Como
imaginar que pequenas atitudes pessoais e anônimas possam
ter algum efeito sobre a violência superlativa dos seqüestros,
dos homicídios a sangue frio, das guerras e confrontos de
todo tipo que infernizam nosso dia-a-dia? Pense, por
exemplo, em Mohandas Karamchand Gandhi, o indiano que
conduziu seu país à independência sem ferir um só
funcionário do Império Britânico. Ou em Martin Luther
King Jr., o pastor batista que liderou o desmonte da
desigualdade formal dos direitos civis de brancos e negros
nos Estados Unidos propagando o sonho de justiça e paz.
Ambos começaram se esforçando por ser, eles próprios, o
espelho da mudança que propunham para os outros e, com
enorme paciência, souberam atrair e aglutinar compatriotas
em torno de ideais que se tornariam irresistíveis.
Gandhi
e Luther King tinham um traço em comum: acreditavam que a
violência dos homens e dos aparelhos estatais só pode ser
vencida se a elas se opuser uma atitude firme de não-violência
capaz de romper a cadeia da brutalidade. Ou seja: ambos
praticavam o ahimsa, princípio sagrado segundo o qual não
se deve causar dor a nenhum ser vivo, seja por atos seja por
palavras ou pensamentos. Hoje, cada vez mais gente admite
que esse é o único caminho para conter a violência nas
sociedades modernas. Um mecanismo que, usado individual e
coletivamente, pode quebrar os ramos de animosidades que
desestabilizam as relações na família, no trabalho, nas
ruas e entre as nações.
Ahimsa
é uma palavra do sânscrito que expressa o desejo de não
causar danos. É a negação do verbo himsa, que significa
machucar, ferir. Nesse sentido, trata-se da lei do bom senso
anunciada como regra áurea por todas as tradições
espirituais. O Evangelho cristão ensina: ame o próximo
como a si mesmo. A Bhagavad Gita hindu convida: não faça
aos outros aquilo que, se fosse feito a você, causaria
sofrimento. O Corão islâmico reforça: ninguém pode ser
um crente enquanto não amar seu irmão como a si mesmo.
Apesar disso, ahimsa é um valor que exige compreensão e
interpretação num mundo onde tudo é relativo.
Gandhi
escreveu em sua autobiografia: "Ahimsa é um princípio
amplo. Somos mortais indefesos, apanhados na conflagração
do himsa". O simples fato de estar vivo - comer, beber,
movimentar-se - envolve necessariamente algum tipo de dano a
outro, ainda que imperceptível. Segundo Gandhi, o esforço
de autocontrole e o sentimento da compaixão (para evitar,
tanto quanto possível, a destruição da menor das
criaturas) caracterizam a aplicação real do princípio
(leia mais no quadro Para domar a raiva). De outro
lado, o ahimsa não deve ser visto como um escudo para a
covardia. Trata-se de uma poderosa reação de amor que
dobra o agressor, paralisando-o pela conscientização de
seu ato insano. É uma forma sutil e persistente de luta que
não compactua, por omissão, com a injustiça e a força
bruta.
Olhar
para dentro
Basta um rápido olhar sobre os efeitos psicobiológicos da
raiva - a força motriz da violência -, para que nos convençamos
da necessidade do ahimsa. A
dificuldade está em adotá-lo como regra de conduta e em
praticá-lo corretamente. "Nossos valores apontam na
direção da notoriedade, da visibilidade, do consumo e do
poder", diz Lia Diskin, diretora da Associação Palas
Athena, em São Paulo. "E os mecanismos mais imediatos
para atingir essas metas são a competição, a sedução e
o individualismo, elementos que sempre geram algum tipo de
violência, física ou simbólica."
Assim,
o primeiro passo para o exercício do ahimsa é trabalhar o
próprio ego, fonte da opressão que impomos a nós mesmos,
isolando-nos dos outros. "Se olharmos para dentro será
mais fácil perceber e compreender as causas da
agressividade e da inquietação", diz Ravindra Varma,
presidente da Gandhi Peace Foundation. A prática do ahimsa
se consolida no pensamento, origem de toda palavra e ação,
e se dissemina por meio de um esforço paciente de educação,
apoiado mais na vivência do que nos argumentos. É algo que
nasce de pequenas ações individuais e cresce com a soma
dessas ações, como na parábola a seguir.
Numa
tarde de inverno europeu, um pardal encontra uma pomba
silvestre e pergunta:
- Você sabe me dizer quanto pesa um floco de neve?
- Nada de nada - respondeu a ave.
- Nesse caso, vou lhe contar uma história maravilhosa -
disse o pardal. Eu estava sentado no ramo de um pinheiro
quando começou a nevar. Era tudo tão lindo e, como eu não
tinha nada melhor a fazer, passei a contar os flocos de neve
que se acumulavam nos galhos e agulhas do meu ramo. Contei
exatamente 3 741 952. Quando o floco número 3 741 953
pousou sobre o ramo - nada de nada como você diz - o ramo
se quebrou.
Dito
isso, o pardal bateu asas em retirada. A pomba, porém,
mergulhada em profunda reflexão, concluiu:
- Talvez esteja faltando uma única voz para trazer paz ao
mundo.
No dia-a-dia, o caminho é desenvolver a coragem e a nobreza
dentro de nós, como você pode ler nos exemplos a seguir.
Diálogo
familiar
"Vários estudos mostram que a principal causa da violência
está no descaso com que a sociedade considera a família,
principalmente a relação pais-filhos", diz Roberto
Ziemer, psicólogo. As relações familiares foram afetadas
até pelo descompasso entre a consolidação de direitos -
como a liberdade e o tratamento igualitário entre os
membros da família - e a fixação de responsabilidades.
"Toda convivência implica um pacto constituído de
co-responsabilidades que, quando não se cumprem,
inviabilizam a convivência", lembra Lia Diskin. Como,
porém, evitar ou abrandar os conflitos entre cônjuges,
pais e filhos, irmãos? Com diálogo, negociação e
exemplo. Através da palavra tomamos conhecimento do que se
passa no coração e na mente do outro e o exemplo é o que
conta na orientação dos filhos para a cultura de paz. São
os gestos, as atitudes e os modos de fazer e dizer que
atingem diretamente os mais jovens.
Viva
a cooperação
O economista Vítor Caruso Jr. conheceu de perto os efeitos
deletérios da competição quando encarada como único
valor. Formado pela Universidade de São Paulo, ele atuou
como executivo de grandes empresas em que, segundo diz, lhe
foi ensinado que o certo é fazer mais com menos sem se
importar com ninguém. Um dia, o câncer o afastou dessa
rotina e o levou a descobrir, na prática iogue, o valor do
ahimsa. "Eu havia desperdiçado 15 anos de minha
vida", afirma. Hoje, Vítor mora em Curitiba, onde mantém
o centro de yoga Ciência Meditativa e dá palestras
defendendo um ambiente de trabalho cooperativo e pacífico.
A alternativa à competição predatória é a competência
para gerar sinergia, promovendo o sucesso de todos por meio
da interação de habilidades e capacidades pessoais. Nesse
caso, supera-se o medo de inferioridade que permeia a
competição e gera agressividade.
Não
aos impulsos
Muitos atos de violência são cometidos por impulso, às
vezes no calor de uma discussão trivial, num bar, numa
festa ou durante uma desavença no trânsito. Somos
dominados pela pulsão egóica e a raiva explode
descontrolada. O que fazer? A regra é não responder
imediatamente a uma situação ou provocação. Um bom exercício
é observar que essa raiva que vem de outro não faz parte
de você. Isso permite separar o que está "acontecendo
lá fora" do que está dentro de nós, facilitando a
percepção de que temos escolha e podemos transformar
nossas emoções. Praticantes de meditação, afirma Ziemer,
se beneficiam nessas ocasiões do hábito de observar os próprios
pensamentos e sentimentos, rompendo antigos
condicionamentos.
Paz
interior
Nem sempre percebemos, mas é comum nos autoferirmos
involuntariamente, seja desrespeitando nossos limites físicos
ou psicológicos seja por causa da inflexibilidade que
impede que nos perdoemos por nossas falhas. Em casos
extremos, isso conduz à dependência química, à depressão
crônica ou ao suicídio, portas de fuga reforçadas por uma
cultura utilitária na qual os indivíduos se tornam objetos
descartáveis. O ahimsa, nesse caso, passa pelo
autoconhecimento, a aceitação de que somos criaturas
inacabadas e a compreensão de que é impossível satisfazer
todas as expectativas das pessoas ao nosso respeito
(inclusive as nossas). "Isso atenua o despotismo do
perfeccionismo e igualmente nos afasta da auto-indulgência",
afirma Lia.
Percebendo
o todo
A prática da não-violência requer disposição para
ouvir, partilhar, ter paciência e reconhecer a bondade intrínseca
até no inimigo. "Ahimsa é o valor mais próximo do
exercício pleno da compaixão", diz Maria Luisa
Nogueira, professora de yoga da Escola Nataraja, em São
Paulo. "Quando olhamos as pessoas não como ‘o
outro’, mas como partes de um todo no qual estamos incluídos,
o limite entre nós e elas se torna muito difuso. Então,
percebemos que fazer o mal a elas é fazer o mal a nós
mesmos." Luisa, porém, adverte: isso não é fácil.
Ela escolheu o tema como objeto de estudo justamente por não
se achar apta ao ahimsa por palavras e pensamentos, estágios
em que o próprio Gandhi dizia encontrar dificuldades. Meses
depois da pesquisa, Luisa ainda se surpreende com explosões
internas de raiva, mas conseguiu abrandar seus impulsos.
Como todo praticante do ahimsa, ela sabe que é a atenção
às pequenas ações, uma após a outra, que conduz à paz.
PARA SABER MAIS:
Minha
vida e minhas experiências com a verdade, Mohandas K. Gandhi, Editora Palas Athena
Gandhi
– poder, parceria e resistência,
Ravindra Varma, Editora Palas Athena
Meditando
a vida,
Padma Samten, Editora Peirópolis
A arte da
felicidade,
Dalai Lama e Howard C. Cutler, Editora Martins Fontes
Na
Internet
www.yogachicago.com/may03/peace.html
www.unicrio.org.br/textos/dialogo/jose_hermogenes_de_andrade.htm