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Ano IX
 Nº 335

Texto publicado 
na revista Vida Simples, edição de janeiro de 2004

 

Leia também:

Para domar a raiva

Ghandi e a  simplicidade

Raízes da violência


Outras reportagens

 

O caminho da paz

A chave para a tranqüilidade nas relações se encontra na transformação dos nossos sentimentos e ações, um conceito que os hinduístas batizaram de ahimsa e cuja eficácia foi comprovada por Gandhi

Por Jomar Morais 

Como imaginar que pequenas atitudes pessoais e anônimas possam ter algum efeito sobre a violência superlativa dos seqüestros, dos homicídios a sangue frio, das guerras e confrontos de todo tipo que infernizam nosso dia-a-dia? Pense, por exemplo, em Mohandas Karamchand Gandhi, o indiano que conduziu seu país à independência sem ferir um só funcionário do Império Britânico. Ou em Martin Luther King Jr., o pastor batista que liderou o desmonte da desigualdade formal dos direitos civis de brancos e negros nos Estados Unidos propagando o sonho de justiça e paz. Ambos começaram se esforçando por ser, eles próprios, o espelho da mudança que propunham para os outros e, com enorme paciência, souberam atrair e aglutinar compatriotas em torno de ideais que se tornariam irresistíveis.

Gandhi e Luther King tinham um traço em comum: acreditavam que a violência dos homens e dos aparelhos estatais só pode ser vencida se a elas se opuser uma atitude firme de não-violência capaz de romper a cadeia da brutalidade. Ou seja: ambos praticavam o ahimsa, princípio sagrado segundo o qual não se deve causar dor a nenhum ser vivo, seja por atos seja por palavras ou pensamentos. Hoje, cada vez mais gente admite que esse é o único caminho para conter a violência nas sociedades modernas. Um mecanismo que, usado individual e coletivamente, pode quebrar os ramos de animosidades que desestabilizam as relações na família, no trabalho, nas ruas e entre as nações.

Ahimsa é uma palavra do sânscrito que expressa o desejo de não causar danos. É a negação do verbo himsa, que significa machucar, ferir. Nesse sentido, trata-se da lei do bom senso anunciada como regra áurea por todas as tradições espirituais. O Evangelho cristão ensina: ame o próximo como a si mesmo. A Bhagavad Gita hindu convida: não faça aos outros aquilo que, se fosse feito a você, causaria sofrimento. O Corão islâmico reforça: ninguém pode ser um crente enquanto não amar seu irmão como a si mesmo. Apesar disso, ahimsa é um valor que exige compreensão e interpretação num mundo onde tudo é relativo.

Gandhi escreveu em sua autobiografia: "Ahimsa é um princípio amplo. Somos mortais indefesos, apanhados na conflagração do himsa". O simples fato de estar vivo - comer, beber, movimentar-se - envolve necessariamente algum tipo de dano a outro, ainda que imperceptível. Segundo Gandhi, o esforço de autocontrole e o sentimento da compaixão (para evitar, tanto quanto possível, a destruição da menor das criaturas) caracterizam a aplicação real do princípio (leia mais no quadro Para domar a raiva). De outro lado, o ahimsa não deve ser visto como um escudo para a covardia. Trata-se de uma poderosa reação de amor que dobra o agressor, paralisando-o pela conscientização de seu ato insano. É uma forma sutil e persistente de luta que não compactua, por omissão, com a injustiça e a força bruta.

Olhar para dentro
Basta um rápido olhar sobre os efeitos psicobiológicos da raiva - a força motriz da violência -, para que nos convençamos da necessidade do ahimsa. A dificuldade está em adotá-lo como regra de conduta e em praticá-lo corretamente. "Nossos valores apontam na direção da notoriedade, da visibilidade, do consumo e do poder", diz Lia Diskin, diretora da Associação Palas Athena, em São Paulo. "E os mecanismos mais imediatos para atingir essas metas são a competição, a sedução e o individualismo, elementos que sempre geram algum tipo de violência, física ou simbólica."

Assim, o primeiro passo para o exercício do ahimsa é trabalhar o próprio ego, fonte da opressão que impomos a nós mesmos, isolando-nos dos outros. "Se olharmos para dentro será mais fácil perceber e compreender as causas da agressividade e da inquietação", diz Ravindra Varma, presidente da Gandhi Peace Foundation. A prática do ahimsa se consolida no pensamento, origem de toda palavra e ação, e se dissemina por meio de um esforço paciente de educação, apoiado mais na vivência do que nos argumentos. É algo que nasce de pequenas ações individuais e cresce com a soma dessas ações, como na parábola a seguir.

Numa tarde de inverno europeu, um pardal encontra uma pomba silvestre e pergunta:
- Você sabe me dizer quanto pesa um floco de neve?
- Nada de nada - respondeu a ave.
- Nesse caso, vou lhe contar uma história maravilhosa - disse o pardal. Eu estava sentado no ramo de um pinheiro quando começou a nevar. Era tudo tão lindo e, como eu não tinha nada melhor a fazer, passei a contar os flocos de neve que se acumulavam nos galhos e agulhas do meu ramo. Contei exatamente 3 741 952. Quando o floco número 3 741 953 pousou sobre o ramo - nada de nada como você diz - o ramo se quebrou.

Dito isso, o pardal bateu asas em retirada. A pomba, porém, mergulhada em profunda reflexão, concluiu:
- Talvez esteja faltando uma única voz para trazer paz ao mundo.
No dia-a-dia, o caminho é desenvolver a coragem e a nobreza dentro de nós, como você pode ler nos exemplos a seguir.

Diálogo familiar
"Vários estudos mostram que a principal causa da violência está no descaso com que a sociedade considera a família, principalmente a relação pais-filhos", diz Roberto Ziemer, psicólogo. As relações familiares foram afetadas até pelo descompasso entre a consolidação de direitos - como a liberdade e o tratamento igualitário entre os membros da família - e a fixação de responsabilidades. "Toda convivência implica um pacto constituído de co-responsabilidades que, quando não se cumprem, inviabilizam a convivência", lembra Lia Diskin. Como, porém, evitar ou abrandar os conflitos entre cônjuges, pais e filhos, irmãos? Com diálogo, negociação e exemplo. Através da palavra tomamos conhecimento do que se passa no coração e na mente do outro e o exemplo é o que conta na orientação dos filhos para a cultura de paz. São os gestos, as atitudes e os modos de fazer e dizer que atingem diretamente os mais jovens.

Viva a cooperação
O economista Vítor Caruso Jr. conheceu de perto os efeitos deletérios da competição quando encarada como único valor. Formado pela Universidade de São Paulo, ele atuou como executivo de grandes empresas em que, segundo diz, lhe foi ensinado que o certo é fazer mais com menos sem se importar com ninguém. Um dia, o câncer o afastou dessa rotina e o levou a descobrir, na prática iogue, o valor do ahimsa. "Eu havia desperdiçado 15 anos de minha vida", afirma. Hoje, Vítor mora em Curitiba, onde mantém o centro de yoga Ciência Meditativa e dá palestras defendendo um ambiente de trabalho cooperativo e pacífico. A alternativa à competição predatória é a competência para gerar sinergia, promovendo o sucesso de todos por meio da interação de habilidades e capacidades pessoais. Nesse caso, supera-se o medo de inferioridade que permeia a competição e gera agressividade.

Não aos impulsos
Muitos atos de violência são cometidos por impulso, às vezes no calor de uma discussão trivial, num bar, numa festa ou durante uma desavença no trânsito. Somos dominados pela pulsão egóica e a raiva explode descontrolada. O que fazer? A regra é não responder imediatamente a uma situação ou provocação. Um bom exercício é observar que essa raiva que vem de outro não faz parte de você. Isso permite separar o que está "acontecendo lá fora" do que está dentro de nós, facilitando a percepção de que temos escolha e podemos transformar nossas emoções. Praticantes de meditação, afirma Ziemer, se beneficiam nessas ocasiões do hábito de observar os próprios pensamentos e sentimentos, rompendo antigos condicionamentos.

Paz interior
Nem sempre percebemos, mas é comum nos autoferirmos involuntariamente, seja desrespeitando nossos limites físicos ou psicológicos seja por causa da inflexibilidade que impede que nos perdoemos por nossas falhas. Em casos extremos, isso conduz à dependência química, à depressão crônica ou ao suicídio, portas de fuga reforçadas por uma cultura utilitária na qual os indivíduos se tornam objetos descartáveis. O ahimsa, nesse caso, passa pelo autoconhecimento, a aceitação de que somos criaturas inacabadas e a compreensão de que é impossível satisfazer todas as expectativas das pessoas ao nosso respeito (inclusive as nossas). "Isso atenua o despotismo do perfeccionismo e igualmente nos afasta da auto-indulgência", afirma Lia.

Percebendo o todo
A prática da não-violência requer disposição para ouvir, partilhar, ter paciência e reconhecer a bondade intrínseca até no inimigo. "Ahimsa é o valor mais próximo do exercício pleno da compaixão", diz Maria Luisa Nogueira, professora de yoga da Escola Nataraja, em São Paulo. "Quando olhamos as pessoas não como ‘o outro’, mas como partes de um todo no qual estamos incluídos, o limite entre nós e elas se torna muito difuso. Então, percebemos que fazer o mal a elas é fazer o mal a nós mesmos." Luisa, porém, adverte: isso não é fácil. Ela escolheu o tema como objeto de estudo justamente por não se achar apta ao ahimsa por palavras e pensamentos, estágios em que o próprio Gandhi dizia encontrar dificuldades. Meses depois da pesquisa, Luisa ainda se surpreende com explosões internas de raiva, mas conseguiu abrandar seus impulsos. Como todo praticante do ahimsa, ela sabe que é a atenção às pequenas ações, uma após a outra, que conduz à paz.

PARA SABER MAIS:

Minha vida e minhas experiências com a verdade,  Mohandas K. Gandhi, Editora Palas Athena
Gandhi – poder, parceria e resistência, Ravindra Varma, Editora Palas Athena
Meditando a vida, Padma Samten, Editora Peirópolis
A arte da felicidade, Dalai Lama e Howard C. Cutler, Editora Martins Fontes

Na Internet

www.yogachicago.com/may03/peace.html
www.unicrio.org.br/textos/dialogo/jose_hermogenes_de_andrade.htm

 

Que achou da reportagem acima? Tem algo a dizer ao autor? 
Envie agora sua mensagem (cite o título da matéria) para o jornalista Jomar Morais:

jmorais@abril.com.br


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