Um
menino americano é atualmente um símbolo de esperança
para milhões de pessoas que padecem de uma doença que
maltrata, inabilita suas vítimas para os prazeres mais
corriqueiros da vida e, não raro, pode matá-las com
requintes de crime a sangue frio. Drew William, 13 anos, é
agora uma criança quase normal. Em Dillon, sua cidade no
estado do Colorado, ele pratica esportes, brinca na rua com
os amigos, diverte-se com animais domésticos. Não era
assim até dois anos atrás. Jogar no time de beisebol da
escola, por exemplo, era algo impossível. Bastavam alguns
minutos de esforço físico e o menino curvava-se, ofegante.
Ir ao cinema ou freqüentar ambientes com aglomeração de
pessoas quase sempre significava o início de uma sessão de
tortura, provocada pelo súbito estreitamento das vias
respiratórias. Pior: o simples contato com alguém que
tivesse antes acariciado um gato ou um cão podia mandá-lo
para o hospital. "Minha vida se resumia a tomar quilos
de remédios", lembra o garoto. Afinal, Drew tinha
constantes crises de asma, um tipo de alergia incômoda e
traiçoeira.
Drew não
está curado e, mesmo não mais dependendo de tantos
remédios, ainda tem que tomar regularmente pelo menos um
medicamento. A melhoria radical em sua qualidade de vida,
porém, é um feito extraordinário que marca a maior
vitória da Ciência, em 80 anos, na luta para controlar as
alergias em sua origem. Até então, todos os recursos
desenvolvidos para combater a doença limitavam-se a aliviar
sintomas, sem qualquer efeito preventivo.
A virada
começou nos laboratórios das empresas de biotecnologia
Novartis, Genentech e Tanox, nos Estados Unidos, onde um
grupo de cientistas produziu uma droga experimental, o
Xolair. O remédio, previsto para chegar às farmácias no
primeiro semestre de 2001, impede que as células do sistema
imunológico sejam acionadas toda vez que o corpo entra em
contato com algum alergênico. Isto é, qualquer substância
inofensiva que, por razões ainda mal explicadas, é
avaliada pelo sistema de defesa de quem é alérgico como um
agente patológico. Pode ser o pólen de uma planta, a
poeira doméstica impregnada de dejetos de ácaros, a
proteína de um fruto do mar ou uma molécula do níquel
usado em bijuterias. Somam mais de uma centena as
substâncias catalogadas nessa condição. Nessas ocasiões,
o alarme falso costuma promover um cenário de guerra no
qual as células de defesa disparam histaminas e outras
secreções letais que, na ausência de vírus e bactérias,
acabam por agredir o próprio organismo, configurando a
crise alérgica.
O problema é
sério. Cerca de 2 bilhões de pessoas, um terço da
população do planeta, apresentam complicações de fundo
alérgico, segundo estimativas da Academia Americana de
Alergia e Imunologia. Nenhuma outra doença, em momento
algum da História, afetou tanta gente, dado bastante para
que especialistas comecem a encará-la como uma epidemia.
Só nos Estados Unidos, a cada ano 5 000 pessoas morrem
sufocadas durante crises de asma. Outros 90 milhões de
americanos convivem diariamente com o desconforto de rinites
e dermatites, as variedades alérgicas mais comuns. Aqui,
estima-se que as alergias atazanam a vida de 25 milhões de
brasileiros – 50% mais que há 20 anos – e estão por
trás de metade das faltas ao trabalho em São Paulo, a
maior cidade do país. Encontrar a cura efetiva para o mal
tornou-se, assim, um desafio que envolve mais do que
interesses de saúde pública.
A pista que
levou ao desenvolvimento do Xolair foi dada por uma
descoberta recente na geografia do sistema imunológico.
Cientistas da Escola Médica de Harvard e da Universidade
Northwestern, nos Estados Unidos, constataram que a
imunoglobulina E, ou IgE - o anticorpo que ativa as células
de defesa nos processos alérgicos -, é uma estrutura em
forma de Y dotada de duas caudas que se movimentam em
direção a uma espécie de fechadura existente na membrana
da célula de defesa. Só após o encaixe das presilhas da
imunoglobulina nessa reentrância é que a ação defensiva
é disparada. Elementar? Os pesquisadores da Novartis, da
Genentech e da Tanox acham que sim. Com o Xolair eles
criaram um clone de anticorpo bloqueador capaz de se
encaixar à "fechadura" da célula de defesa antes
que o IgE a alcance, frustrando desse modo o processo
alérgico.
O anticorpo
anti-IgE, como é conhecido o novo remédio entre
especialistas, já foi testado em 2 000 pacientes – o
menino Drew é apenas o mais conhecido – e demonstrou ter
ação polivalente diante de uma doença de mil faces.
Substâncias alergênicas podem provocar irritações na
pele, inflamações nas mucosas, distúrbio intestinal e
bloqueio das vias respiratórios. Mas, por agir num ponto do
processo do processo comum a todas elas, espera-se que o
Xolair funcione em todas essas complicações. A fórmula,
porém, está longe de ser a solução integral do problema,
segundo Wilson Rocha Filho, coordenador do Serviço de
Alergia e Pneumologia Pediátrica do Hospital Felício Rocha,
em Belo Horizonte. "Ela não impede a produção de IgE",
diz Wilson. "E é aí que está o xis da questão".
Um alérgico
que venha a tomar o Xolair, poderá evitar os dissabores da
reação desproporcional do sistema imunológico diante de
um alergênico. Entretanto, o organismo prosseguirá
produzindo IgE e disparando ordens de ataque que, amanhã,
talvez poderão vencer o bloqueio do remédio ou provocar
efeitos ainda desconhecidos no corpo. Trata-se de um detalhe
que tem a ver com as causas profundas do mal, outra área
escura recentemente iluminada por novas pesquisas.
Durante muito
tempo imaginou-se que as alergias são um mal hereditário,
a partir de evidências que mostram ser de até 70% a
probabilidade de filhos de pais alérgicos desenvolverem a
doença. O avanço dos processos alérgicos no ritmo do
desenvolvimento tecnológico e da melhoria das condições
de vida levou os cientistas a considerar outras hipóteses.
Sabe-se agora que populações carentes do leste da Rússia,
da Índia, da Indonésia e da África registram até 50%
menos incidência de casos de alergias que as de países
ricos – sobretudo quando comparadas aos habitantes das
grandes metrópoles, onde há mais assepsia e cuidados
médicos. Dados de estudos realizados neste ano pela
pediatra alemã Erika von Martius e por cientistas do
Laboratório de Imunologia e Alergia de Roma acabaram por
expor um paradoxo sobre o qual se vai edificando uma
explicação surpreendente para a causa das alergias – a
chamada "hipótese higiênica".
Ao observar
crianças que vivem em fazendas no interior da Alemanha e da
Áustria, onde bebem leite cru e estão em contato com a
terra e o esterco, Erika constatou que a ocorrência de
complicações alérgicas entre elas é 75% menor do que
entre meninos que moram nas cidades. Já o estudo italiano,
que envolveu 480 cadetes da Força Aérea e foi tema de
artigo no British Medical Journal, revelou que as alergias
respiratórias são menos freqüentes entre militares que na
infância estiveram expostos a micróbios transmitidos pela
água e alimentos não tratados. É inusitado, mas diante de
achados como esses, os estudiosos inclinam-se a concluir que
a supressão de doenças como sarampo, rubeóla, caxumba e
até as verminoses da infância – todas praticamente
erradicadas dos países desenvolvidos – pode ter também o
seu lado nocivo, por deixar ocioso o sistema imunológico.
"Alguma
coisa no estilo de vida Ocidental está contribuindo para os
processos alérgicos", afirma Donald Leung, chefe da
Divisão de Pediatria do National Jewish Medical and
Research Center, em Denver, um dos núcleos de estudos
avançados sobre as alergias. A aceitação da "hipótese
higiênica" está crescendo na comunidade médica e
isso pode levar a uma revisão de posturas no trato com
crianças. "Até meninos que ficam resfriados com mais
freqüência nos primeiros anos de vida parecem menos
propensos a desenvolver alergias", lembra Wilson. O
zelo de pais superprotetores, que não permitem os filhos
andar descalços, ter contato com animais ou que só banham
bebês em água mineral ou fervida, nesse caso, estaria com
os dias contados. Nesse contexto também não há lugar para
o pavor de germes, como o que levou o magnata americano
Howard Hughes , morto em 1976, a passar os últimos 30 anos
de sua vida recolhido a uma sala asséptica a fim de não
contrair doenças.
A idéia de
que o excesso de procedimentos higiênicos pode ser nocivo
à saúde apóia-se na hipótese de que a exposição a
micróbios na infância reforça os linfócitos – células
brancas do sangue que atuam no combate a bactérias - do
tipo Th1, fazendo-as prevalecer sobre os linfócitos Th2,
que também reagem a parasitas mas são responsáveis pelo
erro de avaliação que induz o processo alérgico. São os
Th2 que, diante de substâncias alergênicas, estimulam a
produção de IgE (o anticorpo que apronta aquela confusão
no sistema de defesa, lembra?). Num sistema imunológico que
não enfrentou agentes patológicos nos primeiros anos de
vida, conforme a hipótese, dá-se a inibição das células
Th1, deixando o campo livre para as "leituras"
equivocadas dos linfócitos Th2.
"É
provável que o corpo humano não esteja conseguindo mudar
tão rapidamente quanto a civilização", diz Fernando
Martinez, diretor do Departamento de Ciências da
Respiração da Universidade do Arizona. Convivemos há
milênios com vírus e bactérias e, de repente, nos
tornarmos super-ultra-limpos. Jamais também nossos hábitos
alimentares foram alterados tão radicalmente nem houve
tanto acesso a remédios e outros produtos químicos -
detalhe que, pelo menos no que se refere a alergias, tem
aproximado a Medicina tradicional e a alternativa e aberto
caminho para os tratamentos baseados em alimentação
saudável e menos drogas químicas no sangue.
Para quem
está acostumado a aliviar crises alérgicas respiratórias
com anti-histamínicos e esteróides – drogas que, entre
outros efeitos colaterais, podem afetar os reflexos e o
processo do crescimento em crianças -, é difícil
acreditar que uma simples dieta possa resolver o seu
problema. Mas o músico paulistano Marcelo Effori, 30 anos,
diz que foi assim que conseguiu livrar-se de uma rinite que
o fustigava desde criança. "Fazia inalações
constantes e tomei até vacinas, mas nada adiantava",
afirma. "Como fico muito tempo dentro de estúdios com
ar condicionado, gravando, a rinite era uma tortura".
A cura se deu
há três anos, segundo o músico, depois que ele adotou a
rigorosa dieta higienista, que prescreve separação dos
alimentos e adoção gradual do vegetarianismo e do
crudicismo (ingestão exclusiva de alimentos crus). "A
reação aos chamados alergênicos são apenas a gota
d´água de um processo permanente de irritação e
inflamação das mucosas, provocada pela ingestão de
alimentos e produtos altamente tóxicos", justifica o
higienista Fernando Travi, presidente da Sociedade
Brasileira de Biogenia.
A homeopatia
e a acupuntura também têm sido usadas com freqüência no
tratamento das alergias. Mas é a homeopatia, o método
terapêutico criado há mais de dois séculos pelo médico
alemão Samuel Hahnemann, que acaba de ter sua eficácia no
tratamento de rinites referendada por um estudo da
Universidade de Glasgow, na Escócia. A pesquisa envolveu 51
pacientes, divididos em dois grupos. Os integrantes de um
deles, tratados com remédios homeopáticos, apresentaram
após um mês um índice melhoria de 28%, contra apenas 3%
do grupo que tomou apenas placebo (substância sem o
princípio ativo). Na clínica homeopática do Hospital do
Servidor Público Municipal, em São Paulo, esse tipo de
terapia tem sido eficaz em 70% dos casos de asma, segundo
Romeu Carrillo Júnior, diretor da unidade.
Alergias são
o motivo de 10 milhões de consultas médicas por ano nos
Estados Unidos. No mundo, somente a venda de anti-histamínicos
movimenta 8 bilhões de dólares anualmente. São números
superlativos que não conseguem expressar, no entanto, o
drama real de quem padece com a doença, como atesta o
alergista Wilson. "Um de meus clientes, uma criança de
12 anos, é alérgica a leite de vaca e já teve vários
choques anafiláticos por causa da ingestão acidental de
leite, às vezes em produtos em que jamais se imaginaria
existisse tal ingrediente, como sardinha enlatada", diz
o médico. A sensibilidade do menino à lactase, uma
proteína láctea, é tamanha que o simples fato de o leite
ferver na cozinha é suficiente para deixá-lo em crise no
quarto. Seu problema continua inalterado após um tratamento
de dessensibilização com vacinas experimentais americanas.
Mesmo nos
casos triviais, como rinites e eczemas, as alergias trazem
embutidos riscos maiores. Rinites deságuam com freqüência
em sinusites crônicas e podem provocar pneumonia. Eczemas
podem ser um incômodo ainda maior para pessoas submetidas a
estresse. Há também os casos de alergias a picadas de
insetos, que podem ser fatais. "Picadas de abelha matam
a cada ano 40 pessoas com hipersensibilidade a enzimas do
inseto nos Estados Unidos", diz o dermatologista João
Luiz Cardoso, do Hospital Vital Brazil, em São Paulo,
especializado em problemas decorrentes do ataque de animais
peçonhentos. "Em nosso hospital, 15% dos atendimentos
são feitos nessa área".
Pessoas com
esse tipo de fragilidade terão um dia a chance de viver
normalmente? Enquanto se debate a parcela de culpa da
modernidade na expansão das alergias, as esperanças de
soluções a curto prazo se concentram na engenharia
genética, em cujos laboratórios desenvolvem-se novos
clones e vacinas que possam funcionar. No ano passado, uma
equipe americana da Universidade Johns Hopkins em Baltimore
testou com êxito, em ratos, uma vacina feita a partir do
DNA do amendoim, um das causas mais freqüentes e perigosas
de alergia alimentar. Se funcionar em humanos, dentro de
algum tempo muita gente poderá se ver livre da obrigação
de andar com injeções de adrenalina, o antídoto, para
proteger-se em casos de ingestão acidental do alergênico.
Em Medford, Massachussets, a Kinetix Pharmaceuticals tem
outro alvo: a criação de um inibidor da enzima kinase, que
cataliza as reações da célula de defesa após o
acoplamento do anticorpo IgE e tende a ser uma alternativa
para os pacientes nos quais o anti-IgE sintético não faz
efeito – afinal, cerca de 15% do grupo de teste não
respondeu positivamente à droga.
Pode não ser
o ideal, mas são avanços que melhoram consideravelmente a
rotina de pessoas como Drew William, o menino que voltou a
viver após o Xolair. "Eu agora posso jogar beisebol
sem preocupação", diz o garoto. "Na verdade,
posso fazer quase tudo".
PARA SABER
MAIS
Na Livraria:
Tudo Sobre
Alergias
Joanne Clough,
Andrei Editora, São Paulo, 2000
Allergies:
What You Need to Know
Mark
Giuliucci, Johns Hopkins Health, EUA, 1999
Na Internet:
www.nationaljewish.org
www.foodallergy.org
www.sbai.org.br
www.genentech.com.br