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Desde
outrora perdura uma convicção cultivada pelo senso comum sobre a
existência de uma relação causal ou “casual”
que se habituou chamar de “amor à primeira vista”. Há quem
atribua esse acontecimento fantástico a um tipo de amor
preexistente, construído idealisticamente pelas pessoas, às quais
faltava apenas a oportunidade do encontro.
Por outro lado, há também aqueles que acreditam no sortilégio do
destino, num determinismo que faz do acaso
um instrumento da vontade e do desejo adormecidos. Entrementes,
desejo aqui recorrer a um modelo de abordagem diferenciada no qual a
mecânica ondulatória dos fluidos e o estudo do magnetismo humano
assumem papel explicativo preponderante para o assunto em pauta.
Antes, porém, de iniciar qualquer exploração fenomenológica do
objeto em questão, se faz mister aventar superficialmente alguns
referenciais teóricos que serão indispensáveis à tese
argumentativa que desenvolverei mais adiante.
A
parapsicóloga experimental Colette Tiret (1)
faz menção a um “influxo nervoso de um indivíduo humano ou de
um vegetal” capaz de produzir irradiações extra-sensorialmente
perceptíveis por outro indivíduo ou captáveis por instrumento
fotográfico munido de foto-células de alta definição e
sensibilidade (efeito Kirlian). Segundo ela, com base nos estudos do
casal Kirlian, sob determinadas condições de controle
experimental, foi possível constatar que do campo bio-psíquico
emanam emissões frias de elétrons capazes de semi-condensar-se
produzindo um corpo luminoso chamado efeito corona. Esse corpo eletro-radiativo constituiria uma espécie
de prolongamento ou extensão do corpo que ela denomina de aura humana. Ela explica ainda que “a percepção da aura humana
depende tanto do campo magnético do sujeito emissor quanto do
sujeito receptor. Tudo ocorre como se ela repousasse numa relação
cibernética bipolar entre dois campos psicológicos,...”. Desse
dado depreendo que se trata na realidade de uma interpenetração de
campos magnéticos que se intersectam reciprocamente, fato que me
reportarei mais tarde. Mais adiante ela levanta uma proposição,
para ela, reveladora: “Temos a impressão de que a aura é uma
emanação do corpo bioplasmático, do duplo
etérico ou, para falar mais simplesmente, da alma humana”. E
agora, já tomando a alma humana como centro irradiador, ela
esclarece: “... que se a nossa personalidade profunda, a nossa
alma, vibra num campo magnético bipolar no centro do nosso corpo
carnal, admitir-se-á também que esse campo magnético pode emitir
radiações...”. Vale aqui salientar que essa denodada
pesquisadora vem estudando a aura humana há mais de trinta anos, daí
eu julgar particularmente ilícito rejeitar por completo a parte
conclusiva do seu trabalho, mesmo considerando que a sua aceitação
exige uma postura de reserva e ponderação, já que o desvendar da
alma humana ainda repousa em plano inconclusivo para a ciência
oficial.
Uma
teoria que considero bastante interessante e considerável é a
emitida pelo Dr. Gustave Geley (2), médico fundador e primeiro presidente do Instituto de Metapsíquica
Internacional, de Lyon, na França. Ele trabalhou com a fisiologia
humana e não com a hipótese da ultra-existência de uma alma
humana, como fez Tiret. Declara
Geley que:
“pode
uma porção da força, da inteligência e da matéria ser
exteriorizada do organismo, e agir, perceber, organizar e pensar
independente dos músculos, dos órgãos do sentido e do cérebro.
Ela outra coisa não é senão
a porção subconsciente elevada do ser. Constitui verdadeiramente
um ser subconsciente exteriorizável, coexistente no ‘eu’ com o
ser consciente normal.”
Sinto-me
completamente à vontade para considerar de alta relevância essas
explicações fornecidas pelo metapsiquista Gustave Geley,
principalmente observando que as formas de exteriorização do
subconsciente estão submetidas à ação de forças energéticas
internas do indivíduo, intrínsecas e criadoras, que o psiquiatra e
também metapsiquista italiano Ernesto Bozzano (3) qualificou de “forças ideoplásticas”, ou seja, forças que
plasmam energia, que condensam campos vibratórios sob gravitação
magnética. A projeção impactante do amor, como revelarei mais à
frente, se dá consoante a conjugação subconsciente dessas forças.
Essa mesma linha argumentativa recebe o importante reforço do
psiquiatra brasileiro Jorge Andréa dos Santos (4):
“Neste
mundo intenso de energias e campos específicos existirão
influenciações de elementos, uns com os outros, cujo resultado
seria a busca de um equilíbrio conjunto. Muitas dessas regiões estão
sempre a irradiar a sua cota específica, como que obedecendo a uma
lei de rígidas tonalidades; porém essa lei oferecerá intensas
modificações quando se tratem de campos onde haja criação
constante e, conseqüentemente, variações de irradiações. (...)
Todo elemento que irradia energia estará conseqüentemente apto a
receber de outras fontes, levando-se em consideração o processo de
sintonia e respectivas influenciações. (...) A estruturação mais
complexa da escala zoológica, a espécie humana, será possuidora
de uma energia irradiante – fluido vital – conseqüência da
unificação energética de toda a sua organização a se espalhar,
naturalmente, durante os estágios de vida, com as respectivas
oscilações, para o meio onde milita. Cada ser possui o seu
fluido-vital como que a espargir-se através da superfície corpórea
(os poros), em todas as direções, levando a tonalidade individual.
O fluido-vital sofreria variações de acordo com o campo do
psiquismo que o ser possui e que lhe dá um sentido mais preciso,
ligado à vontade e fontes emocionais da mente de profundidade.”
E
ele dá continuidade ao seu raciocínio, arrematando:
“Todos
os seres estão envolvidos por múltiplas energias; pela facilidade
com que exteriorizam os seus vórtices (irradiações), também, com
facilidade captam de outras fontes (recepções), desde que haja
sintonia a ser ampliada e desenvolvida às expensas de entrosagem
de campos.
Destarte, os seres poderão irradiar e receber energias nas diversas
faixas, com conteúdos éticos do mais puro amor, como também, com
uma carga absolutamente carente do bem, fazendo parte de componentes
negativos; e cada qual fará jus, vibratoriamente, dentro da
tonalidade que possui e desenvolve”.
É
por demais oportuno adicionar algumas explicações. Primeira: as
regiões irradiadoras às quais o autor se refere seriam espaços
abstratos do psiquismo humano que ele próprio denominou em outra
obra (5) de núcleos em potenciação
ou vórtices energéticos da
psique profunda que corresponderiam psiquicamente a verdadeiras
usinas mentais (por isso invisíveis) de energia, ou, segundo os
espiritualistas, a emanações da alma. Segunda: o fluido
vital seria uma manifestação e/ou representação energética
daquilo que a biologia convencionou chamar de princípio
vital. Este último, como o próprio nome indica, é o princípio,
a causa; o fluido vital
seria, então, a sua manifestação material, admitindo-se aqui o
conceito de matéria como energia condensada e o de energia como matéria
dissipada, ou seja, sem estabelecer limites de onde termina uma e
começa a outra, e por esta razão afirmo que a inter-relação
entre princípio vital e fluido
vital é tão íntima quanto a que rege as relações entre matéria
e energia. Terceira: observe que a expressão entrosagem
de campos usada por Jorge Andréa tem o mesmo valor semântico
da idéia de interpenetração de campos trabalhada por Colette Tiret. Quarta: a
natureza das emanações energéticas é decorrente da natureza intrínseca
dos sentimentos e emoções nutridos pelo sujeito, daí derivarem
mecanismos de simpatia ou antipatia pelo outro. A cada variante do
estado de espírito do indivíduo corresponde também uma variante
energética que lhe é própria e vibratoriamente afinizada.
O
engenheiro Hernani Guimarães Andrade (6),
parapsicólogo brasileiro, fundador do IBPP (Instituto Brasileiro de
Pesquisas Psico-bio-físicas), estudando as características dos fenômenos
para-normais, classifica os fenômenos que envolvem permuta energética
sensível entre os seres na qualidade de fenômenos
para-psíquicos. Explicita Andrade que todos os processos que
envolvem contato entre criaturas humanas, implicam permuta energética,
só que de natureza imperceptível para as partes envolvidas,
enquanto que os fenômenos
para-psíquicos – uma variante de para-normal – envolvem
troca de energia no nível do campo
sensível dos indivíduos de forma tal que eles sintam sensações
de incômodo, constrangimento, mal-estar, irritação como também
de prazer, satisfação, alegria, afeto, conforme o intercâmbio
energético que se estabelece entre ambos. Dessa forma, é plausível
afirmar que não existe antipatia
gratuita ou simpatia
aparente. Tudo é uma questão de equilíbrio/desequilíbrio das
tonalidades energético-vibratórias.
Acredito
que agora já me é possível penetrar no assunto que é do
interesse deste trabalho, o “amor à primeira vista”. Em
primeiro lugar, não existe amor à primeira vista. O amor é um sentimento que evolui junto com
o processo de relação. Assim, o cruzamento de olhares que insinuam
ou denunciam essa situação pertence a outro campo de relações
que não o do amor. É muito pouco provável a existência e
manifestação de um amor instantâneo, imediato. Aquela sensação
aparente de que ao fixar o primeiro olhar nos olhos do outro, já
denotaria o afloramento do amor é uma premissa falsa. O que existe,
na verdade, é interação energética.
Cada
pessoa é portadora de um campo magnético padrão, condizente com o
conjunto da sua personalidade. É óbvio que esse campo está
sujeito a oscilações, tendo em vista as variações do estado de
ânimo, de humor e de espírito do indivíduo, no entanto, em sua
situação comportamental normal, ele apresenta um padrão vibratório
que reflete a sua condição moral e espiritual.
Quando
uma pessoa entra em contato com outra há a imediata correspondência
entre os campos energéticos individuais, podendo ser afetiva ou
adversa, dependendo da qualidade energética da qual cada um é
portador. No caso do amor à
primeira vista, o que acontece é uma interpenetração das
auras – conforme Tiret – pela sua afinidade energético-vibratória
que causa uma sensação de êxtase sentimental durante o encontro.
Daí para o desenvolvimento de relações afetivas mais íntimas é
só um passo. E o amor, então, derivará do aprofundamento dessas
novas relações. Logo, o que se sente “de cara” é uma
proximidade magnética saudável, contempladora e enlevadora da
sinergia existente entre essas pessoas envolvidas em mútuo equilíbrio
energético, ou seja, primeiramente ocorre a entrosagem, a complementaridade energética a que se refere Jorge
Andréa decorrente da manifestação contínua do “ser subconsciente exteriorizável, coexistente no ‘eu’ com o ser
consciente normal” detalhada por Gustave Geley, que quer
dizer, a projeção do subconsciente no limiar da consciência.
Enganam-se as pessoas que pensam que aquele fantástico magnetismo
do primeiro encontro é um processo consciente, pois que ele se
irradia das condições ainda imanifestas do “eu” resguardadas
no subconsciente. Após a sensação magnética é que se processa a
percepção consciencial. Logo, quem cria o “clima” é o
subconsciente a partir da carga manifesta que exterioriza.
O
processo inverso se dá com o fenômeno da “antipatia gratuita”.
Neste caso a carga deletéria irradiada pelos circunstantes é tão
potencialmente negativa que provoca um choque psíquico de repulsão
energética oscilante. A partir desse antagonismo energético se
desenvolve o desamor, a negação do amor. Da mesma maneira que não
se ama ninguém à primeira vista, também não se odeia alguém
logo ao primeiro contato. O primeiro contato apenas propicia a formação
de um campo de repulsão de forças. Antipatias aparentes são
construções mentais que elaboramos após um embate magnético
desagradável.
É
bom ressaltar que Jorge Andréa (7)
cita Jung quando evidencia a indefinição deste último com relação
aos fenômenos que escapavam à interpretação da sua abordagem teórica:
“Minha
preocupação, com relação à psicologia dos processos
inconscientes, obrigou-me, há muito tempo, a procurar – além da
causalidade – outro princípio de explicação, uma vez que o
princípio da causalidade me parecia impróprio para explicar certos
fenômenos surpreendentes da psicologia do inconsciente. Encontrei,
assim, fenômenos psicológicos paralelos, que não podiam ser
ligados entre si casualmente; deviam ser ligados de outra forma, por
outro desenrolar de acontecimentos. Esta conexão de acontecimentos
parecia-me ser essencialmente dada, por sua relativa simultaneidade,
de onde o termo sincronismo”.
Esta
palavra final (e grifada) do depoimento de Jung vem fechar e
concluir o meu raciocínio. Em lugar de amor
à primeira vista – ou de ódio
à primeira vista –, o fenômeno imediato da relação
enlevadora/desagregadora entre os seres é uma situação decorrente
da condição de sincronismo
(de atração ou repulsão magnética). O amor (ou o desamor) é
originado do sincronismo
dos universos individuais que envolvem
inconsciente/consciente/subconsciente. Quanto maior o sincronismo
energético, vibratório ou áurico entre as pessoas envolvidas,
maior a probabilidade de se desenvolver entre elas relações mais
intensas, de amor ou de ódio, dependendo do teor vibratório que a
sinergia de ambos significará para cada um em relação ao outro.
Bibliografia
(1)
TIRET, Colette. Auras humanas. 9ª ed. São Paulo: Ed. Pensamento, 1993.
(2)
GELEY, Gustave. O ser subconsciente. Rio de Janeiro: FEB, 1974.
(3) BOZZANO, Ernesto. Pensamento e vontade. 7ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 1988.
(4) SANTOS, Jorge Andréa
dos. Dinâmica psi. 2ª ed. Petrópolis/RJ: Editora Espiritualista
F.
V. LORENZ, 1990.
(5)
SANTOS, Jorge Andréa dos. Energética do psiquismo: fronteiras da alma. 3ª ed.
Petrópolis/RJ:
Editora Espiritualista F. V. LORENZ, 1990.
(6)
ANDRADE, Hernani Guimarães. Parapsicologia experimental. São Paulo:
Editora
Pensamento, 1989.
(7) SANTOS, Jorge Andréa
dos. Nos alicerces do inconsciente – pelos campos da
parapsicologia. 4ªa
ed. Sobradinho/DF: EDICEL, 1992.
(*)
Francimar Barboza é professor de Ciências Sociais da UERN
e estudioso da Complexidade (membro do GRECOM-Mossoró)
Email: francimar.barboza@hotmail.com
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