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Amor à primeira vista

 O que acontece é uma interpenetração das auras pela sua afinidade
energético-vibratória, o que causa uma sensação de êxtase sentimental. Daí
para o desenvolvimento de relações afetivas mais íntimas é só um passo

por Francimar Barboza (*)

 

Desde outrora perdura uma convicção cultivada pelo senso comum sobre a existência de uma relação causal ou “casual” que se habituou chamar de “amor à primeira vista”. Há quem atribua esse acontecimento fantástico a um tipo de amor preexistente, construído idealisticamente pelas pessoas, às quais faltava apenas a oportunidade do encontro. Por outro lado, há também aqueles que acreditam no sortilégio do destino, num determinismo que faz do acaso um instrumento da vontade e do desejo adormecidos. Entrementes, desejo aqui recorrer a um modelo de abordagem diferenciada no qual a mecânica ondulatória dos fluidos e o estudo do magnetismo humano assumem papel explicativo preponderante para o assunto em pauta. Antes, porém, de iniciar qualquer exploração fenomenológica do objeto em questão, se faz mister aventar superficialmente alguns referenciais teóricos que serão indispensáveis à tese argumentativa que desenvolverei mais adiante.

A parapsicóloga experimental Colette Tiret (1) faz menção a um “influxo nervoso de um indivíduo humano ou de um vegetal” capaz de produzir irradiações extra-sensorialmente perceptíveis por outro indivíduo ou captáveis por instrumento fotográfico munido de foto-células de alta definição e sensibilidade (efeito Kirlian). Segundo ela, com base nos estudos do casal Kirlian, sob determinadas condições de controle experimental, foi possível constatar que do campo bio-psíquico emanam emissões frias de elétrons capazes de semi-condensar-se produzindo um corpo luminoso chamado efeito corona. Esse corpo eletro-radiativo constituiria uma espécie de prolongamento ou extensão do corpo que ela denomina de aura humana. Ela explica ainda que “a percepção da aura humana depende tanto do campo magnético do sujeito emissor quanto do sujeito receptor. Tudo ocorre como se ela repousasse numa relação cibernética bipolar entre dois campos psicológicos,...”. Desse dado depreendo que se trata na realidade de uma interpenetração de campos magnéticos que se intersectam reciprocamente, fato que me reportarei mais tarde. Mais adiante ela levanta uma proposição, para ela, reveladora: “Temos a impressão de que a aura é uma emanação do corpo bioplasmático, do duplo etérico ou, para falar mais simplesmente, da alma humana”. E agora, já tomando a alma humana como centro irradiador, ela esclarece: “... que se a nossa personalidade profunda, a nossa alma, vibra num campo magnético bipolar no centro do nosso corpo carnal, admitir-se-á também que esse campo magnético pode emitir radiações...”. Vale aqui salientar que essa denodada pesquisadora vem estudando a aura humana há mais de trinta anos, daí eu julgar particularmente ilícito rejeitar por completo a parte conclusiva do seu trabalho, mesmo considerando que a sua aceitação exige uma postura de reserva e ponderação, já que o desvendar da alma humana ainda repousa em plano inconclusivo para a ciência oficial.

Uma teoria que considero bastante interessante e considerável é a emitida pelo Dr. Gustave Geley (2), médico fundador e primeiro presidente do Instituto de Metapsíquica Internacional, de Lyon, na França. Ele trabalhou com a fisiologia humana e não com a hipótese da ultra-existência de uma alma humana, como fez Tiret. Declara Geley que:

 “pode uma porção da força, da inteligência e da matéria ser exteriorizada do organismo, e agir, perceber, organizar e pensar independente dos músculos, dos órgãos do sentido e do cérebro. Ela outra coisa não é senão a porção subconsciente elevada do ser. Constitui verdadeiramente um ser subconsciente exteriorizável, coexistente no ‘eu’ com o ser consciente normal.”

Sinto-me completamente à vontade para considerar de alta relevância essas explicações fornecidas pelo metapsiquista Gustave Geley, principalmente observando que as formas de exteriorização do subconsciente estão submetidas à ação de forças energéticas internas do indivíduo, intrínsecas e criadoras, que o psiquiatra e também metapsiquista italiano Ernesto Bozzano (3) qualificou de “forças ideoplásticas”, ou seja, forças que plasmam energia, que condensam campos vibratórios sob gravitação magnética. A projeção impactante do amor, como revelarei mais à frente, se dá consoante a conjugação subconsciente dessas forças. Essa mesma linha argumentativa recebe o importante reforço do psiquiatra brasileiro Jorge Andréa dos Santos (4):

“Neste mundo intenso de energias e campos específicos existirão influenciações de elementos, uns com os outros, cujo resultado seria a busca de um equilíbrio conjunto. Muitas dessas regiões estão sempre a irradiar a sua cota específica, como que obedecendo a uma lei de rígidas tonalidades; porém essa lei oferecerá intensas modificações quando se tratem de campos onde haja criação constante e, conseqüentemente, variações de irradiações. (...) Todo elemento que irradia energia estará conseqüentemente apto a receber de outras fontes, levando-se em consideração o processo de sintonia e respectivas influenciações. (...) A estruturação mais complexa da escala zoológica, a espécie humana, será possuidora de uma energia irradiante – fluido vital – conseqüência da unificação energética de toda a sua organização a se espalhar, naturalmente, durante os estágios de vida, com as respectivas oscilações, para o meio onde milita. Cada ser possui o seu fluido-vital como que a espargir-se através da superfície corpórea (os poros), em todas as direções, levando a tonalidade individual. O fluido-vital sofreria variações de acordo com o campo do psiquismo que o ser possui e que lhe dá um sentido mais preciso, ligado à vontade e fontes emocionais da mente de profundidade.”

E ele dá continuidade ao seu raciocínio, arrematando:

“Todos os seres estão envolvidos por múltiplas energias; pela facilidade com que exteriorizam os seus vórtices (irradiações), também, com facilidade captam de outras fontes (recepções), desde que haja sintonia a ser ampliada e desenvolvida às expensas de entrosagem de campos[1]. Destarte, os seres poderão irradiar e receber energias nas diversas faixas, com conteúdos éticos do mais puro amor, como também, com uma carga absolutamente carente do bem, fazendo parte de componentes negativos; e cada qual fará jus, vibratoriamente, dentro da tonalidade que possui e desenvolve”.

É por demais oportuno adicionar algumas explicações. Primeira: as regiões irradiadoras às quais o autor se refere seriam espaços abstratos do psiquismo humano que ele próprio denominou em outra obra (5) de núcleos em potenciação ou vórtices energéticos da psique profunda que corresponderiam psiquicamente a verdadeiras usinas mentais (por isso invisíveis) de energia, ou, segundo os espiritualistas, a emanações da alma. Segunda: o fluido vital seria uma manifestação e/ou representação energética daquilo que a biologia convencionou chamar de princípio vital. Este último, como o próprio nome indica, é o princípio, a causa; o fluido vital seria, então, a sua manifestação material, admitindo-se aqui o conceito de matéria como energia condensada e o de energia como matéria dissipada, ou seja, sem estabelecer limites de onde termina uma e começa a outra, e por esta razão afirmo que a inter-relação entre princípio vital e fluido vital é tão íntima quanto a que rege as relações entre matéria e energia. Terceira: observe que a expressão entrosagem de campos usada por Jorge Andréa tem o mesmo valor semântico da idéia de interpenetração de campos trabalhada por Colette Tiret. Quarta: a natureza das emanações energéticas é decorrente da natureza intrínseca dos sentimentos e emoções nutridos pelo sujeito, daí derivarem mecanismos de simpatia ou antipatia pelo outro. A cada variante do estado de espírito do indivíduo corresponde também uma variante energética que lhe é própria e vibratoriamente afinizada.

O engenheiro Hernani Guimarães Andrade (6), parapsicólogo brasileiro, fundador do IBPP (Instituto Brasileiro de Pesquisas Psico-bio-físicas), estudando as características dos fenômenos para-normais, classifica os fenômenos que envolvem permuta energética sensível entre os seres na qualidade de fenômenos para-psíquicos. Explicita Andrade que todos os processos que envolvem contato entre criaturas humanas, implicam permuta energética, só que de natureza imperceptível para as partes envolvidas, enquanto que os fenômenos para-psíquicos – uma variante de para-normal – envolvem troca de energia no nível do campo sensível dos indivíduos de forma tal que eles sintam sensações de incômodo, constrangimento, mal-estar, irritação como também de prazer, satisfação, alegria, afeto, conforme o intercâmbio energético que se estabelece entre ambos. Dessa forma, é plausível afirmar que não existe antipatia gratuita ou simpatia aparente. Tudo é uma questão de equilíbrio/desequilíbrio das tonalidades energético-vibratórias.

Acredito que agora já me é possível penetrar no assunto que é do interesse deste trabalho, o “amor à primeira vista”. Em primeiro lugar, não existe amor à primeira vista. O amor é um sentimento que evolui junto com o processo de relação. Assim, o cruzamento de olhares que insinuam ou denunciam essa situação pertence a outro campo de relações que não o do amor. É muito pouco provável a existência e manifestação de um amor instantâneo, imediato. Aquela sensação aparente de que ao fixar o primeiro olhar nos olhos do outro, já denotaria o afloramento do amor é uma premissa falsa. O que existe, na verdade, é interação energética.

Cada pessoa é portadora de um campo magnético padrão, condizente com o conjunto da sua personalidade. É óbvio que esse campo está sujeito a oscilações, tendo em vista as variações do estado de ânimo, de humor e de espírito do indivíduo, no entanto, em sua situação comportamental normal, ele apresenta um padrão vibratório que reflete a sua condição moral e espiritual.

Quando uma pessoa entra em contato com outra há a imediata correspondência entre os campos energéticos individuais, podendo ser afetiva ou adversa, dependendo da qualidade energética da qual cada um é portador. No caso do amor à primeira vista, o que acontece é uma interpenetração das auras – conforme Tiret – pela sua afinidade energético-vibratória que causa uma sensação de êxtase sentimental durante o encontro. Daí para o desenvolvimento de relações afetivas mais íntimas é só um passo. E o amor, então, derivará do aprofundamento dessas novas relações. Logo, o que se sente “de cara” é uma proximidade magnética saudável, contempladora e enlevadora da sinergia existente entre essas pessoas envolvidas em mútuo equilíbrio energético, ou seja, primeiramente ocorre a entrosagem, a complementaridade energética a que se refere Jorge Andréa decorrente da manifestação contínua do “ser subconsciente exteriorizável, coexistente no ‘eu’ com o ser consciente normal” detalhada por Gustave Geley, que quer dizer, a projeção do subconsciente no limiar da consciência. Enganam-se as pessoas que pensam que aquele fantástico magnetismo do primeiro encontro é um processo consciente, pois que ele se irradia das condições ainda imanifestas do “eu” resguardadas no subconsciente. Após a sensação magnética é que se processa a percepção consciencial. Logo, quem cria o “clima” é o subconsciente a partir da carga manifesta que exterioriza.

O processo inverso se dá com o fenômeno da “antipatia gratuita”. Neste caso a carga deletéria irradiada pelos circunstantes é tão potencialmente negativa que provoca um choque psíquico de repulsão energética oscilante. A partir desse antagonismo energético se desenvolve o desamor, a negação do amor. Da mesma maneira que não se ama ninguém à primeira vista, também não se odeia alguém logo ao primeiro contato. O primeiro contato apenas propicia a formação de um campo de repulsão de forças. Antipatias aparentes são construções mentais que elaboramos após um embate magnético desagradável.

É bom ressaltar que Jorge Andréa (7) cita Jung quando evidencia a indefinição deste último com relação aos fenômenos que escapavam à interpretação da sua abordagem teórica:

“Minha preocupação, com relação à psicologia dos processos inconscientes, obrigou-me, há muito tempo, a procurar – além da causalidade – outro princípio de explicação, uma vez que o princípio da causalidade me parecia impróprio para explicar certos fenômenos surpreendentes da psicologia do inconsciente. Encontrei, assim, fenômenos psicológicos paralelos, que não podiam ser ligados entre si casualmente; deviam ser ligados de outra forma, por outro desenrolar de acontecimentos. Esta conexão de acontecimentos parecia-me ser essencialmente dada, por sua relativa simultaneidade, de onde o termo sincronismo”.

Esta palavra final (e grifada) do depoimento de Jung vem fechar e concluir o meu raciocínio. Em lugar de amor à primeira vista – ou de ódio à primeira vista –, o fenômeno imediato da relação enlevadora/desagregadora entre os seres é uma situação decorrente da condição de sincronismo (de atração ou repulsão magnética). O amor (ou o desamor) é originado do sincronismo dos universos individuais que envolvem inconsciente/consciente/subconsciente. Quanto maior o sincronismo energético, vibratório ou áurico entre as pessoas envolvidas, maior a probabilidade de se desenvolver entre elas relações mais intensas, de amor ou de ódio, dependendo do teor vibratório que a sinergia de ambos significará para cada um em relação ao outro.

 Bibliografia

(1) TIRET, Colette. Auras humanas. 9ª ed. São Paulo: Ed. Pensamento, 1993.

(2) GELEY, Gustave. O ser subconsciente. Rio de Janeiro: FEB, 1974.

  (3) BOZZANO, Ernesto. Pensamento e vontade. 7ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 1988.

  (4) SANTOS, Jorge Andréa dos. Dinâmica psi. 2ª ed. Petrópolis/RJ: Editora Espiritualista

 F. V. LORENZ, 1990.

  (5) SANTOS, Jorge Andréa dos. Energética do psiquismo: fronteiras da alma. 3ª ed.

 Petrópolis/RJ: Editora Espiritualista F. V. LORENZ, 1990.

  (6) ANDRADE, Hernani Guimarães. Parapsicologia experimental. São Paulo:

 Editora Pensamento, 1989.

  (7) SANTOS, Jorge Andréa dos. Nos alicerces do inconsciente – pelos campos da

 parapsicologia. 4ªa ed. Sobradinho/DF: EDICEL, 1992.


[1] O grifo é nosso.

(*) Francimar Barboza é professor de Ciências Sociais da UERN
e estudioso da Complexidade (membro do GRECOM-Mossoró)


Email: francimar.barboza@hotmail.com 

 

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