberbo. Para chegar lá, o melhor a fazer ainda
é montar sua base em Jericoacoara, onde há um
monte de pousadas, e contratar, por 20 reais ao
dia, um buggy com motorista para explorar a
região.
No percurso entre Jeri e a região de Tatajuba, o
buggy roda ora sobre dunas móveis, ora em meio a
mangues secos ou à beira-mar, onde cabras (!)
alimentam-se de algas. A primeira escala do
passeio é na duna sob a qual um dia existiu a
vila de Tatajuba, soterrada há 25 anos pelo
vento que move enormes montanhas de areia. Ainda
é possível ver restos dos telhados das
construções mais altas e da capela. Em
Tatajuba, para quebrar a rotina de mar e sol,
você pode experimentar as cocadas de dona
Sérgia ou comer camarão frito na barraca do
João, point de pescadores e dos raros turistas
que se aventuram até lá.
Entre o vilarejo soterrado e a nova Tatajuba,
erguida sobre outra duna, corre o Rio Guriú, que
pode ser atravessado em balsas de madeira
rústica, impulsionadas por varas de bambu. Uma
sugestão: quando estiver por aqui, programe a
travessia do Rio Guriú numa noite de lua cheia.
É deslumbrante. Com ou sem lua, você também
pode reunir amigos e contratar, por 100 reais,
uma viagem em barco à vela para Tatajuba com o
mestre Manoel Lion, antigo pescador de
Jericoacoara. O retorno só acontece à noite por
causa da direção dos ventos.
Agora a viagem prossegue. A segunda escala, 5
quilômetros à frente de Tatajuba, ocorre nas
chamadas Dunas Funil. Aqui, dois morros em
formato de meia lua foram unidos pela força dos
ventos, assumindo uma forma semelhante à boca de
um funil. No período das chuvas - de março a
junho - esses fossos se transformam em piscinas
naturais. Uma das grandes diversões do lugar é
deslizar pela encosta em pranchas de madeira, num
esporte conhecido como esquibunda. De volta a
Jeri, não perca a Lagoa da Gijoca, ou Lagoa
Paraíso, de 16 quilômetros quadrados, cercada
de dunas de areia clara e uma água translúcida
que muda de cor conforme a época do ano. Se
você estiver em Jeri basta desembolsar 10 reais
para que um bugueiro o conduza a um dos lugares
mais espetaculares do todo o Ceará.
Como chegar
A Turistar (tel.
085-212-2456) vende pacotes turísticos de dois
dias em Jeri por 95 reais, incluindo transporte,
hospedagem e café da manhã. As agências
Hippopotamus (085-242-9191) e Matusa
(085-246-9894), proprietárias de pousadas,
também têm pacotes de dois dias por preços que
variam de 65 a 95 reais. O traslado por
LandRover, com ar-condicionado, é oferecido pela
Go Travel (085-253-3755) ao preço de 25 reais
por pessoa. O fretamento de um helicóptero de
cinco lugares da NorthStar (085-257-5656) ou da
Transportes Aéreos Fortaleza (085-800-5000)
custa 3 000 reais, com ida e volta no mesmo dia.
Onde ficar
Em Jeri há pousadas a partir de 10 reais por
dia. As que oferecem um pouco de conforto são:
* Pousada
Hippopotamus - apartamentos com ar-condicionado
(mas sem frigobar, telefone ou tv), piscina
média, bar e restaurante. Diária: 60 reais,
preço negociável na baixa estação. Reservas:
(088) 603-1616.
* Pousada Matusa -
apartamentos com ar e tv (mas sem frigobar),
minipiscina, bar, restaurante e salão de jogos.
Diária: 35 reais por pessoa, 25 reais na baixa
temporada. Reservas: (085) 246-9894.
* Pousada Capitão
Thomaz - tem a melhor localização, de frente
para o mar, seus 37 apartamentos com varanda só
dispõem de ventilador para aliviar o calor
escaldante. Diária: 30 reais por pessoa (preço
negociável). Reservas: (088) 603-1606.
Informações
turísticas: Secretaria de Turismo do Ceará:
(085) 477-1667 / 218-1167
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